Thursday, September 5, 2013

1977 - A Sombra da Censura

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 11/12/1977

FELIZ ANO NOVO PARA A CULTURA BRASILEIRA
"Sendo você pessoa com atuação na vida cultural brasileira, quais as dificuldades encontradas para exercê-la em 1977, e de que maneira gostaria que ela fosse exercida em 1978?"

Personalidades do cinema, teatro, literatura, televisão, arquitetura deram depoimentos que, por mais variadas que sejam suas posições filosóficas, convergiram para uma constante: liberdade.

+ Nelson Pereira dos Santos:

— A maior dificuldade foi mesmo a censura, tanto oficial como econômica. Gostaria que no próximo ano a censura oficial fosse abolida e, quanto à econômica — o controle de exibição ainda está sendo exercido pelos importadores de filmes — seria ótimo que a Embrafilme venha a participar da atividade de exibição.

+ Nelson Rodrigues:

— Desde que comecei minha vida literária, tive um romance e várias peças interditados e, mais tarde, liberados por instância superior. Entre eles, encontram-se A Mulher sem Pecado, Vestido de Noiva, O Anjo Negro, Álbum de Família, etc. De qualquer maneira, eu continuo escrevendo, haja o que houver. Neste ano de 1977, tive complicações pelo interior do Brasil com Toda Nudez Será Castigada. Com lançamento previsto para o próximo ano, espero que o filme A Dama do Lotação, dirigido por Neville de Almeida, consiga impropriedade para menores de 18 anos por se tratar de um filme de adultos.

+ Antônio Houaiss:

— Creio que não constituo uma exceção. Os trabalhadores intelectuais do país inteiro — sobretudo os das chamadas áreas humanísticas, isto é, não tecnológicas — não estão usufruindo de condições favoráveis para o seu trabalho. Isto se deu comigo em 1977 e, infelizmente, vejo que vai continuar em 1978. Mas o que falo de mim pouco importa, porque estou pensando numa larga quantidade de pessoas do mais alto valor intelectual e da mais decidida vontade de trabalhar que não está vendo horizonte no país inteiro para seu trabalho.

— Fala-se em memória nacional, fala-se em salvação da memória nacional, fala-se em thesaurus de cada profissão... Isto daria para engajar alguns milhares de trabalhadores intelectuais em atividades profundamente fecundas para os brasileiros e o Brasil de a manhã. O que eu pergunto é se se está cogitando do Brasil de amanhã...

+ Millor Fernandes:

— Não tenho nada com isso.

+ Fernanda Montenegro:

— Do ponto-de-vista profissional, o fundamental para nós é o fim da censura. E nesse aspecto, 1977 só representou para o teatro uma piora que vem se aprofundando a cada ano desde 1968. Se é um sonho pretender a abolição da censura, pelo menos, poderíamos estar nas mesmas condições da imprensa, por exemplo. Quem lê alguns jornais percebe que os meios de comunicação conquistaram alguma abertura. Mas nosso teatro nunca foi tão censurado, tão mutilado.

— As perspectivas para o ano que vem em termos gerais parecem até promissoras, mas com relação ao teatro nosso passado não alimenta qualquer esperança.

+ Sérgio Bernardes:

— Eu exerço minha vida exatamente como pretendo. É uma vida em que crio todas as minhas programações para oferecer um produto final ao meu pais. Não sei em que Governo terei este produto pronto. Como estou fazendo um laboratório de investigações conceituais, estou criando diretrizes que irão gerar eventos para o pais, enquanto que o governo trabalha com eventos que geram diretrizes.

— A crise é conceitual e de diretrizes razão pela qual criei este espaço que é o laboratório.

+ Otávio Augusto:

— Os problemas que mais me preocupam como presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos são a recessão do mercado de trabalho, com o monopólio dos grandes centros urbanos — Rio e São Paulo — e a inflação de programas estrangeiros no cinema e na TV. Isso provoca uma coação econômica, pois os artistas e técnicos precisam trabalhar e o mercado cada vez mais reduzido leva a uma remuneração completamente aviltada, quando existe trabalho.

— O sindicato vem lutando pela democratização do mercado de trabalho mas essa luta esbarra na arbitrariedade das autoridades. A Delegacia Regional do Trabalho tem uma postura patronal que só pode prejudicar os profissionais como um todo. Mas como liderança da categoria e mediadores com as autoridades ficamos entre dois fogos pressionados de um lado e do outro.

- Além de tudo isso, a nossa categoria profissional assistiu esse ano à dinamização da exportação de programas de TV. Considero a aparentemente positiva industrialização das programações de TV mais um crime contra o artista. Ele que é a mão-de-obra básica para realização desses programas e não recebe um só centavo dessas grandes transações comerciais.

— Como ator e como presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos só posso querer que 1978 nos traga a regulamentação da profissão. Isso eliminaria uma série de coisas. Mas para que a regulamentação seja positiva do ponto-de-vista do artista, que o projeto de regulamentação atenda às nossas reivindicações.

+ José Louzeiro:

— A primeira dificuldade encontrada é a censura. A segunda, no meu campo — literatura — é a mecânica da distribuição dos livros. A terceira, que estamos combatendo com unhas e dentes, é conseguir que o Sindicato dos Escritores funcione. Por fim, a maior delas, que esperamos ganhar de presente no próximo ano, é tirar o Brasil do obscurantismo em que vive. Embora não pareça, sou otimista.

+ Flávio Rangel:

— A maior dificuldade foi mesmo a censura, além de ter sofrido a minha inclusão na lista dos 97. Apesar de ter recebido inúmeros cumprimentos, não os mereço, porque não sou funcionário público. Gostaria de ver restituído em 1978, o pleno regime das liberdades democráticas.

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