Tuesday, November 5, 2013

1980 - Analisando Água Viva

O Globo
10/2/1980
Artur da Távola
OS PRIMEIROS REFLEXOS DE 'ÁGUA VIVA' 
 
Não se pode julgar uma telenovela por seus primeiros capítulos. Mas, eles sio essenciais na fixação do público e na criação de expectativas favoráveis, no clima de envolvimento etc. Nesse sentido "Água Viva" começou bem. Aqui, breve análise da direção e algumas previsões quanto ao elenco, além de uma consideração sobre as características do autor, Gilberto Braga.

CARAS NOVAS E PROMESSAS - Não é necessário ser adivinho ou chamar o Mago Merlin para saber que Isabela Garcia vai comover o Brasil. Criança órfã já é difícil de resistir, quanto mais interpretada por uma atriz pronta, completa, com cem anos de idade como essa excepcional menina.

Fico contente, também, por ver Raul Cortez num papel importante em telenovela da Rede Globo. Sobre ele escrevi em detalhe no meio do ano passado como que augurando, antecipando, prevendo uma fama e uma aceitação hoje patentes, vide o fato de ser capa e assunto central de uma revista importante como a "Veja".

Reginaldo Faria é outro ator de corte e postura diferentes, ganho pela televisão. Ele é muito bom, vive as situações por dentro mas sempre a ponto de as deixar bem claras para o espectador cúmplice. Sua capacidade de buscar cumplicidade no espectador é muito grande. Betty Faria já estava fazendo falta nas telenovelas. É atriz com jeito brasileiro de ser e representar, autodidata, danada, intuitiva, carioca, desarrumadora, sedutora, solidária. Faz um bem danado vê-la. E que os sobreviventes são sempre fascinantes. Deram a volta na vida.

Sugiro ao público telespectador observar a classe e a densidade de Tetê Medina, a atriz que faz a mulher do cirurgião plástico. Ouvi, dizer que a personagem morre. E pena! Talento ali explode. Mistério, densidade, nervos. Rica figura.

Outras atrizes que de há muito vêm merecendo o destaque de um bom papel são Natália do Valle e Tamara Taxmann, "Márcia" e "Selma", respectivamente. Sempre ficaram no elenco de apoio quando têm condições artísticas e bagagem para protagonizar. Escrevo e assino embaixo que as duas ou uma das duas explodirá estrela em "Água Viva". E esperar. E quem está pintando num papel engraçado é o José Lewgoy, gozadíssimo com aquela perna cheia de ziquizira.

GILBERTO, A PRIMEIRA GERAÇÃO DE TELEDRAMATURGOS DO BRASIL - Gilberto Braga, apesar da origem Intelectual, crítico de teatro do GLOBO que foi, por tantos anos, é, talvez, o primeiro dramaturgo totalmente formado pela televisão e que incorporou (não sem grilos) as características do veículo e os vetores diferentes que se abatem sobre ele.

Televisão não é o discurso isolado de um autor genial. E a influência que a força de um autor pode ter sobre as variáveis incidentes no processo criativo. Essas variáveis, entre outras, são: a audiência e suas leis; as características próprias da telenovela como estilo; as naturais pressões da censura; a ideologia do sistema produtor; as características mercadológicas do produto; as características culturais do produto; os mecanismos comerciais e de merchandising existentes no gênero e respeitáveis na medida em que conseguem os recursos para a qualidade da produção; a visão do mundo do autor, o seu discurso, o seu universo, as causas pelas quais se bate; a criação dos atores muita vez determinando contornos e visões novas dos personagens; a reação do público, colhida durante o processo de elaboração da telenovela e que funciona como feed-bach quase imediato reabastecendo o autor de Informações novas durante o processo de criação.

Tais variáveis se abatem sobre a telenovela, fazendo-a um produto típico, próprio de um meio que é, ao mesmo tempo eletrônico, artístico, de serviço e industrial, postura totalmente nova no terreno da criação dramática. Gilberto é um autor que já parte do conhecimento e da aceitação de todas essas variáveis. Dentro delas ele funciona e se ajusta, rebela e ajeita, escrevendo as suas verdades sem se descaracterizar como pensador, como ser político e como intelectual.

ACERTOS E ERROS DA DIREÇÃO - Em matéria de começo sensacional de telenovela, o recorde está com "Pecado Capital", direção de Daniel Filho. Os capítulos iniciais de "Sinal de Alerta", de Dias Gomes, com as cenas de linchamento de um motorista de ônibus também estão entre os que de melhor nossa televisão já realizou para estrear uma obra. Em "Pecado Capital", ao fim da primeira semana, a telenovela já havia incendiado o interesse do público. Ali, Janete Clair fez curiosa experiência, digna de registro e imitação. Ela começou uma história pelo meio. Em vez dos capítulos nos quais os personagens vão se definindo, (o habitual), "Pecado Capital" começou com um assalto a banco e o envolvimento de um inocente, o Carlão de Francisco Cuoco. Ele já namorava a Lucinha, garota do subúrbio que viria a ser mulher do Salviano Lisboa. Começando a ação de maneira intensa e violenta e contando com uma direção criativa de Daniel Filho, "Pecado Capital" fica com o recorde no particular.

"Água Viva" começou direitinho. Temerosos os dois diretores, por jovens e respeitadores do mais consagrado mas perigoso horário da televisão brasileira, jogaram para não errar. Só que erraram no abuso de câmara lenta ("slow motion") e efeitos especiais. Querendo aquecer (será "liquidar" já que é água?) as saborosas cenas de barcos e pescas, fizeram tantos efeitos e cortes no capítulo inicial, que o meu amigo Carlos Swann fã de Gilberto Braga como eu, mas entendedor de barcos, iates etc, quase desistiu. No capítulo seguinte, novas desnecessárias seqüências de "slow motion" para ternurizar o orfanato, com "takes" em Ângela Leal com cara de tragédia. Ficou forçado e desnecessário. No resto, porém, a direção acertou tudo. Os personagens logo se definiram tipologicamente e a primeira semana termina com um bom índice de interesse. Boas as cenas cômicas apenas induzidas. Ótimo o vestuário. Bons os letreiros.

