Saturday, January 4, 2014

1974 - A Narrativa Diferente de O Rebu

O Globo
Data de Publicação: 21/11/1974
Autor: Artur da Távola
UM REBU EM TRÊS TEMPOS

O que está parecendo a muitos complicado, ou, de fato, dificulta o entendimento de telespectadores, super acostumados com estórias narradas linearmente é a concomitância de três tem os em O Rebu.

Nela só há uma atualidade: a cena que está sendo mostrada naquele instante, Ela é atual para o telespectador. Para os personagens a ação se desenvolve: 1) na noite da festa em que houve o crime; 2) no dia seguinte ao crime, cenas em que aparecem o detetive e algumas figuras da casa e; 3) cenas ocorridas no passado recente ou distante de cada personagem. Aqui a coisa se torna um tanto mais complexa pois este passado é relacionado sem grande preocupação cronológica. O público - de propósito - fica sem saber quando, na vida de cada personagem, ocorreram aquelas transações mostradas, aquelas situações vividas.

Mas o mais interessante é que nas cenas da noite da festa, à medida em que os personagens vão se cruzando, descobrem-se novas e secretas relações entre eles, através dos diálogos, e aqui também uma certa forma de passado não visualizado também ocorre. O mesmo se dá quando o velho Mahler, no dia seguinte, vê as fotos com acontecimentos que ninguém viu.

Vai mais longe o Bráulio Pedroso. Sempre que a ação volta à noite da festa, a cena anteriormente interrompida aparece de novo em seu diálogo final, só que aí com a câmara tornando os interlocutores por outro ângulo.

Essa é uma boa! Um diálogo tenso e íntimo (como todos até agora) entre duas pessoas, mostrando no vídeo como vivido na realidade é sempre algo em close, vale dizer, os dois participantes, próximos um do outro, funcionam como se nada mais houvesse em volta. Só eles no vídeo. Ocorre que aquele diálogo, se visto por uma terceira pessoa um pouco mais de longe, ganha um ângulo diferente de enfoque. Quando a câmara sai dos dois dialogantes e mostra, em outro ângulo o finzinho do diálogo anterior, ela parece sugerir a presença de uma terceira pessoa ali representada por ela, subjetivada, isto é. uma câmara espreitando, sempre sugere alguém olhando, situação que é diferente de quando ela mostra ao telespectador uma determinada situação. Sim, uma câmera em cinema ou tevê pode ser a primeira pessoa, a segunda ou a terceira, já pensaram nisso? Parem a leitura e, pensem um pouco no assunto, que muita coisa da linguagem do cinema é da tevê vai ficar clara,

Enfim, pode ser que a novela esteja simples e minhas explicações que sejam complicadas, pois é muito difícil colocar em palavras situações visuais, particularmente as que eliminam o conceito de tempo real aparente das cenas.

O Rebu é uma novela sem presente. Com efeito, qual é o presente? Que está acontecendo, "agora"? A festa? O detetive? Ou o passado dos personagens? Todos, meu irmão. Esta eliminação do dado presente conota de irrealidade as situações e colabora para o clima de mistério, magia e tensão que vem cercando esta novela. A propósito: o presente existe? E o passado? Não é tudo a mesma coisa?

Ora, todos esses elementos não são habitualmente levados ao telespectador. Este, acostumado a macias mastigações de situações para sua simples, passiva e fruidora digestão, desacostumou-se de ser mobilizado para participar de maneira mais ativa de uma obra.

Ao topar com uma novela que, ademais, atrai pelo mistério e pelo bom desempenho de um elenco de primeira qualidade, o telespectador tende a rechaçar o esforço. Mas uma coerção forte, conduzida pelo quebra-cabeças desafiante da estória, o impele para ela. Nessa incômoda, mas rica fricção, altamente dinâmica e mobilizadora, ele se assusta e ameaça afastar de si o que o inquieta dizendo-o muito complicado. Mas esse é o risco corrido por Bráulio. Inovar sem risco não existe,. Vencida a parada, o sucesso virá. Perdida, valeu a sadia sacudida.

Acresça-se o fato de que quem não tem televisor a cores (a maioria), não pode distinguir com tanta facilidade as mudanças de tempo e as alterações narrativas da obra.

Pois é exatamente tudo isso que faz O Rebu alterar o marasmo digestivo do gênero. Ao mobilizar o telespectador e jogá-lo dentro da trama, a obra de Bráulio Pedroso ganha força e tensão, transferindo para a tevê técnicas estimuladoras, de sua participação, oriundas do teatro e cinema. Vamos ver no que vai dar. Eu estou achando ótimo, pois é para a frente que se anda.

No comments:

Post a Comment

Followers