Tuesday, November 5, 2013

1980 - Reginaldo Faria, o Galã de Água Viva

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 3/2/1980

TROCANDO O SUCESSO POR SOSSEGO 
 
Por ocasião de Dancin'Days, seu primeiro trabalho como ator de novelas da TV Globo, Reginaldo Farias já dizia não acreditar nessa história de galã (''isso existe para vender revistinha..."), de vilão ("já passei dessa fase de ficar alimentando uma vaidade machista") ou demagogo (''não quero angariar votos nem aumentar meu fã clube").

Agora, com o papel principal de Água Viva, novela de Gilberto Braga que estréia amanhã, Reginaldo mostra-se mais cético. Se representar é ficar 12 horas gravando sem dormir ou sem tempo para assimilar o texto, prefere vender banana numa quitanda de Friburgo, onde nasceu e se criou ou curtir seus livros e a natureza, dando um adeus a esta ilusão boba "que termina com um estalo".

Aliás, a ilusão das telas desfaz-se imediatamente quando se assiste às gravações. Reginaldo está no Iate Clube. Mas é Nelson, seu personagem, quem se senta à mesa do amigo e pede um empréstimo. A claquete indica ser a cena sete do capítulo 11. Repete-se algumas vezes um diálogo que não dura mais do que três minutos. Reginaldo não reclama, mas está cansado. Na véspera passou o dia gravando em Angra dos Reis, de onde voltou à noite. Dormiu pouco, mal teve tempo de tomar contato com suas falas de hoje e no dia seguinte estará trabalhando novamente. Água Viva está em ritmo acelerado nesses capítulos iniciais e o ator se ressente desta pressa:

- Em termos de televisão, sei que este é meu melhor personagem, mas não posso compará-lo a Lúcio Flávio, bem melhor em relação à minha carreira. A novela é importante na medida em que me exercita como ator, nem que seja de maneira superficial. Não podemos esquecer também que tenho uma profissão difícil, com pouco mercado. E é a TV Globo que mais absorve trabalho.

A rápida cena filmada no restaurante do Iate Clube está pronta. Reginaldo tenta exemplificar o que acabou de dizer. Refere-se à humilhação por que passou seu personagem:

- Fiz um trabalho de reação, e o humilhado, pedindo emprego a uma pessoa para a qual pagava contas. Dentro de um determinado contexto esta cena significa uma coisa. Se a estivesse fazendo num filme político ela significaria outra. No dia que tiver a sorte de fazer um filme político, ela já estará exercitada em mim.

Nelson é um rapaz que sempre viveu da fortuna dos pais, mortos quando tinha 15 anos. Seu grande hobby é a pescaria em alto-mar, para a qual possui uma lancha e nenhuma preocupação. Até que recebe um golpe de um pretenso amigo e é obrigado a começar tudo do zero:

- Ele começa um trabalho de recuperação, inclusive das amizades. Isto é muito comum e a gente está cansado de saber que existe este tipo de coisa.

Reginaldo projetou-se no cinema. Foi através do irmão, Roberto Farias, que começou um trabalho de ator - No Mundo da Lua, em 1958 - que 11 anos depois o levou para detrás das câmeras, em os Paqueras (''Me chamaram de o pai da pornochanchada e o meu filme era exatamente uma crítica a ela").

Sucesso de público. Dirigiu ainda Os Machões, Para quem fica... Tchau, O Flagrante e Barra Pesada:

- Mas fui obrigado a deixar a direção por um processo político violento. Ficou provado, nos últimos cinco anos, que o cinema brasileiro estava levando mais gente às salas de projeção do que filmes estrangeiros. Então o que aconteceu? As multinacionais vieram para cá e sufocaram o nosso cinema. Hoje, a Embrafilme não empresta dinheiro a ninguém. E quem pode ser autosuficiente? Somente o Luís Carlos Barreto e poucos outros. O jeito é projetar minhas idéias para adiante.

Poucos sabem, no entanto, que a paixão de Reginaldo não é o trabalho de ator ou diretor. Sempre adorou música e estudou clássico com o avô dos irmãos Abreu, dupla de violonistas bastante conhecida hoje em dia. Paralelamente, vivia o clima de Friburgo, "com muito mato, montanha e ar puro". Foi aí que recebeu de presente de Adauto Filho um biblioteca especializada em teatro que incluía livros de dicção, interpretação, estudos sociológicos da arte, peças, etc.. A música clássica não lhe dava emprego e ele virou ator. Hoje, tem consciência do que a próxima novela pode significar em sua carreira. Mas simplicidade parece ser urna das características de sua personalidade e Reginaldo não precisa pensar muito quando se fala no ídolo que está nascendo neste início de década:

- Muitos podem capitalizar o fato por vivermos numa sociedade capitalista. Outros encaram o mito de um ponto-de-vista superficial. Eu, neste momento, quero usar este poder para, futuramente, largar tudo e viver a vida que quero viver. uma vida em que meu tempo seja meu e não do sistema. Já que não posso fazer minha arte Pura vou descobrir outros caminhos. Vou viver num sítio, de aposentadoria, sei lá.

Ele reclama das más condições para o ator brasileiro e aponta os altos salários televisivos como "efêmeros":

- Na televisão todos vivem o clima que estou vivendo, kafkiano. Para mim, o homem está falido.

O sistema é acusado diversas vezes. Não seria fácil apontá-lo como único causador de uma série de falhas? Reginaldo pensa um minuto e lembra Al Pacino: "Ele está numa horrenda? Eu, tendo feito Lúcio Flávio nos Estados Unidos, estaria como estou aqui? Lá, teria uma sorte de coisas que o Brasil não permite. De repente, você vai reivindicar os seus direitos de video-tape e ninguém quer saber. O sindicato mal funciona, tudo é difícil.

Passando por um período de auto-constatação, Reginaldo mostra-se pessimista. As férias a que teve direito há poucos meses foram aproveitadas para trabalhar em três roteiros. Um deles, que seu irmão Roberto pretende dirigir, está na Embrafilme com pedido de financiamento:

- Mas sei que a televisão pode levar ao cinema uma camada da população que normalmente não iria me ver. Se o cinema pode fazer um trabalho mais elaborado, não tem a penetração da televisão. Claro que o Nélson vai me ajudar.

Foi o próprio autor de Água Viva, Gilberto Braga, quem indicou o nome de Reginaldo para o papel de Nélson (''Ele dizia que tinha uma divida comigo porque em Dancin'Days meu personagem fazia uma ponta"). Se, por um lado, o ator vai representar um mundo de opulência, ''lado podre da sociedade", como prefere chamá-lo, "há também outro ângulo, que Gilberto transmite através de uma pequena órfã, abandonada num orfanato com outros menores. É um ponto adiante em termos de televisão, mesmo que não seja tão profundo".

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