Thursday, January 16, 2014

1980 - Os atores de Água Viva

O Globo
Data de Publicação: 10/8/1980
Autor: Artur da Távola
MAIS DO QUE ÁGUA, UM ELENCO EM CARNE VIVA
Não se deve efetuar uma análise crítica de atores em função apenas dos solos, brilhantes ou dramáticos, mas também em relação a capacidade de levar adiante o cotidiano da telenovela, no qual a criação e a vivência profunda de um personagem passam a ser tão importantes quanto os solos de maior intensidade.

Há, também, o indispensável elenco de apoio. É um elenco sacrificado que merece estudo. Há, finalmente, um outro tipo de resultado, independente de qualidade de interpretação, ou de Criação. São os personagens que ficam na memória do público. Essa permanência não é razão direta da qualidade da criação ou da interpretação, isoladas. 10 uma eleição do outro polo da comunicação: o telespectador.

Levando em conta falta de tempo para ensaios e ritmo industrial de gravações, um esforço de sete meses assim Intensos é sempre respeitável e meritório: a difícil tarefa de transformar seres de ficção em seres em carne viva.

A BASE - Tão importante como a presença, ou os grandes solos isolados é algo nem sempre levado em conta nas críticas: a base, o dia a dia, o carregar o piano da telenovela. Cenas enormes, intensas, diárias, "quilômetros" de instantes no ar, tudo dentro de uma criação de personagem. Por isso é importante e de grande valor o trabalho de Betty Faria. Em vez de procurar o agrado do público e o m a "heroína" clássica, ela deu a densidade da mulher em luta por ascensão social e segurança amorosa. Idem, Reginaldo Faria, uma composição perfeita do cotidiano do seu personagem. Muito mais criação séria, enxuta, contida, do que brilhos isolados. Cláudio Cavalcanti também está nessa: um Edyr de impecável correção profissional, carregado da verdade do personagem diluída capítulo a capitulo. Fábio Júnior também entra nesta lista. Apesar de seus bons solos nas crises com a Janete e com a mãe-horror, foi no cotidiano duro de cenas e mais cenas que o seu trabalho se ampliou e cresceu. Mauro Mendonça, idem. O Evaldo foi base para o andamento da novela. Assim, a criação dele cresce de importância. Arlete Salles como a Celeste é outra atriz sem a qual o dia a dia da novela não caminha. Interlocutora perfeita, a atriz é versátil e atiladíssima . Carlos Eduardo Dollabela é outro ator importante para compor a base de uma novela por sua soltura em cena e a verossimilhança que dá aos personagens. Como ele, Tamara Taxmann, ótima como base. Dois outros atores de base, importantes na trama, não podem ser esquecidos: Ângela Leal a Suely e Francisco Dantas o Marciano, cujos desempenhos ajudaram a levar adiante as cenas pesadas, o curso da telenovela, o seu dia a dia. Tais atores, responsáveis pela base, realizaram um trabalho de alto talento para o qual, em menor ou maior escala segundo a participação de cada um, deve ser dado o destaque.

PRESENÇAS - Presença, sim presença. É uma forma de classificar: certas atuações que tanto se destacaram nos solos dramáticos como na carga intensa levada pelo ator ao personagem ainda que em momentos distantes dos grandes solos.

Desde logo como presenças marcantes as figuras femininas de Tônia Carrero e Beatriz Segall, em dois desempenhos formidáveis, dignos da melhor arte cênica em qualquer país do mundo. Ainda como presenças fortes e figura de José Lewgoy cujo Kleber sempre sublinhou a ação para despontar no final com um solo magnífico; de Raul Cortez num personagem sem grandes solos na telenovela mas carregando a figura de um ator sólido e poderoso. Tetê Medina apesar da breve passagem como presença forte foi outra realidade da telenovela. Igualmente a Jenete de Lucélia Santos, excitada, chata às vezes, certinha demais, magnífica criação ou, ao revés, a antipresença realizando um dos desempenhos maiores de "Água Viva''; a atriz Aracy Cardoso no papel apagado da mãe de Janete, desempenho de grande valor como presença artística pela capacidade de se anular em cena para engrandecer o personagem.

Glória Pires também ficará no tópico presença, pela carga interior revelada ao longo de toda a novela em tantas situações, assim como ficarão nesse tópico, ainda, as figuras de Heloísa Mafalda na simplória e comovente Tia Irene e Natália do Vale a grande e principal explosão artística do ano televisivo até agora.

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