Saturday, December 20, 2014

1990 - A Sobrevida das Chacretes

O Globo
Data de Publicação: 22/7/1990
Autor: Luis Carlos Lourenço
BRILHO DAS CHACRETES AINDA NÃO SE APAGOU

Dois anos depois da morte de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, apesar de afastadas do brilho dos refletores da TV Globo, a maior parte das chacretes não caiu no anonimato e ainda é requisitada para fazer shows em outros Estados e no Interior. Elas fizeram surgir mais um verbete no Novo Dicionário Aurélio, foram imitadas em outros programas de auditório e hoje, órfãs do "painho", "veio" ou "guerreiro", como chamavam o animador, são unânimes em atribuir a Chacrinha a notoriedade que conseguiram.

Quase todas as chacretes ainda estão na faixa de 22 a 30 anos e se beneficiam dos rostos bonitos e corpos bem modelados que possuem. Fazendo questão de preservar os nomes artísticos ou apelidos com os quais se tornaram conhecidas, elas ainda são reconhecidas na rua, abordadas com pedidos de autógrafos e recebem cartas e bilhetes com declarações de amor de fãs ardorosos. Na TV Globo chegam envelopes endereçados a Esther Bem-Me-Quer, Cristina Azul, Regina Polivalente, Valéria Mon Amour, Fátima Boa Viagem, Rita Cadillac, Luciana Ti-Ti-Ti, Gleice Maravilha, Sandrinha Radical, Rosane da Camiseta, Gracinha Copacabana e Erica Selvagem. Esses nomes foram criados por Chacrinha, que buscava no rosto, nas origens ou no modo de vestir ou dançar o apelido mais adequado a cada chacrete.

Maria Esther Antunes Straube, carioca de 29 anos, a Esther Bem-Me-Quer, foi a única chacrete que ficou diretamente ligada à família de Chacrinha, porque foi trabalhar com Na-nato (Renato) Barbosa, um dos filhos do animador, nos programas "Cassino do Chacrinha' e "Discoteca do Chacrinha" que ele apresenta nas Rádios Nacional e Roquete Pinto: - Até hoje não me conformo com a morte do Chacrinha, uma pessoa admirável, a quem devo tudo o que conquistei até hoje. Apesar de o programa na televisão ter tido um fim com a morte do Velho Guerreiro, o show deve continuar. E continuamos lutando, ainda sobrevivendo graças a esse legado que ele nos deixou.

Nanato fala com carinho das chacretes:

- Elas sempre foram uma peça fundamental de apoio nas apresentações do velho. Muitas ficaram meio desarvoradas com sua morte, mas depois cada uma seguiu seu caminho, quase sempre dentro do cenário artístico. A Rita Cadillac, por exemplo, uma das mais antigas, virou cantora e estrela de cinema e está muito bem em São Paulo. Outra, a Valéria Mon Amour, casou com um italiano e trabalha como modelo em Roma. Muitas já cuidavam de suas vidas e estavam se preparando para uma eventualidade, fazendo cursos de Letras e Educação Física ou realizando trabalhos paralelos como modelo e manequim. Até hoje, a fama como chacretes permite que elas sejam contratadas para apresentações em festas regionais, clubes, ginásios, convenções e feiras por todo o País. Elas ainda são lembradas pelo público com muito carinho. A Esther Bem-Me-Quer é que continuou conosco. Ela divide o espaço comigo nas rádios contando as fofocas dos bastidores do mundo artístico.

As chacretes surgiram em meados dos anos 60, segundo José Aurélio Barbosa, o Leleco, outro dos três filhos de Chacrinha. No início, o animador enfrentou vários problemas com a censura, que não se conformava com os requebros sensuais e os ousados figurinos das dançarinas. Mesmo assim, ser bailarina do Chacrinha foi, durante muito tempo, o sonho dourado de muitas adolescentes. Muitas belas moças passaram a atuar como chacretes depois de se destacarem no concurso que escolhia, no programa, a mais bela estudante.

A disciplina rígida imposta às chacretes também era uma das características do programa do animador. Gracinha Copacabana recorda que o Velho Guerreiro era muito exigente e não permitia que ninguém chegasse perto das garotas:

- Os namorados ficavam proibidos de buscar ou levar as meninas e quando nós viajávamos não podíamos tomar nem banho de piscina nos hotéis. Havia um regulamento rígido e muitas coisas eram proibidas, como aceitar convites, entrar em carro de estranhos e "badalar" durante as viagens. Quando o show era fora do Rio ficávamos no hotel e só saíamos para a apresentação. Não podia haver qualquer excesso.

Sônia Cristina Matos dos Santos, de 24 anos, é uma bela loura que atua no show "Golden Brazil", mas é com o apelido de chacrete, Cristina Azul, que é conhecida no meio artístico e pelos fãs. Ela conta os rumos que sua vida tomou, após a morte do animador: - No princípio fiquei chocada, sem rumo, mas logo vi que a minha vida tinha que continuar. Fui para o show do Scala e passei a dar maior: tempo à casa, ao meu marido e agora ao meu filho Giuseppe, que está com sete meses. Ainda aparecem shows para chacretes em cidades do Interior, mas nem sempre a gente pode viajar, em função dos compromissos artísticos aqui no Rio.

Cristina diz que não acredita mais que o programa do Cassino possa ser remontado, com um substituto:

- Cheguei a pensar que o programa continuaria na Globo, com a mesma estrutura e tendo o Leleco, filho do Chacrinha, como principal animador. Um projeto foi apresentado nesse sentido mas depois todo mundo viu que ele era insubstituível. Poderiam até imitá-lo, mas nada seria igual ao que ele fazia. Ele era imprevisível. Tinha certeza do que fazia, do ritmo que deveria dar ao programa de televisão ou numa apresentação pública. Fazia tudo no tom certo, na medida exata. Ninguém poderia fazer o que ele fazia.

Regina Polivalente diz que ela e muitas colegas devem a Chacrinha os convites que ainda recebem para apresentações como chacretes:

- Ainda no mês passado estivemos por dez dias em Quirinópolis, em Goiás. numa grande feira agropecuária. Fomos levadas a convite da Márcia Gabrielle, ex-Miss Brasil, e foi um grande sucesso. As chacretes foram se apresentando em conjunto e depois em atuações individuais, fazendo solos de dança, como no programa do Chacrinha. Quando o programa acabou, fui dar aulas de ginástica na Academia do Rômulo Arantes, mas agora estou juntando dinheiro para montar minha própria academia. Reconheço que devo muito ao Chacrinha, que apesar de muito exigente e rigoroso com sua equipe sempre incentivou as garotas para que pensassem em outras opções de vida, além das apresentações na televisão. Parece que ele estava se preocupando com o nosso futuro, caso ele faltasse. Segui o que ele me ensinou e está dando certo.

1988 - R.I.P. Chacrinha

O Globo
Data de Publicação: 2/7/1988

O DESCANSO DO VELHO GUERREIRO

A morte de Chacrinha sacudiu o Brasil. O corpo ficou desde as 5h25m de ontem no prédio da Câmara dos Vereadores, onde foi velado por milhares de artistas e populares. Alguns deles, como o comerciário Altair Lopes Rodrigues - que foi calouro no programa de TV - não agüentaram a emoção e desmaiaram.

As chacretes, todas vestidas de preto, choravam muito. Uma delas chegou a dizer. "Para nós, acabou tudo, não há mais nada". O cortejo começou às 15h e houve um princípio de tumulto. Foi pedido um reforço no policiamento. O caixão saiu do local carrega do, entre outros, pelo humorista João Kleber - substituto de Chacrinha nos últimos programas - que pediu aplausos para o Velho Guerreiro.

Em todos os cantos do País, artistas manifestaram pesar pela morte de Abelardo Barbosa, o animador mais carismático da televisão brasileira. Roberto Carlos disse que Chacrinha era como um pai para ele. Erasmo Carlos afirmou nunca ter conhecido alguém como Chacrinha. Chico Anysio acha que ele o ensinou a maior lição de sua vida: o trabalho é a melhor terapia. O roqueiro Lobão se disse "baqueado" pela morte de Chacrinha. Gilberto Gil, que compôs "Aquele abraço" em homenagem a ele, lembrou que sua linguagem popular acabou sendo respeitada pelos intelectuais, e Eduardo Dusek comparou a importância do apresentador à de Tarsila do Amaral, Glauber Rocha, Caetano Veloso e Carmem Miranda.

O ADEUS DOS CARIOCAS

Às 15h56m de ontem, Chacrinha foi enterrado na sepultura 3511-A da quadra 2 do Cemitério São João Batista, onde estão também sepultados sua mãe e o neto Jorginho. Milhares de cariocas foram ao saguão da Câmara dos Vereadores, onde foi velado o Velho Guerreiro. O esquife e a família chegaram cerca das 5h da madrugada e, das 6h30m, quando foi aberta a visitação, até as 15h, quando o prédio foi interditado ao público para a saída do cortejo, a extensa fila que começava diante do Teatro Municipal e cruzava a Praça Marechal Floriano moveu-se sem cessar em direção à brecha no cordão de isolamento que permitia a passagem de apenas uma pessoa. Durante a manhã os visitantes organizaram-se espontaneamente, sem dar muito trabalho aos 220 homens de quatro batalhões da PM (1º, 5º, 6º e 16º) e aos 120 seguranças (80 da Câmara e 40 da TV Globo) que guardavam o interior e as imediações. A medida que se aproximava a hora da saída do corpo, porem, a multidão começou impacientar-se, temendo não conseguir entrar. E, a partir das 13h30m, houve tentativas de invasão e muito empurra-empurra.

Mais de 50 coroas ocupavam todo o espaço disponível do saguão da Câmara Municipal. Junto as três encomendadas pela própria família (esposa, filhos e parentes), estavam as enviadas pelo Presidente Sarney e Dona Marly e por Sarney Filho. Rede Globo, Som Livre e "Jornal da Globo", Boni e o Dr. Roberto Marinho assinavam as faixas de outras coroas. Gal Costa, Lecy Brandão, Fafã de Belém, Wando, Joana, escolas de samba Mangueira, Portela, Império Serrano e Unidos de Vila Isabel, Rádio Nacional, Governo do Maranhão, Vasco da Gama, Café Lamas e a Socimpro eram outros remetentes. "Você é meu ídolo. Obrigada pelos ensinamentos e exemplo de vida - Xuxa Meneghel", lia-se em uma delas.

