Thursday, January 16, 2014

1980 - Água Viva chega aos 73 pontos no Ibope

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 1/6/1980

O IBOPE MUITO TRANQÜILO DE ''ÁGUA VIVA''
A novela Água Viva - com um pique de 79,3, obtido na quarta-feira, dia 21, e a média de 73,3, nos demais dias - foi o programa de maior audiência na televisão carioca durante o mês de maio, segundo pesquisas realizadas pelo IBOPE de sexta-feira, dia 2, a domingo, 25.

Pertenceram também a Água Viva os dois maiores piques seguintes: 78,7 e 78,3, alcançados quarta e quinta-feiras, 22 e 23. O segundo programa de maior audiência no mês foi o Jornal Nacional, também da Globo, com a média de 73,3 e o quarto maior pique: 77,7, sexta-feira, dia 2.

Um confronto com igual pesquisa efetuada seis meses atrás revela que esse noticioso transmitido pela Globo às 19h50m perdeu para a chamada "novela das oito" a liderança que ocupou durante todo o ano passado. O fato se explica tanto pelo sucesso de Água Viva como pela audiência de Chega Mais, bem mais baixa do que a da novela que a antecedeu, Marrom Glacê. Quando o Jornal Nacional era apresentado entre duas novelas de grande audiência -Marrom Glacê e Os Gigantes - capitalizava o público de ambas, somava-o ao seu próprio e assim chegava à liderança.

A TV Globo foi líder de audiência em praticamente todos os horários e, em todos os dias da semana. A exceção, mais uma vez, ficou por conta do Programa Sílvio Santos, nas tardes de domingo. Somando-se as médias registradas por ele, nas transmissões simultâneas pelos canais 6 e 11, tem-se o índice de 26,2, superando o da Globo no horário, que foi de 22,1.

Houve alguns programas não regulares que acusaram boa audiência, com a transmissão direta do jogo Flamengo x Coritiba, quarta-feira, 21, ou a reprise do especial Liza com Z, sexta-feira, dia 2.

Já as séries da Globo não tiveram o êxito esperado. Nenhuma delas chegou, sequer, aos 40 pontos(Malu Mulher, a de maior audiência, registrou a média de 38,6). Também não teve sucesso de audiência o Festival de Música Popular MPB-80, cuja segunda eliminatória, sexta-feira, 16, não foi além de 33,5.

Eis os 10 programas de maior audiência nos 25 primeiros dias de maio, todos da Globo, de acordo com as médias do Ibope:

- Água Viva, 73,3

- Jornal Nacional, 70,1

- Planeta dos Homens, 67,4

- Chega Mais, 63,5

- Os Trapalhões, 62,7

- Flamengo x Coritiba, 60

- Fantástico, o Show da Vida, 58,6

- Olhai os Lírios do Campo, 54,7

- Liza com Z, 43

- Primeira exibição, 41,7

- O décimo-primeiro seria, então, Malu-Mulher, com seus 38,8

1980 - Miguel Fragonard assistindo pornô?

O Globo
Data de Publicação: 10/8/1980
Autor: Oscar Moreira
O QUE A TELEVISÃO NÃO MOSTROU: POUCAS INTIMIDADES
Gilberto Braga/ Leonor Basséres. ÁGUA VIVA. Novela. Editora Record. 388 pág. Cr$ 580.

Alguém pode imaginar o impoluto cirurgião-plástico Miguel Fragonard assistindo a filmes eróticos em sua sofisticada aparelhagem de videocassete? A resposta é afirmativa. Pelo menos foi assim que a escritora Leonor Bassères, autora da versão romanceada da telenovela "Água viva", imaginou os antecedentes da primeira noite de amor de Lígia e Miguel, dois dos mais famosos personagens criados na televisão desde 1980. E é sempre assim, tentando desvendar os pensamentos, os segredos e - na maioria das vezes - o comportamento na alcova dos 38 personagens da novela de Gilberto Braga, que a sra. Bassères tenta dar algum sabor de novidade a uma história que, por seis meses, esteve presente na sala de visitas de pelo menos 40 milhões de brasileiros. Em outras palavras: a versão em livro de "Água viva" pretendia revelar "tudo o que a TV não pôde mostrar".

A autora tinha algumas vantagens. Não precisava perder tempo, por exemplo, apresentando ao leitor a extensa galeria de personagens criada por Braga. Quem neste país consegue ser tão desinformado a ponto de não conhecer a divertida milionária Stella Fraga Simpson, a órfã desamparada Maria Helena ou a desajeitada ferromoça Suely Bandeira? Sobrava então para a adaptadora resumir, em 388 páginas, os 159 capítulos do divertido e emocionante folhetim moderno de Gilberto Braga. O resultado, porém, é frustrante. A proeza do novelista ao conseguir manter no vídeo seis meses de ação quase ininterrupta transforma-se, no livro, em pura monotonia. Restava apenas para a adaptadora explicitar as fantasias sexuais apenas insinuadas na televisão. Mas até aí o resultado é insatisfatório. Apesar de revelar que o elegante Miguel Fragonard era um insuspeitado fã das aventuras eróticas de Emmanuelle, Leonor Bassères é tão tímida e recatada quanto a "tia Irene", que Eloisa Mafalda consagrou na TV. Pois só de cabeças como a de tia Irene poderiam surgir textos como o que descreve o primeiro encontro entre os desinibidos Lígia Prado e Nelson Fragonard.

A cada página, Leonor Bassères consegue destruir a principal qualidade da obra de Gilberto Braga: o texto. Se na televisão, os diálogos eram sempre inteligentes, modernos e, surpreendentemente, naturais, o livro naufraga numa sucessão de lugares comuns de fazer corar qualquer autora do mais tradicional "romance feminino". "Calada a música, fica pairando no ar tênue nuvem de melancolia" - embora pareça um dos pensamentos registrados no livrinho de Marciano (outra criação genial de Braga) é apenas um exemplo do estilo da autora, capaz, ainda, de descrever um personagem como "afrodite de Boticelli renascida num terraço do século vinte", ou uma simples cama como "arena dos desejos". A sra. Bassères é do tempo em que se empregavam expressões como "mormente" ou "de somenos importância". Nunca seria personagem de "Água viva".

O livro só ganha força quando reproduz, na integra, os diálogos originais da televisão. E expõe, mais uma vez, o fato de que adaptações de filmes, séries de Tv e, agora, telenovelas, quase nunca resultam em bons livros. Esta versão romanceada não tem nem mesmo o ineditismo que Leonor Bassères vem reivindicando em entrevistas. No início da década de 60, a novelista Ivany Ribeiro - o Gilberto Braga da época - passou para o livro sua "A deusa vencida", sucesso que lançou Regina Duarte. Naquela ocasião, o livro também foi lançado uma semana antes do fim da novela e revelava para uma multidão de espectadores 'curiosos o autor das cartas anônimas que moviam a principal trama do enredo. Desta vez, Leonor Bassères não marcou tento nem com o suspense. Quem ainda não sabia que o dissimulado Cleber Fraga Simpson, vivido pelo sempre suspeito José Lewgoy, era o assassino de Miguel Fragonard?

Mesmo assim, "Água viva" só despertou algum interesse nas páginas finais, quando descreve a solução de alguns conflitos que ainda não haviam sido mostrados na televisão. Foi escrito para ter a vida exata de uma semana - o tempo em que a novela ficou no ar depois de seu lançamento. A partir de agora, é uma obra descartável.

1980 - Os atores de Água Viva

O Globo
Data de Publicação: 10/8/1980
Autor: Artur da Távola
MAIS DO QUE ÁGUA, UM ELENCO EM CARNE VIVA
Não se deve efetuar uma análise crítica de atores em função apenas dos solos, brilhantes ou dramáticos, mas também em relação a capacidade de levar adiante o cotidiano da telenovela, no qual a criação e a vivência profunda de um personagem passam a ser tão importantes quanto os solos de maior intensidade.

Há, também, o indispensável elenco de apoio. É um elenco sacrificado que merece estudo. Há, finalmente, um outro tipo de resultado, independente de qualidade de interpretação, ou de Criação. São os personagens que ficam na memória do público. Essa permanência não é razão direta da qualidade da criação ou da interpretação, isoladas. 10 uma eleição do outro polo da comunicação: o telespectador.

Levando em conta falta de tempo para ensaios e ritmo industrial de gravações, um esforço de sete meses assim Intensos é sempre respeitável e meritório: a difícil tarefa de transformar seres de ficção em seres em carne viva.

A BASE - Tão importante como a presença, ou os grandes solos isolados é algo nem sempre levado em conta nas críticas: a base, o dia a dia, o carregar o piano da telenovela. Cenas enormes, intensas, diárias, "quilômetros" de instantes no ar, tudo dentro de uma criação de personagem. Por isso é importante e de grande valor o trabalho de Betty Faria. Em vez de procurar o agrado do público e o m a "heroína" clássica, ela deu a densidade da mulher em luta por ascensão social e segurança amorosa. Idem, Reginaldo Faria, uma composição perfeita do cotidiano do seu personagem. Muito mais criação séria, enxuta, contida, do que brilhos isolados. Cláudio Cavalcanti também está nessa: um Edyr de impecável correção profissional, carregado da verdade do personagem diluída capítulo a capitulo. Fábio Júnior também entra nesta lista. Apesar de seus bons solos nas crises com a Janete e com a mãe-horror, foi no cotidiano duro de cenas e mais cenas que o seu trabalho se ampliou e cresceu. Mauro Mendonça, idem. O Evaldo foi base para o andamento da novela. Assim, a criação dele cresce de importância. Arlete Salles como a Celeste é outra atriz sem a qual o dia a dia da novela não caminha. Interlocutora perfeita, a atriz é versátil e atiladíssima . Carlos Eduardo Dollabela é outro ator importante para compor a base de uma novela por sua soltura em cena e a verossimilhança que dá aos personagens. Como ele, Tamara Taxmann, ótima como base. Dois outros atores de base, importantes na trama, não podem ser esquecidos: Ângela Leal a Suely e Francisco Dantas o Marciano, cujos desempenhos ajudaram a levar adiante as cenas pesadas, o curso da telenovela, o seu dia a dia. Tais atores, responsáveis pela base, realizaram um trabalho de alto talento para o qual, em menor ou maior escala segundo a participação de cada um, deve ser dado o destaque.

PRESENÇAS - Presença, sim presença. É uma forma de classificar: certas atuações que tanto se destacaram nos solos dramáticos como na carga intensa levada pelo ator ao personagem ainda que em momentos distantes dos grandes solos.