1980 - Reginaldo Faria, o Galã de Água Viva

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 3/2/1980

TROCANDO O SUCESSO POR SOSSEGO 
 
Por ocasião de Dancin'Days, seu primeiro trabalho como ator de novelas da TV Globo, Reginaldo Farias já dizia não acreditar nessa história de galã (''isso existe para vender revistinha..."), de vilão ("já passei dessa fase de ficar alimentando uma vaidade machista") ou demagogo (''não quero angariar votos nem aumentar meu fã clube").

Agora, com o papel principal de Água Viva, novela de Gilberto Braga que estréia amanhã, Reginaldo mostra-se mais cético. Se representar é ficar 12 horas gravando sem dormir ou sem tempo para assimilar o texto, prefere vender banana numa quitanda de Friburgo, onde nasceu e se criou ou curtir seus livros e a natureza, dando um adeus a esta ilusão boba "que termina com um estalo".

Aliás, a ilusão das telas desfaz-se imediatamente quando se assiste às gravações. Reginaldo está no Iate Clube. Mas é Nelson, seu personagem, quem se senta à mesa do amigo e pede um empréstimo. A claquete indica ser a cena sete do capítulo 11. Repete-se algumas vezes um diálogo que não dura mais do que três minutos. Reginaldo não reclama, mas está cansado. Na véspera passou o dia gravando em Angra dos Reis, de onde voltou à noite. Dormiu pouco, mal teve tempo de tomar contato com suas falas de hoje e no dia seguinte estará trabalhando novamente. Água Viva está em ritmo acelerado nesses capítulos iniciais e o ator se ressente desta pressa:

- Em termos de televisão, sei que este é meu melhor personagem, mas não posso compará-lo a Lúcio Flávio, bem melhor em relação à minha carreira. A novela é importante na medida em que me exercita como ator, nem que seja de maneira superficial. Não podemos esquecer também que tenho uma profissão difícil, com pouco mercado. E é a TV Globo que mais absorve trabalho.

A rápida cena filmada no restaurante do Iate Clube está pronta. Reginaldo tenta exemplificar o que acabou de dizer. Refere-se à humilhação por que passou seu personagem:

- Fiz um trabalho de reação, e o humilhado, pedindo emprego a uma pessoa para a qual pagava contas. Dentro de um determinado contexto esta cena significa uma coisa. Se a estivesse fazendo num filme político ela significaria outra. No dia que tiver a sorte de fazer um filme político, ela já estará exercitada em mim.

Nelson é um rapaz que sempre viveu da fortuna dos pais, mortos quando tinha 15 anos. Seu grande hobby é a pescaria em alto-mar, para a qual possui uma lancha e nenhuma preocupação. Até que recebe um golpe de um pretenso amigo e é obrigado a começar tudo do zero:

- Ele começa um trabalho de recuperação, inclusive das amizades. Isto é muito comum e a gente está cansado de saber que existe este tipo de coisa.

Reginaldo projetou-se no cinema. Foi através do irmão, Roberto Farias, que começou um trabalho de ator - No Mundo da Lua, em 1958 - que 11 anos depois o levou para detrás das câmeras, em os Paqueras (''Me chamaram de o pai da pornochanchada e o meu filme era exatamente uma crítica a ela").

Sucesso de público. Dirigiu ainda Os Machões, Para quem fica... Tchau, O Flagrante e Barra Pesada:

- Mas fui obrigado a deixar a direção por um processo político violento. Ficou provado, nos últimos cinco anos, que o cinema brasileiro estava levando mais gente às salas de projeção do que filmes estrangeiros. Então o que aconteceu? As multinacionais vieram para cá e sufocaram o nosso cinema. Hoje, a Embrafilme não empresta dinheiro a ninguém. E quem pode ser autosuficiente? Somente o Luís Carlos Barreto e poucos outros. O jeito é projetar minhas idéias para adiante.

Poucos sabem, no entanto, que a paixão de Reginaldo não é o trabalho de ator ou diretor. Sempre adorou música e estudou clássico com o avô dos irmãos Abreu, dupla de violonistas bastante conhecida hoje em dia. Paralelamente, vivia o clima de Friburgo, "com muito mato, montanha e ar puro". Foi aí que recebeu de presente de Adauto Filho um biblioteca especializada em teatro que incluía livros de dicção, interpretação, estudos sociológicos da arte, peças, etc.. A música clássica não lhe dava emprego e ele virou ator. Hoje, tem consciência do que a próxima novela pode significar em sua carreira. Mas simplicidade parece ser urna das características de sua personalidade e Reginaldo não precisa pensar muito quando se fala no ídolo que está nascendo neste início de década:

- Muitos podem capitalizar o fato por vivermos numa sociedade capitalista. Outros encaram o mito de um ponto-de-vista superficial. Eu, neste momento, quero usar este poder para, futuramente, largar tudo e viver a vida que quero viver. uma vida em que meu tempo seja meu e não do sistema. Já que não posso fazer minha arte Pura vou descobrir outros caminhos. Vou viver num sítio, de aposentadoria, sei lá.

Ele reclama das más condições para o ator brasileiro e aponta os altos salários televisivos como "efêmeros":

- Na televisão todos vivem o clima que estou vivendo, kafkiano. Para mim, o homem está falido.

O sistema é acusado diversas vezes. Não seria fácil apontá-lo como único causador de uma série de falhas? Reginaldo pensa um minuto e lembra Al Pacino: "Ele está numa horrenda? Eu, tendo feito Lúcio Flávio nos Estados Unidos, estaria como estou aqui? Lá, teria uma sorte de coisas que o Brasil não permite. De repente, você vai reivindicar os seus direitos de video-tape e ninguém quer saber. O sindicato mal funciona, tudo é difícil.

Passando por um período de auto-constatação, Reginaldo mostra-se pessimista. As férias a que teve direito há poucos meses foram aproveitadas para trabalhar em três roteiros. Um deles, que seu irmão Roberto pretende dirigir, está na Embrafilme com pedido de financiamento:

- Mas sei que a televisão pode levar ao cinema uma camada da população que normalmente não iria me ver. Se o cinema pode fazer um trabalho mais elaborado, não tem a penetração da televisão. Claro que o Nélson vai me ajudar.