Os visitantes anônimos e os repórteres não podiam acercar-se do caixão, guardado pela PM e pelo cordão de isolamento que isolava um raio de cerca de 2 metros ao redor, ainda só tinham acesso parentes e amigos. Os que se decepcionavam por não poder ver o rosto do morto, consolavam-se olhando demoradamente ao redor, em busca de celebridades. Em vão. O cantor e compositor Roberto Carlos acompanhado da atriz Míriam Rios, por exemplo, foram à casa de Chacrinha na Barra, por volta das 2h30m. Muito emocionado e os olhos vermelhos de chorar disse:

- Ele era meu amigo. Era como se fosse o meu pai. Foi o responsável por meu lançamento. Eu o conheci na TV Tupi apresentado por Carlos Imperial. Chacrinha teve grande participação para a gravação do meu primeiro disco. E, emocionado desabafou: - Não irei ao sepultamento de meu amigo, para evitar tumulto. Mas meu coração estará junto com ele.

Na Câmara, durante o velório, a maioria das personalidades entrava pelo portão lateral, onde estavam Dona Florinda, os filhos Leleco e Jorge, as noras Maninha e Lilian, a neta mais velha, Andréa e sua mãe Verônica, ex-mulher de Jorge e os demais parentes. O filho José Renato passou a manhã em casa, à espera da ex-mulher Wanderleia, que veio de São Paulo. As 13h15m, ambos entraram pela porta lateral e, dez minutos depois, em companhia da cantora, toda a família, inclusive a viúva, saiu da sala e rodeou o caixão. De blazer e saia pretos, chorando muito, Wanderleia recusou a proteção do segurança que queria afastar os repórteres e os atendeu: "Pode deixar, eu falo. Mas falar o que? E um pedaço da minha vida, da minha história e da vida e da história de vocês também, do Brasil todo. O Chacrinha não é aquele corpo que está ali; é um sentimento que vai permanecer vivo em nossos corações".

Também de preto e fortemente maquiada como de costume, com muito rímel, Dercy Gonçalves, depois de cumprimentar a viúva, foi despedir-se do amigo há 40 anos e falou bastante para os microfones e gravadores estendidos em sua direção:

- Ele era muito parecido comigo. Tão condenado e tão amado como eu. Felizmente pôde trabalhar até pouco antes de morrer e teve morte tranqüila, sem muito sofrimento. E o que também quero ter, mas vocês vão ter de esperar muito para fazer reportagem do meu enterro. Tenho 81 anos e garanto que sobrevivo a vocês todos - disse aos interlocutores, cuja média de idade não passava muito dos 25 anos.

Todas de preto e olhos inchados, as chacretes, sempre em grupo, circulavam pelo salão. A deputada federal Benedita da Silva, do PT, era uma das poucas representantes da Constituinte presentes. Flávio Cavalcanti Filho, o compositor Dunga, Ademilde Fonseca, Terezinha Sodré e Carlos Alberto e o empresário Chico Recarey foram, entre os presentes ao velório, dos poucos que circularam na área aberta ao público.

A DOR DOS AMIGOS

"Trabalhei com o Chacrinha desde os tempos do rádio, em Niterói. Depois voltamos a trabalhar juntos em várias TVs, como a Excelsior, a Rio, a Tupi e a Globo. Para mim, ele contraria a tese de que ninguém é insubstituível. Ele é insubstituível. Como Dercy, Chacrinha criou um estilo de animação e interpretação que foi seguido e imitado por muitos, mas ninguém consegue substitui-to, em nenhuma hipótese. Eu acabei de chegar de seu velório e guardo ainda sua maior lição de vida: a de que o trabalho é a melhor terapia". Chico Anísio, 57 anos, humorista.

"O maior nome da comunicação não existe mais. Ninguém conseguiu, até agora, fazer uma frase como a máxima do Chacrinha: 'quem não se comunica se trumbica'. Tenho muitas lembranças dele, inclusive a daquela vez em que ganhei, em seu programa, um aparelho de TV. Elizeth Cardoso, 68 anos, cantora.

"Sempre achei Chacrinha bárbaro, desde muito antes dele ser reconhecido e valorizado pela elite. Ele criou um ritmo inconfundível de comunicação. Chacrinha era uma verdadeira revolução, uma fórmula sensacional. Acho que, na verdade, era um santo que 'baixava' nele, diante das câmeras". Perfeito Fortuna, 38 anos, animador cultural do Circo Voador.

"Fiquei dez anos sem ir ao programa, do Chacrinha depois que uma vez, na época dos Secos e Molhados, apareci com o grupo e não gostei muito da repercussão do nosso show. Mas Chacrinha não teve nada a ver com a história e nós dois resolvemos acabar com esta história de ressentimento. Foi ótimo, porque ir ao Chacrinha sempre foi muito bom para qualquer artista: era o acesso direto ao povão. Eu não estou triste, não acredito em morte como um fim - senão a vida não teria sentido. Não sinto como perda, acho que deveríamos olhar sob outro ponto de vista e acreditar que Chacrinha cumpriu seu tempo e está em outro, muito melhor". Ney Matogrosso, 40 anos, cantor.

"Chacrinha é um dos brasileiros mais típicos e autênticos que eu conheci. Um verdadeiro tropicalista, tão importante na cultura visual quanto na comunicativa. Tão importante quanto uma Carmem Miranda, um Caetano Veloso, um Glauber Rocha, uma Tarsila. Além disso, era uma grande pessoa, ao mesmo tempo doce e de opinião firme, com senso critico apuradíssimo. Um gênio". Eduardo Dusek, 33 anos, cantor.

"Desde que eu nasci eu curto o Chacrinha. Para mim, elo é um tipo unique. Vários grupos do mundo inteiro o imitam, ele era uma pessoa doce, louca, e particularmente sempre me apoiou nas horas mais duras. Sou muito grato a ele e me sinto totalmente baqueado com a notícia de sua morte". Lobão, 30 anos, cantor.

"Ele foi muito mais do que um humorista: é o retrato 3 X 4 do Brasil. Para mim, com sua morte nós enfrentamos a perda de dois grandes ídolos: Oscarito e Chacrinha. Eu sempre tive paixão por ele e por isso sempre o imitei tanto: só imito quem eu conheço e gosto. Sou um grande aluno do Chacrinha." Agildo Ribeiro, 56 anos, humorista.

PARA INTELECTUAIS, GÊNIO DA BREGUICE

Jamais a televisão conseguiu realizar aliança tão perfeita entre contrários, personificada nas roupas ou na mis-en-scène do guerreiro, como no programa do Chacrinha. Do rádio para a TV, o Cassino trouxe elementos essenciais - o auditório, o corpo de jurados, o calouro tripudiado mas feliz - mas sobretudo encontrou a solução de compromisso entre classes e culturas diferentes: a urbana e a interiorana não industrializada. Como analisa o diretor da Escola de Comunicação da UFRJ, Muniz Sodré, Chacrinha foi o melhor representante da chamada estética do grotesco.

Quem gostava do Chacrinha? De início todos - exceto os intelectuais. O povão lotava os auditórios e os imigrantes, que em 1970 formavam a massa dos 70 por cento possuidores de aparelhos de TV, em seu programa encontravam a cultura que, na cidade grande, só existia como memória e expectativa. As brincadeiras podiam ser grosseiras, lembra Muniz; Sodré, mas as pessoas riam muito. Assistindo ao programa ou participando dele no auditório, elas se sentiam como, nas feiras do interior do país - em que se premiava com um bacalhau quem trouxesse o menor canivete ou maior galhinha.

Foi aí que a cultura de elite começou a fazer do programa do Chacrinha uma de sua grandes curtições. Intelectuais escreveram a seu respeito, como o psicanalista Chaim, Katz e o próprio Muniz Sodré, que em seu livro "A comunicação do grotesco", lançado em 1871, elogia o guerreiro em capítulo. Os Novos Baianos passaram a ser assíduos em seu programa e Gilberto Gil fez uma música em sua homenagem.

Chacrinha atraiu intelectuais sobretudo por seu espirito tropicalista. Com as próprias roupas, misturando calça de executivo a gravatas de palhaço, e circulando em cenário tão avançado, em frente às câmeras de TV, ele cumpria o que o tropicalismo inventou como teoria: a estética da colagem, o País como mosaico. Para Eduardo Neiva, diretor do departamento de Comunicação da PUC do Rio, Chacrinha encarnou o projeto de recuperação da identidade brasileira que nos anos 60 encantou Brasil. Na opinião do escritor Afonso Romano Santana, ele interpretou a figura do bobo da corte na televisão.

1988 - Adeus, Chacrinha!

O Globo
Data de Publicação: 2/7/1988

ONTEM, FESTAS DA TEREZINHA

Não apenas o comunicador genial, um louco apaixonado pelo que fazia, infatigável perfeccionista, o homem que cunhou uma frase inesquecível: "Quem não comunica se trumbica". Para além de tudo isso, ultrapassando o personagem que criou, Chacrinha se tornou símbolo de um Brasil assumidamente kitsch e carnavalizado, a desafiar dificuldades e crises com a espontaneidade de uma alegria irreverente. Esse Brasil que ele encarnou com suas buzinadas e alôs, chamando Teresinha ou distribuindo bacalhau, bananas, biscoitinhos, figura sem sexo nem idade, que se vestia de noiva ou de cowboy, de Batman ou de palhaço.

José Abelardo Barbosa de Medeiros, o "Velho guerreiro", nasceu no Nordeste: "Eu sou nordestino e, sem querer desfazer de ninguém, todo o Nordeste é muito tropicalista". Foi em 20 de janeiro de 1916, no agreste pernambucano, em Surubim, de onde logo se mudaria para Campina Grande, com a família e, mais tarde, para Recife. Estudou interno no Colégio Marista São José e nas férias, trabalhava como decorador e vitrinista na loja de tecidos de seu pai.

A carreira artística, que se estendeu por longos 42 anos, começou em Recife, quando conheceu o Bando Acadêmico, conjunto de jazz que animava as festas da cidade e passou a integrá-lo como percussionista e eventual baterista. O rádio veio em seguida, num período em que já cursava a Faculdade de Medicina. Certa vez, ainda enfaixado em consequência de uma operação de apendicite supurado que o fez perder as provas, Chacrinha foi à Rádio Clube de Pernambuco e lá soube que estavam procurando músicos para tocar durante a viagem do navio Bagé para a Alemanha. Não teve dúvidas: chamou um amigo e os dois foram juntos, em 1939, sem se importar com a guerra.

Na volta - "Cheguei ileso, liso e louco", contou - aborrecido por ter de repetir o ano, decidiu vir para o Rio e aqui se matriculou na Faculdade de Medicina, mas acabou trancando a matrícula, por falta de dinheiro. Em 1940, conseguiu o primeiro emprego na Rádio Vera Cruz e, a convite de Fernando Lobo, tornou-se locutor da Tupi. De saída, rejeitou esquemas bem comportados: "Queria um programa que mexesse com o público."

A primeira grande oportunidade foi na Rádio Clube de Niterói, com "Rei Momo na Chacrinha" - a rádio ficava numa pequena chácara, na Praia de Icaraí. Patos, gansos e galinhas circulavam pela casa. fazendo um barulho doido. Muitos foram até o estúdio para ver de perto o que era aquilo. Encontravam Chacrinha de cuecas, lenço amarrado na cabeça, fazendo a festa sozinho. A audiência cresceu tanto que o próprio Chacrinha ficou espantado:"Nunca pensei que fossem achar tão original. Daí em diante passei a ser chamado de doido, maluco, palhaço."

