Saturday, January 4, 2014

1974 - Analisando O Rebu

Amiga TV
Data de Publicação: 11/12/1974
Autor: Artur da Távola
AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE O REBU

Já dá para as primeiras impressões de O Rebu. Há um mês no ar, adquiriu as linhas gerais de sua caminhada. Desde logo ressalta o fato comum às novelas de Bráulio Pedroso: a inquietação do autor, sempre em conflito com fórmulas já consagradas e estabilizadas.

Bráulio paga e pagará, sempre, o preço dos renovadores: a incompreensão e a resistência, além, é claro, do risco de colocar o carro adiante dos bois, ou seja, fazer coisas muito bacanas mas um pouco adiante da possibilidade de assimilação pelo grande público, como ocorreu em O Bofe, por exemplo. A exata conta entre a renovação possível e desejável e a capacidade de se comunicar com faixas indiscriminadas de público, eis o desafio com que se defronta.

Nas primeiras semanas de O Rebu, parte do público acostumado à estrutura linear de novelas presididas por uma lógica simples e personagens bem definidos, andou assustando a muita gente. Além da complexidade dos personagens havia o fato de o autor trabalhar com três tempos bem distintos: a noite da festa; o dia seguinte quando o crime já houve e a polícia investiga; e o terceiro tempo, o mais complexo, aquele que se refere ao passado dos personagens.

Mas esse susto e a resistência de parte do público desacostumado a algo que o retire da digestiva passividade, pouco a pouco foram cedendo ao interesse motivado pelo mistério e pela boa narrativa, no melhor estilo do gênero policial. Eu diria: é uma novela policial-existencial. A prova dessa aceitação está nos índices de audiência conseguidos no Rio, aí pela casa dos 40 pontos, ótimo para o horário.

Um dos fatores desse êxito, seguramente, foi a direção de Avancini, nos capítulos iniciais, dando o tom e o clima da obra. O tratamento dos personagens, as roupas, o ritmo, a linguagem visual e a atmosfera tensa e carregada, conseguida logo aos primeiros capítulos por Avancini, mostraram que estaríamos frente a uma novela com climas interiores totalmente diferentes da grande média do gênero.

Não conseguiu, nem poderia ter conseguido, nas três primeiras semanas, um pleno aproveitamento dos atores. É cedo ainda. Bete Mendes custou a entrar em todo o mistério de seu personagem (vai entrar breve e precisa aprender a falar fechando os lábios. Está falando sem tocar o lábio de cima no de baixo, o que é uma proeza, mas empobrece a clareza e a expressão); Mauro Mendonça ainda não mostrou grandes variações de sua interpretação anterior; Buza Ferraz (Cauê) vai muito longe, pois é expressivo e tem talento, mas ainda está inseguro e fazendo caretas; Rodrigo Santiago, o Quico, é até agora a grande revelação de ator Jovem; igualmente o Édson França ainda não recebeu as instruções devidas sobre o personagem e vacila entre ser o Édson França ou ser o detetive. Já os monstros sagrados estão dando um baile de interpretação, particularmente Ziembinsky, Teresa Raquel, sensacional e muitos furos acima e além do personagem, e a belíssima Isabel Ribeiro, grande e densa atriz, a maior aquisição de nossa TV em 74. Isabel Teresa igualmente muito bem e é claro o naturalmente tenso e conflitivo Carlos Vereza. Com grande alegria estou vendo Maria Cláudia, agora sim contida, sem fazer a cara da frase, compondo muito mais o personagem que cada cena onde ele aparece. Progresso. Não poderia deixar de aludir á dupla Lima Duarte e Iara Cortes. Excelentes. Se o Lima anda receoso de acharem que ele está repetindo o Zeca Diabo, pode perder o receio. Não está. Já entrou no Boneco e agora é desenvolvê-lo com o talento que Deus lhe deu. Já Iara Cortes, ótima atriz, está tendo uma oportunidade que nunca a TV lhe deu. Vai aproveitá-la, pois cancha e talento não falham quando encontram um bom personagem.

E isso aí. A novela agora está sob a direção de Jardel Melo. Pessoalmente, acho um erro da Globo isso de ficar trocando de diretores, sem deixar nenhum deles realizar sua obra. O Avancini começa, entrega a outro, depois volta, depois pega a novela nova e assim por diante. Esse troca-troca não tem dado bons resultados. Independente disso, tudo me leva a confiar em Jardel Melo, a julgar pelo que é como ator (Seu Machado, de O Espigão) e pelo que já fez em televisão, principalmente em São Paulo.

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