Foi o próprio autor de Água Viva, Gilberto Braga, quem indicou o nome de Reginaldo para o papel de Nélson (''Ele dizia que tinha uma divida comigo porque em Dancin'Days meu personagem fazia uma ponta"). Se, por um lado, o ator vai representar um mundo de opulência, ''lado podre da sociedade", como prefere chamá-lo, "há também outro ângulo, que Gilberto transmite através de uma pequena órfã, abandonada num orfanato com outros menores. É um ponto adiante em termos de televisão, mesmo que não seja tão profundo".

1980 - Gilberto Braga Fala sobre Água Viva

O Globo
 3/2/1980

NA ESTRÉIA, OS MUITOS MEDOS DE UM AUTOR
 
Segundo os especialistas no assunto, um autor só mostra que veio, realmente, para ficar quando assina uma segunda novela consecutiva de sucesso. Embora este não chegue, exatamente, a ser o caso de Gilberto Braga - que fez um rosário de sucessos no horário das seis - é assim que ele se sente às vésperas da estréia de seu segundo trabalho - o primeiro foi "Dancin'days" - para o horário nobre da Rede Globo: "Água viva". Nesta entrevista, o autor não nega sua insegurança, dá dicas sobre a novela e fala sobre suas preferências pessoais. Um papo entre quatro paredes - que você pode olhar pelo buraco da fechadura.

- Seu apartamento é em vários tons de bege e marrom, com teto preto. Essas cores sombrias refletem um estado de espírito ou são, realmente, as suas cores prediletas?

- Acho que são. Assim como o branco das paredes. Sou mais puxado para o sóbrio, quase triste mesmo. Na sala de jantar existe uma tela grande, bem vermelha, da Wanda Pimentel, que eu adoro e não está ali por acaso. Só que eu não ia suportar vermelho o tempo todo. Nos discos, é a mesma coisa. Bem mais para João Gilberto do que para as Frenéticas - embora eu ouça coisa eufórica também, com menos freqüência.

- Você trabalha sempre assim, de bermuda, sem camisa e descalço?

- Quase sempre. Quando esquenta demais é que começa uma briga com o ar condicionado. Fico com frio, ponho uma malha, é difícil encontrar um equilíbrio. Eu devia escrever com roupa de frio e ar condicionado. Mas entre o que a gente acha que deve fazer e o que, realmente, faz vai uma distância tão grande...

- Você precisa de algum estimulante para o trabalho? Cafezinho, alguma bebidinha alcoólica?

- Gosto e preciso de cafezinho, mas estou tentando cortar porque excita. Pelo menos a noite, já cortei. Bebida alcoólica junto com trabalho, nunca.

- É o copeiro quem faz esse tipo de serviço ou a sua governanta, Madalena?

- Normalmente, o copeiro. Mas quando estou carente, carência misturada com gripe, peço logo à Madalena, (que está comigo há oito anos) para me trazer um limãozinho com açúcar e ficar alguns minutos no escritório... Além de fazer boa comida, a sua presença tem muito de afetivo...

- Com a morte de sua mãe, você diria que ela passou a exercer, até certo ponto, a função materna?

- Claro. Eu tenho uma boa meia dúzia de mães. Para um Édipo tão latente quanto eu, tem sido difícil viver sem a verdadeira. Mas todas as adotivas são ótimas.

- E que funções exerce, exatamente, a Venina, sua secretária pessoal?

- Atende telefone, paga contas, liga para as pessoas, dá recados. Enfim, faz tudo o que não tenho que fazer pessoalmente, para eu poder me dedicar, por completo, à "Água viva" Eu queria que houvesse mais uns dois Gilbertos, pelo menos, para escrever a novela, junto comigo.

- Mas na época do "Dancin'days" você não tinha secretária.

- Tinha. A Nelly, que teve que ir para a Bahia. Só que ela não atendia telefone. No fundo, eu não gosto de botar a Venina para atender. Queria ter tempo para atender eu mesmo, mas com a contagem regressiva para o primeiro capítulo de "Água viva" ficou impossível.

- Não há nisso uma busca de status?

- Busca nenhuma. Eu vivo criticando a busca de status nas minhas novelas. Acho da maior pobreza. O que há é status mesmo - e, sob certos aspectos, é bem chato, porque tem a ver com muita responsabilidade.

- Você costuma dizer que não tem tempo para nada. Mas, vive saindo: matéria-prima para a sua novela?

- Eu quase não saio. No último mês, devo ter saído umas quatro noites e, assim mesmo, me retiro cedo dos lugares.

Acontece que, como o meu nome está em evidência, cada vez que eu saio, isso aparece nas colunas e as pessoas ficam com a impressão de que eu vivo badalando. Quanto à matéria-prima para a novela, é claro que eu sempre tiro. Tanto numa festa quanto num papo com o homem do mate, na praia. Mas eu tenho a impressão de que uso muito mais a matéria-prima que ficou armazenada do tempo em que eu trabalhava menos e o que deu para armazenar nas férias. Mas são muito importantes, porque o autor de novela escreve tanto que, no final termina o trabalho com a impressão de que seu cérebro foi sugado. E preciso muito tempo para essa impressão passar. E é preciso um reabastecimento de energia, de vivência...

- E quanto ao sucesso de "Água viva"?

- A fase é de total expectativa. Cada vez que ouço na televisão, até do vizinho, aquela espécie de eco, "vem aí, 'Água viva' de Gilberto Braga", morro de medo. Mas a pior sensação talvez seja quando me dizem: "eu tenho certeza que vai ser melhor do que Dancin'Days". Não encaro esse tipo de compromisso numa boa. É outra história.

- Você não tem um certo distanciamento critico quando coloca uma órfã, como apelo popular, na espinha dorsal de "Água viva"?

- Para mim, o importante é que não haja cinismo em relação à órfã na novela. E isso eu sei que não há mesmo. Porque eu gosto muito de melodrama. Assim, escrevo com prazer. E claro que quando eu converso sobre o assunto passa um tom crítico. Mas na hora em que escrevo, eu acredito e fico emocionado. Há até um pai para a "órfã'' que está entre os personagens do primeiro capítulo. Tem muito suspense com relação a isso.