Em 1941, o programa virou Cassino da Chacrinha, mas dois meses depois ele foi demitido - não se enquadrava no espírito da época. Era o início das muitas reviravoltas profissionais que marcaram a carreira do animador, mas o Cassino, mesmo mudando de emissora, transformou-se num marco.

Na década de 50, quem era sucesso no rádio ia para a televisão, para as Associadas, as únicas existentes. Vestido de xerife, apresentava o "Rancho Alegre", ou de terno e gravata fazendo a "Discoteca". Em 1959, a Tupi acabou com seus programas, mas a TV Rio começava a crescer e foi convidado a ir para lá, embora aborrecido porque o programa era de madrugada. Acabou ganhando o horário das oito, ao vivo, num programa que teve a maior audiência daquela primeira fase da Rio. Naquele tempo, Chacrinha já estava na Rádio Globo, a primeira vez em que aceitaram integralmente suas propostas: "Avisei o que fazia e o Luís Brunini disse que era assim mesmo. Fiquei até surpreso". Dois anos depois a Globo lançava seu "A Buzina", programa de calouros inspirado no "A Hora do Pato".

Na TV Excelsior, para onde foi levado por Carlos Manga, entraram em cena as primeiras chacretes: eram moças do balé do Municipal que faziam a abertura e depois ficavam sentadas no chão, acompanhando as músicas com os pés e as mãos. Eram chamadas de tevezinhas e, mais tarde, foram substituídas por outras que usavam saiotes brancos e camisas de futebol. Na "Discoteca", as moças passaram a ser chamadas de "vitaminas do Chacrinha". O batismo definitivo de chacretes foi na Globo. Na Bandeirantes, fez a Hora da buzina" e a Discoteca, com Ibope altíssimo.

O sucesso não acabou com o nervosismo de Chacrinha ao entrar em cena. Naquele instante crucial de entrar no ar, ele se benzia - extremamente devoto, levava sempre na maleta estampas dos santos de sua devoção, São Jorge, São Judas Tadeu e São Paulo Apóstolo - sentia sempre o que chamava de "cólicas emocionais", fortes dores intestinais que só se acalmavam quando o espetáculo, afinal, começava. "Eu penso sempre que vou ter um troço no palco. Besteira, não é?", comentou.

Para Chacrinha, o Cassino sofisticado, que apresentava aos sábados desde março de 1982 e que marcou sua volta à Globo - uma mistura do Cassino inicial com a Buzina - não passava de uma continuação da fórmula original: "O mesmo esquema, nada mudou. No meu programa, tudo segue uma direção precisa. Só que fico solto para fazer o que eu quiser, dizer qualquer coisa".

Em meio à agitação de sua vida, viajando pelo menos duas vezes por semana para fazer shows em várias cidades do Brasil, gravando programas de rádio no Rio e em São Paulo, jamais pensou em se aposentar: " Na minha idade, temos de trabalhar bastante para que as células se renovem".

Morava numa ampla casa na Barra da Tijuca, com a mulher, D. Florinda, sua mulher por 41 anos, e o filho José Renato. Aos domingos, o espaço inteiro era ocupado pelos filhos Jorge, o mais velho, e José Aurélio, Leleco, seu produtor, ambos casados e com filhos.

Por trás dessa figura comunicativa, explosiva e irreverente, havia um outro Chacrinha: "Sou meu circo sozinho. Sou um palhaço com alma de leão, sou malabarista e me equilibro nos arames das audiências. Sou minha própria arquibancada. Mas acontece que nesta arquibancada vive um homem tímido, triste e sozinho".

HOJE, O ÚLTIMO PROGRAMA - O frio e a chuva fina que caia na tarde de domingo retrasado, 19 de junho, não impediram que Chacrinha saísse bem disposto de sua casa na Barra da Tijuca para gravar, no Teatro Fênix, o programa que vai ao ar hoje a partir das 16h. Será a homenagem final da Rede Globo ao Velho Guerreiro. Naquele domingo ele chegou pouco antes da quatro horas da tarde no estúdio; e às 16h05m já estava pronto, no palco. Cinco minutos depois o claquetista Piloto, que trabalhava com o Chacrinha desde que ele voltou para a Globo em 82, bateu a claquete e bradou o "gravando!". Durante duas horas Chacrinha, revezando-se com João Kleber, apresentou o programa como se fosse ao vivo.

Com a voz bem mais firme e mais animado que nos três programas anteriores, o Velho Guerreiro ficou muito mais tempo no palco. E, nas poucas vezes em que se afastou para descansar um pouco, deu palpites o tempo todo, dirigindo inclusive o própio Leleco, seu filho que nos últimos anos foi diretor do "Cassino". Ele dava orientação usando equipamento com fones que não dispensava ao seu lado, mesmo nestes momentos de repouso. Numa dessas ocasiões, ele chamou o cameraman Tony e pediu que ele providenciasse para que os intervalos entre um quadro e outro não fossem muito grandes, pois a demora poderia entristecer a platéia e a ele próprio. E disse que não queria ninguém triste em nenhum momento.

Ele se disse bem disposto o tempo todo da gravação do programa e estava muito atento. Quando notava qualquer vacilação na apresentação que João Kleber fazia, prontamente se levantava e intervinha. E fez isso tanto na hora dos calouros quanto na apresentação das atrações do programa.

Roberto Leal, Via Negromonte, R.P.M., Virgine e o Fruto Proibido, Jairzinho e Simony, Juba e Lula, Agepê, Capital Inicial, Evandro Mesquita, Os Abelhudos, Paralamas do Sucesso, Manolo Otero, Vanusa, Placa Luminosa, Jair Rodrigues, Jane e Herondi, Nico Resende, Benito de Paula e Jane Duboc foram os últimos cantores a se apresentarem no "Cassino" que, neste sábado, tem o juri formado por Elke Maravilha, Dora Klabin, Suzana Vieira, Consuelo Badra, Manuela Machado, Vanessa de Oliveira, Marcella Praddo, Monique Evans e Ana Maria Nascimento e Silva. O entrevistado do programa é Rômulo Arantes. E neste programa ainda há a eleição da melhor quadrilha e a final do concurso "O negro mais bonito do País".

Exatamente às 18h55m o cameraman Armando focalizou a última imagem viva de Chacrinha para a televisão - a despedida que ele fazia no ar todos os sábados mas que, daquela vez, teve um sentido de .eternidade. Nos bastidores, ele bateu nos ombros de seu companheiro de cena e disse entusiasmado: Kleber, olha: nós arrebentamos!

BEIJO DE DESPEDIDA

Aurtor/Repórter: Léo Jaime

Amanheceu um lindo dia de sol na cidade do Rio de Janeiro. Quase não se percebe nada: os carros passam com a pressa da juventude, as crianças brincam alheias às dores do mundo, o tempo passa e o sol se impõe em todas as cores. Um dia quase alegre. Um dia quase bonito. Um dia de sol em meio ao inverno.

Mas se, em quase todo o corpo da cidade a vida e a luz se expandem, em seu coração impera a dor. Vela-se o corpo do seu Velho Guerreiro, na Câmara dos Vereadores.

Toda a vida perde um pouco de sua alegria. Sim, porque há homens cuja função é ser, da vida, a alegria. Esses não se tornam sérios nunca. Escapa-lhes a vida mas não a juventude. Essa o Velho leva junto com sua alegria para onde for. Para onde for, será sempre o homem que não se rendeu nunca. O velho e vitorioso, Guerreiro que nunca, por um momento sequer, deixou de levar a sério a árdua tarefa de não ser sério nunca. Até mesmo quando começou a lhe faltar a saúde.

Foi assim que me despedi dele em vida: por ocasião de sua volta à tela, depois de um curto - para nós - mas longuíssimo - para ele - período de ausência, escrevi uma crônica que foi publicada no GLOBO dando-lhe as boas-vindas. No sábado seguinte, gravei seu programa - o último a que ele pôde assistir - e, depois de terminar minha apresentação, fui chamado por ele, que estava sentado observando tudo. Minha última imagem é essa. Com sua voz já um pouco fraca, ele me dizia ter ficado muito feliz com o que tinha lido. E aí me deu um beijo.

E assim, por ironia da vida, alguém que me deu tanta força - assim como a todos os que fizeram sucesso na música popular brasileira dos últimos 40 anos, pois estar em seu programa é que era a marca do sucesso - despediu-se de mim se dizendo feliz, agradecendo e me abençoando com um beijo de despedida.

Aqui, nesta árdua tarefa de me despedir e agradecer, me embaraço. Como é difícil ter que se despedir.

Mas a luz que entra pela janela, quase brutalizando a minha dor, me dá um sinal.

Alguém que passou a vida esbanjando alegria e irreverência só poderia mesmo ir-se embora num dia assim. Mas se era sua intenção, meu velho, que não chorássemos sua ausência, nos desculpe. Ainda que a dor, com o tempo, esmoreça, a saudade sempre aumenta.

Perdemos um amigo. Um amigo que tirou da vida o que ela tinha para dar. Um guerreiro vitorioso, exuberante e hilário. Um homem querido e respeitado por quase todos - pois todo guerreiro tem que ter os seus rivais -, mas uma marca indelével, em nossa história, de força, brio, talento, coragem e amor. Todos os ingredientes que formam a dura fibra de um palhaço. O nosso maior palhaço.

Que a certeza inexorável, a única certeza da vida, não lhe tenha roubado nenhum sonho. Que é dos que têm a alma jovem permanecer sonhando.

Que a vida tenha te dado, tanto quanto mereceste, Chacrinha.

E assim, meu velho, me despeço de você. Obrigado é uma palavra pequena.

Que ecoe, então, o meu grito que é o de um poeta, mas também meu e de milhões.

"Seu" Chacrinha, aquele, mas aquele abraço.

PS - Nos últimos anos, Chacrinha acrescentou à sua lista de excentricidades um "aaaah!" que era a sua forma de nos acompanhar enquanto cantávamos. Aaaah! Aaaah! Alguns achavam que era velhice, outros que era maluquice. Acho que tava todo mundo certo, mas o óbvio ninguém percebeu.

Aquele era seu êxtase.

Tenho quase certeza que ele era muito feliz. Ainda posso ouvi-lo.

Aaaah! Aaaah! Aaaah!

1988 - Chacrinha Doente

O Globo
Data de Publicação: 3/6/1988
Autora: Luzia Elisa de Salles
OLHA A BUZINA!

