Thursday, January 16, 2014

1980 - Água Viva apaga as luzes

O Globo
Data de Publicação: 3/8/1980

POR QUE 'ÁGUA VIVA' TERMINAR ASSIM?
Depoimento de Gilberto Braga, o autor

Para Gilberto Braga, "final de novela é festa, coisa muito pra cima, mensagens de esperança, Punições para as safadezas, recompensas às qualidades, mais ou menos como gostaria que acontecesse na própria vida". O amor é o grande vencedor da história. Lígia e Nelson, Janete e Marcos, Sandra e Bruno, Edyr e Márcia, Irene e Marciano, todos juntos e felizes. Kléber é preso. Stela se realiza no palco. Suely fica só, "mas numa boa". Lourdes também, "mas numa péssima". É o seu castigo. Gilberto sabe que a realidade nem sempre é assim, mas não se importa: "o público conviveu com essa gente toda por sete meses e eu não acharia justo fazer um final comprometido com o realismo e contrariando a expectativa popular. Só espero ter acertado, em termos de sacar o que o público queria ver". Sua maior dificuldade agora: "conseguir viver sem todas essas pessoas que trabalharam comigo. Vou ficar morrendo de saudades".

- Por que a Lígia, que rompeu tanto com os padrões clássicos da heroína, termina bem, feliz, com o homem que sempre quis?

- Explico na novela, citando Molière. Penúltimo ou último capítulo. O que eu quero dar de toque, prefiro dar no decorrer da novela. No final, acho que tem que ser muita festa, fantasia, esperanças, essas coisas. O público não suporta final pra baixo e eu quero agradar.

- É verdade que alguns personagens - como Miguel, Stela, Lígia e Lourdes - foram baseados em figuras conhecidas da nossa sociedade ou personagens de filmes e peças famosas?

- Em parte sim. Em cada personagem há elementos de três, quatro pessoas que eu conheço, muito de mim mesmo e, às vezes, uma boa dose de personagens de ficção. A Lourdes, por exemplo, é a mistura de mulheres amigas, o lado Lourdes Mesquita do próprio Gilberto e da madras. ta da Branca de Neve.

- O amor de Irene e Marciano teve a intenção de servir de alerta à nossa sociedade, que normalmente marginaliza os velhos?

- Teve, só que ficou num nível muito superficial. Ficou gostoso, atores ótimos, mas eu gostaria muito de voltar ao assunto com mais densidade e fazer um dia, em novela, pelo menos um terço da coisa bonita que o Cacá Diegues fez no cinema, em "Chuvas de verão".

- A Janete, tão racional, não teria extrapolado um pouco a realidade, tomando-se uma chata?

- Ouço muita gente dizer isso, então deve ser verdade. Pessoalmente, confesso que nunca escrevi achando-a chata. Ela defendia sempre valores em que eu acredito. Claro que uma personagem que questiona e briga é menos agradável de se ver do que, por exemplo, a Stela.

- Qual o personagem que você mais gostou de criar e qual o que não gostou, ou gostou menos? E com qual deles você mais se identificou?

- Gostei mais de Stela, Lourdes e Marcos. Tive uma certa dificuldade com o Evaldo, e o Manoel Carlos ajudou muito, porque ele entrava com mais facilidade na linha cômica que o Mauro Mendonça deu ao papel. Identificação minha existe praticamente com todos os personagens, desde o Marcos até a Lourdes. Tirando os secundários, todos eles têm uma área comum comigo.

- Você acha que as mulheres brasileiras são mais Vilma, a dona de casa submissa; Celeste, reprimida e omissa; Ligia, interesseira; ou Suely, a ex-suburbana boazinha?

- Vai parecer que estou fugindo da pergunta, mas com toda a honestidade, acho que tem de tudo. Parece-me justamente uma das maiores qualidades da novela o coquetel de mulheres brasileiras que eu consegui juntar. Não esquecendo a precocemente falecida Luci, eu tenho impressão que não ficou faltando nenhum tipo de mulher brasileira da classe média e alta, da cidade grande, claro, em "Água viva".

- Sandra e Janete são representantes reais da nossa juventude?

- Acho que sim. Da juventude mais saudável, que é a que eu curto.

- Por que o Kléber foi o assassino? Não ficou um pouco redundante, ou pouco criativo?

- Não sei. Bolei a historinha para isso. Acho imaginativo e o que atrapalhou muito foi isso ser tão divulgado, antes mesmo de eu ter começado a preparar a morte de Miguel. Na minha cabeça, seria uma surpresa. Arredondaria a novela. Mas corno em história e imaginação não sou mesmo muito forte, vai ver, foi uma bobagem.

- Quando você começou a novela, imaginava que ela terminaria assim? Houve muitas mudanças?

