Saturday, January 4, 2014

1974 - Estreia O Rebu

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 2/10/1974
Autora: Maria Lúcia Rangel
O CRIME NA FESTA DA PRINCESA
Quem morreu? Quem matou? Por que matou? As perguntas são sugeridas pelo corpo boiando numa piscina situada nos jardins de uma rica mansão, após a recepção oferecida a uma princesa inglesa em visita ao Brasil, e à qual compareceram apenas 30 convidados. As perguntas são também um enigma , para quem as elaborou, o teatrólogo Bráulio Pedroso, que começa assim sua próxima novela, O Rebu, que irá substituir O Espigão no horário das 22 horas na TV Globo.

O morto é homem ou mulher, Bráulio?

- Não sei - responde rindo.

- Ainda estou no quarto capítulo.

A máquina de escrever está a um canto da sala, no apartamento do Jardim Botânico escondido entre árvores,e com vista para a Lagoa. Daqui a pouco ele começará a escrever. Das três às nove da noite estará convivendo com mundos que, como confessa, ''desconhece racionalmente":

- Ontem eu estava conversando com o Tom Jobim sobre o problema da criação, um fenômeno muito esquisito. Ele me disse que faz músicas de repente sem saber por que. O Edu Lobo por exemplo, me contou que às vezes, quando compõe, tem medo de estar sozinho porque pode partir para uma solidão da inconsciência incrível. Então, eu acho que a gente tem antenas que ignora. E a imagem já serve como uma motivação grande, A verdade do meu personagem sai do que eu imagino, a partir de uma imagem proposta. E geralmente, os meus grandes personagens são tirados de dentro de mim, são lados da minha personalidade.

Levando uma média de dois dias em cada capítulo, Bráulio acha que a partir do 20º encontrará a maneira hábil de descrever os convidados desta festa que nasceu da primeira imagem do filme Sunset Boulevard:

Era exatamente um corpo morto numa piscina. A partir de uma imagem a gente se pergunta: o que aconteceu com isso? Era o processo de criação do Faulkner. Todos os seus romances partiram de uma cena. O próprio filme de Ingmar Bergman - você vê que eu estou em ótima companhia Gritos e Sussurros, partiu da visão de três mulheres conversando numa sala vermelha de um castelo.

O DESAFIO - A Princesa Alexandra visitava o Brasil e veio a idéia de ter uma festa em homenagem a uma princesa:

- Porque neste tipo de recepção eu posso misturar várias classes sociais e criar uma espécie de microcosmo. E subitamente alguém é morto. A inovação vem a partir daí: a novela vai ser só a festa. Existem muitos filmes fechados, como o Anjo Exterminador. Mas duram uma hora e meia. E seis meses de uma festa é uma loucura. Qual o tempo real da novela? Digamos umas sete horas. A recepção começa às nove e termina às quatro da manhã.

Daí ele ter sentido a necessidade de usar uma nova linguagem em novela que tem origem no cinema:

- É a linguagem de Mariembad, uma simultaneidade de tempo que também aparece no romance moderno. Portanto, esta noite não terá uma ordem cronológica. Aparecerão cenas das nove da noite, 11h30m ou três da manhã. Haverá também flashbacks de informação, flashbacks de personagens e flashbacks de flashbacks. E' uma misturada de tempo que está me deixando maluco. Talvez os tapes tenham que ser revistos para as cenas serem repetidas.

Como núcleo de interesse para o público ele aponta a trama policial. Mas a novela será fundamentalmente um estudo psicológico dos personagens. Todos terão dentro desta festa problemas limites que se resolverão aí:

- Este é o peso maior da história. Ela terá valor na medida em que estudar estes comportamentos humanos: dependências afetivas e econômicas, necessidade de. poder, solidão. E vou ter que me virar com esses poucos personagens.

Ele aponta um segundo desafio, também nunca experimentado:

- Em novela, lá pelo capítulo 60 ou 70, quando você já está meio cansado, há sempre o recurso de novos personagens. A não ser que eu invente o truque de um retardatário, não poderei contar com ele.

SUSPENSE - Os capítulos, sendo gravados com antecedência, correm o risco de ter seu mistério desvendado antes do tempo. Mas Bráulio já levou em conta este tipo de problema e pensou num segredo que, duvida, alguma notícia de jornal possa furar:

- Eu consegui bolar uma situação - diz com ar misterioso - realmente difícil de ser desvendada. Mas o público, relacionando todas essas ações que se passam nos mais diversos tempos, poderá chegar à conclusão de que só uma pessoa poderia ser o assassino. Isto eu não acho mal não. É até maravilhoso.