O Velho Guerreiro está de volta, com sua fantasia, sua buzina, sua pança, sua alegria. Dois meses depois de se afastar de suas atividades para tratar de problemas de saúde, Chacrinha, em fase de recuperação, retorna ao rádio e à TV. Na última terça-feira, ele gravou seu programa de todas as manhãs na Rádio Roquete Pinto - que havia ficado sob o comando de seu filho Leleco - e neste final de semana estará de volta às gravações do "Cassino do Chacrinha", na TV Globo. Primeiro, dividindo a cena com João Kleber até se sentir forte e assumir sozinho o programa que criou há mais de 40 anos.

João Kleber entra no lugar de Paulo Silvino, que já substituíra Chacrinha em outras ocasiões e comandou o "Cassino" desta vez, durante oito sábados, até ser afastado por causa de desentendimentos com os responsáveis pelo programa, na emissora. Leleco Barbosa, diretor do "Cassino", está exultante com a volta do pai.

- O Velho vai voltar aos poucos. Ele está entusiasmado e com muita vontade de recomeçar. Gravou bem o programa do rádio e, na televisão, como o pique é maior, dividirá os trabalhos com João Kleber. Vai ser uma volta simples, sem muito auê, sem festas, porque o próprio Chacrinha não curte muito isso.

Leleco avisa que o primeiro programa da volta do Chacrinha só irá ao ar no dia 11, pois neste sábado será exibido o último comandado por Paulo Silvino.

Ele preferiu não comentar nem a saída de um, nem a entrada de outro humorista - "foi tudo resolvido pela direção da TV Globo" - mas contou que Chacrinha gostou de trabalhar ao lado de João Kleber.

- Estou vivendo uma emocionante expectativa disse João Kleber, feliz com o convite do diretor executivo do programa, Walter Lacet, para co-apresentar o "Cassino do Chacrinha" ao lado do Velho Guerreiro.

- O Lacet me convidou e, depois que eu aceitei, com muita honra, fomos nos reunir com o Boni e o Leleco. Depois, liguei para o Chacrinha e nossa conversa foi maravilhosa. Ele disse que estaria feliz comigo no programa. Eu vou me apresentar como João Kleber, mesmo, sem fantasia e sem imitar o Chacrinha, o que pode acontecer eventualmente. Combinamos que eu vou estar sempre bem vestido, com roupas jovens e de cara limpa. O João Kleber mesmo, com liberdade de ser irreverente e brincalhão. Eu me sinto em êxtase vendo todos os meus sonhos se realizarem. Depois de o meu ídolo Chico Anysio me dirigir no teatro e agora no Fantástico, sou premiado com esse convite. Dividir o mesmo palco com outro ídolo, outro modelo meu e o maior patrimônio da televisão brasileira, que é o Chacrinha. Espero poder, com toda a humildade, corresponder a essa honra.

João Kleber já tem bastante intimidade com o programa do Chacrinha onde atuou, durante dois anos, como jurado. Agora, ele pede o apoio de toda a técnica - Mo porteiro do teatro Fênix à alta direção da Globo?' - para levar adiante o que considera ama missão. E diz que espera contar, principalmente, com o auditório do Chacrinha e com seus antigos colegas do júri.

1987 - 70 Anos do Chacrinha

O Globo
Data de Publicação: 4/10/1987
Autora: Rosângela Honôr
O GUERREIRO COMPLETA 70 ANOS DE LUTA

Ele continua "balançando a pança, buzinando a moça e comandando a massa". E, aos 70 anos, completos dia 30 último, Chacrinha avisa: ainda tem a mesma energia de 47 anos atrás, quando começou a carreira "quem não se comunica se trumbica."

Desde 1940, quando começou na extinta Rádio Clube de Niterói, José Abelardo Barbosa de Medeiros - ou simplesmente Chacrinha mostrou que não veio para explicar e sim para confundir. Desde então, Muito tempo passou, mas a disposição.e a vontade de trabalhar continuam as mesmas. Essa semana o "Velho Guerreiro" completou 70 anos, cercado do carinho de Dona Florinda,. dos filhos José Renato, José Aurélio e Jorge e dos seis netos: Andréia, Ana Paula, Alexandre, Maria Cláudia, André Luiz e Arthur. Sem grandes badalações:

- Chegaram a me oferecer o Scala e o Calígola para comemorar a data. Mas optei por uma missa e um jantar em família.

Uma criança grande - como define Dona Florinda -, Chacrinha gosta mesmo é de ver a casa cheia, com toda família reunida, o que geralmente acontece aos domingos. Considerado por todos os parentes um pai, mando e avô dedicado, o "Velho Guerreiro" conta que uma das coisas que mais o emocionaram nos últimos tempos foi, há três semanas, o nascimento do caçulinha da família, Arthur, filho de Leleco e Maria da Graça:

- Chorei muito, não sei nem explicar o que aconteceu. Sei que foi uma coisa que me deixou extremamente feliz e emocionado.

Apesar dos 47 anos que se passaram desde o inicio da carreira, pouca coisa mudou na rotina de Chacrinha. Ele acorda cedo diariamente, caminha muito pela casa e lê vários jornais. Também ouve muita música - "preciso estar sempre atualizado" -, não perde o ''Jornal nacional" e não dispensa um mergulho em sua piscina:

- Uma das coisas de que mais gosto é mar, mas como não posso ir à praia, pois acabo criando uma grande confusão à minha volta, pego o meu solzinho aqui em casa mesmo.

Mas o que ainda fascina mais o "Velho Guerreiro" é o seu "Cassino" e, como é exigente e perfeccionista, no dia anterior' às gravações começa a ficar tenso e sofre de colite nervosa. Segundo Chacrinha, cada programa é como se fosse a sua estréia e ele só consegue relaxar quando pisa no palco e sente o calor do auditório. Dona Florinda confirma

- Nos dias de gravação, ele já acorda nervoso, mantém contato permanente com Leleco para saber se está tudo em ordem e caminha pela casa inteira. E, pouco antes de entrar no palco, bebe cerca de 20 garrafas de água, para não se desidratar.

Atualmente, Chacrinha está fazendo menos shows e viagens. Entretanto, ele afirma que isso não quer dizer que esteja "pendurando as chuteiras". Ao contrário, está ''com muita disposição para tudo". Uma prova disso é que adora sair, assistir a espetáculos musicais e não é raro vê-lo dançando animadamente na platéia. Brincando, ele costuma dizer que, no dia em que se aposentar, Xuxa será a sua sucessora legítima.

Enquanto isto não acontece, este pernambucano de Surubim continua na luta. Seu programa já foi documentado por emissoras de TV européias e pelo "Acredite se quiser" e, este ano, recebeu homenagem do Império Serrano:

- Fiquei sensibilizado. Foi uma coisa espontânea e, pela primeira vez, eu desfilei na avenida.

Para os que ainda questionam de onde tira tanta energia, Chacrinha responde:

- Sou uma pessoa feliz. Há 40 anos estou casado com Florinda, vivendo uma relação de amor, carinho, compreensão e muito companheirismo. Tenho a dedicação e o amor dos meus filhos e netos e amo o meu trabalho.

1985 - Chacrinha Inaugura TV Estéreo no Brasil

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 21/4/1985

''CASSINO DO CHACRINHA'' E O TELEVISOR DA PHILIPS INAUGURAM TV ESTÉREO NO BRASIL

No dia 10 de abril passado um . O Musical "Clip Clip" recebeu uma edição especial e foi transmitido, no início da tarde, sendo recebido por diversos televisores Trendset 20 Stéreo Espacial - o novo modelo de 20 polegadas da Philips, desenvolvido para aplicações com som estéreo -, que foram instalados pelo fabricante em Shopping Centers de São Paulo e em gabinetes de autoridades locais.

Segundo a Philips, o evento significou a maior inovação tecnológica da televisão brasileira desde a primeira transmissão e recepção em cores, em 1972, e coloca o país na vanguarda da tecnologia, já que a técnica só foi implantada em poucos países de grande desenvolvimento, como Japão, Estados Unidos e Alemanha.

Três dias após a transmissão experimental, a Rede Globo apresentou o programa "Cassino do Chacrinha", de grande audiência, com características de som estereofônico durante toda sua duração. A recepção estéreo pôde ser acompanhada pelo público presente nos stands da Philips na Feira de Utilidades Domésticas, que ora se realiza na capital paulista, através dos televisores Trendset 20, que são dotados de seis alto-falantes e tweeters, com potência total de 12 Watts (2 X 6 W) RMS.

Possibilidades - Para tornar possível o processo de transmissão e recepção adotou-se o sistema Zenith/DBX, o mesmo adotado como padrão nós Estados Unidos, em janeiro desse ano. O DBX é um sistema filtrador de som, semelhante do Dolby. Quando as transmissões em estéreo forem normalizadas, após regulamentação pelo Departamento Nacional de Telecomunicações, a única providencia que caberá aos proprietários do Trendset 20, para desfrutarem da recepção com som estereofônico, será a aquisição de um decodificador a ser instalado internamente no aparelho, em local já apropriadamente reservado.

O potencial de reprodução de som em estéreo do aparelho tem aplicação mesmo antes de as TVs iniciarem transmissões estereofônicas com regularidade: grande parte dos aparelhos de videocassete de última geração também incorporaram a sofisticação para que seus usuários possam assistir a shows musicais gravados com o recurso da estereofonia.

Com o início das transmissões em estéreo e a proliferação dos aparelhos capacitados para recepção de dois sinais de áudio independentes, as emissoras de TV poderão oferecer mais uma alternativa aos seus espectadores: a transmissão bilingüe, isto é, os filmes e programas importados poderão ser transmitidos com o som dublado através de um dos canais de som, e o outro canal poderá . ser alimentado com o som da trilha original. O aparelho foi projetado para esta aplicação e já inclui, tanto no painel frontal como no do controle remoto, as teclas lang-1 e lang-2, para seleção do canal de som que se deseja ouvir.

Vídeo e TV UHF - O Trendset também pode funcionar como monitor de vídeo, que propicia maior qualidade na reprodução das imagens em fitas do que a conexão via cabo de radiofreqüência (RF). No painel traseiro do aparelho estão os terminais para conexão áudio in/out e vídeo in/out, além do plugue RGB, para operação enquanto monitor de vídeo.

O televisor foi realmente projetado para não tornar-se obsoleto, pelo menos rapidamente, nos lares brasileiros. Embora a emissão de televisão em UHF (Ultra High Frequency) - que permite a instalação de mais 83 estações em uma mesma região, além das seis permitidas pelo sistema atual (VHF), sem causar interferências -ainda não esteja regulamentada no Brasil, o sintonizador de canais do Trendset já incorpora a possibilidade de captação de até 16 canais de TV naquela modalidade.