1980 - Água Viva no Ar

Jornal do Brasil
 3/2/1980

UM QUARENTÃO MENOS COMPLICADO ENTRA NO LUGAR DE PALOMA 
 
A partir de amanhã, no horário dás oito da noite, na TV Globo, as insossas e repetitivas contradições de Paloma, que acabaram custando o emprego de Lauro César Muniz, cedem lugar à luta pela ascensão social e econômica do quarentão Nélson, novo personagem de Gilberto Braga. Em outras palavras, no lugar de Os Gigantes, novela de IBOPE considerado catastrófico pela emissora, entra Água Viva, na qual todos depositam esperanças de um sucesso como o de Dancin'Days, do mesmo Gilberto Braga.

Se depender dos Ingredientes que fizeram de seu trabalho anterior um recordista de audiência - romances, emoções infantis, pobres querendo se tomar ricos, mocinhos e vilões, o dinheiro como valor fundamental, tudo isso ambientado na Zona Sul - Gilberto Braga pode garantir que Água Viva não dará à TV Globo os dissabores de Os Gigantes. Contudo, se depender de imaginação, as coisas podem complicar-se: ao contrário de Lauro César Muniz, Gilberto Braga não é um autor preocupado com inovações de forma e conteúdo, preferindo repetir-se a ousar.

A história básica de Ana Viva parece confirmar isso: Nélson (Reginaldo Faria) é o quarentão que perde tudo, num golpe de azar, e tem de recomeçar do zero. Grande parte da novela é passada em ambientes grã-finos: iates, festas, mansões e a indefectível discoteca, no caso a Hipopotamus. E há também, o lado pobre, em tomo da adoção de urna menina órfã. Mas, como o próprio Gilberto Braga deixa claro, esse lado pobre é só um ponto de partida. São de ricos e bem-nascidos - e de pobres que se tomarão ricos - que trata a novela.

No elenco, além de Reginaldo, estão Betty Faria, Lucélia Santos, a menina Isabela Garcia, Mauro Mendonça, Tônia Carrero, Raul Cortez, Cláudio Calvalcanti, Glória Pires, Fábio Júnior, Arlete Sales, José Lewgoy, Kadu Moliterno, Natália do Valle, Jorge Fernando, Carlos Eduardo Dolabella, Milton Moraes, Tamara Taxman, Ivan Cândido, Ilva Nino, Clementino Kelé, Jacqueline Lawrence, Aracy Cardoso, Maria Helena Dias, Dary Reis, Edson Silva, João Cláudio Melo, Ticiana Studart, Giovani Magdalena, Zdenec Hampl, Marcia Veloso e Fernando Eiras. A direção é de Roberto Talma e Paulo Ubiratan.

1980 - Emanuel Carneiro assume a TVE

O Globo
Data de Publicação: 20/1/1980
Autor/Repórter: Maria Lúcia Rangel
A REALIDADE BRASILEIRA EM VEZ DE AULAS DE ALEMÃO 
 
Para um povo desenvolvido, em que a maioria fala francês e inglês, nada melhor do que aulas de alemão. É o que vem fazendo a TV Educativa do Rio Grande do Norte, dando chance ao nordestino de aprender o idioma dos antepassados do ex-Presidente Geisel. No Rio de Janeiro, a televisão do Governo ainda não atingiu tanta sofisticação. Com um escasso pessoal efetivo - apenas 480 funcionários - e verba ainda mais escassa - Cr$ 280 milhões no ano de 1979 - a TV Educativa carioca, há um mês sob o comando do professor Emanuel Carneiro Leão, vem tentando, dentro do possível, uma programação que atinja faixas etárias e culturais diversas, contando com um corpo de funcionários dedicados que, dentro do possível, procuram fazer o máximo.

É praticamente impossível comparar a TV Educativa com qualquer emissora comercial. Basta lembrar, por exemplo, que a TV Globo possui 600 funcionários em sua equipe jornalística e a TVE, apenas oito. Além disso, a direção anterior da emissora achou que bastaria às suas pretensões, para o exercício de 1979, o mesmo orçamento do ano anterior.

Não contou com a inflação brutal que este ano terá que ser corrigida duplamente. Se a Globo tem na pessoa de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, o responsável por seu caráter, a TVE divide esta incumbência entre dois homens: Ronaldo Nordi, diretor executivo, e Fernando Pamplona, superintendente de produção. Mas tanto uma como outra tem, semanalmente, sua reunião geral, onde são discutidas as bases da programação. Se a Globo conta com uma Central Globo de Produções (dirigida por Borjalo), uma Central Globo de Jornalismo (dirigida por Armando Nogueira) e uma Central Globo de Engenharia (dirigida por Edilson Malta), a TVE dividiu as diversas áreas que pretende atingir em gerências: Infanta-Juvenil (dirigida por Maria Helena Kukner), Informacional (dirigida por Nilson Lage), Lazer-Cultural (dirigida por Wilson Rocha), Instrucional (dirigida por Gonzaga Vasconcellos) e Veiculação (dirigida por Jonas Rezende).

Ao invés de tentar levar o público a manter sua estação, focalizada de um programa para outro, a TVE optou pela linearidade vertical, ou seja, levar o telespectador a repetir no dia seguinte o mesmo horário. Das 17h às 19h sua programação é dedicada às crianças e adolescentes; das 19h às 21h, à parte didática; das 21h às 22h, ao lazer-cultural, e das 22h às 24h, ao jornalismo propriamente dito.

Os resultados práticos dessa intenção, segundo Ronaldo Nordi, têm sido bons nas áreas infanto-juvenil e informacional:

- Estamos apanhando na área do lazer cultural - explica. É a que mais se aproxima de uma televisão comercial, e por isso iremos fazer uma reformulação grande.

Na opinião de Fernando Pamplona, a qualidade não depende somente do Departamento de Criação. Lembra que, muito mais deficientes do que as cucas pensantes da emissora são os meios financeiros e técnicos, verdadeiros limitadores.

- Desde maio - diz ele - temos nos restringido a arrumar a casa, até então com uma estrutura anárquica e quase aleatória. Hoje, temos objetivos a serem cumpridos.

Uma reformulação na programação é o que pretende o professor Carneiro Leão. Lembra que a grande maioria da população do Brasil precisa de noções básicas de educação sanitária, social e de saúde pública:

- Está na hora de usar a televisão para cumprir isso. Sou contra, por exemplo, a aulas de inglês e francês. E sou formado na Alemanha. Mas a realidade do Brasil é outra. Claro que o fundamental é a alimentação, mas, já que somos uma TV, vamos acentuar o ensino pré-escolar, 1° e 2° graus. Não que o alemão ou a música clássica não tenham valor, mas, na situação em que estamos, a maioria dos recursos não pode ser canalizada para este tipo de ensino. E, se é necessário um chamariz, por que não o futebol?