Desde logo como presenças marcantes as figuras femininas de Tônia Carrero e Beatriz Segall, em dois desempenhos formidáveis, dignos da melhor arte cênica em qualquer país do mundo. Ainda como presenças fortes e figura de José Lewgoy cujo Kleber sempre sublinhou a ação para despontar no final com um solo magnífico; de Raul Cortez num personagem sem grandes solos na telenovela mas carregando a figura de um ator sólido e poderoso. Tetê Medina apesar da breve passagem como presença forte foi outra realidade da telenovela. Igualmente a Jenete de Lucélia Santos, excitada, chata às vezes, certinha demais, magnífica criação ou, ao revés, a antipresença realizando um dos desempenhos maiores de "Água Viva''; a atriz Aracy Cardoso no papel apagado da mãe de Janete, desempenho de grande valor como presença artística pela capacidade de se anular em cena para engrandecer o personagem.

Glória Pires também ficará no tópico presença, pela carga interior revelada ao longo de toda a novela em tantas situações, assim como ficarão nesse tópico, ainda, as figuras de Heloísa Mafalda na simplória e comovente Tia Irene e Natália do Vale a grande e principal explosão artística do ano televisivo até agora.

1980 - Água Viva apaga as luzes

O Globo
Data de Publicação: 3/8/1980

POR QUE 'ÁGUA VIVA' TERMINAR ASSIM?
Depoimento de Gilberto Braga, o autor

Para Gilberto Braga, "final de novela é festa, coisa muito pra cima, mensagens de esperança, Punições para as safadezas, recompensas às qualidades, mais ou menos como gostaria que acontecesse na própria vida". O amor é o grande vencedor da história. Lígia e Nelson, Janete e Marcos, Sandra e Bruno, Edyr e Márcia, Irene e Marciano, todos juntos e felizes. Kléber é preso. Stela se realiza no palco. Suely fica só, "mas numa boa". Lourdes também, "mas numa péssima". É o seu castigo. Gilberto sabe que a realidade nem sempre é assim, mas não se importa: "o público conviveu com essa gente toda por sete meses e eu não acharia justo fazer um final comprometido com o realismo e contrariando a expectativa popular. Só espero ter acertado, em termos de sacar o que o público queria ver". Sua maior dificuldade agora: "conseguir viver sem todas essas pessoas que trabalharam comigo. Vou ficar morrendo de saudades".

- Por que a Lígia, que rompeu tanto com os padrões clássicos da heroína, termina bem, feliz, com o homem que sempre quis?

- Explico na novela, citando Molière. Penúltimo ou último capítulo. O que eu quero dar de toque, prefiro dar no decorrer da novela. No final, acho que tem que ser muita festa, fantasia, esperanças, essas coisas. O público não suporta final pra baixo e eu quero agradar.

- É verdade que alguns personagens - como Miguel, Stela, Lígia e Lourdes - foram baseados em figuras conhecidas da nossa sociedade ou personagens de filmes e peças famosas?

- Em parte sim. Em cada personagem há elementos de três, quatro pessoas que eu conheço, muito de mim mesmo e, às vezes, uma boa dose de personagens de ficção. A Lourdes, por exemplo, é a mistura de mulheres amigas, o lado Lourdes Mesquita do próprio Gilberto e da madras. ta da Branca de Neve.

- O amor de Irene e Marciano teve a intenção de servir de alerta à nossa sociedade, que normalmente marginaliza os velhos?

- Teve, só que ficou num nível muito superficial. Ficou gostoso, atores ótimos, mas eu gostaria muito de voltar ao assunto com mais densidade e fazer um dia, em novela, pelo menos um terço da coisa bonita que o Cacá Diegues fez no cinema, em "Chuvas de verão".

- A Janete, tão racional, não teria extrapolado um pouco a realidade, tomando-se uma chata?

- Ouço muita gente dizer isso, então deve ser verdade. Pessoalmente, confesso que nunca escrevi achando-a chata. Ela defendia sempre valores em que eu acredito. Claro que uma personagem que questiona e briga é menos agradável de se ver do que, por exemplo, a Stela.

- Qual o personagem que você mais gostou de criar e qual o que não gostou, ou gostou menos? E com qual deles você mais se identificou?

- Gostei mais de Stela, Lourdes e Marcos. Tive uma certa dificuldade com o Evaldo, e o Manoel Carlos ajudou muito, porque ele entrava com mais facilidade na linha cômica que o Mauro Mendonça deu ao papel. Identificação minha existe praticamente com todos os personagens, desde o Marcos até a Lourdes. Tirando os secundários, todos eles têm uma área comum comigo.

- Você acha que as mulheres brasileiras são mais Vilma, a dona de casa submissa; Celeste, reprimida e omissa; Ligia, interesseira; ou Suely, a ex-suburbana boazinha?

- Vai parecer que estou fugindo da pergunta, mas com toda a honestidade, acho que tem de tudo. Parece-me justamente uma das maiores qualidades da novela o coquetel de mulheres brasileiras que eu consegui juntar. Não esquecendo a precocemente falecida Luci, eu tenho impressão que não ficou faltando nenhum tipo de mulher brasileira da classe média e alta, da cidade grande, claro, em "Água viva".

- Sandra e Janete são representantes reais da nossa juventude?

- Acho que sim. Da juventude mais saudável, que é a que eu curto.

- Por que o Kléber foi o assassino? Não ficou um pouco redundante, ou pouco criativo?

- Não sei. Bolei a historinha para isso. Acho imaginativo e o que atrapalhou muito foi isso ser tão divulgado, antes mesmo de eu ter começado a preparar a morte de Miguel. Na minha cabeça, seria uma surpresa. Arredondaria a novela. Mas corno em história e imaginação não sou mesmo muito forte, vai ver, foi uma bobagem.

- Quando você começou a novela, imaginava que ela terminaria assim? Houve muitas mudanças?

- Não. A não ser no caso do crime e a relação entre Nelson e Miguel, que havia bolado vagamente antes de começar. O resto fui criando aos poucos, com ajuda do Maneco, ouvindo amigos, a própria Leonor Bassères, que adaptou o romance. Aí é que está o gostoso da obra aberta. Não vale a pena prever coisas demais. Eu nunca tinha topado tanto a obra aberta quanto em "Água viva".

- Jader e Marcos. Como você vê esses dois exemplos de segmentos da Juventude: diferença pura e simplesmente de classe social?

- Olha, eu não me sinto à vontade para falar do Jader. Foi um personagem que não resultou, só existiu porque o Jorge Fernando é um ótimo ator. Foi para lá, foi para cá, era desses personagens de novela que variam ao sabor da trama, uma falha. O Marcos, como já disse outras vezes, é a minha idealização de ser humano. Tudo que eu acho que é qualidade eu coloquei no Marcos. E ninguém melhor que o Fábio Júnior para fazer um personagem assim.

- Foi por isso que o Jader não cresceu, não teve uma dimensão maior dentro da novela?

- Havia personagens demais e eu não podia desenvolver todos. Erro de estrutura. Muita gente. Se eu desenvolvesse todos, não daria para continuar. Houve um momento, lá pelo capítulo 80, em que eu tinha vontade de dividir os personagens em três grupos e fazer três novelas diferentes. Jader, Bete, Clarice, Mary, Celeste, Heitor, Selma e tantos outros personagens não desenvolvidos. Não dava. Vou tentar melhorar. O mais frustrante para mim mesmo que escrevia, é que os atores são todos muito bons.

- Gente rica se diverte tanto assim como na novela? Por que foram tão raras as festas dos pobres ou da classe média?

- Alguns ricos vão a muitas festas sim. Nem todos. O Miguel e Luci, por exemplo, iam a poucas. Festa de pobre eu já escrevi muito em "Dona Xepa". Nessa novela não estava com vontade, na próxima talvez eu faça de novo, aquelas mulheres chegando e trocando de sapatos para ficar mais à vontade... Também gosto muito. Festa em novela é ótimo, junta os personagens, a gente bota dois para bater boca num quarto e os outros ficam agitando na sala, gosto demais.

- Qual a sensação que você sente quando acaba de matar um personagem e como você reage escrevendo essas cenas?

- Muito mal. Morte é um problema muito pouco resolvido na minha cabeça. Tônia Carrero, por exemplo, foi testemunha. No dia em que eu escrevi a morte de Luci, fui a um jantar em homenagem a ela na casa do Ivo Pitanguy. Estava tão tenso que me deu pânico e eu não tinha coragem de voltar sozinho. Pedi à Florinda Bolkan para vir seguindo o meu carro. Miguel eu matei de madrugada. Escrevi a cena em que o Edyr ouve o tiro. Parei para fumar um cigarro, tentar relaxar, cismei que ouvi um tiro perto de casa, acho que foi tiro mesmo, fui para a janela, uma transação muito angustiante. Até a morte do Sérgio, que eu fiz em elipse, me tocou pra burro.

- Então por que tanta morte?

- Eu preferia que não existisse, gostaria que fôssemos todos imortais. Mas enquanto eu ia matando personagens de "Água viva", na vida real, durante sete meses, eu juro que morreram mais pessoas queridas minhas do que na novela.

- Quais teriam sido as mensagens explícitas e implícitas de "Água viva"?

- E coisa demais para eu poder relacionar, porque é tudo o que está na minha cabeça. Outro dia, aqui no GLOBO, o Artur da Távola publicou uma relação bacana, enviada por um leitor inteligente. Só não concordei com uma afirmativa: que Paris seria o centro cultural do mundo. Eu acho que, no momento, quem está com a bola toda é Nova York mesmo. Aliás, disse na novela: ''Firenze dos quatrocentos". Era uma fala do Kléber, que por ser assassino não deixa de ser filho de Deus e, eventualmente, porta-voz do autor.

- gora que a novela chega ao final, qual o resultado na sua balança particular: vencem os saldos positivos ou negativos?

- Vencem os positivos. Acho que estou aprendendo, foi legal escrever, continuo na profissão e me parece que tenho chance de melhorar.

- A interpretação da Betty Faria teve alguma relação com as mudanças da Lígia?

- O ator sempre influencia. Mas a Lígia que não estava agradando era a que eu escrevia, porque a Betty foi um brilho só, de ponta a ponta. Vou morrer de saudades da sua voz, da sua cara, acho uma mulher fascinante.

