Thursday, September 5, 2013

1999 - O Ocaso da Manchete

O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 27/1/1999
Autora: Beatriz Coelho Silva
FUNCIONÁRIOS DA MANCHETE FAZEM NOVA ASSEMBLÉIA
Na reunião, marcada pelos sindicatos, empregados decidirão se continuam em greve

RIO - Os funcionários da TV Manchete fazem assembléia hoje, a partir das 13 horas, na porta da sede da empresa, para decidir se prosseguem com a greve pelo atraso dos salários e do 13º. Eles paralisaram os trabalhos em outubro.

No início da semana passada, a empresa chamou 37 funcionários do Departamento de Jornalismo para voltar a veicular o Jornal da Manchete e, nos últimos dias, pagou 40% do salário de janeiro para quem está trabalhando.

Com isso, os Sindicatos dos Radialistas e dos Jornalistas marcaram a reunião de hoje para decidir o destino da paralisação das atividades.

Ação - No entanto, os sindicatos vão buscar meios legais de pressionar a empresa a pagar os salários que estão atrasados desde outubro.

De acordo com o advogado do Sindicato dos Radialistas, Nicola Piraíno, até sexta-feira eles entrarão com um pedido de ação penal na Procuradoria-Geral da República contra o presidente do Grupo Bloch, Pedro Jack Kappeller, e a diretoria da empresa.

No pedido, eles acusam a diretoria de lesar os cofres públicos por descontar e não recolher o Imposto de Renda e a taxa do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e de não pagar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) desde 1990.

"De acordo com a lei, eles não podem fazer retiradas da empresa nessas condições e isso tem acontecido", disse Piraíno.

1992 - A Nova TVE

O Globo
Data de Publicação: 29/1/1992
Autorr: Carlos Jardim
TVE SE RENOVA À ESPERA DE UM 'CURTO-CIRCUITO'
A TVE começa a dar sinais de vida. Comprou novos equipamentos, está fazendo obras em seus estúdios para ampliar a capacidade de produção e coloca no ar novos programas jornalísticos e educativos. E depois de ocupar seus horários com boa parte da programação da TV Cultura de São Paulo, a emissora do Rio dá o troco: desde segunda-feira o "Sem censura", apresentado por Márcia Peltier, está sendo exibido em São Paulo. As novidades não param por aí.

Basicamente há dois programas que eu quero lançar ainda. Um deles é um segmento de variedades com cultura, que será exibido de segunda à sexta-feira. O outro é dirigido à juventude da periferia, que está precisando se integrar à sociedade - adianta Walter Clark, presidente da Fundação Roquette Pinto, que engloba a TVE e a Rádio MEC.

A revista de variedades deve se chamar "Curto-circuito" e estréia no fim de março. Mário Morei, diretor do "Sem censura", e João Luís Albuquerque, assessor de imprensa da TVE, fazem parte da equipe de criação, que conta ainda com Cacá Silveira, diretor do "Vídeo show", da Rede Globo, e Nelson Hoineff, diretor do "Documento especial", da Manchete.

- "Curto-circuito" deve ir ao ar das 21h às 22h. Nós queremos fazer um programa de qualidade, que explore fatos inusitados. Felizmente, não temos nenhuma preocupação com o Ibope - explica João Luís.

Também já está em produção a série "Caminhos da modernidade", que vai contar a história das constituições em todo o mundo até chegar a atual Carta brasileira. Além disso, já estão no ar outras novidades. Uma delas é "Front page", com entrevistas de personagens que foram notícia no passado. Apresentado por Lúcia Leme, o programa foi criticado pelo título e passará a se chamar "Primeira página" assim que as novas vinhetas, estiverem prontas.

Há ainda "Em busca do tempo perdido", que mostra projetos elaborados nas universidades, entrevistas em "A voz do trovão" e produções das TVs educativas de todo o país em "Espaço nacional". Trata-se de uma virada numa programação que nos últimos anos vinha dando mais espaço a socialites, videoclips antigos e programas sem cunho educativo.

