Saturday, January 4, 2014

1975 - Momentos Derradeiros de O Rebu

O Globo
Data de Publicação: 7/4/1975
Autor: Artur da Távola
COMEÇO DE FIM DE PAPO

Semana final de "O Rebu". O leitor que se prepare pois lá vai artigo em série. Se deixar de ler algum, não faz mal. Esta coluna é como o Cineac: aqui também o espetáculo (mau ou bom é outro papo) começa quando você chega. As crônicas vão em série mas cada uma encerra um assunto.

Comecemos pelo mais difícil: a obra e o autor. O universo ficcional de Bráulio é bem conhecido: seres amargos sem muitas soluções existenciais; pessoas embaraçadas em conflitos típicos de sua classe social e comandadas pela ambição; multa ânsia de amor sobretudo nos já comprometidos formalmente (mulheres desesperadas de abandono e tédio conjugal); homens indiferentes; busca acentuada de afeto e prazer; receio e fuga dos verdadeiros enfrentamentos existenciais.

Em "O Rebu'' tudo isso voltou, com algumas diferenças, porém. Talvez até não querendo conscientemente (ou querendo, sei lá pois não estou na cuca do autor), Bráulio, no terço final da obra, após a morte de Sílvia, faz aqueles personagens se humanizarem e começarem a encontrar dimensões e caminhos. Haverá ai, apesar da humanização que os redime, uma volta da amargura do autor? Será que só a morte de alguém é capaz de gerar a consciência? Observe-se que também o Laio a isso várias vezes se refere quando fala do revólver que serviu para o suicídio de seu avô.

Os personagens (salvo um ou outro incurável como o Kiko) entenderam-se a si mesmos ao fim da novela. Um começo de esperança se insinua entre eles e sua vida, seu ser e sua "persona". Ora isso revela um Bráulio também mais carregado de esperança.

A novela tem seu lado (eu não estou dizendo que a novela é sectária, Digo que tem seu lado) sectário. Problemas comuns ao ser humano enquanto tal, serviram para manifestar uma estranha mistura de lucidez e ressentimento do autor em relação à categoria que mais o choca (e fascina): os ricos e seu mundo. Nesse sentido ele abandona a dialética do ser humano enquanto enfrentado ao mundo e coloca o problema como necessariamente decorrente da posição social do indivíduo. Ora, desde Durkheim ao defender o primado do social sobre o individual esta questão está posta., Modernamente sabe-se haver uma interpretação dos dois que é justamente por onde penetraram visões bem mais modernas e percucientes deste conflito entre as quais eu poderia citar um Gabriel Marcel, um Heiddeger, um Freud e um Jung. E se quiserem alguém mais perto ainda, aí estão os livros de Rollo May e os de Norman Brown (''Vida contra morte").

Nas obras de Bráulio, os personagens são muito representativos do autor, seus fantasmas e esperanças. Parece um truísmo tal afirmação, já que todo personagem de qualquer autor é uma representação de seu mundo. Mas existem, autores tão fascinados pelos personagens que se colocam a serviço deles (Jorge Andrade por exemplo) e, num estranho paradoxo, passam a ser seus serviçais exaustos e apaixonados. Acredito que algo disso aconteça com o Bráulio, mas mesmo amando seus personagens (um lado seu ama os ricos), o autor de "O Rebu", qual implacável técnico de time, bota os jogadores (os personagens) para jogar como ele quer e fazer os discursos que ele (Bráulio) escolheu para eles (personagens-jogadores).

O que escrevi até aqui deve ser olhado com muita cautela. Representa parte da visão que tenho de Bráulio como autor. Não é, portanto, ainda, uma critica da obra. É o resultado do efeito desta em minha sensibilidade, fator determinante e modelador, talvez, de tudo o que venha a surgir nos artigos seguintes. Seja como for, porém, algo é incontestável: este Bráulio acima analisado realiza seu mundo dramático com um talento, uma força e uma beleza dignas de um grande escritor. Amanhã prossigo ainda falando na obra, agora por seu lado mais belo.

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