- Não. A não ser no caso do crime e a relação entre Nelson e Miguel, que havia bolado vagamente antes de começar. O resto fui criando aos poucos, com ajuda do Maneco, ouvindo amigos, a própria Leonor Bassères, que adaptou o romance. Aí é que está o gostoso da obra aberta. Não vale a pena prever coisas demais. Eu nunca tinha topado tanto a obra aberta quanto em "Água viva".

- Jader e Marcos. Como você vê esses dois exemplos de segmentos da Juventude: diferença pura e simplesmente de classe social?

- Olha, eu não me sinto à vontade para falar do Jader. Foi um personagem que não resultou, só existiu porque o Jorge Fernando é um ótimo ator. Foi para lá, foi para cá, era desses personagens de novela que variam ao sabor da trama, uma falha. O Marcos, como já disse outras vezes, é a minha idealização de ser humano. Tudo que eu acho que é qualidade eu coloquei no Marcos. E ninguém melhor que o Fábio Júnior para fazer um personagem assim.

- Foi por isso que o Jader não cresceu, não teve uma dimensão maior dentro da novela?

- Havia personagens demais e eu não podia desenvolver todos. Erro de estrutura. Muita gente. Se eu desenvolvesse todos, não daria para continuar. Houve um momento, lá pelo capítulo 80, em que eu tinha vontade de dividir os personagens em três grupos e fazer três novelas diferentes. Jader, Bete, Clarice, Mary, Celeste, Heitor, Selma e tantos outros personagens não desenvolvidos. Não dava. Vou tentar melhorar. O mais frustrante para mim mesmo que escrevia, é que os atores são todos muito bons.

- Gente rica se diverte tanto assim como na novela? Por que foram tão raras as festas dos pobres ou da classe média?

- Alguns ricos vão a muitas festas sim. Nem todos. O Miguel e Luci, por exemplo, iam a poucas. Festa de pobre eu já escrevi muito em "Dona Xepa". Nessa novela não estava com vontade, na próxima talvez eu faça de novo, aquelas mulheres chegando e trocando de sapatos para ficar mais à vontade... Também gosto muito. Festa em novela é ótimo, junta os personagens, a gente bota dois para bater boca num quarto e os outros ficam agitando na sala, gosto demais.

- Qual a sensação que você sente quando acaba de matar um personagem e como você reage escrevendo essas cenas?

- Muito mal. Morte é um problema muito pouco resolvido na minha cabeça. Tônia Carrero, por exemplo, foi testemunha. No dia em que eu escrevi a morte de Luci, fui a um jantar em homenagem a ela na casa do Ivo Pitanguy. Estava tão tenso que me deu pânico e eu não tinha coragem de voltar sozinho. Pedi à Florinda Bolkan para vir seguindo o meu carro. Miguel eu matei de madrugada. Escrevi a cena em que o Edyr ouve o tiro. Parei para fumar um cigarro, tentar relaxar, cismei que ouvi um tiro perto de casa, acho que foi tiro mesmo, fui para a janela, uma transação muito angustiante. Até a morte do Sérgio, que eu fiz em elipse, me tocou pra burro.

- Então por que tanta morte?

- Eu preferia que não existisse, gostaria que fôssemos todos imortais. Mas enquanto eu ia matando personagens de "Água viva", na vida real, durante sete meses, eu juro que morreram mais pessoas queridas minhas do que na novela.

- Quais teriam sido as mensagens explícitas e implícitas de "Água viva"?

- E coisa demais para eu poder relacionar, porque é tudo o que está na minha cabeça. Outro dia, aqui no GLOBO, o Artur da Távola publicou uma relação bacana, enviada por um leitor inteligente. Só não concordei com uma afirmativa: que Paris seria o centro cultural do mundo. Eu acho que, no momento, quem está com a bola toda é Nova York mesmo. Aliás, disse na novela: ''Firenze dos quatrocentos". Era uma fala do Kléber, que por ser assassino não deixa de ser filho de Deus e, eventualmente, porta-voz do autor.

- gora que a novela chega ao final, qual o resultado na sua balança particular: vencem os saldos positivos ou negativos?

- Vencem os positivos. Acho que estou aprendendo, foi legal escrever, continuo na profissão e me parece que tenho chance de melhorar.

- A interpretação da Betty Faria teve alguma relação com as mudanças da Lígia?

- O ator sempre influencia. Mas a Lígia que não estava agradando era a que eu escrevia, porque a Betty foi um brilho só, de ponta a ponta. Vou morrer de saudades da sua voz, da sua cara, acho uma mulher fascinante.

- Você não acha que os problemas de Maria Helena durante a novela - ameaça de sair do orfanato, morre Lucy, vai para casa de Márcia, participa dos problemas dos pais adotivos, depois encontra o verdadeiro pai - seriam suficientes para que ela estivesse agora nas mãos de, no mínimo, uma equipe de psicólogos, ou ela é uma garota maravilha?

