Thursday, September 5, 2013

1982 - Retrospectiva da TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 4/1/1982
Autora: Maria Helena Dutra
1981 NA TELEVISÃO
Prós e contras (como sempre) num ano de muito movimento

Estando a vida lá fora cada vez mais cara e perigosa era óbvio que a televisão em 1981, como nos anos anteriores, cada vez mais conquistasse espaço no tempo carioca. Isto é, mais público e repercussão. Fazendo jus à preferência, mesmo que um pouco forçada em alguns casos, ela ofereceu bastante movimento. Com entretenimento para todos os níveis de escolaridade e bem mais informações, pois passou a perguntar muito mais do que antes.

E como recebeu algumas respostas, chegou mesmo a se atrever a esboçar alguns contornos de nossa realidade. Em branco, apenas, permaneceu sua função educacional e cultural, pois os quatro canais em atividade, até o estatal, continuam pensando apenas em resultados imediatos de audiência.

Estes mostraram ainda o total predomínio da Rede Globo que a lamentar só teve mesmo duras derrotas vespertinas. Sua média, em quase dois milhões de lares com televisão do Grande Rio, é de 34% com piques de 70 ou mais no horário nobre. Mas seu ano, no geral, não foi dos mais brilhantes. De bom ofereceu mesmo uma diversificada cobertura esportiva: a novela Baila Comigo, pela sinceridade do autor e perfeição de elenco; Bem Amado, que permanece sua melhor série e nossa melhor ficção política; Som Brasil, apesar de matutino o nosso lado caipira começa a ser reconhecido; e os especiais de fim de ano, A Paixão Segundo Nélson Rodrigues e, grande destaque, Morte e Vida Severina.

No degrau intermediário, alguns lances. A melhora do Sítio do Picapau Amarelo, vamos ver se continua assim; os Trapalhões de sempre; Viva o Gordo, meio repetitivo, mas criou alguns bordões; Globo Revista, que apesar de levar muito mais Governo do que Oposição, relançou a entrevista política na estação que antes só lia decretos; Plumas e Paetês e Jogo da Vida duas bobagens bem realizadas; e o inteligente Globinho.

Mas teve também muitos percalços. TV Mulher esvaziou de vez, o mesmo acontecendo com Globo Repórter. Catástrofe foi o ano do Planeta dos Homens e Chico Total. Engraçado é que o primeiro só apresentou um bom programa, que foi o último, e o segundo igualmente apenas um, que foi o primeiro.

Na parte musical não acertou uma. MPB-81 e Show do Mês não deixaram a menor lembrança e a série Grandes Nomes acabou sem ninguém perceber. Nas novelas, deu déficit. Pois mostrou uma boa, duas razoáveis e cinco ruins, mesmo. Este o caso de Coração Alado, só ralou; O Amor é Nosso, ou o fracasso foi de-es; As Três Marias, transformar o Ceará em Baixo Leblon e Suíça, só podia dar no que deu; Ciranda de Pedra, São Paulo de 1947 com estética americana dos anos 30; Brilhante, chega a dar pena; e Terras do Sem Fim, em que puseram uma barcaça do Mississipi no mar alto de Ilhéus sem dar desastre.

Mas o pior deles na estação foi o cancelamento de Amizade Colorida, série com apenas 10 títulos. Não tanto pela censura das senhoras paulistas, mas porque realmente não sabiam o que fazer do Edu Homem. Plantão de Policia era melhorzinho, mas Obrigado Doutor só foi esquisito. Nas importações supérfluas, nos infringiram o horror de Dallas, seu mais doloso feito do ano.

Depois de ter sido apenas um exibidor de velhos filmes e enlatados, a TV Studios este ano montou e amarrou uma programação nacional de feitio popularesco e sensacionalista. Com isto, Wilton Franco, rezando a Ave Maria, e O Homem do., Sapato Branco, agredindo desnutridos loucos, se solidificou em segundo lugar com média de 14 pontos e piques de até 30.

