Thursday, January 16, 2014

1980 - Miguel Fragonard assistindo pornô?

O Globo
Data de Publicação: 10/8/1980
Autor: Oscar Moreira
O QUE A TELEVISÃO NÃO MOSTROU: POUCAS INTIMIDADES
Gilberto Braga/ Leonor Basséres. ÁGUA VIVA. Novela. Editora Record. 388 pág. Cr$ 580.

Alguém pode imaginar o impoluto cirurgião-plástico Miguel Fragonard assistindo a filmes eróticos em sua sofisticada aparelhagem de videocassete? A resposta é afirmativa. Pelo menos foi assim que a escritora Leonor Bassères, autora da versão romanceada da telenovela "Água viva", imaginou os antecedentes da primeira noite de amor de Lígia e Miguel, dois dos mais famosos personagens criados na televisão desde 1980. E é sempre assim, tentando desvendar os pensamentos, os segredos e - na maioria das vezes - o comportamento na alcova dos 38 personagens da novela de Gilberto Braga, que a sra. Bassères tenta dar algum sabor de novidade a uma história que, por seis meses, esteve presente na sala de visitas de pelo menos 40 milhões de brasileiros. Em outras palavras: a versão em livro de "Água viva" pretendia revelar "tudo o que a TV não pôde mostrar".

A autora tinha algumas vantagens. Não precisava perder tempo, por exemplo, apresentando ao leitor a extensa galeria de personagens criada por Braga. Quem neste país consegue ser tão desinformado a ponto de não conhecer a divertida milionária Stella Fraga Simpson, a órfã desamparada Maria Helena ou a desajeitada ferromoça Suely Bandeira? Sobrava então para a adaptadora resumir, em 388 páginas, os 159 capítulos do divertido e emocionante folhetim moderno de Gilberto Braga. O resultado, porém, é frustrante. A proeza do novelista ao conseguir manter no vídeo seis meses de ação quase ininterrupta transforma-se, no livro, em pura monotonia. Restava apenas para a adaptadora explicitar as fantasias sexuais apenas insinuadas na televisão. Mas até aí o resultado é insatisfatório. Apesar de revelar que o elegante Miguel Fragonard era um insuspeitado fã das aventuras eróticas de Emmanuelle, Leonor Bassères é tão tímida e recatada quanto a "tia Irene", que Eloisa Mafalda consagrou na TV. Pois só de cabeças como a de tia Irene poderiam surgir textos como o que descreve o primeiro encontro entre os desinibidos Lígia Prado e Nelson Fragonard.

A cada página, Leonor Bassères consegue destruir a principal qualidade da obra de Gilberto Braga: o texto. Se na televisão, os diálogos eram sempre inteligentes, modernos e, surpreendentemente, naturais, o livro naufraga numa sucessão de lugares comuns de fazer corar qualquer autora do mais tradicional "romance feminino". "Calada a música, fica pairando no ar tênue nuvem de melancolia" - embora pareça um dos pensamentos registrados no livrinho de Marciano (outra criação genial de Braga) é apenas um exemplo do estilo da autora, capaz, ainda, de descrever um personagem como "afrodite de Boticelli renascida num terraço do século vinte", ou uma simples cama como "arena dos desejos". A sra. Bassères é do tempo em que se empregavam expressões como "mormente" ou "de somenos importância". Nunca seria personagem de "Água viva".

O livro só ganha força quando reproduz, na integra, os diálogos originais da televisão. E expõe, mais uma vez, o fato de que adaptações de filmes, séries de Tv e, agora, telenovelas, quase nunca resultam em bons livros. Esta versão romanceada não tem nem mesmo o ineditismo que Leonor Bassères vem reivindicando em entrevistas. No início da década de 60, a novelista Ivany Ribeiro - o Gilberto Braga da época - passou para o livro sua "A deusa vencida", sucesso que lançou Regina Duarte. Naquela ocasião, o livro também foi lançado uma semana antes do fim da novela e revelava para uma multidão de espectadores 'curiosos o autor das cartas anônimas que moviam a principal trama do enredo. Desta vez, Leonor Bassères não marcou tento nem com o suspense. Quem ainda não sabia que o dissimulado Cleber Fraga Simpson, vivido pelo sempre suspeito José Lewgoy, era o assassino de Miguel Fragonard?

Mesmo assim, "Água viva" só despertou algum interesse nas páginas finais, quando descreve a solução de alguns conflitos que ainda não haviam sido mostrados na televisão. Foi escrito para ter a vida exata de uma semana - o tempo em que a novela ficou no ar depois de seu lançamento. A partir de agora, é uma obra descartável.

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