Ele ainda não sabe de que -maneira usará o esporte nacional como "principal portador da produção educacional e cultural".

Confessando-se um cáustico em relação à TVE, Ronaldo Nordi acha que já poderiam estar fazendo mais coisas, se bem que, com a criação das gerências - de maio para cá - já tenham havido mudanças em termos práticos. De duas horas de programação diária produzidas até março último, passaram a produzir cinco horas e meia, com os mesmos recursos e o mesmo número de pessoas:

- Depois de 10 anos de amadorismo e improvisação conseguimos um sistema nacional de TV. Todos os Estados aderiram a nós espontaneamente. A Educativa tem hoje uma credibilidade que não tinha. Apesar de seus erros e falhas, é respeitada. Não é uma emissora chapa-branca, do Governo.

Mas seu grande problema, segundo Nordi, ainda é a busca de caracterização das faixas:

- Se tivéssemos filmes estrangeiros sairia mais barato e poderíamos cuidar melhor das nossas produções. Mas não seria uma proposta honesta.

Nilson Lage, responsável pelo jornalismo, explica que a diferença básica de seus programas para os das televisões comerciais é ver o acontecimento "na perspectiva de reflexão que ele gera", o que significa eliminar toda coisa eventual, sem passado ou futuro:

- Pretendemos utilizar o jornalismo como instrumento de formação de um cidadão de um pais democrático.

As condições para atingir seus objetivos são modestas, ele admite No momento, conta com somente um equipamento de externa, mesmo assim com uma câmera semiprofissional. A TV Globo, por exemplo, possui 12 equipamentos só para o jornalismo externo.

A equipe da TVE trabalha com um número menor de matérias, mas tratadas com maior desdobramento. Basta tomar um dia do jornal da TVE da semana passada para se notar a diferença para as outras emissoras. No dia 10 último, o programa 1980 mostrou uma entrevista sobre o Iraque com o Ministro Shigeaki Ueki; matérias sobre problema da farinha; carnaval; exposição do Instituto de Tecnologia em que foi mostrada a experiência com o álcool para veículos há 60 anos; vestibular nacional e carioca; prisão cautelar, com três entrevistas; entrevistas com senadores sobre fusão de Partidos, sobre circuito de cinema; sobre o Mambembão e futebol.

- Depois do Carnaval passaremos a ter noticiários aos sábados e domingos, sendo que este será basicamente cultural.

Mas não é somente do noticiário que se ocupa a área de Nilson Lage. Todo programa jornalístico está sujeito ao seu departamento, como Nossa Ciência - filme documentário produzido na TVE e debate sobre o assunto em pauta com pesquisadores; Culturama, em convênio com a Escola de Comunicação da UFRJ, gravado com caminhão de externa e em caráter experimental, suspenso durante as férias; Em Busca do Conhecimento, que trata de questões jurídicas, religiosas, educacionais, universitárias etc. Momento, documentário e, a partir de março, Parlamento, que será feito em Brasília, com parlamentares debatendo em estúdio problemas da realidade brasileira:

Não estamos preocupados com IBOPE - diz Lage. Procuramos atingir micropúblicos específicos. Estas programações são levadas às outras emissoras e nós incorporamos à nossa o que elas nos mandam.

Um sistema ainda precário que conta com salários médios, em equilíbrio com as emissoras comerciais:

- Em compensação - lembra Pamplona - não temos nenhum marajá. É muito mais importante contratar gente de maior interesse de expressão cultural do que comercial.

1980 - Benedito Ruy Barbosa na BAND

Jornal do Brasil
2/1/1980

A CORRIDA DA VIDA
Numa novela que pretende inovar

SÃO Paulo - Primeira vez, em muito tempo, uma novela de televisão não criará o clima de expectativa sobre o final feliz de um romance. Em Pé de Vento A corrida da vida, esta expectativa, desde o primeiro capítulo, gira em tomo do resultado de uma Corrida de São Silvestre, que se realiza em São Paulo na passagem de ano.

Esta é uma entre algumas novas Propostas que o autor Benedito Rui Barbosa pretende fazer em sua primeira experiência na Bandeirantes, depois de vários anos na Rede Globo, recriando O Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, e mais recentemente, com Cabocla, Uma adaptação livre, pois apenas dois personagens permaneceram do romance de Ribeiro Couto.

Benedito Rui Barbosa saiu da Globo "de forma Profissional" como ele diz: "Foi uma proposta muito boa e, além disso, a Bandeirantes está fazendo um importante esforço nas novelas, criando novo mercado de trabalho, num campo em que as opções eram poucas".

Ele afirma que sua convivência na Globo foi boa e destaca Cabocla, que termina esta semana, "porque nela eu consegui escrever diálogos numa linguagem com a qual convivi muito tempo, pois também sou do mato".

Na nova novela, Ruí Barbosa vai abordar a vinda de uma família de Minas Gerais para São Paulo, com todo o impacto que isso causa numa família, a mudança de hábitos, o quintal cimentado onde não se Pode Plantar nada. O chefe da família, André, um torneiro mecânico interpretado por Dionísio de Azevedo, vai viver um drama comum aos velhos: a dificuldade da aposentadoria por não conseguir provar ao INPS todos os seus anos de trabalho.

O filho de André, Edmar Pé de Vento, que dá título à novela e será Interpretado por Nuno Leal Maia, é um Jovem interessado em corrida.

Em São Paulo, passa a treinar num clube. Com isso, Benedito Rui Barbosa, ex-repórter esportivo, pretende mostrar a situação do atleta brasileiro. A crítica virá através de seu treinador, um veterano desencantado.

Outros filhos do mestre André estarão em idade de prestar vestibular e, com isso, mais um acontecimento cotidiano será enfocado.

Outros personagens simbolizarão certos temas, como a feminista Quitéria. O utópico dono de uma rede de supermercados, que baixa os preços com medo de que o povo com fome possa vir a se revoltar, é um subempregado que "se vira" lavando carros e fazendo biscates.