Muito esporte, desfile de Misse, J. Silvestre exumando programas dos anos 60, humorismo grosso e filmes de caratê é pornochanchadas nacionais contribuíram para o sucesso. Sempre liderado pelo programa dominical do dono da casa. Um conglomerado de atrações que pode fazer chorar quem permanece acreditando em dignidade humana, mas que é comprovadamente uma política comercial exata e certa. Por isso, o fato mais importante do ano e talvez o que mais vá marcar a televisão de 1982.

Ano que também deverá ser o de limite para as experimentações do mito Walter Clark na direção de programação da Bandeirantes. Este ano, nada deu certo. Imitando a Globo sem seus recursos e infra-estrutura e, pasmem, a Educativa no nível de realização, mal se equilibra no terceiro lugar com média de 3 pontos e pique no máximo de 10. Ao contrário da definição, mesmo que braba, de Sílvio Santos, o canal 7 permanece sem personalidade e continua impenetrável mistério qual o tipo de espectador que quer atingir e qual estratégia adota.

No esporte teve suas intenções barradas pela Globo, mais rica, mas no jornalismo não investe e bons comentaristas não bastam para esconder a pobreza de imagens.

Canal Livre este ano não teve o brilho de 80, pelo excesso de equívocos na escolha de entrevistados e perguntadores. Cidade Aberta fechou porque quis fazer TV Mulher em estilo Tupi. ETC, depois de empolgante entrevista com D Helder Câmara, virou papo de Zona Sul, sem legendas, para os não iniciados, e 90 Minutos encrencou firme por ser um Fantástico diário produzido ao jeito da TV Rio.

Nas novelas só se salvou com Os Imigrantes, mas seu segundo ano é duvidoso, pois o autor Benedito Rui Barbosa parece que largou o barco e voltou à sua terra natal. Isto é, outra estação. O mesmo aconteceu com Ivani Ribeiro, que se despediu dos Adolescentes agora tutelados por Jorge Andrade. Com ambos, os meninos não cresceram. Tal e qual a Chatuba de Dicró parece difícil ficar na Bandeirantes pois também Nelson Mota e sua Mocidade Independente duraram mínimas edições.

Para fora foram também algumas de suas atrações populares, como Edna Savaget e Hebe Camargo, mas nenhum prestígio as substituiu. Chacrinha se tornou peripatético e acabou 'rendendo pouco aos domingos. Bom mesmo, apenas, produziu o seriado Dona Santa, um raro encontro de conteúdo com exata forma.

Quem subiu este ano foi a Educativa. Embora tenha a ínfima média de 0,8% tem dado piques de 8 a 7 em alguns horários nos quais chega a ficar em terceiro lugar. Uma vitória para a estação que era totalmente desconhecida do público e este, ao menos, sabe que existe um Canal 2 no seu televisor. Muito pelo esporte que foi intenso e bem realizado, tanto no campo amador como no perene futebol, que lhe dá muitos espectadores no domingo.

MAS também tem outros atrativos. A extenuante cobertura do carnaval, este ano meio abagunçada. Mais acertado foi cancelar programas tipo Decisão Pública em favor de produções melhor realizadas. E trazer também produções paulistas, da Cultura, que em média foram fracas, mas apresentaram alguns bons momentos no Teleromance. Em igual linha, alternando méritos com bobagens, foram os programas Um Nome na História, Os Astros, Água Viva, Catavento, Sábado Forte e Os Músicos, Mas apenas o alinhamento destes títulos mostra que houve esforço na estação para atingir um público específico de classe média. Pena a bobagem que fez em Tempo Quente e Primeira Página, repletas de discussões estéreis, que fizeram a emissora perder muitos espectadores notívagos. Teve um dos melhores programas do ano, Aquarela do Brasil, e um grande equívoco, Interiores, que, apesar de sua boa linguagem televisiva, perdeu-se por acreditar que jornalismo se improvisa.

Apesar deste e outros percalços, o ano, como foi demonstrado, teve realmente movimento. Que em 1982 deve ainda crescer mais, pois dois novos canais finalmente serão inauguradas. Público todos sabem que vão ter. Resta desejar se seis estações saberão o que fazer com ele.

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