Tuesday, November 5, 2013

1980 - Emanuel Carneiro assume a TVE

O Globo
Data de Publicação: 20/1/1980
Autor/Repórter: Maria Lúcia Rangel
A REALIDADE BRASILEIRA EM VEZ DE AULAS DE ALEMÃO 
 
Para um povo desenvolvido, em que a maioria fala francês e inglês, nada melhor do que aulas de alemão. É o que vem fazendo a TV Educativa do Rio Grande do Norte, dando chance ao nordestino de aprender o idioma dos antepassados do ex-Presidente Geisel. No Rio de Janeiro, a televisão do Governo ainda não atingiu tanta sofisticação. Com um escasso pessoal efetivo - apenas 480 funcionários - e verba ainda mais escassa - Cr$ 280 milhões no ano de 1979 - a TV Educativa carioca, há um mês sob o comando do professor Emanuel Carneiro Leão, vem tentando, dentro do possível, uma programação que atinja faixas etárias e culturais diversas, contando com um corpo de funcionários dedicados que, dentro do possível, procuram fazer o máximo.

É praticamente impossível comparar a TV Educativa com qualquer emissora comercial. Basta lembrar, por exemplo, que a TV Globo possui 600 funcionários em sua equipe jornalística e a TVE, apenas oito. Além disso, a direção anterior da emissora achou que bastaria às suas pretensões, para o exercício de 1979, o mesmo orçamento do ano anterior.

Não contou com a inflação brutal que este ano terá que ser corrigida duplamente. Se a Globo tem na pessoa de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, o responsável por seu caráter, a TVE divide esta incumbência entre dois homens: Ronaldo Nordi, diretor executivo, e Fernando Pamplona, superintendente de produção. Mas tanto uma como outra tem, semanalmente, sua reunião geral, onde são discutidas as bases da programação. Se a Globo conta com uma Central Globo de Produções (dirigida por Borjalo), uma Central Globo de Jornalismo (dirigida por Armando Nogueira) e uma Central Globo de Engenharia (dirigida por Edilson Malta), a TVE dividiu as diversas áreas que pretende atingir em gerências: Infanta-Juvenil (dirigida por Maria Helena Kukner), Informacional (dirigida por Nilson Lage), Lazer-Cultural (dirigida por Wilson Rocha), Instrucional (dirigida por Gonzaga Vasconcellos) e Veiculação (dirigida por Jonas Rezende).

Ao invés de tentar levar o público a manter sua estação, focalizada de um programa para outro, a TVE optou pela linearidade vertical, ou seja, levar o telespectador a repetir no dia seguinte o mesmo horário. Das 17h às 19h sua programação é dedicada às crianças e adolescentes; das 19h às 21h, à parte didática; das 21h às 22h, ao lazer-cultural, e das 22h às 24h, ao jornalismo propriamente dito.

Os resultados práticos dessa intenção, segundo Ronaldo Nordi, têm sido bons nas áreas infanto-juvenil e informacional:

- Estamos apanhando na área do lazer cultural - explica. É a que mais se aproxima de uma televisão comercial, e por isso iremos fazer uma reformulação grande.

Na opinião de Fernando Pamplona, a qualidade não depende somente do Departamento de Criação. Lembra que, muito mais deficientes do que as cucas pensantes da emissora são os meios financeiros e técnicos, verdadeiros limitadores.

- Desde maio - diz ele - temos nos restringido a arrumar a casa, até então com uma estrutura anárquica e quase aleatória. Hoje, temos objetivos a serem cumpridos.

Uma reformulação na programação é o que pretende o professor Carneiro Leão. Lembra que a grande maioria da população do Brasil precisa de noções básicas de educação sanitária, social e de saúde pública:

- Está na hora de usar a televisão para cumprir isso. Sou contra, por exemplo, a aulas de inglês e francês. E sou formado na Alemanha. Mas a realidade do Brasil é outra. Claro que o fundamental é a alimentação, mas, já que somos uma TV, vamos acentuar o ensino pré-escolar, 1° e 2° graus. Não que o alemão ou a música clássica não tenham valor, mas, na situação em que estamos, a maioria dos recursos não pode ser canalizada para este tipo de ensino. E, se é necessário um chamariz, por que não o futebol?

Ele ainda não sabe de que -maneira usará o esporte nacional como "principal portador da produção educacional e cultural".

Confessando-se um cáustico em relação à TVE, Ronaldo Nordi acha que já poderiam estar fazendo mais coisas, se bem que, com a criação das gerências - de maio para cá - já tenham havido mudanças em termos práticos. De duas horas de programação diária produzidas até março último, passaram a produzir cinco horas e meia, com os mesmos recursos e o mesmo número de pessoas:

- Depois de 10 anos de amadorismo e improvisação conseguimos um sistema nacional de TV. Todos os Estados aderiram a nós espontaneamente. A Educativa tem hoje uma credibilidade que não tinha. Apesar de seus erros e falhas, é respeitada. Não é uma emissora chapa-branca, do Governo.

Mas seu grande problema, segundo Nordi, ainda é a busca de caracterização das faixas:

- Se tivéssemos filmes estrangeiros sairia mais barato e poderíamos cuidar melhor das nossas produções. Mas não seria uma proposta honesta.

Nilson Lage, responsável pelo jornalismo, explica que a diferença básica de seus programas para os das televisões comerciais é ver o acontecimento "na perspectiva de reflexão que ele gera", o que significa eliminar toda coisa eventual, sem passado ou futuro:

- Pretendemos utilizar o jornalismo como instrumento de formação de um cidadão de um pais democrático.

As condições para atingir seus objetivos são modestas, ele admite No momento, conta com somente um equipamento de externa, mesmo assim com uma câmera semiprofissional. A TV Globo, por exemplo, possui 12 equipamentos só para o jornalismo externo.

A equipe da TVE trabalha com um número menor de matérias, mas tratadas com maior desdobramento. Basta tomar um dia do jornal da TVE da semana passada para se notar a diferença para as outras emissoras. No dia 10 último, o programa 1980 mostrou uma entrevista sobre o Iraque com o Ministro Shigeaki Ueki; matérias sobre problema da farinha; carnaval; exposição do Instituto de Tecnologia em que foi mostrada a experiência com o álcool para veículos há 60 anos; vestibular nacional e carioca; prisão cautelar, com três entrevistas; entrevistas com senadores sobre fusão de Partidos, sobre circuito de cinema; sobre o Mambembão e futebol.

- Depois do Carnaval passaremos a ter noticiários aos sábados e domingos, sendo que este será basicamente cultural.

Mas não é somente do noticiário que se ocupa a área de Nilson Lage. Todo programa jornalístico está sujeito ao seu departamento, como Nossa Ciência - filme documentário produzido na TVE e debate sobre o assunto em pauta com pesquisadores; Culturama, em convênio com a Escola de Comunicação da UFRJ, gravado com caminhão de externa e em caráter experimental, suspenso durante as férias; Em Busca do Conhecimento, que trata de questões jurídicas, religiosas, educacionais, universitárias etc. Momento, documentário e, a partir de março, Parlamento, que será feito em Brasília, com parlamentares debatendo em estúdio problemas da realidade brasileira:

Não estamos preocupados com IBOPE - diz Lage. Procuramos atingir micropúblicos específicos. Estas programações são levadas às outras emissoras e nós incorporamos à nossa o que elas nos mandam.

Um sistema ainda precário que conta com salários médios, em equilíbrio com as emissoras comerciais:

- Em compensação - lembra Pamplona - não temos nenhum marajá. É muito mais importante contratar gente de maior interesse de expressão cultural do que comercial.

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