Um personagem misterioso (a emissora não informa quem é o ator que trabalhará encapuzado) comandará o programa Acorda Brasil, no qual toca música brasileira e discute problemas da atualidade, às vezes dirigindo-se até ao Presidente Figueiredo.

- Acho que uma novela tem de transmitir mais do que casinhos de amor entrelaçados. Afinal, um programa que tem audiência em 90 horas deve conter alguma informação nova. É claro que a novela terá romances, será muito tema, muito romântica, mas com bastante humor. E quem vai se encarregar deste humor será um trio de trabalhadores e um biscateiro, uma espécie de três mosqueteiros que, como na história original, são quatro.

O trio é formado por Treze Pontos, interpretado por Fausto Rocha, jogador inveterado e intelectual do grupo; Boa Gente, (Maurício do Valle), que, como o nome diz é uma boa pessoa que, por ser forte: salva a turina na hora da briga e Zé Queimado (Canarinho). O quarto da turma é Catica (Arnaldo Vaez), que sobrevive lavando carros.

Ao lado disso, os romances. E neste ponto, Rui Barbosa se permitiu uma concessão: o triângulo amoroso central envolverá um rapaz (Nuno Leal Maia) e uma moça (Alcíone Mazzeo ou Elizangela) pobres e uma outra moça rica (Maria Ferreira). O ponto de contato entre os pobres e os ricos será o clube onde Edmar treina e a rica toma sol.

As primeiras e últimas cenas da novela serão gravadas durante a corrida de São Silvestre, na passagem do ano. Será o início, quando Edmar surge como um das muitas "esperanças brasileiras" e também o fim, com o resultado da corrida, que obviamente é segredo, pelo menos para quem não se dispuser a sair às ruas em pleno Ano Novo para acompanhar as gravações no Centro de São Paulo.

Eis o elenco da novela Pé de Vento - a Corrida da Vida', que estréia e será apresentada no horário das 19 horas, com direção de Arlindo Pereira:

Dionísio de Azevedo (Mestre André) - torneiro mecânico que vem com a família de Muzambinho, em Minas Gerais, para São Paulo, onde consegue estabelecer-se graças à sua capacidade. Chega a ter seu próprio torno e alguma clientela até que, por problemas financeiros, é obrigado a vencer todo equipamento de trabalho. Por não conseguir comprovar oito anos de trabalho, tem dificuldades em aposentar-se.

Maria Luiza Castelli esposa de mestre André mulher rude extremo bom senso. à o equilíbrio da família.

Nuno Leal Maia (Edmar Pé de Vento) filho do casal, tomou gosto pelo esporte e ao chegar a São Paulo começa a treinar. Divide seu amor entre as corridas, a enfermeira e a milionária Cris.

Ester Goes (Manta) - Aeromoça que mora em uma pensão, moça honesta, ama seu trabalho e não aceita o julgamento preconceituoso de sua classe. Apaixonada por Jofre.

Fausto Rocha (Treze Pontos) simboliza o anseio de chegar à fortuna através de um golpe de sorte. Joga tudo que ganha em qualquer tipo de aposta.

Osmar de Mattos (Itamar) milionário mimado, apaixonado por Cris.

Rogério Marsico (Alfredo) treinador de Edmar. Desiludido do esporte tem esperanças apenas no atleta.

Edney Giovenazzi (Edmundo) personagem utópico. Dono de uma rede de supermercados, chega ao absurdo de vender artigos de primeira necessidade a preço de custo para atrair freguesia e por medo de que o povo com fome se revolte.

Baby Garroux (Quitéria). Dona da casa onde moram várias moças, é feminista convicta até que encontra o homem de sua vida.

Maria Estela (Gisele) mulher de Edmundo. Solitária, pois o marido se preocupa mais com o supermercado do que com ela.

Cristina Muniz (Aninha) filha de mestre André, para poder prestar vestibular trabalha num consultório médico. Apesar de capacitada, não passa no exame e tenta mudar de vida.

Rolando Boldrin (Jofre) sujeito simpático e tímido, dono de uma riqueza que ninguém sabe de onde surgiu.

Felipe Levi (Junqueira) torneiro mecânico que deu certo. E dono da fábrica onde trabalham mestre André, seu filho Edmar, 13 Pontos, Zé Queimado e Boa Gente.

Canarinho (Zé Queimado) parceiro de 13 Pontos e Boa Gente, Sempre arranja encrenca.

Maurício do Valle (Boa Gente), sujeito simpático que livra a turma na hora da briga.

Taumaturgo Ferreira (Moacyr), outro filho de mestre André. Depois de reprovado no vestibular, é envolvido por sua inocência e acaba causando problemas à família.

Angelina Muniz; (Ludimila) Namorada de 13 pontos, que por acreditar no seu amor, dá-lhe dinheiro para jogatina. É balconista e mora na pensão de Quitéria.

Arnaldo Vaez (Catica) desempregado, amigo da turma Treze Pontos.

Riva Nirnitz; (Fefa) empregada na casa de Edmundo vive se intrometendo nos assuntos da família.

Henrique César (Juca) mordomo de Edmundo, parceiro de Fefa.

Maria Ferreira (Cris), milionária que se apaixona por Edmar e acaba dependente dele.

Carmen Silva (Noca) avó de Te, mulher com sua própria filosofia de vida, acredita que amor requentado dá dor de barriga.

Joy Boy Brasino (?) apresentador de programa Acorda Brasil defende a cultura brasileira. O nome do ator será revelado depois de uma promoção durante a novela em forma de um concurso para que os telespectadores advinhem seu nome.

Te - Namorada pobre de Edmar. A atriz ainda não está definida. Pode ser Alcione Mazzeo ou Elisângela.

1988 - Vem Aí... Água Viva

O Globo
 1/1/1980

A PRÓXIMA NOVELA DAS OITO 
 
Aqui, tudo sobre o elenco - Em participação especial apenas nos 18 primeiros capítulos estarão: Glória Menezes, Milton Moraes, Carlos Eduardo Dolabella e Tamara Taxman. O elenco, definitivo e já confirmado, é formado por Bety Faria, Reginaldo Farias, Lucélia Santos, Fábio Junior, Glória Pires, Ângela Leal, Tônia Carrero, Isabela Garcia, Raul Cortez, Mauro Mendonça, Eloisa Mafalda, Beatriz Segall, José Lewgoy, Aracy Balabanian, Kadu Moliterno, Cláudio Cavalcanti, Jacqueline Lawrence, Jorge Fernando e Araci Cardoso.