- Você não acha que os problemas de Maria Helena durante a novela - ameaça de sair do orfanato, morre Lucy, vai para casa de Márcia, participa dos problemas dos pais adotivos, depois encontra o verdadeiro pai - seriam suficientes para que ela estivesse agora nas mãos de, no mínimo, uma equipe de psicólogos, ou ela é uma garota maravilha?

- Garota maravilha ou personagem mal escrita, como quiserem. Claro que não foi uma personagem que eu tenha criado direito. Uma bobagem. Se eu só tivesse escrito Maria Helena, estaria morrendo de vergonha. Não ia nem esperar o final da novela no Brasil, ia fugir. Felizmente, havia outras personagens mais próximas do real.

- Dos romances, qual o preferido?

- Acho que o de Marcos e Janete, embora eu tenha cometido um erro de estrutura. A história deles terminou lá pelo capítulo 40. Quando se encontraram, já eram personagens resolvidos demais, como pessoas. O Marcos, principalmente, é muito a minha idealização de pessoa legal. Acho que ficou redundante: só de "Romeu e Julieta" na base de mais de cem capítulos, não dá!

- Qual a sua explicação para o sucesso de Raul Cortez junto ao público feminino? Você esperava isso quando ele foi convidado?

- Esperava. Se não tivesse feito as mulheres gamarem por ele, eu ia ficar muito frustrado. Puxa, um ator bonito, charmoso, num personagem praticamente sem defeitos, humano, boa praça, só podiam gamar mesmo.

- Stela e Lourdes, duas mães solitárias. Por que?

- Não acho tanta solidão assim não. Na vida eu vejo muito mais. A relação da Stela com o filho é linda. A da Lourdes não poderia ser, dada a carga de doença dessa mulher tão fascinante. Mas, para Lourdes Mesquita, até que eu acho bem tratada pelos filhos. A Márcia tem carinho até o final. E o Marcos só rompeu quando não dava mais mesmo. Acusam-me muito de mostrar coisas erra as. Acontece que coisas certas e muito equilíbrio não dão história. Eu mostrei uma família bacana, equilibrada, que era Miguel, Lucy e Sandra, no início. Mas, só pude fazer isso porque Ia desmoronar tudo com a morte da Lucy no capítulo 22. Tenho certeza que com mais 10 capítulos no ar, iam começar a achar a Lucy urna chata, porque gente de cuca boa, sem problemas, repito, não dá novela.

- Por que praticamente todos os homens - como o Evaldo, Nélson, Edyr e Alfredo - foram mais frágeis do que as mulheres?

- - Não sei. E uma limitação minha como escritor, que eu venho tentando superar. Mas acho, por exemplo, que, em comparação a "Dancin'Days", o desequilíbrio já não foi tão grande. Quem sabe um dia eu não chego lá?

- A solidão foi o fio condutor de quase todos os pergonagens. É essa a realidade que você vê na sociedade contemporânea?

- Não sei responder isso a nível racional, assim. Escrevi o que eu senti. Dizer acho, não acho, só com mais uns 10 anos de análise e vivência. Eu sou muito jovem para ter visão clara e global das coisas.

- Por que a Beatriz Segall e a Tônia Carrero trocaram de personagens no início da novela?

- Porque tinham cada urna vontade de fazer a personagem da outra. Pediram para trocar e nós, as pessoas envolvidas, achamos que seria uma boa. E foi uma ótima, não foi?

- Por que a escalação não foi assim desde o início?

- Porque eu escrevi a Stela pensando na Segall. E a Tônia entrou para o elenco depois. Lourdes foi a personagem mais difícil na hora da escalação: nós tínhamos a Segall ali e ninguém pensou nela. E a história do óbvio ululante do Nelson Rodrigues.

- Havia intenção de mostrar através do Edyr o problema do professor? Caso positivo, por que aos poucos lago foi desaparecendo?

- O Edyr, representante de uma classe, eu acho que entra na razão direta da participação do Maneco. Mas, nos capítulos finais eu retomei um pouco isso e até deu cenas que eu acho interessantes. Edyr e Márcia foram muito escritos pelo Maneco, os seus queridinhos mesmo, eu acho. Assim como a minha queridinha era a Stela, que eu não queria nunca que o Maneco escrevesse, tinha ciúmes. Nós rolamos de rir com essas coisas, os dois, mas pintaram mesmo na divisão de trabalho, tinham que pintar.

- O dinheiro foi a mola mestra em "Água viva". Você dá tanta importância assim ao dinheiro?

- Claro que não, eu estou até pensando em fazer voto de pobreza. Mas eu sempre tive vontade de escrever uma novela assim, inteiramente de ficção, passada num mundo em que as pessoas fossem superligadas em dinheiro.

- E agora? Quais não seus planos?

- Vou para Nova York. Lá, pretendo descansar e me divertir muito. Mas também sei que vou ficar morrendo de saudades de todos os que comigo fizeram o sucesso de "Água viva".

1980 - Record entrega o final de Água Viva

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 30/7/1980

NAS LIVRARIAS, UM ROMANCE CHAMADO ''ÁGUA VIVA''
Como Poirot, o delegado Siqueira reúne os suspeitos na sala de som e diz de que maneira Kleber matou Fragonard

De que Kleber era o assassino de Miguel todo mundo já suspeitava. Que Nelson e Lígia iam mesmo acabar juntos não era surpresa para ninguém. Que Janete não trocaria Marcos pela Alemanha era mais do que óbvio. Na verdade, todos os finais felizes de Água Viva, inclusive o de Edyr com Márcia e o de Marciano com Irene, estavam, senão na cabeça, pelo menos na torcida dos milhões de telespectadores que há seis meses vêm acompanhando a novela de Gilberto Braga e Manoel Carlos.

Mas poucos sabem como tudo isso realmente acontece. Como, afinal, o crime de Kleber será descoberto. Ou como os pares amorosos - em torno dos quais os autores procuraram criar conflitos e separações, de modo a deixar o telespectador em dúvida - finalmente serão reunidos.

A pouco mais de uma semana do último capítulo da novela, a Editora Record lança um livro que conta em detalhes tudo o que vai acontecer. Trata-se de uma versão romanceada do roteiro de Gilberto Braga e Manuel Carlos, escrita pela jornalista Leonor Bassère. Segundo informam os editores, Leonor transformou 3 mil 200 laudas redigidas pelos dois autores num romance de 388 páginas, O telespectador que não resistir à curiosidade e quiser saber já o que só será revelado no último capítulo, sábado, 9 de agosto, é só comprar o livro,

Por exemplo: como conseguirá o delegado Siqueira (Ênio Santos) desvendar o mistério que cerca a morte de Miguel Fragonard (Raul Cortez)? Todos sabem que a chave do mistério está na carta recebida pelo morto. Mas onde estará a carta? Uma pista é dada num diálogo entre Heitor (Carlos Eduardo Dolabella) e Celeste (Arlette Salles). Segundo Heitor, a carta só poderia ser descoberta a partir do "método do fedor".

Método do fedor? - estranhou Celeste.

Coisas da minha avó - diz Heitor. - Um sistema que ela inventou de procurar e achar sempre. Um dia ela construiu uma casa toda bacana lá em Petrópolis. Foram inaugurar e deram com fedor. Um cheiro horrível que aparecia de repente e estragava tudo, tirava o prazer. Só faltou botarem a casa abaixo com medo de que algum o operário tivesse sido emparedado vivo. Aí minha avó sentou a turma na sala, incluindo crianças e criados, e foi perguntado o que cada um sabia do fedor. E ela escrevendo. Quando acabou a lista, sem levantar da cadeira, sabia de onde vinha.

- E de onde vinha? - perguntou Celeste.

- Dois bocais de plásticos, de má qualidade, das lâmpadas, é claro. Casa fechada, apagada, mofava. Casa cheia, acesa, mofo queimava, fedia. Simples, não é? Vamos aplicar o método. Vá dizendo tudo o que se passou naquele dia.

E Celeste foi recordando, detalhe por detalhe, tudo o que aconteceu no dia em que Miguel foi morto: a chegada dele para operar Margarida Junqueira, sua ida até a sala, o cafezinho, Jorge mandando entregar os cassetes, Celeste conferindo, o chamado para ver Dona Flora no quarto 315, Miguel mandando Marcos (Fábio Júnior) examiná-la. Celeste recorda ter pedido a Miguel para ver a correspondência, principalmente uma carta, marcada 'particular'. Miguel leu-a e ficou pálido, os oito clientes na sala de espera que ele mandou dispensar, sua saída da sala "que nem um doido". E Celeste diz não se lembrar de nenhum outro detalhe que pudesse ajudar.

De madrugada, Heitor volta, toca a campainha e Mary (Maria Helena Pader) atende. Heitor está excitado. Celeste levanta, de pegnoir, o rosto inchado de sono. E Heitor diz:

- Eu sei onde está a carta.

Seguindo o "método do fedor", Heitor conclui que a carta só pode estar na caixa de vídeo-cassete.

Ele guardou ali para levar pra casa. Não pensou mais em vídeo-tape, não teve tempo.

Os três foram correndo acordar Lígia (Betty Faria), a casa inteira. A caixa foi encontrada. A carta realmente estava lá. E telefonaram imediatamente para o delegado Siqueira.

Mas as coisas não serão tão simples. Antes que o verdadeiro assassino seja descoberto e por fim revelado ao telespectador, algumas pistas falsas vão ser acrescentadas à história, fazendo com que se suspeite, por exemplo, de Marcos. Uma suspeita que a própria Lourdes (Beatriz Segall) levanta, dizendo-se decidida a entregá-lo a polícia. Até que há a grande festa de lançamento do livro de Bruno (Kadu Moliterno ), uma festa que os autores definem como "de filme de Hollywood". E lá, nos jardins floridos da casa de Kleber (José Lewgoy), suspeitos e não suspeitos reunidos, o mistério começa a se desfazer.

No meio da festa, chega o delegado Siqueira acompanhado de dois policiais. Ele mostra a carta a Edyr (Cláudio Cavalcanti), uma carta escrita com recortes de jornais: "Pára de procurar esse detetive. Já mandei matar um em Miami, é fácil mandar matar outro aqui" - diz o trecho lido por Miguel.

Siqueira conta que o detalhe revelador está no papel, Hammer Bost, de fabricação alemã, "de primeira qualidade, finíssimo. Só uma pessoa de posses teria um papel desses em casa".

