Saturday, January 4, 2014

1974 - A Inovação de O Rebu

O Globo
Data de Publicação: 20/11/1974
Autor: Artur da Távola
ACHAS O REBU COMPLICADO?

Eu não disse outro dia daqui, que novela do Bráulio Pedroso sempre inova algo? Pois agora é um tal de malandro chegar para o mestre aqui e dizer: "Mestre, como está a audiência de "O Rebu"? Acho que a moçada não vai entender. Minha empregada..." e tome Ibofe, que, como vimos há dias, é o Instituto Brasileiro de Opinião dos Familiares Entendidos".

Acompanhando as pesquisas dá para ver que o índice médio de 40 e poucos pontos é bastante alto para o horário das dez da noite, apesar da aludida dificuldade para entender os três tempos nos quais se desenvolve a obra. Se o Ibofe assusta, o Ibope acalma. Mas, não estará "O Rebu'' um tanto complicado?

A propósito de audiência, está acontecendo uma coisa, desde que a Globo há uns três anos partiu para a efetiva melhoria do nível médio de sua programação, que funde a cuca mesmo dos mais experimentados homens de televisão. Esta coisa é a resposta do público cada vez maior ao melhor nível dos programas.

Um caso ocorrido com o "Globo Repórter" é muito expressivo. Quando o baixaram (subiram) para o horário nobre das nove da noite, numa cautela mais que justa, começaram o programa com temas bem populares e acessíveis como aquela série sobre Hollywood, Clark Gable, etc. O resultado foi bom. Aí num certo dia, meio temerosos da experiência, os caras tacaram aquele programa sobre a evolução dá bicho homem, um programa mais complexo e com menos atrativos aparentes. Pois foi o pique do "Globo Repórter" até hoje.

É a tal história: fórmulas há muito consagradas acabam entrando em entropia e provocando resistências. Eu me pergunto: a fórmula do novelão clássico com começo, meio e fim, com coerência formal, com o clima de "naturalidade" das coisas, com esquemas e ganchos não terá, ela sim, cansado o público? Cansado não digo, pois o público eternamente amará o folhetim. Mas não terá despertado o desejo de ver outras formas de expressão?

Em qualquer gênero televisivo ou artístico, ocorre uma paridade com um fenômeno da órbita da comunicação, que eu chamo de correntes culturais ascendentes.

Tendências, reações, mudanças, alterações, volta de antigos preceitos ultrapassados, mas não mortos etc., após longa ou curta hibernação, mercê da dominação de outras formas de pensar, agir e sentir, um belo dia e desprendem das profundezas do inconsciente individual e/ou coletivo e, lenta ou rapidamente, conforme o caso, iniciam seu processo de emersão.

É como algo amarrado no fundo do mar. Quanto maior seu peso e a profundidade, mais rápido e forte vem à tona ao se soltar das amarras. Essas tendências inconscientes, quando cristalizadas numa forma adequada, logo reveladas ao público, ganham sua adesão, pois nele já pulsavam em forma larvar. "Fantástico" pode ser um exemplo disso. ''Os Ossos do Barão", outro. Há inúmeros.

Elas explicam o porquê do sucesso de tanta coisa inesperada pelos realistas. Realista é o que usa hoje a verdade de ontem. Idealista é o que quer usar hoje a verdade de amanhã. Como se chamará aquele camarada que resolver usar hoje a verdade de hoje, um hoje difícil de ser entendido tanto pelos realistas quanto pelos idealistas? Pois a verdade de hoje é a que cristaliza as correntes culturais ascendentes.

Assim deve ocorrer com "O Rebu". Ele está sacudindo as fórmulas tradicionais da novela e usando, a nível de massas, um expediente, expressivo, antes apenas possível no cinema ou no teatro de arte, coisa ao alcance de elites culturais minoritárias e seletivas. Estará operando na faixa de uma corrente cultural ascendente em fase de cristalização na sensibilidade da massa telespectadora? O tempo dirá.

Falei, falei, falei. Teorizei, dispersei, me exibi, mas não falei do "Rebu". Estou dispersivo hoje. Perdão. Amanhã volto ao assunto.

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