- Ângela Leal, que fará a personagem Suely, na última quinta-feira sofreu um acidente de carro quando ia para o Teatro dos Quatro fazer a peça "Papa Highte". Seu carro capotou três vezes. Ângela, que estava dirigindo foi jogada para o banco de trás. Temendo um incêndio, que aconteceu logo em seguida, conseguiu sair do carro sem ferimentos. No entanto, muito abalada emocionalmente, não houve espetáculo no dia, mas na sexta-feira, já recuperada, voltou ao palco e ao estudo de sua nova personagem na novela.

- Glória Pires, seguindo sugestão dos diretores, mudou o corte e a cor do cabelo. Também tem ido a praia todo o dia para dar um tom bronzeado a sua pele, como também está tendo aulas de etiqueta. Fará triângulo amoroso com Fábio Junior e Lucélia Santos.

- José Lewgoy, que esteve durante três meses em Nova York de férias, voltou com alguns quilos a mais. Para poder interpretar Kleber, um rico executivo, está fazendo um rigoroso regime alimentar que conseguiu emagrecer 12 quilos em um mês.

- Afastado do vídeo desde "Memórias de Amor", Aracy Cardoso será Wilma, mulher de Mauro Mendonça e mãe de Lucélia Santos.

- Eloísa Mafalda não sabe qual a maior alegria: se a de ser avó pela primeira vez em meados do próximo ano ou fazer pela primeira vez uma novela de Gilberto Braga.

- Raul Cortez, com médico cirurgião plástico, terá a sua estréia em novelas na Globo.

- Tônia Carrero está preparando uma enorme festa de Natal em sua casa. Vai reunir amigos, parentes e os novos colegas de elenco.

Mário Gomes, a safena de Paulo Ubiratan

Jornal do Brasil
 10/5/1988
Autora: Márcia Cezimbra
MÁRIO GOMES, UMA VOLTA POR CIMA 

 
O ator Mário Gomes virou novamente notícia há um mês, no papel de uma das quatro safenas do diretor global Paulo Ubiratan, uma homenagem às confusões que teria aprontado nas gravações da novela Vereda tropical, em 85. Não foi por esta fama de criador de casos, porém, que a segunda safena de Ubiratan - a primeira é Tônia Carrero - viverá um dos protagonistas da novela Olho por olho, da Manchete. O diretor da próxima novela, Ari Coslov, explicou que o ator não foi contratado por ter um nome de mídia certamente congelado na Globo, mas por ser "perfeito" para o personagem. "Tudo foi acertado antes da história da safena", diz. O diretor revela que se cuida muito, tem um ótimo astral e jamais teria medo que Mário Gomes lhe provocasse uma ponte de safena. "Se eu tiver, eu assumo. Não vou culpar ninguém".

Mário Gomes será o Máximo. A safena da Globo virou um safadinho na Manchete. Máximo explora homossexuais e velhas ricas para sobreviver na cidade grande, desde que foi expulso do campo por uma crise agrária. Ele é um dos quatro filhos de Ana Falcão e vai dividir a namorada prostituta Paula (Beth Goulart) com o irmão Caio (Caíque Ferreira). Olho por olho promete mais graça do que Guerra dos sexos, de 84, quando Nando (Mário Gomes) disputava o amor de Juliana (Maitê Proença). A carreira iniciada em 72 na novela educativa Bicho do mato foi interrompida, com o gelo da Globo, no seu melhor momento, logo depois de ter interpretado o personagem Lucas, da Vereda.

Mário Gomes é hoje a própria autocrítica de sua performance "imatura" em Vereda. Filho único, muito mimado pela mãe Virgínia, o ator reconhece que fez do trabalho a sua família e, talvez, segundo ele, tenha tratado diretores e produtores com a mesma intimidade e exigência que sempre caracterizou a relação com seus pais. "Eu fui uma criança rebelde e ainda me agarro ao meu Peter Pan. Tenho um lado que não quer crescer, mas a análise me ajudou muito", revela. Esta impulsividade infantil no trabalho talvez tenha deixado, na sua opinião, "as pessoas de saco cheio". Nada, porém, justifica para o ator o veto da Globo a um nome que acabava de provar o sucesso. Tampouco tem se preocupado com a homenagem como uma das safenas de Ubiratan. "No início fiquei magoado, mas deixei para lá. Não sou culpado da safena dele, agora me sinto até importante com a distinção", diz.

Outro motivo para o apelido de safena seria o estouro como galã. "O sucesso me subiu à cabeça", diz em tom tão sincero que, se Ubiratan tivesse um bom coração, arrancaria de vez a safena Mário Gomes. Ele comenta que, no auge da fama, talvez tenha tentado interferir demais no trabalho dos diretores de Vereda, Guel Arraes e Jorge Fernando, dois rapazes que acabavam de chegar numa casa onde Mário Gomes atuava há 13 anos. "O sucesso é uma coisa muito difícil de administrar, ainda mais sem ajuda de ninguém", diz.

O preço foi alto para um sujeito obcecado pela vida artística."Sou determinado e persistente. Botei na cabeça que seria ator e acabou", diz. Não seria o poder da Globo que derrubaria o seu poder de virar artista. O ator congelado decidiu cantar e aproveitar o tempo livre de três anos para namorar firme - "agora acabou" - e montar a banda Ilegal, sem gravadora definida, mas com um pé na fama: Mário e o parceiro Luciano Lúcio assinam uma música ainda sem título da trilha do filme Lili Carabina e outra na própria Olho por olho, um funk que diz "quando a gente transa, tudo balança". A banda Ilegal, formada por Luciano, Fábio Holtz, Pedro Montagna e Marcelo Macedo, se apresenta esporadicamente em shows em Minas Gerais e no Paraná.

Outra saída para livrar o artista do destino de safena de Ubiratan foi a moda. Mário Gomes montou a MG Confecções, de camisetas, que lançará no mercado como uma etiqueta especial do personagem Máximo. "Está no contrato que vou usar minhas camisetas e espero que a Manchete também balance com a nossa transa. A banda é fiel, dedicada e está no ponto. Alguma coisa tem de balançar, senão eu balanço mesmo sozinho", diz.

