Thursday, January 16, 2014

1980 - Record entrega o final de Água Viva

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 30/7/1980

NAS LIVRARIAS, UM ROMANCE CHAMADO ''ÁGUA VIVA''
Como Poirot, o delegado Siqueira reúne os suspeitos na sala de som e diz de que maneira Kleber matou Fragonard

De que Kleber era o assassino de Miguel todo mundo já suspeitava. Que Nelson e Lígia iam mesmo acabar juntos não era surpresa para ninguém. Que Janete não trocaria Marcos pela Alemanha era mais do que óbvio. Na verdade, todos os finais felizes de Água Viva, inclusive o de Edyr com Márcia e o de Marciano com Irene, estavam, senão na cabeça, pelo menos na torcida dos milhões de telespectadores que há seis meses vêm acompanhando a novela de Gilberto Braga e Manoel Carlos.

Mas poucos sabem como tudo isso realmente acontece. Como, afinal, o crime de Kleber será descoberto. Ou como os pares amorosos - em torno dos quais os autores procuraram criar conflitos e separações, de modo a deixar o telespectador em dúvida - finalmente serão reunidos.

A pouco mais de uma semana do último capítulo da novela, a Editora Record lança um livro que conta em detalhes tudo o que vai acontecer. Trata-se de uma versão romanceada do roteiro de Gilberto Braga e Manuel Carlos, escrita pela jornalista Leonor Bassère. Segundo informam os editores, Leonor transformou 3 mil 200 laudas redigidas pelos dois autores num romance de 388 páginas, O telespectador que não resistir à curiosidade e quiser saber já o que só será revelado no último capítulo, sábado, 9 de agosto, é só comprar o livro,

Por exemplo: como conseguirá o delegado Siqueira (Ênio Santos) desvendar o mistério que cerca a morte de Miguel Fragonard (Raul Cortez)? Todos sabem que a chave do mistério está na carta recebida pelo morto. Mas onde estará a carta? Uma pista é dada num diálogo entre Heitor (Carlos Eduardo Dolabella) e Celeste (Arlette Salles). Segundo Heitor, a carta só poderia ser descoberta a partir do "método do fedor".

Método do fedor? - estranhou Celeste.

Coisas da minha avó - diz Heitor. - Um sistema que ela inventou de procurar e achar sempre. Um dia ela construiu uma casa toda bacana lá em Petrópolis. Foram inaugurar e deram com fedor. Um cheiro horrível que aparecia de repente e estragava tudo, tirava o prazer. Só faltou botarem a casa abaixo com medo de que algum o operário tivesse sido emparedado vivo. Aí minha avó sentou a turma na sala, incluindo crianças e criados, e foi perguntado o que cada um sabia do fedor. E ela escrevendo. Quando acabou a lista, sem levantar da cadeira, sabia de onde vinha.

- E de onde vinha? - perguntou Celeste.

- Dois bocais de plásticos, de má qualidade, das lâmpadas, é claro. Casa fechada, apagada, mofava. Casa cheia, acesa, mofo queimava, fedia. Simples, não é? Vamos aplicar o método. Vá dizendo tudo o que se passou naquele dia.

E Celeste foi recordando, detalhe por detalhe, tudo o que aconteceu no dia em que Miguel foi morto: a chegada dele para operar Margarida Junqueira, sua ida até a sala, o cafezinho, Jorge mandando entregar os cassetes, Celeste conferindo, o chamado para ver Dona Flora no quarto 315, Miguel mandando Marcos (Fábio Júnior) examiná-la. Celeste recorda ter pedido a Miguel para ver a correspondência, principalmente uma carta, marcada 'particular'. Miguel leu-a e ficou pálido, os oito clientes na sala de espera que ele mandou dispensar, sua saída da sala "que nem um doido". E Celeste diz não se lembrar de nenhum outro detalhe que pudesse ajudar.

De madrugada, Heitor volta, toca a campainha e Mary (Maria Helena Pader) atende. Heitor está excitado. Celeste levanta, de pegnoir, o rosto inchado de sono. E Heitor diz:

- Eu sei onde está a carta.

Seguindo o "método do fedor", Heitor conclui que a carta só pode estar na caixa de vídeo-cassete.

Ele guardou ali para levar pra casa. Não pensou mais em vídeo-tape, não teve tempo.

Os três foram correndo acordar Lígia (Betty Faria), a casa inteira. A caixa foi encontrada. A carta realmente estava lá. E telefonaram imediatamente para o delegado Siqueira.

Mas as coisas não serão tão simples. Antes que o verdadeiro assassino seja descoberto e por fim revelado ao telespectador, algumas pistas falsas vão ser acrescentadas à história, fazendo com que se suspeite, por exemplo, de Marcos. Uma suspeita que a própria Lourdes (Beatriz Segall) levanta, dizendo-se decidida a entregá-lo a polícia. Até que há a grande festa de lançamento do livro de Bruno (Kadu Moliterno ), uma festa que os autores definem como "de filme de Hollywood". E lá, nos jardins floridos da casa de Kleber (José Lewgoy), suspeitos e não suspeitos reunidos, o mistério começa a se desfazer.