1969 - A TV do Antônio Carlos Magalhães

O Cruzeiro
Data de Publicação: 17/3/1969
Autor/Repórter:
TV ARATU, A IMAGEM DA BAHIA
A Bahia está orgulhosa de sua segunda estação de televisão. Com uma potência irradiada de 32 kw ERP e cobrindo 36 cidades do litoral e do interior - inclusive nos Estados de Alagoas e Sergipe - entrou em funcionamento na semana passada a TV Aratu, Canal 4, em Salvador. Inaugurada pelo Governador Luís Viana Filho, com a presença do Prefeito Antônio Carlos Magalhães, do Cardeal-Arcebispo Eugênio Veiga, e outras autoridades, a TV Aratu constituiu-se, desde os primeiros momentos de sua existência, numa grande atração para os baianos de todas as camadas sociais.

Para conquistar a preferência do público, os diretores da TV Aratu, Srs. David Raw e Alberto Maluf, basearam toda a programação nos espetáculos de maior audiência no Rio e São Paulo, especialmente aqueles produzidos pela Rede Globo e Rede Excelsior de Televisão. Assim, os baianos já estão assistindo a novelas líderes de audiência tais como A Última Valsa e Vidas em Conflito ou programas do prestígio de A Buzina do Chacrinha, Balança Mas Não Cai, Telecatch e Os Campeões da Popularidade.

Para o lançamento de sua programação, a TV Aratu preparou um grande show, levando a Salvador nomes famosos como Natália Timberg, Paulo Goulart, Henrique Martins, Nicete Bruno, Zé Kéti e Odete Lara. Murilo Néri se encarregou de apresentâ-los ao público. Ainda como convidados da direção do Canal 4, estiveram em Salvador os Srs. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, diretor da Rede Globo de Televisão, Waldemar de Moraes, diretor da Rede Excelsior de Televisão, o compositor Miguel Gustavo, o General José Carlos Grossi, e o jornalista Ponce de Léon. Encerrando a grande festa de inauguração da TV Aratu, foi oferecido um coquetel à sociedade baiana no Hotel da Barra.

1982 - Retrospectiva da TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 4/1/1982
Autora: Maria Helena Dutra
1981 NA TELEVISÃO
Prós e contras (como sempre) num ano de muito movimento

Estando a vida lá fora cada vez mais cara e perigosa era óbvio que a televisão em 1981, como nos anos anteriores, cada vez mais conquistasse espaço no tempo carioca. Isto é, mais público e repercussão. Fazendo jus à preferência, mesmo que um pouco forçada em alguns casos, ela ofereceu bastante movimento. Com entretenimento para todos os níveis de escolaridade e bem mais informações, pois passou a perguntar muito mais do que antes.

E como recebeu algumas respostas, chegou mesmo a se atrever a esboçar alguns contornos de nossa realidade. Em branco, apenas, permaneceu sua função educacional e cultural, pois os quatro canais em atividade, até o estatal, continuam pensando apenas em resultados imediatos de audiência.

Estes mostraram ainda o total predomínio da Rede Globo que a lamentar só teve mesmo duras derrotas vespertinas. Sua média, em quase dois milhões de lares com televisão do Grande Rio, é de 34% com piques de 70 ou mais no horário nobre. Mas seu ano, no geral, não foi dos mais brilhantes. De bom ofereceu mesmo uma diversificada cobertura esportiva: a novela Baila Comigo, pela sinceridade do autor e perfeição de elenco; Bem Amado, que permanece sua melhor série e nossa melhor ficção política; Som Brasil, apesar de matutino o nosso lado caipira começa a ser reconhecido; e os especiais de fim de ano, A Paixão Segundo Nélson Rodrigues e, grande destaque, Morte e Vida Severina.

No degrau intermediário, alguns lances. A melhora do Sítio do Picapau Amarelo, vamos ver se continua assim; os Trapalhões de sempre; Viva o Gordo, meio repetitivo, mas criou alguns bordões; Globo Revista, que apesar de levar muito mais Governo do que Oposição, relançou a entrevista política na estação que antes só lia decretos; Plumas e Paetês e Jogo da Vida duas bobagens bem realizadas; e o inteligente Globinho.