1972 - Silvio Santos compra formato argentino

VEJA
 18/10/1972

O MÁGICO 
 
Sílvio Santos foi buscar na Argentina o quadro de maior sucesso atualmente em seu programa dominical: "Sinos de Belém" - que poderia chamar-se, também, "A Cartola do Mágico". Nele, instituições de caridade competem numa gincana prevista para 34 semanas, com prêmio final de 350 000 cruzeiros, e parciais nas eliminatórias de 1 a 5.000 cruzeiros por tarefa cumprida.

Entre as salvas de palmas do auditório, um número musical ou uma entrevista e as piadas da ex-vedete Virgínia Lane, do seu júri, procurando o humor (e raramente o encontrando) em torno da linha do abdome ou de um busto, Sílvio Santos, entre sorrisos, anuncia as tarefas a serem cumpridas.

Conseguir levar ao programa um ator do cinema, americano, que tenha sido noivo da filha de um ex-presidente dos Estados Unidos. Conseguir que dois voluntários escalem os quarenta andares do Edifício Itália, em São Paulo, e trazer também dos Estados Unidos uma vedete que tenha em seu corpo desenhos feitos pelo pintor surrealista francês Salvador Dali são algumas das tarefas pedidas e cumpridas pelas instituições de caridade, que podem ganhar por semana no programa um total de cruzeiros em prêmios insuficiente, tanto para as necessidades dos seus infortunados dependentes como para atender as despesas de viagens e hospedagem dos exigidos pelas tarefas.

"A produção tem um representante em Nova York, que faz os convites e paga a viagem e as estadas, e aqui também se ajudam as instituições", confessa a assessora de Sílvio Santos, Eulália de Carvalho, enquanto no palco o "animador-sorriso", sorrindo, faz suspense: "Será que a vedete (Monique von Voore) vem mostrar os desenhos de Dali? Monique acabou aparecendo, não mostrou a tatuagem, o público aplaudiu e o mágico Sílvio, em seguida ainda, conseguia fazer do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar de São Paulo atores coadjuvantes - sem cachê - de algumas cenas externas do programa. Na avenida São Luís", no centro de São Paulo, com o trânsito parado, Sílvio Santos, sorrindo, subiu com a ajuda de urna escada Magirus no encalço dos dois voluntários alpinistas. que escalavam o Edifício Itália.

1969 - Festa pro Pelé

Jornal do Brasil
23/12/1969
Autor: Valério Andrade
A FESTA
O convite veio através dos jornais

- Estou sinceramente comovido com tudo isso, mas peço que transfiram todo esse ardor para as criancinhas pobres do nosso Brasil. Aproveitemos esse clima de festa e façamos alguma coisa por elas. Espero vocês, domingo, no Maracanãzinho.

O carioca compareceu em massa à Festa do Rei. Quando ele apareceu no palco, ao lado da mulher, a multidão cantava entusiasticamente a minibalada que Wilson Simonal havia ensinado:

"Nós temos um Rei. O craque. Brincando com a bola, que craque ele é.

E o mundo inteiro, já viu como ele é: O Brasil tem (ou a variante: nos temos) um Rei. Nosso Rei Pelé".

A festa se estendeu por mais de duas horas.

Vestido de branco, óculos, fita apache amarrada na cabeça, Wilson Simonal saiu-se bem em suas funções de showman, dando um tom informal e certa vivacidade ao espetáculo. Na realidade, ele foi a principal figura da festa, embora, desta vez, não tenha hipnotizado a multidão como fizera no Festival da Canção.

O desfile musical não conseguiu levar a jovial (e eufórica) multidão ao delírio.

Gal Costa foi que mais tempo permaneceu em cena. Descalça, cabelos à la Caetano (ou é o contrário?), cantou, gritou, fez mímica corporal, mas não logrou criar (talvez por causa das dimensões do local) aquele clima freneticamente neurotizante.

Dos conjuntos, Os Incríveis conseguiram provocar certa agitação na grande platéia sedenta disso mesmo, formada por grupos de moças e rapazes, muitos dos quais ostentando a faixa guerreira do Simonal.

Ângela Maria fez uma aparição melancólica. Ela parece ignorar tudo o que se passou nos anos 60. De longo branco, cantando Só Nós Dois É que Sabemos, surgiu no Maracanãzinho como se estivesse numa boate. Em resposta à sua gafe, a indiferença glacial do poder jovem.

A Festa do Rei foi realizada sob o signo da improvisação, o que, naturalmente, terminou por provocar certos mal entendidos humorísticos .

Até a chegada de Pelé, a coisa obedecia a uma esquematização rotineira, com Simonal fazendo das suas, os números musicais se sucedendo. A confusão começou com a chamada dos convidados ao palco. Aí Hilton Gomes perdeu o controle da situação, Pelé antecipou-se a ele, e Simonal à certa altura lhe tomou o microfone. enquanto o elenco de figurantes ia crescendo no palco.

Nessa altura, faltou Chacrinha para restabelecer a ordem a seu modo, com duas ou três buzinadas .

Evidentemente um espetáculo complexo como esse, sem ensaio prévio, e coletivo, só mês mo com a intervenção da Divina Providência poderia transcorrer sem contratempos. Entretanto, convenhamos, não xecar a lista dos convidados também demais: evitaria o vexame de chamar em tom eufórico, alguém (no caso: Gilmar) que nem sequer estava presente. Ou ainda: deixar Rosemary & Pelé petrificados diante do microfone. Para o telespectador, o comercial acabou com o mal-estar provocado pelo silêncio constrangedor do casal.

Até Otavinho, o garotinho da novela, teve pouco tempo para decorar seu papel: um lapso de memória encurtou sua fala.

A turma da novela - Sérgio Cardoso, Jardel Filho, Cláudio Marzo, Dina Sfat, Regina Duarte - teve uma atuação discreta e mecanizada. Limitaram-se a reproduzir algumas frases marcantes sobre o Rei.

No final da festa, Pelé retornou ao palco pelas mãos das criancinhas, pelézinhos do futuro, fazendo jus a mais um titulo - de Papai Noel de 1969.

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