Tuesday, November 5, 2013

1980 - Analisando Água Viva

O Globo
10/2/1980
Artur da Távola
OS PRIMEIROS REFLEXOS DE 'ÁGUA VIVA' 
 
Não se pode julgar uma telenovela por seus primeiros capítulos. Mas, eles sio essenciais na fixação do público e na criação de expectativas favoráveis, no clima de envolvimento etc. Nesse sentido "Água Viva" começou bem. Aqui, breve análise da direção e algumas previsões quanto ao elenco, além de uma consideração sobre as características do autor, Gilberto Braga.

CARAS NOVAS E PROMESSAS - Não é necessário ser adivinho ou chamar o Mago Merlin para saber que Isabela Garcia vai comover o Brasil. Criança órfã já é difícil de resistir, quanto mais interpretada por uma atriz pronta, completa, com cem anos de idade como essa excepcional menina.

Fico contente, também, por ver Raul Cortez num papel importante em telenovela da Rede Globo. Sobre ele escrevi em detalhe no meio do ano passado como que augurando, antecipando, prevendo uma fama e uma aceitação hoje patentes, vide o fato de ser capa e assunto central de uma revista importante como a "Veja".

Reginaldo Faria é outro ator de corte e postura diferentes, ganho pela televisão. Ele é muito bom, vive as situações por dentro mas sempre a ponto de as deixar bem claras para o espectador cúmplice. Sua capacidade de buscar cumplicidade no espectador é muito grande. Betty Faria já estava fazendo falta nas telenovelas. É atriz com jeito brasileiro de ser e representar, autodidata, danada, intuitiva, carioca, desarrumadora, sedutora, solidária. Faz um bem danado vê-la. E que os sobreviventes são sempre fascinantes. Deram a volta na vida.

Sugiro ao público telespectador observar a classe e a densidade de Tetê Medina, a atriz que faz a mulher do cirurgião plástico. Ouvi, dizer que a personagem morre. E pena! Talento ali explode. Mistério, densidade, nervos. Rica figura.

Outras atrizes que de há muito vêm merecendo o destaque de um bom papel são Natália do Valle e Tamara Taxmann, "Márcia" e "Selma", respectivamente. Sempre ficaram no elenco de apoio quando têm condições artísticas e bagagem para protagonizar. Escrevo e assino embaixo que as duas ou uma das duas explodirá estrela em "Água Viva". E esperar. E quem está pintando num papel engraçado é o José Lewgoy, gozadíssimo com aquela perna cheia de ziquizira.

GILBERTO, A PRIMEIRA GERAÇÃO DE TELEDRAMATURGOS DO BRASIL - Gilberto Braga, apesar da origem Intelectual, crítico de teatro do GLOBO que foi, por tantos anos, é, talvez, o primeiro dramaturgo totalmente formado pela televisão e que incorporou (não sem grilos) as características do veículo e os vetores diferentes que se abatem sobre ele.

Televisão não é o discurso isolado de um autor genial. E a influência que a força de um autor pode ter sobre as variáveis incidentes no processo criativo. Essas variáveis, entre outras, são: a audiência e suas leis; as características próprias da telenovela como estilo; as naturais pressões da censura; a ideologia do sistema produtor; as características mercadológicas do produto; as características culturais do produto; os mecanismos comerciais e de merchandising existentes no gênero e respeitáveis na medida em que conseguem os recursos para a qualidade da produção; a visão do mundo do autor, o seu discurso, o seu universo, as causas pelas quais se bate; a criação dos atores muita vez determinando contornos e visões novas dos personagens; a reação do público, colhida durante o processo de elaboração da telenovela e que funciona como feed-bach quase imediato reabastecendo o autor de Informações novas durante o processo de criação.

Tais variáveis se abatem sobre a telenovela, fazendo-a um produto típico, próprio de um meio que é, ao mesmo tempo eletrônico, artístico, de serviço e industrial, postura totalmente nova no terreno da criação dramática. Gilberto é um autor que já parte do conhecimento e da aceitação de todas essas variáveis. Dentro delas ele funciona e se ajusta, rebela e ajeita, escrevendo as suas verdades sem se descaracterizar como pensador, como ser político e como intelectual.

ACERTOS E ERROS DA DIREÇÃO - Em matéria de começo sensacional de telenovela, o recorde está com "Pecado Capital", direção de Daniel Filho. Os capítulos iniciais de "Sinal de Alerta", de Dias Gomes, com as cenas de linchamento de um motorista de ônibus também estão entre os que de melhor nossa televisão já realizou para estrear uma obra. Em "Pecado Capital", ao fim da primeira semana, a telenovela já havia incendiado o interesse do público. Ali, Janete Clair fez curiosa experiência, digna de registro e imitação. Ela começou uma história pelo meio. Em vez dos capítulos nos quais os personagens vão se definindo, (o habitual), "Pecado Capital" começou com um assalto a banco e o envolvimento de um inocente, o Carlão de Francisco Cuoco. Ele já namorava a Lucinha, garota do subúrbio que viria a ser mulher do Salviano Lisboa. Começando a ação de maneira intensa e violenta e contando com uma direção criativa de Daniel Filho, "Pecado Capital" fica com o recorde no particular.

"Água Viva" começou direitinho. Temerosos os dois diretores, por jovens e respeitadores do mais consagrado mas perigoso horário da televisão brasileira, jogaram para não errar. Só que erraram no abuso de câmara lenta ("slow motion") e efeitos especiais. Querendo aquecer (será "liquidar" já que é água?) as saborosas cenas de barcos e pescas, fizeram tantos efeitos e cortes no capítulo inicial, que o meu amigo Carlos Swann fã de Gilberto Braga como eu, mas entendedor de barcos, iates etc, quase desistiu. No capítulo seguinte, novas desnecessárias seqüências de "slow motion" para ternurizar o orfanato, com "takes" em Ângela Leal com cara de tragédia. Ficou forçado e desnecessário. No resto, porém, a direção acertou tudo. Os personagens logo se definiram tipologicamente e a primeira semana termina com um bom índice de interesse. Boas as cenas cômicas apenas induzidas. Ótimo o vestuário. Bons os letreiros.

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