Tuesday, November 5, 2013

1980 - Gilberto Braga Fala sobre Água Viva

O Globo
 3/2/1980

NA ESTRÉIA, OS MUITOS MEDOS DE UM AUTOR
 
Segundo os especialistas no assunto, um autor só mostra que veio, realmente, para ficar quando assina uma segunda novela consecutiva de sucesso. Embora este não chegue, exatamente, a ser o caso de Gilberto Braga - que fez um rosário de sucessos no horário das seis - é assim que ele se sente às vésperas da estréia de seu segundo trabalho - o primeiro foi "Dancin'days" - para o horário nobre da Rede Globo: "Água viva". Nesta entrevista, o autor não nega sua insegurança, dá dicas sobre a novela e fala sobre suas preferências pessoais. Um papo entre quatro paredes - que você pode olhar pelo buraco da fechadura.

- Seu apartamento é em vários tons de bege e marrom, com teto preto. Essas cores sombrias refletem um estado de espírito ou são, realmente, as suas cores prediletas?

- Acho que são. Assim como o branco das paredes. Sou mais puxado para o sóbrio, quase triste mesmo. Na sala de jantar existe uma tela grande, bem vermelha, da Wanda Pimentel, que eu adoro e não está ali por acaso. Só que eu não ia suportar vermelho o tempo todo. Nos discos, é a mesma coisa. Bem mais para João Gilberto do que para as Frenéticas - embora eu ouça coisa eufórica também, com menos freqüência.

- Você trabalha sempre assim, de bermuda, sem camisa e descalço?

- Quase sempre. Quando esquenta demais é que começa uma briga com o ar condicionado. Fico com frio, ponho uma malha, é difícil encontrar um equilíbrio. Eu devia escrever com roupa de frio e ar condicionado. Mas entre o que a gente acha que deve fazer e o que, realmente, faz vai uma distância tão grande...

- Você precisa de algum estimulante para o trabalho? Cafezinho, alguma bebidinha alcoólica?

- Gosto e preciso de cafezinho, mas estou tentando cortar porque excita. Pelo menos a noite, já cortei. Bebida alcoólica junto com trabalho, nunca.

- É o copeiro quem faz esse tipo de serviço ou a sua governanta, Madalena?

- Normalmente, o copeiro. Mas quando estou carente, carência misturada com gripe, peço logo à Madalena, (que está comigo há oito anos) para me trazer um limãozinho com açúcar e ficar alguns minutos no escritório... Além de fazer boa comida, a sua presença tem muito de afetivo...

- Com a morte de sua mãe, você diria que ela passou a exercer, até certo ponto, a função materna?

- Claro. Eu tenho uma boa meia dúzia de mães. Para um Édipo tão latente quanto eu, tem sido difícil viver sem a verdadeira. Mas todas as adotivas são ótimas.

- E que funções exerce, exatamente, a Venina, sua secretária pessoal?

- Atende telefone, paga contas, liga para as pessoas, dá recados. Enfim, faz tudo o que não tenho que fazer pessoalmente, para eu poder me dedicar, por completo, à "Água viva" Eu queria que houvesse mais uns dois Gilbertos, pelo menos, para escrever a novela, junto comigo.

- Mas na época do "Dancin'days" você não tinha secretária.

- Tinha. A Nelly, que teve que ir para a Bahia. Só que ela não atendia telefone. No fundo, eu não gosto de botar a Venina para atender. Queria ter tempo para atender eu mesmo, mas com a contagem regressiva para o primeiro capítulo de "Água viva" ficou impossível.

- Não há nisso uma busca de status?

- Busca nenhuma. Eu vivo criticando a busca de status nas minhas novelas. Acho da maior pobreza. O que há é status mesmo - e, sob certos aspectos, é bem chato, porque tem a ver com muita responsabilidade.

- Você costuma dizer que não tem tempo para nada. Mas, vive saindo: matéria-prima para a sua novela?

- Eu quase não saio. No último mês, devo ter saído umas quatro noites e, assim mesmo, me retiro cedo dos lugares.

Acontece que, como o meu nome está em evidência, cada vez que eu saio, isso aparece nas colunas e as pessoas ficam com a impressão de que eu vivo badalando. Quanto à matéria-prima para a novela, é claro que eu sempre tiro. Tanto numa festa quanto num papo com o homem do mate, na praia. Mas eu tenho a impressão de que uso muito mais a matéria-prima que ficou armazenada do tempo em que eu trabalhava menos e o que deu para armazenar nas férias. Mas são muito importantes, porque o autor de novela escreve tanto que, no final termina o trabalho com a impressão de que seu cérebro foi sugado. E preciso muito tempo para essa impressão passar. E é preciso um reabastecimento de energia, de vivência...

- E quanto ao sucesso de "Água viva"?

- A fase é de total expectativa. Cada vez que ouço na televisão, até do vizinho, aquela espécie de eco, "vem aí, 'Água viva' de Gilberto Braga", morro de medo. Mas a pior sensação talvez seja quando me dizem: "eu tenho certeza que vai ser melhor do que Dancin'Days". Não encaro esse tipo de compromisso numa boa. É outra história.

- Você não tem um certo distanciamento critico quando coloca uma órfã, como apelo popular, na espinha dorsal de "Água viva"?

- Para mim, o importante é que não haja cinismo em relação à órfã na novela. E isso eu sei que não há mesmo. Porque eu gosto muito de melodrama. Assim, escrevo com prazer. E claro que quando eu converso sobre o assunto passa um tom crítico. Mas na hora em que escrevo, eu acredito e fico emocionado. Há até um pai para a "órfã'' que está entre os personagens do primeiro capítulo. Tem muito suspense com relação a isso.

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