Mas teve também muitos percalços. TV Mulher esvaziou de vez, o mesmo acontecendo com Globo Repórter. Catástrofe foi o ano do Planeta dos Homens e Chico Total. Engraçado é que o primeiro só apresentou um bom programa, que foi o último, e o segundo igualmente apenas um, que foi o primeiro.

Na parte musical não acertou uma. MPB-81 e Show do Mês não deixaram a menor lembrança e a série Grandes Nomes acabou sem ninguém perceber. Nas novelas, deu déficit. Pois mostrou uma boa, duas razoáveis e cinco ruins, mesmo. Este o caso de Coração Alado, só ralou; O Amor é Nosso, ou o fracasso foi de-es; As Três Marias, transformar o Ceará em Baixo Leblon e Suíça, só podia dar no que deu; Ciranda de Pedra, São Paulo de 1947 com estética americana dos anos 30; Brilhante, chega a dar pena; e Terras do Sem Fim, em que puseram uma barcaça do Mississipi no mar alto de Ilhéus sem dar desastre.

Mas o pior deles na estação foi o cancelamento de Amizade Colorida, série com apenas 10 títulos. Não tanto pela censura das senhoras paulistas, mas porque realmente não sabiam o que fazer do Edu Homem. Plantão de Policia era melhorzinho, mas Obrigado Doutor só foi esquisito. Nas importações supérfluas, nos infringiram o horror de Dallas, seu mais doloso feito do ano.

Depois de ter sido apenas um exibidor de velhos filmes e enlatados, a TV Studios este ano montou e amarrou uma programação nacional de feitio popularesco e sensacionalista. Com isto, Wilton Franco, rezando a Ave Maria, e O Homem do., Sapato Branco, agredindo desnutridos loucos, se solidificou em segundo lugar com média de 14 pontos e piques de até 30.

Muito esporte, desfile de Misse, J. Silvestre exumando programas dos anos 60, humorismo grosso e filmes de caratê é pornochanchadas nacionais contribuíram para o sucesso. Sempre liderado pelo programa dominical do dono da casa. Um conglomerado de atrações que pode fazer chorar quem permanece acreditando em dignidade humana, mas que é comprovadamente uma política comercial exata e certa. Por isso, o fato mais importante do ano e talvez o que mais vá marcar a televisão de 1982.

Ano que também deverá ser o de limite para as experimentações do mito Walter Clark na direção de programação da Bandeirantes. Este ano, nada deu certo. Imitando a Globo sem seus recursos e infra-estrutura e, pasmem, a Educativa no nível de realização, mal se equilibra no terceiro lugar com média de 3 pontos e pique no máximo de 10. Ao contrário da definição, mesmo que braba, de Sílvio Santos, o canal 7 permanece sem personalidade e continua impenetrável mistério qual o tipo de espectador que quer atingir e qual estratégia adota.

No esporte teve suas intenções barradas pela Globo, mais rica, mas no jornalismo não investe e bons comentaristas não bastam para esconder a pobreza de imagens.

Canal Livre este ano não teve o brilho de 80, pelo excesso de equívocos na escolha de entrevistados e perguntadores. Cidade Aberta fechou porque quis fazer TV Mulher em estilo Tupi. ETC, depois de empolgante entrevista com D Helder Câmara, virou papo de Zona Sul, sem legendas, para os não iniciados, e 90 Minutos encrencou firme por ser um Fantástico diário produzido ao jeito da TV Rio.

Nas novelas só se salvou com Os Imigrantes, mas seu segundo ano é duvidoso, pois o autor Benedito Rui Barbosa parece que largou o barco e voltou à sua terra natal. Isto é, outra estação. O mesmo aconteceu com Ivani Ribeiro, que se despediu dos Adolescentes agora tutelados por Jorge Andrade. Com ambos, os meninos não cresceram. Tal e qual a Chatuba de Dicró parece difícil ficar na Bandeirantes pois também Nelson Mota e sua Mocidade Independente duraram mínimas edições.

