Tuesday, November 5, 2013

1969 - Festa pro Pelé

Jornal do Brasil
23/12/1969
Autor: Valério Andrade
A FESTA
O convite veio através dos jornais

- Estou sinceramente comovido com tudo isso, mas peço que transfiram todo esse ardor para as criancinhas pobres do nosso Brasil. Aproveitemos esse clima de festa e façamos alguma coisa por elas. Espero vocês, domingo, no Maracanãzinho.

O carioca compareceu em massa à Festa do Rei. Quando ele apareceu no palco, ao lado da mulher, a multidão cantava entusiasticamente a minibalada que Wilson Simonal havia ensinado:

"Nós temos um Rei. O craque. Brincando com a bola, que craque ele é.

E o mundo inteiro, já viu como ele é: O Brasil tem (ou a variante: nos temos) um Rei. Nosso Rei Pelé".

A festa se estendeu por mais de duas horas.

Vestido de branco, óculos, fita apache amarrada na cabeça, Wilson Simonal saiu-se bem em suas funções de showman, dando um tom informal e certa vivacidade ao espetáculo. Na realidade, ele foi a principal figura da festa, embora, desta vez, não tenha hipnotizado a multidão como fizera no Festival da Canção.

O desfile musical não conseguiu levar a jovial (e eufórica) multidão ao delírio.

Gal Costa foi que mais tempo permaneceu em cena. Descalça, cabelos à la Caetano (ou é o contrário?), cantou, gritou, fez mímica corporal, mas não logrou criar (talvez por causa das dimensões do local) aquele clima freneticamente neurotizante.

Dos conjuntos, Os Incríveis conseguiram provocar certa agitação na grande platéia sedenta disso mesmo, formada por grupos de moças e rapazes, muitos dos quais ostentando a faixa guerreira do Simonal.

Ângela Maria fez uma aparição melancólica. Ela parece ignorar tudo o que se passou nos anos 60. De longo branco, cantando Só Nós Dois É que Sabemos, surgiu no Maracanãzinho como se estivesse numa boate. Em resposta à sua gafe, a indiferença glacial do poder jovem.

A Festa do Rei foi realizada sob o signo da improvisação, o que, naturalmente, terminou por provocar certos mal entendidos humorísticos .

Até a chegada de Pelé, a coisa obedecia a uma esquematização rotineira, com Simonal fazendo das suas, os números musicais se sucedendo. A confusão começou com a chamada dos convidados ao palco. Aí Hilton Gomes perdeu o controle da situação, Pelé antecipou-se a ele, e Simonal à certa altura lhe tomou o microfone. enquanto o elenco de figurantes ia crescendo no palco.

Nessa altura, faltou Chacrinha para restabelecer a ordem a seu modo, com duas ou três buzinadas .

Evidentemente um espetáculo complexo como esse, sem ensaio prévio, e coletivo, só mês mo com a intervenção da Divina Providência poderia transcorrer sem contratempos. Entretanto, convenhamos, não xecar a lista dos convidados também demais: evitaria o vexame de chamar em tom eufórico, alguém (no caso: Gilmar) que nem sequer estava presente. Ou ainda: deixar Rosemary & Pelé petrificados diante do microfone. Para o telespectador, o comercial acabou com o mal-estar provocado pelo silêncio constrangedor do casal.

Até Otavinho, o garotinho da novela, teve pouco tempo para decorar seu papel: um lapso de memória encurtou sua fala.

A turma da novela - Sérgio Cardoso, Jardel Filho, Cláudio Marzo, Dina Sfat, Regina Duarte - teve uma atuação discreta e mecanizada. Limitaram-se a reproduzir algumas frases marcantes sobre o Rei.

No final da festa, Pelé retornou ao palco pelas mãos das criancinhas, pelézinhos do futuro, fazendo jus a mais um titulo - de Papai Noel de 1969.

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