No meio da festa, chega o delegado Siqueira acompanhado de dois policiais. Ele mostra a carta a Edyr (Cláudio Cavalcanti), uma carta escrita com recortes de jornais: "Pára de procurar esse detetive. Já mandei matar um em Miami, é fácil mandar matar outro aqui" - diz o trecho lido por Miguel.

Siqueira conta que o detalhe revelador está no papel, Hammer Bost, de fabricação alemã, "de primeira qualidade, finíssimo. Só uma pessoa de posses teria um papel desses em casa".

O delegado propõe uma conversa "em algum lugar sossegado", entre ele, Edyr, os dois policiais, Kleber, Nélson (Reginaldo Faria). Lígia, Heitor e Celeste. O próprio Edyr se incumbe de reunir todos na sala de som, O delegado toma a palavra e diz:

- A carta esclarece definitivamente o porquê da contratação do detetive Mílton Sarpo: dirimir as dúvidas sobre o assassinato do Técio, em Miami. E mais: sobre a própria atuação do dito Técio no caso da falência fraudulenta da Crismotor. Hão de convir que essa história de Máfia nunca ficou bem esclarecida...

Siqueira vai desenvolvendo sua linha de raciocínio: o detetive contratado chegando perto da verdade, ameaçando o criminoso. Neste momento, Kleber levanta-se.

- O senhor está se sentindo mal, Dr Kleber? - pergunta o delegado.

Não, apenas preocupado. O Bruno deve estar sentindo a nossa ausência. Como não entendo de investigações criminais, acho que posso ser dispensado. A casa é minha e faço muito mais falta lá fora, supervisionando a festa.

Ao que Siqueira responde, em tom autoritário:

- Talvez a festa já tenha acabado para o senhor, Dr Kleber.

E o delegado o prende, sob a acusação de fraude, estelionato e assassinato de três pessoas.

Kleber tenta negar os crimes, Nélson salta da cadeira e atira-se sobre ele; os policiais o seguram. Mas Kleber acaba confessando tudo. Mais tarde, o assassino já algemado, o delegado irá explicar aos demais convidados da festa, à maneira de Hércules Poirot, tudo o que aconteceu: as suspeitas, as pistas, a teoria afinal confirmada:

- Fui um idiota, demorei tanto a ver o óbvio. Tinha todos os elementos, mas não conseguia juntá-los. Sabem por que? Por causa do mimetismo. O mimetismo agressivo de certos insetos. Como, por exemplo, determinada espécie de louva-a-deus, que mimetiza a formiga branca da qual se alimenta.

E explica que Kleber era "a imagem tão perfeita do burguês decadente, do milionário inconseqüente e inofensivo", que se tornara difícil perceber nele o criminoso frio e determinado. As explicações de Siqueira tomarão quase todo um capítulo, detalhadas, didáticas, falando do comportamento dos insetos e das guerras atômicas, de citações em grego e de costumes árabes. Tudo no melhor estilo de Agatha Christie.

Mas, para o telespectador, o principal mistério talvez não esteja no crime de Kleber e sim nos destinos que os autores vão dar aos casais. Em primeiro lugar, Nélson e Lígia. Os dois se reencontram na casa dela, onde ele fora buscar Maria Helena (Isabel Garcia). E discutem:

- Você nunca me amou -queixa-se Nélson.

- Amei! Amei, sim, desde o primeiro momento em que o vi. Seu desgraçado, disso você não pode me acusar. Amei muito. Amei mais do que a qualquer outro homem na minha vida e você sabe muito bem disso...

A cena termina num beijo. E os dois viverão felizes para sempre. O mesmo acontece com Marcos e Janete, está desistindo do curso na Alemanha para ficar com o filho de dona Lourdes, que acaba sozinha, sem ao menos o consolo de Alfredo, que se vai casar com a riquíssima Cláudia Villa Verde. Irene decide mesmo se casar com Marciano.

- Vilma, se quiser, que fique esperando Evaldo até morre...

Márcia fica grávida, motivo mais do que suficiente para que Edyr volte para ela:

- Essa é a hora da verdade, meu amor. Estou jogando tudo, estou jogando a minha vida porque sou alienada mesmo, mas sem você prefiro morrer. Se você me ama, podemos tentar...

- Há um final feliz também para Bruno e Sandra:

- Seu pai é uma pessoa que eu odeio - diz ela. - Você é outra pessoa. Uma pessoa que eu amo...

Mas feliz, mesmo, é o final para Stella (Tônia Carrero). Ela se recupera do choque sofrido com a prisão de Kleber. Passam-se os meses. E finalmente Stella vai transformar-se numa grande estrela do teatro. A cena final é dela, Max sentando na primeira fila da platéia, o público aplaudindo de pé.

O livro estará à venda nos próximos dias, custa Cr$ 580 e 10% do preço de capa serão divididos em partes iguais entre Leonor Bassère e os autores da novela. A TV Globo não terá qualquer participação. Informam os editores que - embora sendo mais ou menos esperado o desfecho de Água Viva - os 5 mil exemplares da primeira edição praticamente se esgotaram. Outros 5 mil já estão a caminho.

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