O delegado propõe uma conversa "em algum lugar sossegado", entre ele, Edyr, os dois policiais, Kleber, Nélson (Reginaldo Faria). Lígia, Heitor e Celeste. O próprio Edyr se incumbe de reunir todos na sala de som, O delegado toma a palavra e diz:

- A carta esclarece definitivamente o porquê da contratação do detetive Mílton Sarpo: dirimir as dúvidas sobre o assassinato do Técio, em Miami. E mais: sobre a própria atuação do dito Técio no caso da falência fraudulenta da Crismotor. Hão de convir que essa história de Máfia nunca ficou bem esclarecida...

Siqueira vai desenvolvendo sua linha de raciocínio: o detetive contratado chegando perto da verdade, ameaçando o criminoso. Neste momento, Kleber levanta-se.

- O senhor está se sentindo mal, Dr Kleber? - pergunta o delegado.

Não, apenas preocupado. O Bruno deve estar sentindo a nossa ausência. Como não entendo de investigações criminais, acho que posso ser dispensado. A casa é minha e faço muito mais falta lá fora, supervisionando a festa.

Ao que Siqueira responde, em tom autoritário:

- Talvez a festa já tenha acabado para o senhor, Dr Kleber.

E o delegado o prende, sob a acusação de fraude, estelionato e assassinato de três pessoas.

Kleber tenta negar os crimes, Nélson salta da cadeira e atira-se sobre ele; os policiais o seguram. Mas Kleber acaba confessando tudo. Mais tarde, o assassino já algemado, o delegado irá explicar aos demais convidados da festa, à maneira de Hércules Poirot, tudo o que aconteceu: as suspeitas, as pistas, a teoria afinal confirmada:

- Fui um idiota, demorei tanto a ver o óbvio. Tinha todos os elementos, mas não conseguia juntá-los. Sabem por que? Por causa do mimetismo. O mimetismo agressivo de certos insetos. Como, por exemplo, determinada espécie de louva-a-deus, que mimetiza a formiga branca da qual se alimenta.

E explica que Kleber era "a imagem tão perfeita do burguês decadente, do milionário inconseqüente e inofensivo", que se tornara difícil perceber nele o criminoso frio e determinado. As explicações de Siqueira tomarão quase todo um capítulo, detalhadas, didáticas, falando do comportamento dos insetos e das guerras atômicas, de citações em grego e de costumes árabes. Tudo no melhor estilo de Agatha Christie.

Mas, para o telespectador, o principal mistério talvez não esteja no crime de Kleber e sim nos destinos que os autores vão dar aos casais. Em primeiro lugar, Nélson e Lígia. Os dois se reencontram na casa dela, onde ele fora buscar Maria Helena (Isabel Garcia). E discutem:

- Você nunca me amou -queixa-se Nélson.

- Amei! Amei, sim, desde o primeiro momento em que o vi. Seu desgraçado, disso você não pode me acusar. Amei muito. Amei mais do que a qualquer outro homem na minha vida e você sabe muito bem disso...

A cena termina num beijo. E os dois viverão felizes para sempre. O mesmo acontece com Marcos e Janete, está desistindo do curso na Alemanha para ficar com o filho de dona Lourdes, que acaba sozinha, sem ao menos o consolo de Alfredo, que se vai casar com a riquíssima Cláudia Villa Verde. Irene decide mesmo se casar com Marciano.

- Vilma, se quiser, que fique esperando Evaldo até morre...

Márcia fica grávida, motivo mais do que suficiente para que Edyr volte para ela:

- Essa é a hora da verdade, meu amor. Estou jogando tudo, estou jogando a minha vida porque sou alienada mesmo, mas sem você prefiro morrer. Se você me ama, podemos tentar...

- Há um final feliz também para Bruno e Sandra:

- Seu pai é uma pessoa que eu odeio - diz ela. - Você é outra pessoa. Uma pessoa que eu amo...

Mas feliz, mesmo, é o final para Stella (Tônia Carrero). Ela se recupera do choque sofrido com a prisão de Kleber. Passam-se os meses. E finalmente Stella vai transformar-se numa grande estrela do teatro. A cena final é dela, Max sentando na primeira fila da platéia, o público aplaudindo de pé.

O livro estará à venda nos próximos dias, custa Cr$ 580 e 10% do preço de capa serão divididos em partes iguais entre Leonor Bassère e os autores da novela. A TV Globo não terá qualquer participação. Informam os editores que - embora sendo mais ou menos esperado o desfecho de Água Viva - os 5 mil exemplares da primeira edição praticamente se esgotaram. Outros 5 mil já estão a caminho.

Wednesday, January 15, 2014

1987 - O Fim da Danusa Leão na TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 1/1/1987
Autorar: Helena Tavares
ADEUS, DANUZA. OU SÓ ATÉ LOGO?
A TV Copacabana perdeu o charme de todo fim de noite

"Sabe aquele casamento que está desgastado e não dá mais pra levar em frente, mas que ainda resta um carinho imenso entre as duas pessoas? Assim me sinto em relação ao Encontro Marcado. Não dava mais para continuar". Com este desabafo, Danuza Leão define sua 'decisão de abandonar o programa que durante três anos representou muito para sua vida profissional. A partir de amanhã, quem sintonizar a TV Copacabana às 23h30min verá outro rosto como apresentador.

A decisão de Danuza não foi um ato impensado. Ela conta que vem matutando esta idéia há mais de um ano. Reconhece que a Spectrum, produtora do programa, cresceu e fica satisfeita com isso, mas queria mais atenção para o Encontro Marcado: "No início o Sérgio Waismann dirigia o programa. Depois não pôde continuar e passei a contar apenas com o apoio da produção, que me ajudou muito. Mas eu sentia a falta de alguém experiente na frente. Pedia modificações e não era atendida", revela a apresentadora. Sérgio, que também é dono da produtora, reconhece que, em alguns pontos, Danuza tem razão. Ele se diz um pouco culpado por esta insatisfação: "O programa vai ao ar numa emissora pequena e está há três anos com um bom ibope. Sei que precisamos de algumas mudanças, mas a Spectrum, como a maioria das empresas brasileiras, se ressentiu com esta indefinição financeira do país. Tivemos inúmeros problemas, inclusive de patrocinador", conta. Só que Danuza resolveu parar enquanto estava por cima: "Assisti a um programa antigo e percebi a diferença. Vi que eu estava mais feliz, mais bonita e que tudo estava mais bem cuidado", esclarece.

Por incrível que pareça, não há ressentimento algum entre diretor e apresentadora. Eles continuam amigos. Sérgio diz que ainda não acredita no afastamento definitivo de Danuza do Encontro Marcado: "Na minha cabeça trata-se de uma separação temporária. Ela estava cansada destes três anos e precisava de uma parada para reciclar. Adoro a Danuza, como pessoa e como profissional, e tenho quase certeza de que ainda volta para o programa", desabafa. A apresentadora acha difícil pensar em futuro: "Estou naquela de esperar assentar a poeira para depois tomar uma decisão em relação a minha vida profissional. Não tenho raiva de ninguém. Só sinto uma tristeza imensa de estar fora da TV", diz.

1982 - Balanço do Ano Anterior

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 4/1/1982
Autora: Maria Helena Dutra
1981 NA TELEVISÃO
Prós e contras (como sempre) num ano de muito movimento

Estando a vida lá fora cada vez mais cara e perigosa era óbvio que a televisão em 1981, como nos anos anteriores, cada vez mais conquistasse espaço no tempo carioca. Isto é, mais público e repercussão. Fazendo jus à preferência, mesmo que um pouco forçada em alguns casos, ela ofereceu bastante movimento. Com entretenimento para todos os níveis de escolaridade e bem mais informações, pois passou a perguntar muito mais do que antes.

E como recebeu algumas respostas, chegou mesmo a se atrever a esboçar alguns contornos de nossa realidade. Em branco, apenas, permaneceu sua função educacional e cultural, pois os quatro canais em atividade, até o estatal, continuam pensando apenas em resultados imediatos de audiência.

Estes mostraram ainda o total predomínio da Rede Globo que a lamentar só teve mesmo duras derrotas vespertinas. Sua média, em quase dois milhões de lares com televisão do Grande Rio, é de 34% com piques de 70 ou mais no horário nobre. Mas seu ano, no geral, não foi dos mais brilhantes. De bom ofereceu mesmo uma diversificada cobertura esportiva: a novela Baila Comigo, pela sinceridade do autor e perfeição de elenco; Bem Amado, que permanece sua melhor série e nossa melhor ficção política; Som Brasil, apesar de matutino o nosso lado caipira começa a ser reconhecido; e os especiais de fim de ano, A Paixão Segundo Nélson Rodrigues e, grande destaque, Morte e Vida Severina.

No degrau intermediário, alguns lances. A melhora do Sítio do Picapau Amarelo, vamos ver se continua assim; os Trapalhões de sempre; Viva o Gordo, meio repetitivo, mas criou alguns bordões; Globo Revista, que apesar de levar muito mais Governo do que Oposição, relançou a entrevista política na estação que antes só lia decretos; Plumas e Paetês e Jogo da Vida duas bobagens bem realizadas; e o inteligente Globinho.

Mas teve também muitos percalços. TV Mulher esvaziou de vez, o mesmo acontecendo com Globo Repórter. Catástrofe foi o ano do Planeta dos Homens e Chico Total. Engraçado é que o primeiro só apresentou um bom programa, que foi o último, e o segundo igualmente apenas um, que foi o primeiro.

Na parte musical não acertou uma. MPB-81 e Show do Mês não deixaram a menor lembrança e a série Grandes Nomes acabou sem ninguém perceber. Nas novelas, deu déficit. Pois mostrou uma boa, duas razoáveis e cinco ruins, mesmo. Este o caso de Coração Alado, só ralou; O Amor é Nosso, ou o fracasso foi de-es; As Três Marias, transformar o Ceará em Baixo Leblon e Suíça, só podia dar no que deu; Ciranda de Pedra, São Paulo de 1947 com estética americana dos anos 30; Brilhante, chega a dar pena; e Terras do Sem Fim, em que puseram uma barcaça do Mississipi no mar alto de Ilhéus sem dar desastre.

Mas o pior deles na estação foi o cancelamento de Amizade Colorida, série com apenas 10 títulos. Não tanto pela censura das senhoras paulistas, mas porque realmente não sabiam o que fazer do Edu Homem. Plantão de Policia era melhorzinho, mas Obrigado Doutor só foi esquisito. Nas importações supérfluas, nos infringiram o horror de Dallas, seu mais doloso feito do ano.