Espera-se que, com a revisão da legislação brasileira de telecomunicações, prevista para breve, inúmeros novos serviços de televisão surgirão na faixa de freqüência de UHF, inclusive serviços especializados. Um desses serviços é a TV por Assinatura, modalidade em que um grupo de usuários paga pelo aluguel de um decodificador que- permite a recepção de um sinal de TV codificado, através do qual é veiculada uma programação especializada, de acordo com o gosto da audiência restrita que paga pelos serviços. Assim, poderão surgir canais especializados na transmissão de esportes, programas musicais, filmes exclusivamente policiais, de terror, ou "clássicos do cinema", e até mesmo programações dedicadas ao público infantil.

A TV por Assinatura é um sucesso em algumas cidades norte-americanas, como Los Angeles, na Califórnia, onde suplanta inclusive o interesse despertado pelos sistemas de TV a Cabo.

Preguiçosos Além de todas as possibilidades apresentadas, o Trendset incorpora um dispositivo especialmente dedicado às pessoas que costumam adormecer diante do televisor, e só acordam na madrugada, ou mesmo na manhã seguinte com o desagradável chiado que o aparelho faz na ausência de sinal da emissora. O Automatic switch off desliga o televisor, colocando-o na posição stand-by 15 minutos após o término da programação, ou na ausência de sinal da emissora, caso ela saia do ar. Ruídos de toda natureza foram execrados pelos projetistas do novo aparelho da Philips: Um supressor de ruídos elimina também, completamente, a barulheira da falta de sintonia quando se passa de uma estação à outra, ou quando a emissora sintonizada sai do ar durante os 15 minutos que leva até que o televisor seja automaticamente desligado.

1984 - Viva Chacrinha!

 O Globo
Data de Publicação: 26/2/1984
Autor: Arthur da Távola
CHACRINHA 'HORS-CONCOURS'

Se os programas de auditório marcaram um êxito tão expressivo no rádio, eles não conseguiram obter nem de longe o mesmo sucesso na televisão e, à medida que o padrão dos programas de TV ia subindo de nível, eles iam perdendo em consistência - até chegarmos à situação presente, em que a maior parte deles desceu a níveis de qualidade realmente muito baixos. Mais uma vez, devemos fazer uma ressalva e diferençar entre programas de auditório e transmissão de programas com público, sejam eles ao vivo ou mesmo gravados para posterior transmissão. O público, sobretudo quando é numeroso e caloroso, dá uma contribuição valiosa a qualquer espetáculo e dele sempre participa, mesmo que seja apenas pelos seus aplausos.

O fenômeno é fácil de explicar. O rádio transmitia apenas o som, as vozes dos artistas. Vê-los era sempre um deslumbramento, proporcionado principalmente pelos programas de auditório. Daí para a participação direta do público em cenas e brincadeiras foi um passo curto para a maior aproximação do ouvinte e já então espectador com os seus !dolos e com aquele instrumento mágico que era o microfone. A televisão, ao contrário, coloca os nossos ídolos dentro das nossas casas, dá-nos familiaridade com eles, que já não são as figuras distantes e quase irreais de outrora. Por outro lado, as apresentações públicas desses !dolos .- no teatro e nos shows - são freqüentes, permitindo a qualquer um ver de perto com relativa facilidade seus artistas preferidos. No caso dos cantores, há que acrescentar a alta sofisticação a que atingiram os especiais - fazendo parecer pobre e simplória a apresentação na TV que não tenha um cenário adequado, bons efeitos de luz, imaginoso jogo de tomadas (no que, aliás, às vezes ocorrem até certos exageros).

Dentro dessa temática, Chacrinha é, a nosso ver, absolutamente hors-concours. Há perto de 40 anos, ele vem aproveitando o que de melhor lhe podia dar o rádio e o que de melhor lhe pode dar a televisão. O "Cassino do Chacrinha", que hoje revive no programa dos sábados da Rede Globo, foi uma exploração de tal forma inteligente, não das qualidades, mas da deficiência do rádio - de transmitir a imagem real - que chegou a enganar muita gente e durante muito tempo. Com tal habilidade Abelardo Barbosa - que, então, ainda tinha o "Chacrinha" no meio do nome, e entre aspas - criava com os precários recursos de sonoplastia e de gravação da época um clima de festa em seu programa da Rádio Clube Fluminense, simulava entrevistas com os maiores nomes do rádio de então e realizava, mesmo, algumas delas que poucos podiam aceitar que aquilo fosse trabalho de um homem sozinho, num modesto estúdio de rádio (por sinal, um homem sério, trabalhador, mora. dor de uma casa razoável. mente confortável do subúrbio do Riachuelo e que, no dia seguinte, estaria de pasta na mão visitando os anunciantes do seu programa que eram os que lhe garantiam o sustento). E, a cada noite, o ouvinte participava de uma grande festa, muitíssimo animada, em que convivia com seus astros e estrelas mais queridos, conduzidos por um anfitrião bem-humorado, que desfrutava da intimidade de toda aquela gente famosa e que nos levava a participar, também, desse desfrute.

Vindo para a televisão, Chacrinha perdeu a arma de usar a imaginação do ouvinte e defrontou-se com a necessidade de lhe dar a verdade. E foi então que superou todas as suas conquistas do passado e mostrou que não era apenas um herói do faz-de-conta. Seu "Cassino", na televisão, foi, desde os primeiros tempos, uma transposição para a realidade de toda aquela atmosfera de festa, de movimento, de intimidade com os ídolos, de entrevistas, de brincadeiras que ele simulava no rádio. Chacrinha nunca fez um programa para o auditório ou com a participação de algumas pessoas do auditório: ele sempre fez uma verdadeira festa com o auditório, criando uma verdadeira televisão de arena, em que público, artistas, músicos, técnicos e ele próprio se misturavam, num programa de movimento incessante. Para extremar- ainda mais a delirante alegria daqueles momentos, ele adotou não apenas um traje original, mas mil fantasias loucas, ambientando-se e facilitando a ambientação de todos naquela loucura organizada. Sim, porque o grande triunfo de Chacrinha é a bagunça estudada, a confusão programada, a mistura selecionada, à maneira de uma festa em que todos estão eufóricos, animadíssimos, deslumbrados e até um pouco altos, mas em que o anfitrião incita todos a uma animação cada vez maior - sem nunca perder o controle da situação.

O mínimo que se pode dizer de Chacrinha é que ele é uma figura absolutamente hors-concours da nossa televisão.

1983 - Bagunça do Chacrinha

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 3/4/1983
Autora: Martha Baptista
A INCRÍVEL ORGANIZAÇÃO QUE FAZ FUNCIONAR A BAGUNÇA DO CHACRINHA

São 25 anos de carreira. Nesse meio tempo, muita coisa mudou no Brasil, o bacalhau - e as bananas - estão cada dia mais caros, mas o fascínio exercido por Abelardo Barbosa, o popular Chacrinha, junto ao público não mudou. A volta à Globo em 82, após um período conturbado na Bandeirantes, é uma prova disso, assim como a fila imensa que ,se forma na porta do Teatro Fênix aos sábados, quando o Velho Guerreiro comanda ao vivo seu programa do bairro do Jardim Botânico para todo o país. No último fim de semana, ele reassumiu seu posto, após mais de um mês de afastamento por motivos de saúde. E seu público fiel estava lá a prestigiá-lo.

A festa começa na rua. Amontoadas numa fila que sai da entrada do Teatro Fênix e dobra a esquina, mulheres e crianças aguardam impacientes o momento de entrar. Tudo é motivo para vaias ou brincadeiras, desde do cachorro que passa latindo num automóvel a alguém que grita de uma Brasília: "Terezinha!!!''.

As mulheres entram primeiro e só se sobrar espaço os homens são admitidos; por isso os que conhecem a regra nem entram na fila. Alguém da produção do Cassino do Chacrinha sugere tratar-se de cavalheirismo, mas o diretor José Aurélio Barbosa, o Leleco, filho do apresentador do programa, não esconde o jogo:

- Mulher vibra mais do que homem. Eles só vêm aqui para ficar de braços cruzados.

O estudante Helnirton Gomes Pereira, 18 anos, morador em Santo Cristo, Um dos que aguardam a hora de entrar do lado de fora do cordão de isolamento, acha a medida injusta, mas isso não o impede de se deslocar aos sábados para o Jardim Botânico, na tentativa, muitas vezes bem sucedida, de participar do programa.

Maria de Lurdes Batista do Reis, dona de casa, ficou na fila sábado retrasado desde 8h40min. Acompanhada da filha Adriana, 16 anos, e da sobrinha Conceição, 12, saiu de madrugada de sua casa em Jacarepaguá com alguns sanduíches e não tinha ido ao banheiro até 14h30min.

Ao lado delas, a empregada doméstica Sônia Mara, 17, conta com um sorriso brejeiro que chegou às 12h40min ("Sempre tem alguém que guarda lugar").

Enquanto do lado de fora o bochicho é geral, Chacrinha se prepara no camarim. Ele costuma chegar ao Fênix por volta das 14h30min e sente uma cólica seca antes de pisar no palco. A cada programa veste uma roupa nova, discutida na reunião semanal entre Leleco e Walter Lacet, diretor da linha de shows da Globo. A criação fica por conta do figurinista Vandick Loretto.

São 15h50min. Leleco dá as últimas dicas ao pai (''Tasca pau que o programa vai acabar às 18h, e não às 18h10min"). Com balinhas no bolso para o caso de sentir sede no meio do programa, o Velho Guerreiro se benze antes de entrar em cena. No teatro, já está tudo arrumado: as chacretes em lugares de destaque, os estudantes convidados e o público em espaços determinados. O apresentador é saudado por uma platéia em delírio, ávida por repetir um ritual em que não há muitas novidades.

"Oh Terezinha, oh Terezinha, é um barato o Cassino do Chacrinha" e "Roda, roda, roda e avisa..." são alguns dos refrães repetidos incansavelmente por todos os presentes. No comando desse público fiel e obediente, o português Eduardo Ferreira, 17 anos de TV Globo, rege as palmas e excita os espectadores com pacotes de biscoito, pirulitos e fatias de frutas, como melancia ou melão, atiradas a esmo.

Nesse jogo só não vale invadir o palco para beijar os artistas preferidos e o castigo para as fãs mais afoitas é ir para as filas de trás do teatro. Quem retira as invasoras do palco é o franzino Antônio Pedro Souza Silva, o Russo, 51 anos, 32 de carreira, encarregado ainda do áudio e microfones do programa.

- Elas me mordem, reagem - conta Russo, que gosta desse trabalho, apesar das dificuldades.

O número de guardas de segurança é grande (no sábado da volta do Chacrinha eram cerca de 30) e no final todos acabam se entendendo. Por trás da aparente bagunça há 30 pessoas, entre produtores, câmeras, contra-regras e maquinistas, mobilizados em sua realização. Tudo sou controle de Leleco, cuja agitação é constante: de sua cadeira na sala de edição, ele corre a todo momento para o palco a corrigir eventuais falhas e dar ordens ao resto da equipe. É também quem seleciona os artistas que se apresentarão, escolhe as chacretes ("Basta saber dançar e ter corpo legal", diz Fátima Boa Viagem, solteira, há oito anos acompanhando Chacrinha) e atende aos pedidos de vale dos empregados no final do programa.