Para fora foram também algumas de suas atrações populares, como Edna Savaget e Hebe Camargo, mas nenhum prestígio as substituiu. Chacrinha se tornou peripatético e acabou 'rendendo pouco aos domingos. Bom mesmo, apenas, produziu o seriado Dona Santa, um raro encontro de conteúdo com exata forma.

Quem subiu este ano foi a Educativa. Embora tenha a ínfima média de 0,8% tem dado piques de 8 a 7 em alguns horários nos quais chega a ficar em terceiro lugar. Uma vitória para a estação que era totalmente desconhecida do público e este, ao menos, sabe que existe um Canal 2 no seu televisor. Muito pelo esporte que foi intenso e bem realizado, tanto no campo amador como no perene futebol, que lhe dá muitos espectadores no domingo.

MAS também tem outros atrativos. A extenuante cobertura do carnaval, este ano meio abagunçada. Mais acertado foi cancelar programas tipo Decisão Pública em favor de produções melhor realizadas. E trazer também produções paulistas, da Cultura, que em média foram fracas, mas apresentaram alguns bons momentos no Teleromance. Em igual linha, alternando méritos com bobagens, foram os programas Um Nome na História, Os Astros, Água Viva, Catavento, Sábado Forte e Os Músicos, Mas apenas o alinhamento destes títulos mostra que houve esforço na estação para atingir um público específico de classe média. Pena a bobagem que fez em Tempo Quente e Primeira Página, repletas de discussões estéreis, que fizeram a emissora perder muitos espectadores notívagos. Teve um dos melhores programas do ano, Aquarela do Brasil, e um grande equívoco, Interiores, que, apesar de sua boa linguagem televisiva, perdeu-se por acreditar que jornalismo se improvisa.

Apesar deste e outros percalços, o ano, como foi demonstrado, teve realmente movimento. Que em 1982 deve ainda crescer mais, pois dois novos canais finalmente serão inauguradas. Público todos sabem que vão ter. Resta desejar se seis estações saberão o que fazer com ele.

1974 - Nova lei para redes de TV

O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 27/10/1974

NOVA LEI PODERÁ FACILITAR EXPANSÃO DAS REDES DE TV
O ministro Euclides Quandt de Oliveira, das Comunicações, admitiu ontem, embora reticente, a possibilidade de que os empresários de radio e televisão possam expandir suas redes de emissoras em numero maior que a atual legislação permite, com base no novo Código

Brasileiro de Comunicações. O projeto do novo código já está nas mãos do ministro e será enviado, brevemente à Presidência da Republica.

Na sua entrevista, Quandt anunciou ainda a criação do Conselho Nacional de Comunicações - órgão da Secretaria Geral da pasta, cuja primeira função será justamente dar parecer sobre o projeto do novo código.

Com a modificação da legislação da radiodifusão insinuada pelo ministro, poderá ocorrer o que vem sendo preocupação dos meios empresariais do setor, várias vezes já manifestado à imprensa: o monopólio da opinião publica brasileira por um único grupo econômico.

O MONOPÓLIO

A modificação que está para ocorrer diz respeito ao decreto-lei 236-67, que em seu artigo 12 - em vias de revogação - limita em cinco o numero máximo de emissoras de televisão que um mesmo grupo pode controlar. Até o momento, essa legislação está detendo o crescimento de um único grupo - "Globo" - que possui exatamente cinco emissoras geradoras de televisão. As demais redes - Rede de Emissoras Independentes e Rede Tupi - não estão em condições de expandir: a primeira, como reconhecem seus próprios representantes em Brasília, possui apenas duas emissoras e está em fase de de composição; a outra tem que se desfazer de várias TVs, pois em sua situação atual já estão irregulares e sem recursos para a sua manutenção.

Ela disse que esse atraso na decisão sobre o satélite não vai, porém, aumentar os custos do projeto, já que esse atraso é relativo e não se fixou prazo para seu lançamento. A estimativa dos custos foi feita de acordo com os dados disponíveis na ocasião e seu preço real só será conhecido quando tudo estiver pronto.