Depois de ter sido apenas um exibidor de velhos filmes e enlatados, a TV Studios este ano montou e amarrou uma programação nacional de feitio popularesco e sensacionalista. Com isto, Wilton Franco, rezando a Ave Maria, e O Homem do., Sapato Branco, agredindo desnutridos loucos, se solidificou em segundo lugar com média de 14 pontos e piques de até 30.

Muito esporte, desfile de Misse, J. Silvestre exumando programas dos anos 60, humorismo grosso e filmes de caratê é pornochanchadas nacionais contribuíram para o sucesso. Sempre liderado pelo programa dominical do dono da casa. Um conglomerado de atrações que pode fazer chorar quem permanece acreditando em dignidade humana, mas que é comprovadamente uma política comercial exata e certa. Por isso, o fato mais importante do ano e talvez o que mais vá marcar a televisão de 1982.

Ano que também deverá ser o de limite para as experimentações do mito Walter Clark na direção de programação da Bandeirantes. Este ano, nada deu certo. Imitando a Globo sem seus recursos e infra-estrutura e, pasmem, a Educativa no nível de realização, mal se equilibra no terceiro lugar com média de 3 pontos e pique no máximo de 10. Ao contrário da definição, mesmo que braba, de Sílvio Santos, o canal 7 permanece sem personalidade e continua impenetrável mistério qual o tipo de espectador que quer atingir e qual estratégia adota.

No esporte teve suas intenções barradas pela Globo, mais rica, mas no jornalismo não investe e bons comentaristas não bastam para esconder a pobreza de imagens.

Canal Livre este ano não teve o brilho de 80, pelo excesso de equívocos na escolha de entrevistados e perguntadores. Cidade Aberta fechou porque quis fazer TV Mulher em estilo Tupi. ETC, depois de empolgante entrevista com D Helder Câmara, virou papo de Zona Sul, sem legendas, para os não iniciados, e 90 Minutos encrencou firme por ser um Fantástico diário produzido ao jeito da TV Rio.

Nas novelas só se salvou com Os Imigrantes, mas seu segundo ano é duvidoso, pois o autor Benedito Rui Barbosa parece que largou o barco e voltou à sua terra natal. Isto é, outra estação. O mesmo aconteceu com Ivani Ribeiro, que se despediu dos Adolescentes agora tutelados por Jorge Andrade. Com ambos, os meninos não cresceram. Tal e qual a Chatuba de Dicró parece difícil ficar na Bandeirantes pois também Nelson Mota e sua Mocidade Independente duraram mínimas edições.

Para fora foram também algumas de suas atrações populares, como Edna Savaget e Hebe Camargo, mas nenhum prestígio as substituiu. Chacrinha se tornou peripatético e acabou 'rendendo pouco aos domingos. Bom mesmo, apenas, produziu o seriado Dona Santa, um raro encontro de conteúdo com exata forma.

Quem subiu este ano foi a Educativa. Embora tenha a ínfima média de 0,8% tem dado piques de 8 a 7 em alguns horários nos quais chega a ficar em terceiro lugar. Uma vitória para a estação que era totalmente desconhecida do público e este, ao menos, sabe que existe um Canal 2 no seu televisor. Muito pelo esporte que foi intenso e bem realizado, tanto no campo amador como no perene futebol, que lhe dá muitos espectadores no domingo.

MAS também tem outros atrativos. A extenuante cobertura do carnaval, este ano meio abagunçada. Mais acertado foi cancelar programas tipo Decisão Pública em favor de produções melhor realizadas. E trazer também produções paulistas, da Cultura, que em média foram fracas, mas apresentaram alguns bons momentos no Teleromance. Em igual linha, alternando méritos com bobagens, foram os programas Um Nome na História, Os Astros, Água Viva, Catavento, Sábado Forte e Os Músicos, Mas apenas o alinhamento destes títulos mostra que houve esforço na estação para atingir um público específico de classe média. Pena a bobagem que fez em Tempo Quente e Primeira Página, repletas de discussões estéreis, que fizeram a emissora perder muitos espectadores notívagos. Teve um dos melhores programas do ano, Aquarela do Brasil, e um grande equívoco, Interiores, que, apesar de sua boa linguagem televisiva, perdeu-se por acreditar que jornalismo se improvisa.

Apesar deste e outros percalços, o ano, como foi demonstrado, teve realmente movimento. Que em 1982 deve ainda crescer mais, pois dois novos canais finalmente serão inauguradas. Público todos sabem que vão ter. Resta desejar se seis estações saberão o que fazer com ele.

1974 - O Primeiro Especial de Roberto Carlos

Amiga TV
Data de Publicação: 11/12/1974

ROBERTO EM FAMÍLIA
Pela primeira vez ele vai se apresentar em um programa de família

Depois de dois meses de trabalho, chegaram ao fim, na última quinta-feira, as gravações daquele que poderá ser o melhor programa da TV Globo este ano. É o Especial de Natal de Roberto Carlos, que irá ao ar dia 24 de dezembro, às 21 horas. Além de contar toda a sua vida e de ter a participação de astros como Paul McCartney. Tony Bennet, Pele e outros, este especial vai mostrar pela primeira vez a participação da família de Roberto num programa de televisão Na cena final, ele se abraça ao Nice e aos filhos e ergue um brinde ao Natal. Gravado inteiramente a cores, o programa vem merecendo da TV Globo cuidados especiais. Boni, superintendente da emissora, encarregou Augusto César Vanucci, supervisor da linha de shows, de controlar tudo rigorosamente, antes, durante e depois das gravações, observando cenários, escolhendo imagens, posicionamento de câmeras etc. Nada foi feito sem a aprovação de Vanucci.

Durante os dois meses de gravação do Especial, uma equipe da Globo acompanhou Roberto em todos os seus shows pelo pais, colhendo flagrantes principalmente das reações do público. A narração de sua vida não será feita de forma cronológica, mas mostrando os principais fatos relacionados a sua carreira, utilizando muitas vezes a técnica do flash-back. Recordando sua infância. Roberto se lembra de Cachoeiro do Itapemirim (a Globo montou uma maqueta da cidade no Teatro Fênix), da rua em que se criou, do grupo escolar da primeira professora e de pessoas a quem era bastante ligado. Na parte musical, cerca de dez a quinze de seus maiores sucessos e algumas faixas de seu novo LP, que será lançado em dezembro. Roberto canta a maioria das músicas em cenários externos, como a praia de Itaipu, em Niterói, a Via Anchieta (estrada de Santos). Congonhas do Campo e outros ligados á sua carreira. Uma vitória da Globo foram as participações de Paul McCartney. Tony Bennet (que gravaram com Roberto nos Estados Unidos) e dos Bonecos de Bremen. Das atrações nacionais, estão certas as participações de Paulo Gracindo. Erasmo Carlos, Emerson Fittipaldi. Vanderléia e Pele.

Roberto Carlos Especial foi produzido por Luis Carlos Mieli e Ronaldo Bôscoli (autor dos textos) arranjos do maestro Chico de Morais, figurinos de Sônia e a maquilagem de Erik Rzepecki, cenários de Mário Monteiro e Federico Padilla, direção de imagem de Evaldo Rui e direção geral de Augusto César Vanucci.

1972 - Moacyr Franco na Globo

O Globo
Data de Publicação: 4/1/1972

''SHOW'' DE MOACIR FRANCO ESTRÉIA HOJE NA GLOBO

Para um show de 48 minutos de duração nós gravamos nada mais nada menos de 23 horas: 13 delas no palco e 10 em externas, disse Hélcio Rangel, chefe da Divisão de Programações da TV GLOBO, a respeito do show de Moacir Franco, que vai ao ar hoje, depois do capítulo da novela ''O Homem que Deve Morrer''.

Este programa será apresentado todas as terças-feiras, no mesmo horário. O roteiro é de Marcos César, que também é o responsável por "Faca Humor Não, Faça a Guerra", pelos programas de Wilson Simonal, de Ronald Golias e de Chico Anísio.

Durante o programa de hoje, Moacir Franco vai entrevistar Mané Garrincha, que é a principal atracão do show. O espetáculo de 100 meninos de ''ballet'' da TV GLOBO, de RonaId Golias - que fará a crítica do programa -, de Flávio Migliácio, todos empenhados em apresentar o que de melhor existe em humor na TV brasileira.

O programa semanal foi estabelecido pela GLOBO em razão do grande sucesso do show de Moacir Franco apresentado na seqüência Sexta-Feira Nobre, quando o artista conseguiu excelente índice de audiência em todo Brasil.

Saturday, January 4, 2014

1975 - O Acerto de O Rebu

Amiga TV
Data de Publicação: 16/4/1975
Autor: Artur da Távola
O ETERNO DEBATE

De um lado, o indiscutível: novelas longas demais obrigam os autores a escapar por prolongamentos das tramas paralelas e isso cansa. Mesmo a trama principal fica tão interferida de acontecimentos extras e esdrúxulos que ao fim de um certo tempo o grande público se acostuma com a forma do autor de achar chaves para o prolongamento e imediatamente se toma hostil. Digo isso, pois, além de observar, recebo muita carta apontando este fato como negativo, não as cartas dos eternos descontentes, os bronquinhas inatos desta vida, mas cartas de pessoas que curtem as novelas e entendem seu lado positivo. Este é o lado de parte do público, aquele que participa e quer sempre o melhor. De outro lado estão os canais, com seus problemas. O investimento inicial de cada novela é alto demais para que não haja tempo de recuperação, Cada nova novela representa uma infinidade de frentes que precisam de altas inversões (elenco, equipe técnica, mobilização de equipamento, cenários vestuário, maquilagem, promoção, letreiros, sonoplastia, iluminação, deslocamento de equipes de externas, e até viagens ao exterior onde são feitas algumas cenas etc. etc. etc.). O investimento inicial é compensado e remunerado devidamente só muito adiante. Ora, fazer as telenovelas algo deficitário apenas em nome de uma rapidez, seria condenar o gênero a um retrocesso pior que o de sua longa duração. Por outro lado, ainda não há autores suficientes, por mais que seu número tenha crescido nos últimos quatro anos. É que um autor de telenovela não se forma da noite para o dia. Não basta o cara ser bom escritor, teatrólogo ou dramaturgo.