Um banqueiro, uma grãfina que adora escolas de samba, um jogador de futebol com cabelos black-power, um arquiteto preocupado com a ecologia, um cirurgião plástico de fama internacional, a jovem senhora que começa a freqüentar, um ladrão inteligente, são alguns dos personagens que compõem o elenco. A partir de alguns atores que sabem estar disponíveis, Bráulio imaginou o personagem:

- o ladrão, por exemplo, estou escrevendo para o Lima Duarte. o velho, dono da casa, é o Ziembinski. A jovem, Bety Mendes. Porque você tem que contar com os atores livres no momento. Com isso, você nunca tem o elenco ideal, a partir do momento que outras novelas também estão no ar.

As pesquisas também estão sendo intensas, com economistas, psiquiatras - há um esquizofrênico na festa - colunista social. E envolvem até gírias de ladrão (''Uma casa roubada é chamada de caxangá e um furto é denominado ganho"), tudo isso junto a experiência de todas as festas de sua vida:

- Mas eu não sou esse escritor de festa que fica com cara de escritor olhando as pessoas pra ver como elas se comportam.

Nem escritor de festa nem aficionado da literatura policial. Bráulio gosta mesmo é de filmes policiais de televisão. E é de opinião que existe uma trama policial em qualquer problema humano, sem que precise existir um crime propriamente dito. Dá como exemplo a primeira frase de O Rebu, quando o delegado pergunta ao velho milionário, dono da casa, se tinha visto pessoas estranhas na festa. "Estranhas? Qualquer pessoa vista de muito perto é sempre estranha", é a resposta.

- Qualquer história é no fundo uma investigação sobre o comportamento humano. Crime e Castigo talvez seja o melhor romance policial escrito até hoje, e Dostoievsky não era exatamente uma Agatha Christie ou um Simenon. A minha novela tem o aspecto do crime em si e de uma festa, coisa que sempre me interessou. Quando ela se inicia é sempre muito formal. Aos poucos, a maquilagem vai-se desfazendo, os homens começam a tirar os paletós, os laquês não fazem mais efeito e a festa começa a se deteriorar.

A COMPENSAÇÃO - Quem ouve Bráulio falar e se lembra de entrevistas passadas, em que repudiava todas as novelas que tinha escrito até então, fica espantado. Agora está empolgado, quando, pouco tempo atrás, mostrava uma desilusão grande com a televisão. Por quê?

- Olha, em geral eu tenho um processo muito dialético de vida, que de repente se reflete, por exemplo, nesse troço de inventar uma novela que vai ser difícil. É um processo meu. O que é que vou fazer? Se é neurose ou o que, eu não sei. Mas, subitamente, eu sempre procuro desconfiar. No que eu entrei na televisão, fiquei realmente deslumbrado e empolgado. E comecei a dar aquelas entrevistas que quase todas as pessoas que entram na televisão dão. Você começa a achar que o seu trabalho de teatro é uma coisa pequena, porque é para 80 ou 100 pessoas por noite, enquanto a televisão te dá 20 milhões de telespectadores do Brasil inteiro. Então começo a discutir comigo mesmo e talvez por uma falta de tática ou habilidade, eu transformo em coisa pública. Tive a fase de achar que a comunicação pela televisão era uma coisa definitiva e fantástica. Subitamente, como embarquei demais nisso, começo a negar tudo, num processo dialético de sim e não.

Confessa então que no momento está com a consciência limpa. Acabou de passar por uma experiência que o deixou animado para escrever O Rebu.

- Eu me queixava muito de que não estava podendo escrever o que queria. Comecei a me sentir aquele autor que um dia faria uma obra num futuro distante. Mas esta obra maravilhosa não podia ser escrita porque a censura não deixava. Um dia sentei na máquina e disse para mim mesmo: "Faz de conta que eu vivo numa sociedade ideal. Escreva." Se saísse uma porcaria não tinha mais desculpas. Eu não era capaz. Escrevi então uma peça, que considero, assim como as pessoas que leram ou ouviram, a minha melhor peça. E o mais engraçado é que, talvez com algumas modificações, ela possa ser montada.

- É então o teatro dando forca ao autor de novela. Uma compensação?

- É uma compensação porque é onde você se desafia de verdade. Numa televisão eu sempre terei desculpas para um trabalho não muito bom. Faz parte do jogo escrever um capítulo bom e outro ruim, num trabalho sem uma elaboração maior. E escrever uma novela ideal - com o mínimo de 120 capítulos (é o tempo exigido pelas emissoras) - para não ser levada em lugar nenhum é um luxo a que não me posso dar. Além do que, a grande inovação do Beto, Rockfeller, minha primeira novela, foi colocar o realismo como temática. Mas o realismo está cada vez mais difícil para os autores. Por outro lado, houve uma considerável evolução na técnica de escrever e produzir, que não correspondeu a um desenvolvimento na pesquisa da realidade, ou melhor, no retrato do homem brasileiro. Esta minha novela também não evolui neste sentido. E não sou muito iludido não. Sei até onde posso ir.

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