RASTREADORA

O ministro das Comunicações disse ainda que a Embratel ganhou concorrência internacional para instalação da primeira estação rastreadora do satélite Intelsat IV-A, para avaliação das qualidades do sinal e funcionar como pequeno laboratório de testes do novo sistema de comunicações internacionais. Para tanto, será instalada uma nova antena em Itaboraí - Tanguá, que só entrará em funcionamento em meados de 75, quando for lança ido o novo satélite.

Essa nova estação trabalhará para o consórcio Intelsat apenas por três anos ou mais e depois será transferida para a Embratel, quando então o Brasil vai dispor de maior numero de canais de telecomunicações internacionais via satélite, que facilitarão as comunicações com todos os países membros do Intelsat.

A "Globo" é a única com capital suficiente par instalar uma televisão em cada Estado do Pais e poderá essa meta se forem revogados os dispositivos legais. Se ela se expandir, dominará grande parte do mercado publicitário brasileiro, deixando para as outras duas, mais a Bandeirantes e Jornal do Brasil, que ainda estão se organizando, o alento de brigar pelo segundo lugar.

Essa é a preocupação de todos os radiodifusores, muitos dos quais já sofrendo a perda de emissoras justamente pelo dispositivo que está para ser revogado. É o caso da Rede Piratininga e das Coligadas de Rádio, que tiveram várias de suas emissoras peremptas por decreto presidencial.

Embora a decisão final sobre o código dependa da Presidência da Republica, o monopólio que poderá se configurar será motivo mais que suficiente segundo os entendidos do setor, - para que o governo intervenha e estatize a radiodifusão brasileira. Caso contrário, tendo em vista o poder da televisão, a opinião publica ficará à mercê de costumes, princípios e normas de conduta ditadas por grupo econômico privado, cujos interesses podem não ser os mesmos que os do governo.

SATÉLITE

Quandt de Oliveira, ao afirmar que o projeto do sistema de satélite brasileiro de comunicações ainda está na Presidência da Republica, deixou claro que seu lançamento só poderá ser feito a partir de 1976. Disse que a elaboração de um projeto final de engenharia levará no mínimo seis meses, sem falar na concorrência publica internacional que terá de ser feita para seu lançamento, na construção do satélite dentro das especifica técnicas exigidas e nos preparativos de lançamento.

1977 - A Sombra da Censura

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 11/12/1977

FELIZ ANO NOVO PARA A CULTURA BRASILEIRA
"Sendo você pessoa com atuação na vida cultural brasileira, quais as dificuldades encontradas para exercê-la em 1977, e de que maneira gostaria que ela fosse exercida em 1978?"

Personalidades do cinema, teatro, literatura, televisão, arquitetura deram depoimentos que, por mais variadas que sejam suas posições filosóficas, convergiram para uma constante: liberdade.

+ Nelson Pereira dos Santos:

— A maior dificuldade foi mesmo a censura, tanto oficial como econômica. Gostaria que no próximo ano a censura oficial fosse abolida e, quanto à econômica — o controle de exibição ainda está sendo exercido pelos importadores de filmes — seria ótimo que a Embrafilme venha a participar da atividade de exibição.

+ Nelson Rodrigues:

— Desde que comecei minha vida literária, tive um romance e várias peças interditados e, mais tarde, liberados por instância superior. Entre eles, encontram-se A Mulher sem Pecado, Vestido de Noiva, O Anjo Negro, Álbum de Família, etc. De qualquer maneira, eu continuo escrevendo, haja o que houver. Neste ano de 1977, tive complicações pelo interior do Brasil com Toda Nudez Será Castigada. Com lançamento previsto para o próximo ano, espero que o filme A Dama do Lotação, dirigido por Neville de Almeida, consiga impropriedade para menores de 18 anos por se tratar de um filme de adultos.

+ Antônio Houaiss:

— Creio que não constituo uma exceção. Os trabalhadores intelectuais do país inteiro — sobretudo os das chamadas áreas humanísticas, isto é, não tecnológicas — não estão usufruindo de condições favoráveis para o seu trabalho. Isto se deu comigo em 1977 e, infelizmente, vejo que vai continuar em 1978. Mas o que falo de mim pouco importa, porque estou pensando numa larga quantidade de pessoas do mais alto valor intelectual e da mais decidida vontade de trabalhar que não está vendo horizonte no país inteiro para seu trabalho.