Não! Escrever para televisão é técnica totalmente diferente das demais formas de comunicação literária. É necessário um período de adaptação e ajuste, que é feito como? No ar, onde malandro não pode errar nem se dar ao luxo de fazer experimentalismo. E ajustar-se no ar e sem poder errar, pois o fracasso de uma telenovela implica um prejuízo enorme, é coisa das mais difíceis e raras. Nessa base, a renovação de escritores especializados vai sendo muito lenta. Isso é tão verdade, que autores de telenovela, mais tarimbados como o Dias Gomes, por exemplo, constantemente declaram que só agora, depois de algumas experiências, sentem-se dominando o meio. Há um terceiro elemento: o grande público consumidor. Este não tem reclamado da duração das telenovelas. Liberto de considerações estetizantes ou literárias, ele se diverte com as complicações (mesmo as artificiosas) da trama. Sua resposta está dada no nível de audiência.

Para pessoas de formação um pouco mais elaborada, o tamanho das novelas é fator de cansaço e bronca. Seu nível de exigência é crescente, pois as novelas são cada vez melhores e elas já tiveram oportunidade de encontrar obras adequadas a seu back ground cultural. E como cada telespectador tem a tendência de universalizar seus gostos e preferências, essas pessoas reclamam. Pessoalmente acho que as novelas não podem ser curtas. Pelo menos por ora. Seria suicídio. Mas creio, igualmente, que elas não precisam se estender demais. Há um meio termo razoável por aí. O Rebu, por exemplo, vai terminar com cento e poucos capítulos. Não foi longa demais e deu certo. É por aí o caminho.

2009 - Lembrando O Rebu

 Zero Hora
Data de Publicação: 17/5/2009
Autor: Márcio Pinheiro
UMA NOITE EM 132 CAPÍTULOS

Mais policialesca das tramas novelísticas, O Rebu foi uma pequena revolução na história da dramaturgia da Rede Globo. Escrita por Bráulio Pedroso e exibida entre novembro de 1974 e abril de 1975, a novela inovava na estrutura narrativa ao apresentar uma trama em que todos os seus 132 capítulos transcorriam durante uma única noite, em sequência não-cronológica.

Inspirado no filme Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard), de Billy Wilder - em que na primeira cena ocorre um crime - , O Rebu partia de uma festa realizada em uma mansão no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Na casa, o banqueiro Conrad Mahler (Ziembinski) organiza uma festa para recepcionar a princesa italiana Olympia Buoncompagni (Marília Branco). Ao amanhecer, os convidados descobrem um cadáver boiando na piscina da mansão e, então, surge a investigação policial. Óbvio que os acontecimentos não ficavam restritos ao período da festa, com a ação destacando a busca da polícia pelo assassino. Aspectos e detalhes das vidas dos personagens eram passados ao telespectador através das cenas em flashback. Qualquer um dos 24 convidados e outras pessoas que estiveram na mansão durante a festa eram suspeitos.

Para complicar ainda mais, O Rebu não fazia mistério apenas sobre a identidade do criminoso e os motivos do assassinato. Cabia também ao telespectador tentar desvendar quem era a vítima. Como o rosto nunca havia sido mostrado, deduzia-se inicialmente, pelos cabelos curtos, que a vítima fosse um homem. Mas, no decorrer da trama, como forma de dificultar as coisas, o autor mostra em uma das cenas em flashback que, durante a festa, algumas mulheres fizeram uma brincadeira em que elas cortavam os cabelos e vestiam roupas masculinas.

No final, o mistério é desfeito: a vítima havia sido a jovem Sílvia (Bete Mendes), e o crime fora cometido pelo próprio anfitrião, Mahler. Ele matou a moça por ciúmes dela com Cauê (Buza Ferraz), rapaz que vivia sob sua proteção.

O Rebu foi a última novela que teve a participação de Ziembinski. Mestre do teatro, Zbigniew Marian Ziembinski nasceu na Polônia em 1908 e veio para o Brasil aos 33 anos fugindo da II Guerra Mundial. Sua montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, é um marco da cultura brasileira. Ziembinski morreu em outubro de 1978, aos 70 anos.

1975 - Momentos Derradeiros de O Rebu

O Globo
Data de Publicação: 7/4/1975
Autor: Artur da Távola
COMEÇO DE FIM DE PAPO

Semana final de "O Rebu". O leitor que se prepare pois lá vai artigo em série. Se deixar de ler algum, não faz mal. Esta coluna é como o Cineac: aqui também o espetáculo (mau ou bom é outro papo) começa quando você chega. As crônicas vão em série mas cada uma encerra um assunto.

Comecemos pelo mais difícil: a obra e o autor. O universo ficcional de Bráulio é bem conhecido: seres amargos sem muitas soluções existenciais; pessoas embaraçadas em conflitos típicos de sua classe social e comandadas pela ambição; multa ânsia de amor sobretudo nos já comprometidos formalmente (mulheres desesperadas de abandono e tédio conjugal); homens indiferentes; busca acentuada de afeto e prazer; receio e fuga dos verdadeiros enfrentamentos existenciais.

Em "O Rebu'' tudo isso voltou, com algumas diferenças, porém. Talvez até não querendo conscientemente (ou querendo, sei lá pois não estou na cuca do autor), Bráulio, no terço final da obra, após a morte de Sílvia, faz aqueles personagens se humanizarem e começarem a encontrar dimensões e caminhos. Haverá ai, apesar da humanização que os redime, uma volta da amargura do autor? Será que só a morte de alguém é capaz de gerar a consciência? Observe-se que também o Laio a isso várias vezes se refere quando fala do revólver que serviu para o suicídio de seu avô.

Os personagens (salvo um ou outro incurável como o Kiko) entenderam-se a si mesmos ao fim da novela. Um começo de esperança se insinua entre eles e sua vida, seu ser e sua "persona". Ora isso revela um Bráulio também mais carregado de esperança.

A novela tem seu lado (eu não estou dizendo que a novela é sectária, Digo que tem seu lado) sectário. Problemas comuns ao ser humano enquanto tal, serviram para manifestar uma estranha mistura de lucidez e ressentimento do autor em relação à categoria que mais o choca (e fascina): os ricos e seu mundo. Nesse sentido ele abandona a dialética do ser humano enquanto enfrentado ao mundo e coloca o problema como necessariamente decorrente da posição social do indivíduo. Ora, desde Durkheim ao defender o primado do social sobre o individual esta questão está posta., Modernamente sabe-se haver uma interpretação dos dois que é justamente por onde penetraram visões bem mais modernas e percucientes deste conflito entre as quais eu poderia citar um Gabriel Marcel, um Heiddeger, um Freud e um Jung. E se quiserem alguém mais perto ainda, aí estão os livros de Rollo May e os de Norman Brown (''Vida contra morte").

Nas obras de Bráulio, os personagens são muito representativos do autor, seus fantasmas e esperanças. Parece um truísmo tal afirmação, já que todo personagem de qualquer autor é uma representação de seu mundo. Mas existem, autores tão fascinados pelos personagens que se colocam a serviço deles (Jorge Andrade por exemplo) e, num estranho paradoxo, passam a ser seus serviçais exaustos e apaixonados. Acredito que algo disso aconteça com o Bráulio, mas mesmo amando seus personagens (um lado seu ama os ricos), o autor de "O Rebu", qual implacável técnico de time, bota os jogadores (os personagens) para jogar como ele quer e fazer os discursos que ele (Bráulio) escolheu para eles (personagens-jogadores).

O que escrevi até aqui deve ser olhado com muita cautela. Representa parte da visão que tenho de Bráulio como autor. Não é, portanto, ainda, uma critica da obra. É o resultado do efeito desta em minha sensibilidade, fator determinante e modelador, talvez, de tudo o que venha a surgir nos artigos seguintes. Seja como for, porém, algo é incontestável: este Bráulio acima analisado realiza seu mundo dramático com um talento, uma força e uma beleza dignas de um grande escritor. Amanhã prossigo ainda falando na obra, agora por seu lado mais belo.

1975 - O Rebu Chega Ao Fim

Amiga TV
Data de Publicação: 2/4/1975
Autora: Daise Prétola
QUEM GOSTOU DESTE REBU?

O Rebu, novela de Bráulio Pedroso para a TV Globo, está em seus capítulos finais. Mas um outro rebu está se formando. Quem gostou? Quem não gostou? Valeram tantas inovações. De acordo com a opinião de pessoal de televisão e críticos, a aceitação foi favorável.

Ziembinski, o Conrad Mahler, acha que ''O Rebu foi uma das mais importantes novelas dos últimos tempos. ''Como intérprete, vou me restringir a opinar sob o prisma que me diz respeito. O tratamento dado ao texto o sua adequação à imagem resultaram em algo novo e conseguiu uma reação positiva na maioria do público, sem divergências de classes. Isto, para mim. é uma de suas grandes virtudes, pois, todos nós, participantes de O Rebu, nos sentimos gratificados. Não quero dissertar sobre o que foi feito de novo. Parece-me que a novela tanto interpretativamente como em realização foi uma tentativa no sentido de uma linguagem nova, falada e ouvida."

Mas Régis Cardoso, o diretor de Escalada, achou o texto muito hermético: ''O público que assiste a novelas, de modo geral, o faz ocupado em alguma outra coisa. As pessoas não podiam se distrair um segundo vendo O Rebu, porque perderiam o sentido da trama. Um texto muito bom, mas não foi apreendido por esse motivo. Se fosse no cinema, seria excepcional, pois lá os ruídos são eliminados."

"Um dos mais importantes passos que foi dado pela TV'', diz Francisco Cuoco. que acompanha a novela ''É que a maioria do público comentasse que não entendia. Para mim, é a colocação muito clara dos conflitos mais íntimos dos personagens. Um verdadeiro mergulho para dentro de cada um. Parabéns à equipe." Outro a quem a renovação de Bráulio Pedroso tocou muito foi Nei Latorraca." Obrigou as pessoas a pensarem. A idéie da festa, do flash-back, o público apreende sem didática. Uma critica à sociedade sem preocupem de Ibope''. O crítico Mister Eco diz que está gostando mais do rebu de Lou e explica porque. "Fazer uma novela em três tempos não me parece uma idéia muito feliz em se batendo de um seriado, quando unidade e definição devem ser claras e precisas. O Rebu complicou demais as coisas, sobrepujando-se em seu tempo com um espetáculo de técnica, o que, afinal de contas, não interessa ao público que assiste a novelas. Tirando-se os flash-backs e outros recursos técnicos, sobrou de Rebu uma história chocha e chinfrim''.

Muriel Macedo Soares. da sociedade carioca, adorou: "Antes de mais nada, destaco os grandes desempenhos de Ziembinski, Cados Vereza a Teresa Raquel. No princípio, achei monótona. Depois, com os problemas dos personagens sendo destacados, a novela cresceu. Valeu, também, porque o público gosta de espetáculos luxuosos."