Para os números musicais é usado o recurso do play-back (sobre a música gravada, o artista convidado coloca apenas a voz). Embora a fusão da antiga Discoteca do Chacrinha com a Buzina em um programa só tenha diminuído o espaço reservado para os calouros - atualmente apresentam-se de cinco a nove por semana - o número de candidatos continua grande: todas as quintas-feiras de 30 a 40 pessoas procuram a produção do Cassino, em busca de uma chance. Afinal, foi assim que vários nomes hoje famosos na música popular brasileira começaram suas carreiras.

1982 - Chacrinha Apaga Velinhas Satisfeito

O Globo
Data de Publicação: 10/10/1982
Autora: Hildegard Angel
ANIVERSÁRIO E CONSAGRAÇÃO

Tudo que se disser sobre o fenômeno Chacrinha, sua ascensão gloriosa ao estrelato nessa carreira da arte da comunicação, cheia de tropeços e abrolhos não só para artistas, técnicos, comunicadores, animadores e outros que entram na arena, será o "óbvio ululante". Mas quem vê Chacrinha completando seus bem vividos 65 anos e, de quebra, 35 anos de vida conjugal, cercado de centenas de amigos, admiradores, colegas, artistas - outros tantos vips da música, da televisão, do teatro, do cinema, acha tudo muito natural. O homem está ai como mesmo sorriso, a mesma comunicabilidade. O que foi chegar até lá, Chacrinha que o diga. Não importa mais contar as peripécias. Vale a consagração. A festa surpresa foi preparada por Florinda, sua mulher e pelos filhos, que fizeram questão de convidar todas as pessoas que mais marcaram a carreira e a vida de Abelardo Barbosa. Também aqueles que ele ajudou a aparecer e crescer. Entre aqueles, está Paulo Gracindo, seu primeiro patrão na Rádio Nacional, com a mulher Beth e Clara Nunes. Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça, seus fãs de toda a vida e Erasmo Carlos e Narinha. A amiga Derci, outra guerreira vitoriosa, dando-lhe aquele abraço.

Não faltaram os artistas jovens, que lhe tomaram a bênção: Fábio Jr. e Glória Pires, num flagrante histórico, horas antes de ir para a Maternidade.

A inesquecível jovem guarda estava completa: Erasmo Carlos, a irmãzinha Wanderléia e Roberto Carlos.

Ilka Soares, Rosemary, Janete Clair e Dias Gomes, Borjalo e Marilu, Laís Bonifácio, Walter Lacet e Elma, Walter Forster, Guta, João e Lucinha Araujo, Castrinho, Alcione Mazzeo e Agildo, além de amigo seu maior fã. E muito mais gente. Também Jacira Silva, para quem a festa foi um momento de reencontro com muitos amigos de São Paulo que vieram para a festa, muito bonita e comovente. Jacira, com Ruth de Souza e Marcos de Toledo. Tudo abençoado pelo Padre Lemos. E o final gostoso de partir o bolo.

1982 - Chacrinha na Globo de Novo

O Globo
Data de Publicação: 14/3/1982
Autor/Repórter:
O Globo

Data de Publicação: 14/03/1982

O BRILHO NOS OLHOS DE CHACRINHA



Há muitos anos, uns onze, quando era moda atacar a televisão, eu fui o primeiro cronista a destacar o fenômeno Chacrinha em termos de comunicação. Depois a moda pegou e caímos no exagero oposto: ele passou a ser "o papa'' da comunicação. Silenciei. De lá para cá a Globo mudou de orientação no tocante a programas de auditório, ele foi para a Tupi, a TV Rio (brevemente) e depois para a Bandeirantes de onde voltou, agora, para a Globo estreando há uma semana (ontem realizou o seu segundo programa).

Nada mudou, nada. O programa é como sempre foi uma festa, um "happening'', um momento de alegria e descontração, o que significa muito (alegria verdadeira é conquista difícil). Mudou talvez, nesses anos todos, a forma pela qual a direção de TV seleciona as Imagens. Antigamente era mais bem dirigido. Havia um diretor de TV, o Luizinho, que só trabalhava para o Chacrinha e refletia em imagens o mesmo clima tropical e surrealista do programa. Hoje temos uma imagem mais clássica, bem comportada e bem menos participante e criativa.

Essa capacidade de não mudar é a grande força e arma do Velho Guerreiro. Por Isso senti, no sábado anterior a ontem, ocasião da re-estréia do Chacrinha na Globo, logo na abertura do programa, um brilho de alegria e felicidade nos seus olhos. Só pessoas muito atentas ao subjetivo devem tê-lo notado, até porque foi muito rápido,

Aquele era um momento de vitória dele! Os anos em que esteve fora da Globo porque a emissora resolvera "melhorar seu padrão de qualidade" de certa forma doíam no Chacrinha porque significavam conotá-lo com uma fase de "baixa qualidade". Ora, seu programa jamais foi de baixa qualidade. Fazia parte da atitude elitista contra a televisão - conotar o popular com a qualidade inferior, partindo do princípio (reacionário) de que qualidade é o que corresponde aos padrões estéticos das classes sociais dominantes ou detentoras da cultura típica dos estratos superiores da sociedade.

O segredo de ter permanecido batalhando e crendo em sua fórmula (presente no programa de estréia na forma abslutamente igual e desinteressada com a qual recebia as estrelas e astros que a Globo mobilizou para a ocasião, o que o levou a chamar a Glória Pires de Myrian Rios e várias outras reações que só não são gafes porque esse é o seu estilo), o segredo de ter permanecido batalhando na mesma trincheira e com o mesmo estilo - eu dizia - foi o que permitiu ao Chacrinha aquela alegria interior percebida no brilho de seus olhos pequenos, crianças e argutos: naquele instante ocorria uma forra interior - ele voltava em glória e majestade para o cerne de uma programação que ajudou a construir vitoriosa e que, anos depois, reconhecia existir na arte dele uma fidelidade e uma categoria artística que nem os anos nem os novos rumos da televisão conseguiram destruir.

1982 - Chacrinha na Globo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 5/3/1982
Autora: Maria Helena Dutra


NO VÍDEO, O RETORNO DO CHACRINHA

Hoje é noite de Cauby Peixoto na Rede Globo. Merecido especial com grande cantor que apenas esperamos seja melhor do que o anterior, 1980, quando não recebeu o tratamento adequado. Que agora tudo aconteça ao contrário neste programa, 21h, no qual ele compartilha o palco com seus irmãos Moacir e Araquem e mais Lucinha Lins, Zezé Motta, Joanna e, o maestro Eduardo Souto Neto. Cantei, cantei, cantei. Às 10 da noite, Os Astros, Educativa, focaliza a atriz Lourdes Mayer, que realmente tem muito a contar. Esta atração do canal 2 está sabendo muito bem escolher os entrevistados e conseguindo depoimentos dos mais simpáticos. No mesmo horário a Bandeirantes estréia mais uma Seqüência Máxima, em três capítulos conta o último ano de vida da Franklin Delano Roosevelt. Deve ter sido um furor nos Estados Unidos. Aqui... Às 23h, mesma estação, Nova Mulher faz programa especial constituído apenas de uma longa entrevista com Florinda Bolkan. Como já foi há algum tempo gravado não deve ter nenhuma referência a distúrbios carnavalescos. Neste canal livre a atriz é questionada por Roberto Santos, Fátima Ali, Roberto Muller, Roberto D'Ávila, Thomas Souto Correa e Alberto Dines.

No sábado a grande notícia é o retorno de Chacrinha à Rede Globo. À partir das quatro da tarde, e contido em apenas duas horas, vai apresentar na estação que ajudou a ser campeã de audiência seu Cassino. Não acredito que mude características dentro do padrão global, que começou a existir depois de sua saída há 10 anos, mas que vai ficar mais fino é certo. Dos jurados anteriores apenas levou dois, presenças fixas, que são Elke Maravilha e Édson Santana. Os outros serão sempre astros noveleiros em revezamento. Na estréia Tarcísio Meira, Glória Menezes, Maitê Proença e Mário Gomes. Entre as atrações canoras Roberto Carlos, Erasmo Braga, Wanderléa, Fagner e Clara Nunes. Aqueles cantores populares, que tanto defendeu, rodaram. Vai ter a presença também da insuportável Nikka Costa. Na direção Leleco e Helmar Sérgio. As 21h30m, o Sábado Forte da Educativa discute o que o brasileiro lê. Margueritte Yourcenar, T. S. Elliot, Proust, por aí. A conversa está a cargo de Aluísio Leite Filho, Antônio Torres, Alfredo Gonçalves, Noumin Aizem, Dayse Prétola e Isis Valéria.

No domingo, a volta dos Trapalhões, na Globo, foi adiada. As sete da noite a estação transmite Internacional contra Corinthians. Componentes da famosa chave da Taça de Ouro que só tem clube popular. E que serão, dois deles, eliminados na fase final. Coisas que só acontecem nos campeonatos daqui. Às oito da noite a Bandeirantes mostra especial com Olivia Newton-John. Embora pareça incrível tem gente que gosta. As nove da noite a estação mostra, antes da Globo, os gols da rodada. Tomara que consiga pelo menos mais dois espectadores. E às 21h15m dobra a dose e mostra Barry White em trabalho supervisionado por Fernando Faro. Duvido que faça milagre e tome o senhor menos intragável. E às 22h15m, o Canal Livre deve conseguir retomar a sua audiência regular - a cada programa diminui de Ibope - pois entrevista Pelé. Oldemário Touguinhó,. Renato Sérgio, Nara Leão, a família já gosta deste programa, Eduardo Mascarenhas e outros fazem perguntas.

1982 - Chacrinha Volta Pra Globo

O Globo
Data de Publicação: 14/2/1982
Autora: Ângela Abreu
COM MUITO DISPOSIÇÃO E AMOR PARA INAUGURAR O 'CASSINO' CASSINO'

Após dez anos afastado da Rede Globo, Chacrinha está de volta. Às 16 horas de sábado, 6 de março, estreará o "Cassino do Chacrinha". Seus tradicionais programas, a "Discoteca" e a "Buzina", serão transformados em um só. O "Velho Guerreiro" promete semanalmente duas horas de atrações ao vivo e muita alegria. Com o mesmo jeito de falar usado na televisão - as vogais esticadas e a voz um tom acima do normal - Chacrinha conversa com os netos, diz galanteios a dona Florinda, sua mulher há 35 anos, e conta, entusiasmado, tudo sobre o novo programa.

A expectativa da volta é grande, apesar dos 42 anos de carreira. Um dos segredos de seu sucesso é manter-se sempre atualizado, usando em seus programas os acontecimentos da semana, as músicas que ESTOURARAM, enfim, como ele mesmo define, "estar sempre em cima do lance".