- Garota maravilha ou personagem mal escrita, como quiserem. Claro que não foi uma personagem que eu tenha criado direito. Uma bobagem. Se eu só tivesse escrito Maria Helena, estaria morrendo de vergonha. Não ia nem esperar o final da novela no Brasil, ia fugir. Felizmente, havia outras personagens mais próximas do real.

- Dos romances, qual o preferido?

- Acho que o de Marcos e Janete, embora eu tenha cometido um erro de estrutura. A história deles terminou lá pelo capítulo 40. Quando se encontraram, já eram personagens resolvidos demais, como pessoas. O Marcos, principalmente, é muito a minha idealização de pessoa legal. Acho que ficou redundante: só de "Romeu e Julieta" na base de mais de cem capítulos, não dá!

- Qual a sua explicação para o sucesso de Raul Cortez junto ao público feminino? Você esperava isso quando ele foi convidado?

- Esperava. Se não tivesse feito as mulheres gamarem por ele, eu ia ficar muito frustrado. Puxa, um ator bonito, charmoso, num personagem praticamente sem defeitos, humano, boa praça, só podiam gamar mesmo.

- Stela e Lourdes, duas mães solitárias. Por que?

- Não acho tanta solidão assim não. Na vida eu vejo muito mais. A relação da Stela com o filho é linda. A da Lourdes não poderia ser, dada a carga de doença dessa mulher tão fascinante. Mas, para Lourdes Mesquita, até que eu acho bem tratada pelos filhos. A Márcia tem carinho até o final. E o Marcos só rompeu quando não dava mais mesmo. Acusam-me muito de mostrar coisas erra as. Acontece que coisas certas e muito equilíbrio não dão história. Eu mostrei uma família bacana, equilibrada, que era Miguel, Lucy e Sandra, no início. Mas, só pude fazer isso porque Ia desmoronar tudo com a morte da Lucy no capítulo 22. Tenho certeza que com mais 10 capítulos no ar, iam começar a achar a Lucy urna chata, porque gente de cuca boa, sem problemas, repito, não dá novela.

- Por que praticamente todos os homens - como o Evaldo, Nélson, Edyr e Alfredo - foram mais frágeis do que as mulheres?

- - Não sei. E uma limitação minha como escritor, que eu venho tentando superar. Mas acho, por exemplo, que, em comparação a "Dancin'Days", o desequilíbrio já não foi tão grande. Quem sabe um dia eu não chego lá?

- A solidão foi o fio condutor de quase todos os pergonagens. É essa a realidade que você vê na sociedade contemporânea?

- Não sei responder isso a nível racional, assim. Escrevi o que eu senti. Dizer acho, não acho, só com mais uns 10 anos de análise e vivência. Eu sou muito jovem para ter visão clara e global das coisas.

- Por que a Beatriz Segall e a Tônia Carrero trocaram de personagens no início da novela?

- Porque tinham cada urna vontade de fazer a personagem da outra. Pediram para trocar e nós, as pessoas envolvidas, achamos que seria uma boa. E foi uma ótima, não foi?

- Por que a escalação não foi assim desde o início?

- Porque eu escrevi a Stela pensando na Segall. E a Tônia entrou para o elenco depois. Lourdes foi a personagem mais difícil na hora da escalação: nós tínhamos a Segall ali e ninguém pensou nela. E a história do óbvio ululante do Nelson Rodrigues.

- Havia intenção de mostrar através do Edyr o problema do professor? Caso positivo, por que aos poucos lago foi desaparecendo?

- O Edyr, representante de uma classe, eu acho que entra na razão direta da participação do Maneco. Mas, nos capítulos finais eu retomei um pouco isso e até deu cenas que eu acho interessantes. Edyr e Márcia foram muito escritos pelo Maneco, os seus queridinhos mesmo, eu acho. Assim como a minha queridinha era a Stela, que eu não queria nunca que o Maneco escrevesse, tinha ciúmes. Nós rolamos de rir com essas coisas, os dois, mas pintaram mesmo na divisão de trabalho, tinham que pintar.

- O dinheiro foi a mola mestra em "Água viva". Você dá tanta importância assim ao dinheiro?

- Claro que não, eu estou até pensando em fazer voto de pobreza. Mas eu sempre tive vontade de escrever uma novela assim, inteiramente de ficção, passada num mundo em que as pessoas fossem superligadas em dinheiro.

- E agora? Quais não seus planos?

- Vou para Nova York. Lá, pretendo descansar e me divertir muito. Mas também sei que vou ficar morrendo de saudades de todos os que comigo fizeram o sucesso de "Água viva".

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