Jornalista e professor de Comunicação no Rio, Roberto Quintais acha que ''a técnica não fosse a melhor valaria ainda, porque rompeu com os vícios que o sucesso fácil, sem concorrência, consagrou.''

''Público classe A - no sentido intelectual e não econômico acostumado com o velho estilo linear da televisão, surpreendeu com o rompimento de uma estrutura já desgastada. Isto é animador.'' Da pequena enquête feita ao público em geral, Francisca Eugênia Braga achou "diferente, embora não entendesse bem algumas passagens. A riqueza da novela foi um ponto positivo''. Pedro de Sousa, funcionário público, não tem paciência de esperar o envolvimento da novela. Parou de assistir. "Achei parada demais." Elza de Sousa, comerciaria, achou ''o principio meio enjoado''. Depois gostou. Já Violeta Puppin, intérprete, achou que a novela causou muita discussão.

1975 - O Rebu na Reta Final

Última Hora
Data de Publicação: 18/3/1975
Autor: Mister Eco
O REBU DOS POBRES

Está em seus capítulos finais - já gravados - a novela O Rebu. Durante meses, o espectador assistiu a um festival de flash-backs e de outros recursos técnicos, que, com a pretensão de se desenvolver um tema em três tempos, nada mais resultou que procurar encobrir-se a mediocridade desse tema.

Durante uma reunião, digamos, social, o cadáver de um convidado apareceu boiando na piscina. Dizem que a história foi inspirada em fato ocorrido aqui mesmo no Rio, naturalmente sem as situações criadas na novela. Um crime. Quem é o assassino? O autor entrou então no comportamento particular de cada conviva, retornando a vida pregressa, mostrando-o como vive atualmente e, algumas, vezes, prevendo o seu futuro. Conclui-se, assim, que a reunião não era propriamente social mas de mazelas sociais. Daí o desfilar de homossexualismo, de interesses inconfessáveis e de ladrões confessos, de rameiras de luxo. Suprimindo-se o aparato técnico, sobra de O Rebu apenas um crime que, propositadamente, se complica a sua solução, para que sejam justificadas as dezenas de capítulos que o espectador viciado em novelas tem que engolir.

Devo convir, em favor de O Rebu, que certos crimes se perdem em duas ou três linhas do noticiário policial, enquanto outros, inexplicavelmente, ganham foros de grandes acontecimentos. Agora mesmo, estamos assistindo a uma novela real vivida por uma moça de cabelos lambidos e lábios grossos, cuja participação em um ou dois assassinatos se tornou o assunto de todas as rodas. A moça, que já apareceu até em capas de revistas e que não se duvide venha a tomar-se estrela de cinema, teria matado dois dos seus namorados. O crime - ou os crimes - promete repetir a notoriedade e a eterna dúvida do crime do Sacopã, com depoimentos controvertidos, testemunhas que surgem. extemporaneamente e advogados que se mimoseiam mutuamente em entrevistas à televisão.

A TV Rio, através do seu Departamento de Telejornalismo, tem dado banhos de informações e de furos sobre os crimes. A Globo, por sua vez, não fica muito atrás. O seu Jornal Nacional, de alguns dias para cá, passou a ter como fecho de ouro as novidades que vão surgindo, no apurar das ocorrências. Quem matou Almir? Quem matou Vantuil? E eu pergunto: quantos crimes já foram cometidos nesta capital do Estado do Rio de Janeiro, sobre os quais se colocou um silêncio mais pesado do que o Pão de Açúcar ou não mereceram tantas especulações? Lembram-se do outro Almir, o jogador de futebol?

O fenômeno, eu sei, desafia explicações. Mas devo convir também, agora desfavor de O Rebu de Bráulio Pedroso, que o rebu de Maria de Lourdes, a Lou dos seus infortunados noivos - vá lá que o tenham sido - se apresenta muito mais interessante e muito mais dinâmico.

1974 - O Rebu e seus Mistérios

Amiga TV
Data de Publicação: 18/12/1974
Autor: Luzia Elisa de Sales
BRÁULIO: PLANOS PARA RENOVAR

Autor de Beto Rockfeller, O Cafona e vários Casos Especiais, Bráulio Pedroso é considerado um grande inovador de textos para televisão. Agora, com O Rebu, ele aparece novamente reformulando, mostrando "a realidade do ser humano em três planos": o real, o subjetivo e o flashback. O real mostra o desenrolar das diligências do delegado (Édson França) para descobrir o criminoso. O subjetivo despe os personagens, mostrando-os como são na realidade. E o flashback focaliza fatos ocorridos e que são de grande importância na elucidação do crime. Para Bráulio, "não existe um fato estanque na novela. A realidade se funde no passado, no presente e no futuro. Toda pessoa sofre Influência do seu passado, do seu psiquismo e do que Isto representa para seu futuro. Daí eu ter usado este recurso, que é novo em se tratando de novela".

Bráulio fala de todos os seus personagens com igual entusiasmo, porque se acostumou a viver com eles. "Não posso destacar um isoladamente. Bons ou maus, eu os criei e sendo assim gosto de todos indistintamente."

Desde o início da novela todos perguntam a Bráulio: Quem morreu? Quem matou? Ele dá uma dica: "Não é difícil descobrir o assassino. Quem está atento ao desenrolar da novela, Já começou a deduzir, por eliminação, os que têm interesses em Jogo. Um deles é o assassino. A vítima não vai demorar a ser apontada."

1974 - O Rebu e o Garoto de Programa

Amiga TV
Data de Publicação: 11/12/1974
Autor: Arnaldo Risemberg
ZIEMBINSKI: MISTÉRIO NO REBU

Ele acha que Conrad Mahler, seu personagem na novela de Bráulio Pedroso, é extremamente complexo e ignora a personalidade de Cauê, o jovem que adotou, e para quem pretende deixar toda sua fortuna.

Para Ziembinski, não tem personagem mais importante que o seu dentro de O Rebu. ''A meu ver, a figura de Mahler é de grande importância para o desenrolar da novela.'' Sete meses depois de O Semideus, Ziembinski, diretor da Divisão de Novelas da TV Globo, volta às novelas, vivendo Conrad Mahler, o anfitrião da festa onde acontece o rebu da descoberta de um cadáver.

''Sem levar em conta o fato de ser o dono da festa, Mahler é um personagem extremamente complexo. Descendente de uma respeitável família européia, Mahler envolveu-se, durante sua juventude, num conflito amoroso que resultou na morte de seu melhor amigo, durante um duelo provocado por ele próprio. Depois de inúmeros atropelos e dificuldades, tendo que fugir de seu país devido ao crime que havia cometido, pois lá o duelo era considerado ilegal, Mahler veio parar no Rio, praticamente sem meios de subsistência, pois, com vinte e poucos anos, não tinha nenhuma profissão definida. As únicas coisas que contavam a seu favor eram a refinada educação para um rapaz de sua idade, o traquejo social, o conhecimento de alguns idiomas, sua força de vontade e o enorme desejo de vencer na vida, custasse o que custasse. Nessas condições, o jovem Mahler se fez adulto, comendo o pão que o diabo amassou e tentando, de qualquer maneira, agarrar-se às suas pretensões. Com muita força interior e a recusa em entregar-se, Mahler conseguiu, através de todos os meios, nem sempre muito honrosos, ganhar meios para a sua subsistência e, mais tarde, tornar-se extremamente poderoso. Solitário, afastado da vida social e descrente da humanidade, Mahler se angustia com a própria solidão, ao mesmo tempo em que constata o poder improdutivo de sua fortuna. Perdido entre as paredes de sua mansão, o único consolo que encontra é na companhia do jovem Cauê, a quem mais tarde pretende entregar toda a sua fortuna. Essa esperança preenche a vida de Mahler e faz-lhe parecer diferentes os momentos da vida de casa. Mesmo assim, ele ignora a personalidade daquele a quem resolveu dedicar sua vida. Será que a velhice de Mahler vai correr sossegada? Será que Cauê pensa da mesma forma que seu tutor ou visa a outras coisas?"

1974 - Analisando O Rebu

Amiga TV
Data de Publicação: 11/12/1974
Autor: Artur da Távola
AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE O REBU

Já dá para as primeiras impressões de O Rebu. Há um mês no ar, adquiriu as linhas gerais de sua caminhada. Desde logo ressalta o fato comum às novelas de Bráulio Pedroso: a inquietação do autor, sempre em conflito com fórmulas já consagradas e estabilizadas.

Bráulio paga e pagará, sempre, o preço dos renovadores: a incompreensão e a resistência, além, é claro, do risco de colocar o carro adiante dos bois, ou seja, fazer coisas muito bacanas mas um pouco adiante da possibilidade de assimilação pelo grande público, como ocorreu em O Bofe, por exemplo. A exata conta entre a renovação possível e desejável e a capacidade de se comunicar com faixas indiscriminadas de público, eis o desafio com que se defronta.

Nas primeiras semanas de O Rebu, parte do público acostumado à estrutura linear de novelas presididas por uma lógica simples e personagens bem definidos, andou assustando a muita gente. Além da complexidade dos personagens havia o fato de o autor trabalhar com três tempos bem distintos: a noite da festa; o dia seguinte quando o crime já houve e a polícia investiga; e o terceiro tempo, o mais complexo, aquele que se refere ao passado dos personagens.

Mas esse susto e a resistência de parte do público desacostumado a algo que o retire da digestiva passividade, pouco a pouco foram cedendo ao interesse motivado pelo mistério e pela boa narrativa, no melhor estilo do gênero policial. Eu diria: é uma novela policial-existencial. A prova dessa aceitação está nos índices de audiência conseguidos no Rio, aí pela casa dos 40 pontos, ótimo para o horário.

Um dos fatores desse êxito, seguramente, foi a direção de Avancini, nos capítulos iniciais, dando o tom e o clima da obra. O tratamento dos personagens, as roupas, o ritmo, a linguagem visual e a atmosfera tensa e carregada, conseguida logo aos primeiros capítulos por Avancini, mostraram que estaríamos frente a uma novela com climas interiores totalmente diferentes da grande média do gênero.