- Isto exige uma atenção constante, o que acaba se transformando em tensão. Ainda não me habituei à que cerca a produção de um programa. E como se estivesse fazendo uma revista por semana. Mas gosto demais do meu trabalho e, agora, estou mais animado do que nunca. A Rede Globo colocou tudo à minha disposição. Espero devolver a ela na mesma proporção, fazendo muito sucesso.

Auxiliando Chacrinha está, como sempre, seu filho quem faz a direção geral e a produção de todos os programas e shows do pai. Apesar de

morar em Ipanema, Leleco, sua mulher Maria da Graça - ou Maninha, como o sogro a chama - e os dois filhos, Ana Paula, 5 anos, e Alexandre, 2, estão sempre na casa de Chacrinha, na Barra. Leleco es tá animado com o primeiro programa do pai na Rede Globo:

- Será uma verdadeira festa. Já confirmaram presença o Roberto Carlos, Simone, Erasmo Carlos, Wanderléa, Fábio Júnior, Beth Carvalho, Clara Nunes, Fagner, Jorge Ben e a menina Nikka Costa, filha do maestro Don Costa. Está em nossos planos fazer concursos como, por exemplo, "A criança mais bonita de 82". Conservaremos a mesma dinâmica de todos os programas e manteremos a tradição de trabalhar "ao vivo".

Chacrinha e Leleco dizem que a Rede Globo está colocando à disposição deles tudo o que é possível. Além de apoiarem a equipe de produção com profissionais da própria emissora, ainda providenciaram uma casa no Jardim Botânico para a equipe, roupas para as chacretes, cenários e técnicos. O programa irá ao ar com quatro câmeras fixas e uma portátil.

- E, se preciso, entrarão outras. O apoio que estou recebendo só traz vantagens para mim. Fiquei dez anos fora da Globo pensando no dia em que iria voltar. Onde trabalhei, fiz questão de fazer o melhor, independente da qualidade técnica que me cercava. Agora, só tenho motivos de fazer ainda melhor. Na estréia receberei quase todo o elenco das novelas. Farei brincadeiras com todos. Em cada programa, pelo menos quatro artistas serão convidados a participar do júri. Enfim, novidades e surpresas não faltarão, além, é claro, de muita alegria,

Além da satisfação de voltar à Rede Globo, de ser recebido com carinho por todos - "desde os faxineiros até os diretores são meus amigos" - mais uma coisa alegra Abelardo Barbosa: fazer o programa no Rio significa mais tempo para estar com a família. Pai e avô orgulhoso, marido apaixonado, ele afirma que toda a luta de sua vida teve dois objetivos: a família e o seu público.

- Minha mulher, meus filhos e netos são as pessoas que mais amo no mundo. Batalhei sempre pensando eles e gosto de tê-los à minha volta. Ver a casa cheia, receber os amigos de meus filhos, ver meus netos brincando com os amiguinhos que eles fazem questão de trazer para cá, isto é a minha vida. Outra coisa que me gratifica é conversar com as pessoas que me assistem. Levar alegria a este povo me deixa muito feliz.

Os filhos retribuem o carinho do pai com atenção e presença constantes. Dona Florinda diz que os três são muito unidos e reclama que Jorge, o mais velho, esteja agora, com a mulher, passeando no México. Mas Jorginho, seu filho caçula, ficou com os avós para diminuir as saudades:

- Jorge também é pai de nossa neta mais velha, a Andréa, que tem 10 anos e ficou em Petrópolis. Pena que ela não esteja aqui. Florinda e eu não gostamos de vida noturna. Saímos pouco. A coisa de que mais gosto é ficar em casa. Se possível, com ela cheia, recebendo. Nos dias de folga, a vida de Chacrinha é acordar muito cedo. As seis horas da manhã, já está aproveitando os jardins e a piscina de sua casa. E, sempre que pode, usa o escritório que construiu no corpo da casa para resolver seus problemas profissionais. Para ele, o melhor programa é estar ali, conversar como filho Nanato,e esperar a chegada dos outros. Assistir às fitas gravadas com seus programas é outra atividade de que não abre mão. Dona Florinda, responsável pelas gravações, até que acha o trabalho fácil:

- Já houve época, quando não existia o video-tape, em que assistia a todos os programas, marcava o tempo, cronometrava os minutos dos anúncios e ainda tinha que entregar a Abelardo um relatório. Agora, felizmente, minha função é mais simples. Quando ele está no ar, preciso apenas ligar o aparelho de VT.

Em uma casa ampla, Chacrinha e dona Florinda aconchegam a bonita família que construíram. Para ela, a fórmula do sucesso de um casamento é amor, respeito e muito companheirismo. A carreira do marido, que acompanhou passo a passo, ainda traz momentos de tristeza. É quando Chacrinha faz suas viagens pelo Brasil inteiro para apresentar shows. Mas tudo é recompensado na volta com muito amor e carinho.

1982 - Quebra-quebra por causa do Chacrinha

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 3/2/1982

PRODUTOR NEGA RESPONSABILIDADE

''Quem deve explicações ao público é o empresário João Cambur. Foi ele quem contratou o show, disse que pagaria e não pagou. Esse cara deveria ser preso", afirmou ontem Dinaldo Diniz, produtor de shows do apresentador de TV Abelardo Barbosa, o Chacrinha, a respeito dos incidentes de sábado em Avaré, que resultaram na depredação do Ginásio de Esportes Municipal. Chacrinha deveria realizar ali a sua "discoteca", mas depois de algumas horas na cidade resolveu voltar para São Paulo sem apresentar o espetáculo, ó que provocou a reação das 1.500 pessoas que o aguardavam.

Segundo o radialista Carlos José, que divulgou o show pela rádio Avaré e quase foi linchado pela multidão, o produtor Dinaldo Diniz foi até o ginásio um pouco antes da hora marcada para a "discoteca" e arrecadou o dinheiro que existia - Cr$ 191 mil. Ontem, entretanto, Diniz respondeu: "Ele que prove que eu peguei essa quantia. Eu recebi apenas Cr$ 130 mil e assinei um vale nesse valor, com a presença de testemunhas. Aliás, com a rádio nós não tínhamos compromisso nenhum." O contrato, ressaltou Diniz, era com o empresário paulista João Cambur, com quem a produção do Chacrinha já realizara dois shows anteriores.

"Esse empresário nos devia Cr$ 151 mil, do último show que realizamos com ele, em Caieiras. E garantiu que saldaria a divida em Avaré, quando também pagaria o show programado na cidade, de Cr$ 250 mil. As 20 horas fui para o ginásio preparar o show, que seria ás 21 horas. Procurei saber como estava o comparecimento de público - porque tinha chovido e ele cobrou Cr$ 300 o ingresso único - e ele me disse que tinha vendido Cr$ 130 mil. Então perguntei se ele possuía talão de cheques e como a resposta foi negativa eu quis saber como ele iria nos pagar. Ele disse que seria com a renda de bilheteria", disse Diniz.

Nesse instante, segundo Dinaldo Diniz, o empresário lhe entregou os Cr$ 130 mil, "que nem pagam o show anterior". Chacrinha então adiou por uma hora o inicio do espetáculo, aguardando a venda de ingressos na bilheteria. "Esperamos, mas o dinheiro não foi arrecadado. O que nós tínhamos a fazer? Eu queria saber quem trabalha de graça. Se fosse um show beneficente, como costumamos fazer, tudo bem. Mas beneficente para eles?"

Ainda segundo o produtor, "a primeira falha deles" ocorreu logo pela manhã, quando não apareceu o conjunto," previsto no contrato", para os ensaios. Além disso, ele garante que a dívida de João Cambur é maior do que se supõe, pois há despesas de transporte, no valor de Cr$ 45 mil. Um dinheiro que Chacrinha e sua produção não têm esperanças de receber: "Ele não tem condições de pagar, isso já está provado. Tivemos um prejuízo."

Segundo Paulo Roberto Nunes Tinoco, produtor-executivo de Chacrinha em São Paulo, "essa é a primeira vez que isso acontece" e o apresentador "jamais iria até Avaré para não fazer o show". Sobre as declarações dos divulgadores na cidade ( acusando Chacrinha de "extremismo e falta de responsabilidade"), ele acredita que são apenas para "justificar o próprio erro".

De qualquer forma, estranha-se que o Velho Guerreiro tenha concordado em realizar um terceiro show com Cambur, se já existia uma divida anterior. Mas Dinaldo Diniz tem uma explicação simples: "Nós sempre pedimos um adiantamento e para ele não pedimos. Nós confiamos. Foi esse o nosso erro." Quanto a Chacrinha, não foi possível localizá-lo ontem, no Rio ou em São Paulo. Diniz disse apenas que ele estava "descansando", depois da gravação de um programa.

1980 - Os Artistas Afilhados de Chacrinha

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 2/11/1980

QUEM É QUEM SEGUNDO ABELARDO BARBOSA


Em rádio e TV, Chacrinha atravessou todos os movimentos musicais brasileiros. Muitos dos artistas que hoje são campeões de vendagem de discos no pais - Roberto Carlos, Gal Costa, Clara Nunes, Martinho da Vila e Beth Carvalho, por exemplo - deram alguns dos primeiros passos de suas carreiras nos programas do Velho Guerreiro. Outros, até, como calouros: Joanna, Fábio Jr., Leci Brandão, Cláudia, Perla, Alternar Dutra, Paulo Sérgio e Ricardo Braga (os dois maiores imitadores de Roberto Carlos), Djalma Pires e Christian.

Na Jovem Guarda desfilaram frente ao auditório de Chacrinha o "Rei" Roberto Carlos, o "Tremendão" Erasmo Carlos e a "Ternurinha" Wanderléia. Uma época prolifera em brotos e pães: Ronnie Von, Márcio Greyck, Leno e Lilian, Cely Campello, Jerry Adriana, Wanderley Cardoso, Deni e Dano, Sérgio Murilo, Waldirene, Rosemary, Martinha, Eduardo Araújo, Silvinha e outros tantos. Inesquecível a apresentação de Rita Pavone de martelo em punho.

Mas nem só do iê-iê-iê viviam os programas, que a estas pessoas somavam artistas dos mais diversos gêneros como Nelson Ned, Dóris Monteiro, Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, Teixeirinha, Ciro Monteiro, Orlando Silva etc. Uma miscelânea que perdura até hoje. Na mesma noite se pode ver Gonzaguinha, Gilliard, Ângela Ró Ró, The Harmony Cata, 14 Bis, Christian, Gretchen, Cauby Peixoto, Fátima Guedes, Roberto Leal.

Em determinado dia o empresário Guilherme Araújo foi à casa de Chacrinha para juntos planejarem uma grande festa de lançamento da Tropicália e assim foram promovidas A Noite do Abacaxi, A Noite da Banana, uma verdadeira salada de frutas.

- Depois do sucesso, dificilmente há retomo. Quando as pessoas sobem aos píncaros da glória, desaparecem e só voltam quando estão pelo chão. Os empresário dizem que não tem data, horário ou o cachê é multo alto, e eu não posso pagar. Mas Clara Nunes, Alcione, Fafá de Belém, Fábio Jr., Joanna, Fátima Guedes, Beth Carvalho vêm sempre que podem.

O que o Velho Guerreiro tem a dizer sobre estes artistas:

. Roberto Carlos: "Ele era cantor mascarado no meu programa e imitava o João Gilberto. É um cantor que agrada a gregos e troianos, em Piabetá ou no Madison Squara Garden. No, duro, no duro, o artista quer ser popular. Mas eu gosto mais das músicas antigas dele."

. Gal Costa: "Ela se apresentava ainda como Maria da Graça e só cantou no meu programa por insistência do Guilherme Araújo, na época da Tropicália. Desafinava do começo ao fim."

. Elis Regina: "Cantava boletos na época. Hoje, não vem ao programa. Não gosto dos seus discos porque ela assassina todas as músicas antigas que grava. Eu, se fosse o dono delas, proibiria"

. Baby Consuelo: "Usava um espelho na testa, logo que começou. Depois do sucesso, não voltou."

. Martinho da Vila: "Me implorava para cantar e recebia Cr$ 50 de cachê. Hoje, não vem ao meu programa. É um dos desaparecidos."

. Jimmi Cliff: "Não era moda e ninguém nem o conhecia quando veio ao meu programa, na época dos festivais."

. Maria Bethânia: "Dos baianos, foi quem eu nunca vi. Tenho a maior vontade de trazê-la, mas o cachê é muito

. Chico Buarque: "Eu sempre disse que ele faz música para a grande massa. As pessoas que o cercam é que o colocam numa redoma. Ê um que eu gostaria muito de trazer."

. Oswaldo Montenegro, Alceu Valença e Raimundo Fagner: "Agonia é a música preferida dos calouros e é muito difícil. Uma voz média não consegue. Oswaldo e Alceu (eu adoro o Coração Bobo) já cantaram na Discoteca. O Fagner, eu prefiro como compositor, mas Coração Alado é uma das músicas que eu mais gosto de ouvir atualmente. Estes três, se souberem trabalhar bem suas carreiras, têm tudo para alcançar ótima posição na música brasileira."

. Jessé, Sandra Sá, Fernanda, Júlia Graziela, Miramar, Gilliard, Gretchen: "São nomes novos que tem tudo para se firmar. Gretchen faz oito shows, em média, por semana, em todo canto do pais. Se eu insisto em A,B,C ou D é porque algo dentro de mim diz que vai dar certo. A primeira vez que Júlia Graziela se apresentou no meu programa, cheguei em casa e a minha mulher estava cantando Minha Secretária. Ora, a minha mulher é do povo. Pedi três meses de exclusividade à gravadora para que a Júlia Graziela só cantasse nos meus programas".

Os critérios de seleção musical do Velho Guerreiro são simples:

- Não tenho preferências. Penso como o povo: música boa é a que está em evidência.

Radialista durante muitos anos e trabalhando sempre com música, Chacrinha aponta as outras canções que, hoje em dia, escuta em casa: Reunião de Bacana com o Exporta Samba, Morena de Angola com Clara Nunes, qualquer gravação d'A Cor do Som, Clareana e Feminina, de Joyce, Quero Conhecer-te, na voz do Sidney Maga', Fofoqueira, com Ismael Carlos, Frevo Mulher com Amelinha, Pontos de Interrogação e Sangrando com Gonzaguinha, Bastidores com Cauby, Porto da Solidão com Jessé, Demônio Colorido com Sandra Sá, Mania de Você e Chega Mais de Rita Lee. O gosto eclético é logo justificado:

Não sou radical. Gosto de tudo desde que sinta a música. As rádios, como o Brasil, são muito radicais e deveriam tocar realmente o que está agradando, o que o público quer ouvir. Mas não. Daí a grande quantidade de rádios desligados.

1980 - A Censura contra as Chacretes

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 2/11/1980

A DANÇA DAS CHACRETES, OS CASOS COM A CENSURA

Chacrinha foi preso pela Polia cia Federal em julho deste ano. A cause, uma censora. Poucos minutos antes de A Hora da Buzina ir ao ar, uma senhora baixa de óculos, disse que queria ver as roupas das chacretes. De acordo com Abelardo Barbosa, ela, e muitas outras pessoas estavam no corredor que dá para os bastidores. Ali só é permitida a permanência de pessoas da produção.

- Ela não se identificou. Eu não poderia imaginar que fosse censora.

O programa terminou e Chacrinha encontrou a sua espera, no camarim um delegado, dez agentes federais e o chefe de Censura. Com a mesma roupa com que se apresentara, e exausto, depois de duas horas e meia de programa, ele foi levado para a delegacia onde depôs até às cinco da manhã. A queixa, "desacato à autoridade no exercício de suas funções". Antes de ser preso e durante todo o depoimento, Chacrinha tomava oxigênio. Enquanto isso, a censora fugia dos repórteres, escondida no interior de um Brasília, agachada no banco de trás. A fiança de Cr$ 10 mil foi paga e Chacrinha enquadrado no artigo 331 do Código Penal.

Indignado,. ele depôs no Conselho Superior de Censura, relatando o episódio e outros mais. Certa vez, um censor, paulista telefonou para a emissora reclamando da roupa das chacretes e de algumas tomadas de detalhes anatômicos. Na semana seguinte, a mesma pessoa apareceu no estúdio, três minutos antes do começo do programa e exigiu que as chacretes mudassem de roupa. Uma roupa usada pela quinta vez. No final, Chacrinha foi atendido na emergência do Hospital Humaitá, permanecendo duas horas no balão de oxigênio. Em junho, a produção foi chamada à Censura por dar takes mais fechados das chacretes. E ao perguntar "Vocês querem mandioca?", Abelardo Barbosa foi repreendido" aos gritos" pelo telefone. O processo foi arquivado.

- A Censura é mais rígida comigo e o que mais a preocupa as chacretes. Respeito a Censura e faço o programa com medo, coagido. Pior que a falta de critérios e a desigualdade é que se eu reclamar que no programa X se faz uma coisa proibida, no meu, o chefe da Censura responde que o censor daquela emissora é Y. E é preciso acabar com este negócio de ser Censura de Rio, de São Paulo, quando existe a Federal, para acabar com estes critérios particulares. Mas agora, ela sossegou comigo.

O programa entra no ar e da cabine especial, em que a censora assiste ao programa e que tem ligação direta com o diretor da TV, (o responsável pela seleção de imagens), a advertência: "Olha as tomadas das chacretes!".

Alheio ao problema, vários rapazes se plantam desde cedo na entrada dos bastidores à espera das bailarinas. E ali permanecem, no final do programa. Dalva é a responsável pela coreografia há mais de um ano. O ensaio é feito nas tardes de terça e de quarta. Chacrinha fala como são escolhidas:

- Tem que saber dançar e ser fotogênica. A maioria delas estuda numa academia.

O salário delas é de Cr$ 15 mil, para dançar n'A Buzina e n'A Discoteca com exclusividade. A renda mensal é acrescida de comissões dos shows que fazem com o Velho Guerreiro, nos mais diversos pontos do país. O camarim é alegre. E o gosto pelo que fazem não as deixa sentir tédio ou exaustão. "Não dá para ver a hora passar", comenta- a Índia Amazonense. Rita Cadillac diz que o assédio dos fás - que mandam cartas e flores para a emissora - é mais intenso nos shows ao vivo. "Mas eu acho até gozado!", opinião compartilhada por Regina, formada em Educação Física. Gracinha Copacabana, a mais antiga, traduz o pensamento das colegas arriscando um palpite:

- Atualmente, todo mundo quer ser chacrete!

1980 - A Defesa de Chacrinha

Última Hora
Data de Publicação: 24/10/1980
 [carta]
CHACRINHA SE DEFENDE

Não estamos querendo defender interesses pessoais. Apenas temos também o direito de opinar, criticar e aplaudir, já que somos profissionais. Fazemos parte da Produção do Chacrinha - portanto, é um direito que nos assiste defender o nosso trabalho e, particularmente - sem patronalismos - o apresentador e animador de TV Abelardo Chacrinha Barbosa, figura principal dos programas que produzimos, Buzina do Chacrinha e Discoteca do Chacrinha.

Em primeiro lugar, vamos responder a carta de um leitor que disse que "Chacrinha ultimamente tem dado cada furo que ninguém está gostando". O reclamante referia-se ao concurso que elegeu uma chacrete para o elenco chacriniano. A vencedora deste concurso foi contratada - uma moça muito bonita, por sinal. Só não continuou fazendo parte do nosso elenco de bailarinas porque a mesma não pegou a coreografia, apesar de termos feito todos os esforços, pagando inclusive aulas de dança para ela. Mesmo assim, não deu certo, pois ela só sabe sambar, e em nossos programas a moça tem que ser eclética.

Na mesma carta o leitor se referiu aos alunos de vários colégios de São Paulo que lotam o auditório dos nossos programas, dizendo que "eles vão lá para fazer bagunça". Peia primeira vez na história da TV, alunos dos colégios mais sofisticados e importantes do País fazem parte do nosso auditório e se misturam ao povão, fato que deixou o Velho Guerreiro muito contente, chegando até a comentar com a produção: "as reações humanas são iguais em todas as camadas sociais".

A segunda carta foi de uma falta de imaginação e ausência de observação fantásticas. O leitor protestou contra os programas do Chacrinha, começando a carta assim: "o Velho Guerreiro - não sei se já está ficando gagá - simplesmente apresentou o conjunto The Fever's sem o seu crooner. E o mais gozado é que na música ouvida pelo telespectador em casa, havia crooner - só que ele não estava no palco".

O leitor caiu em contradição quando disse que havia crooner, só que ele não estava no palco. Não dá para entender.

Para que o leitor fique informado, vai aí uma dica: o crooner do conjunto The Fever's não é mais o Almir, e sim o Michael Sullivan.

Também fala tanto na carta que "o playback sempre existiu e sempre existirá, mas está tirando o emprego do artista brasileiro, pois dispensa orquestra".

Este leitor de UH e telespectador dos nossos programas deve observar mais para poder analisar. Playback, meu caro amigo, é usado em todos os programas de TV do mundo. Por outro lado, poucos têm o previlégio de ter uma orquestra, e os nossos programas têm, fazendo parte dela 13 músicos.

Quando este mesmo leitor usa o termo gagá, a nossa resposta é a seguinte: "quem dera você chegar aos 63 anos de idade (se já não chegou) e ter a lucidez de Abelardo Chacrinha Barbosa, que não é um autômato, e sim um homem responsável, que completou, recentemente, 40 anos de comunicação. - [ass.] - Emília Pires, Produção do Chacrinha.

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