Não conseguiu, nem poderia ter conseguido, nas três primeiras semanas, um pleno aproveitamento dos atores. É cedo ainda. Bete Mendes custou a entrar em todo o mistério de seu personagem (vai entrar breve e precisa aprender a falar fechando os lábios. Está falando sem tocar o lábio de cima no de baixo, o que é uma proeza, mas empobrece a clareza e a expressão); Mauro Mendonça ainda não mostrou grandes variações de sua interpretação anterior; Buza Ferraz (Cauê) vai muito longe, pois é expressivo e tem talento, mas ainda está inseguro e fazendo caretas; Rodrigo Santiago, o Quico, é até agora a grande revelação de ator Jovem; igualmente o Édson França ainda não recebeu as instruções devidas sobre o personagem e vacila entre ser o Édson França ou ser o detetive. Já os monstros sagrados estão dando um baile de interpretação, particularmente Ziembinsky, Teresa Raquel, sensacional e muitos furos acima e além do personagem, e a belíssima Isabel Ribeiro, grande e densa atriz, a maior aquisição de nossa TV em 74. Isabel Teresa igualmente muito bem e é claro o naturalmente tenso e conflitivo Carlos Vereza. Com grande alegria estou vendo Maria Cláudia, agora sim contida, sem fazer a cara da frase, compondo muito mais o personagem que cada cena onde ele aparece. Progresso. Não poderia deixar de aludir á dupla Lima Duarte e Iara Cortes. Excelentes. Se o Lima anda receoso de acharem que ele está repetindo o Zeca Diabo, pode perder o receio. Não está. Já entrou no Boneco e agora é desenvolvê-lo com o talento que Deus lhe deu. Já Iara Cortes, ótima atriz, está tendo uma oportunidade que nunca a TV lhe deu. Vai aproveitá-la, pois cancha e talento não falham quando encontram um bom personagem.

E isso aí. A novela agora está sob a direção de Jardel Melo. Pessoalmente, acho um erro da Globo isso de ficar trocando de diretores, sem deixar nenhum deles realizar sua obra. O Avancini começa, entrega a outro, depois volta, depois pega a novela nova e assim por diante. Esse troca-troca não tem dado bons resultados. Independente disso, tudo me leva a confiar em Jardel Melo, a julgar pelo que é como ator (Seu Machado, de O Espigão) e pelo que já fez em televisão, principalmente em São Paulo.

1974 - A Narrativa Diferente de O Rebu

O Globo
Data de Publicação: 21/11/1974
Autor: Artur da Távola
UM REBU EM TRÊS TEMPOS

O que está parecendo a muitos complicado, ou, de fato, dificulta o entendimento de telespectadores, super acostumados com estórias narradas linearmente é a concomitância de três tem os em O Rebu.

Nela só há uma atualidade: a cena que está sendo mostrada naquele instante, Ela é atual para o telespectador. Para os personagens a ação se desenvolve: 1) na noite da festa em que houve o crime; 2) no dia seguinte ao crime, cenas em que aparecem o detetive e algumas figuras da casa e; 3) cenas ocorridas no passado recente ou distante de cada personagem. Aqui a coisa se torna um tanto mais complexa pois este passado é relacionado sem grande preocupação cronológica. O público - de propósito - fica sem saber quando, na vida de cada personagem, ocorreram aquelas transações mostradas, aquelas situações vividas.

Mas o mais interessante é que nas cenas da noite da festa, à medida em que os personagens vão se cruzando, descobrem-se novas e secretas relações entre eles, através dos diálogos, e aqui também uma certa forma de passado não visualizado também ocorre. O mesmo se dá quando o velho Mahler, no dia seguinte, vê as fotos com acontecimentos que ninguém viu.

Vai mais longe o Bráulio Pedroso. Sempre que a ação volta à noite da festa, a cena anteriormente interrompida aparece de novo em seu diálogo final, só que aí com a câmara tornando os interlocutores por outro ângulo.

Essa é uma boa! Um diálogo tenso e íntimo (como todos até agora) entre duas pessoas, mostrando no vídeo como vivido na realidade é sempre algo em close, vale dizer, os dois participantes, próximos um do outro, funcionam como se nada mais houvesse em volta. Só eles no vídeo. Ocorre que aquele diálogo, se visto por uma terceira pessoa um pouco mais de longe, ganha um ângulo diferente de enfoque. Quando a câmara sai dos dois dialogantes e mostra, em outro ângulo o finzinho do diálogo anterior, ela parece sugerir a presença de uma terceira pessoa ali representada por ela, subjetivada, isto é. uma câmara espreitando, sempre sugere alguém olhando, situação que é diferente de quando ela mostra ao telespectador uma determinada situação. Sim, uma câmera em cinema ou tevê pode ser a primeira pessoa, a segunda ou a terceira, já pensaram nisso? Parem a leitura e, pensem um pouco no assunto, que muita coisa da linguagem do cinema é da tevê vai ficar clara,

Enfim, pode ser que a novela esteja simples e minhas explicações que sejam complicadas, pois é muito difícil colocar em palavras situações visuais, particularmente as que eliminam o conceito de tempo real aparente das cenas.

O Rebu é uma novela sem presente. Com efeito, qual é o presente? Que está acontecendo, "agora"? A festa? O detetive? Ou o passado dos personagens? Todos, meu irmão. Esta eliminação do dado presente conota de irrealidade as situações e colabora para o clima de mistério, magia e tensão que vem cercando esta novela. A propósito: o presente existe? E o passado? Não é tudo a mesma coisa?

Ora, todos esses elementos não são habitualmente levados ao telespectador. Este, acostumado a macias mastigações de situações para sua simples, passiva e fruidora digestão, desacostumou-se de ser mobilizado para participar de maneira mais ativa de uma obra.

Ao topar com uma novela que, ademais, atrai pelo mistério e pelo bom desempenho de um elenco de primeira qualidade, o telespectador tende a rechaçar o esforço. Mas uma coerção forte, conduzida pelo quebra-cabeças desafiante da estória, o impele para ela. Nessa incômoda, mas rica fricção, altamente dinâmica e mobilizadora, ele se assusta e ameaça afastar de si o que o inquieta dizendo-o muito complicado. Mas esse é o risco corrido por Bráulio. Inovar sem risco não existe,. Vencida a parada, o sucesso virá. Perdida, valeu a sadia sacudida.

Acresça-se o fato de que quem não tem televisor a cores (a maioria), não pode distinguir com tanta facilidade as mudanças de tempo e as alterações narrativas da obra.

Pois é exatamente tudo isso que faz O Rebu alterar o marasmo digestivo do gênero. Ao mobilizar o telespectador e jogá-lo dentro da trama, a obra de Bráulio Pedroso ganha força e tensão, transferindo para a tevê técnicas estimuladoras, de sua participação, oriundas do teatro e cinema. Vamos ver no que vai dar. Eu estou achando ótimo, pois é para a frente que se anda.

1974 - A Inovação de O Rebu

O Globo
Data de Publicação: 20/11/1974
Autor: Artur da Távola
ACHAS O REBU COMPLICADO?

Eu não disse outro dia daqui, que novela do Bráulio Pedroso sempre inova algo? Pois agora é um tal de malandro chegar para o mestre aqui e dizer: "Mestre, como está a audiência de "O Rebu"? Acho que a moçada não vai entender. Minha empregada..." e tome Ibofe, que, como vimos há dias, é o Instituto Brasileiro de Opinião dos Familiares Entendidos".

Acompanhando as pesquisas dá para ver que o índice médio de 40 e poucos pontos é bastante alto para o horário das dez da noite, apesar da aludida dificuldade para entender os três tempos nos quais se desenvolve a obra. Se o Ibofe assusta, o Ibope acalma. Mas, não estará "O Rebu'' um tanto complicado?

A propósito de audiência, está acontecendo uma coisa, desde que a Globo há uns três anos partiu para a efetiva melhoria do nível médio de sua programação, que funde a cuca mesmo dos mais experimentados homens de televisão. Esta coisa é a resposta do público cada vez maior ao melhor nível dos programas.

Um caso ocorrido com o "Globo Repórter" é muito expressivo. Quando o baixaram (subiram) para o horário nobre das nove da noite, numa cautela mais que justa, começaram o programa com temas bem populares e acessíveis como aquela série sobre Hollywood, Clark Gable, etc. O resultado foi bom. Aí num certo dia, meio temerosos da experiência, os caras tacaram aquele programa sobre a evolução dá bicho homem, um programa mais complexo e com menos atrativos aparentes. Pois foi o pique do "Globo Repórter" até hoje.

É a tal história: fórmulas há muito consagradas acabam entrando em entropia e provocando resistências. Eu me pergunto: a fórmula do novelão clássico com começo, meio e fim, com coerência formal, com o clima de "naturalidade" das coisas, com esquemas e ganchos não terá, ela sim, cansado o público? Cansado não digo, pois o público eternamente amará o folhetim. Mas não terá despertado o desejo de ver outras formas de expressão?

Em qualquer gênero televisivo ou artístico, ocorre uma paridade com um fenômeno da órbita da comunicação, que eu chamo de correntes culturais ascendentes.

Tendências, reações, mudanças, alterações, volta de antigos preceitos ultrapassados, mas não mortos etc., após longa ou curta hibernação, mercê da dominação de outras formas de pensar, agir e sentir, um belo dia e desprendem das profundezas do inconsciente individual e/ou coletivo e, lenta ou rapidamente, conforme o caso, iniciam seu processo de emersão.

É como algo amarrado no fundo do mar. Quanto maior seu peso e a profundidade, mais rápido e forte vem à tona ao se soltar das amarras. Essas tendências inconscientes, quando cristalizadas numa forma adequada, logo reveladas ao público, ganham sua adesão, pois nele já pulsavam em forma larvar. "Fantástico" pode ser um exemplo disso. ''Os Ossos do Barão", outro. Há inúmeros.

Elas explicam o porquê do sucesso de tanta coisa inesperada pelos realistas. Realista é o que usa hoje a verdade de ontem. Idealista é o que quer usar hoje a verdade de amanhã. Como se chamará aquele camarada que resolver usar hoje a verdade de hoje, um hoje difícil de ser entendido tanto pelos realistas quanto pelos idealistas? Pois a verdade de hoje é a que cristaliza as correntes culturais ascendentes.

Assim deve ocorrer com "O Rebu". Ele está sacudindo as fórmulas tradicionais da novela e usando, a nível de massas, um expediente, expressivo, antes apenas possível no cinema ou no teatro de arte, coisa ao alcance de elites culturais minoritárias e seletivas. Estará operando na faixa de uma corrente cultural ascendente em fase de cristalização na sensibilidade da massa telespectadora? O tempo dirá.

Falei, falei, falei. Teorizei, dispersei, me exibi, mas não falei do "Rebu". Estou dispersivo hoje. Perdão. Amanhã volto ao assunto.

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