— Fala-se em memória nacional, fala-se em salvação da memória nacional, fala-se em thesaurus de cada profissão... Isto daria para engajar alguns milhares de trabalhadores intelectuais em atividades profundamente fecundas para os brasileiros e o Brasil de a manhã. O que eu pergunto é se se está cogitando do Brasil de amanhã...

+ Millor Fernandes:

— Não tenho nada com isso.

+ Fernanda Montenegro:

— Do ponto-de-vista profissional, o fundamental para nós é o fim da censura. E nesse aspecto, 1977 só representou para o teatro uma piora que vem se aprofundando a cada ano desde 1968. Se é um sonho pretender a abolição da censura, pelo menos, poderíamos estar nas mesmas condições da imprensa, por exemplo. Quem lê alguns jornais percebe que os meios de comunicação conquistaram alguma abertura. Mas nosso teatro nunca foi tão censurado, tão mutilado.

— As perspectivas para o ano que vem em termos gerais parecem até promissoras, mas com relação ao teatro nosso passado não alimenta qualquer esperança.

+ Sérgio Bernardes:

— Eu exerço minha vida exatamente como pretendo. É uma vida em que crio todas as minhas programações para oferecer um produto final ao meu pais. Não sei em que Governo terei este produto pronto. Como estou fazendo um laboratório de investigações conceituais, estou criando diretrizes que irão gerar eventos para o pais, enquanto que o governo trabalha com eventos que geram diretrizes.

— A crise é conceitual e de diretrizes razão pela qual criei este espaço que é o laboratório.

+ Otávio Augusto:

— Os problemas que mais me preocupam como presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos são a recessão do mercado de trabalho, com o monopólio dos grandes centros urbanos — Rio e São Paulo — e a inflação de programas estrangeiros no cinema e na TV. Isso provoca uma coação econômica, pois os artistas e técnicos precisam trabalhar e o mercado cada vez mais reduzido leva a uma remuneração completamente aviltada, quando existe trabalho.

— O sindicato vem lutando pela democratização do mercado de trabalho mas essa luta esbarra na arbitrariedade das autoridades. A Delegacia Regional do Trabalho tem uma postura patronal que só pode prejudicar os profissionais como um todo. Mas como liderança da categoria e mediadores com as autoridades ficamos entre dois fogos pressionados de um lado e do outro.

- Além de tudo isso, a nossa categoria profissional assistiu esse ano à dinamização da exportação de programas de TV. Considero a aparentemente positiva industrialização das programações de TV mais um crime contra o artista. Ele que é a mão-de-obra básica para realização desses programas e não recebe um só centavo dessas grandes transações comerciais.

— Como ator e como presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos só posso querer que 1978 nos traga a regulamentação da profissão. Isso eliminaria uma série de coisas. Mas para que a regulamentação seja positiva do ponto-de-vista do artista, que o projeto de regulamentação atenda às nossas reivindicações.

+ José Louzeiro:

— A primeira dificuldade encontrada é a censura. A segunda, no meu campo — literatura — é a mecânica da distribuição dos livros. A terceira, que estamos combatendo com unhas e dentes, é conseguir que o Sindicato dos Escritores funcione. Por fim, a maior delas, que esperamos ganhar de presente no próximo ano, é tirar o Brasil do obscurantismo em que vive. Embora não pareça, sou otimista.

+ Flávio Rangel:

— A maior dificuldade foi mesmo a censura, além de ter sofrido a minha inclusão na lista dos 97. Apesar de ter recebido inúmeros cumprimentos, não os mereço, porque não sou funcionário público. Gostaria de ver restituído em 1978, o pleno regime das liberdades democráticas.

1988 - Dóris Giesse e o Jornal de Vanguarda

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 11/5/1988
Autora: Cora Rónai
NOVIDADES NO AR, APESAR DO NOME
Modelo, atriz, bailarina, Dóris Giesse é a grande revelação do Jornal de Vanguarda, onde se revela uma apresentadora segura e competente

Atenção, assistentes inertes - é com vocês! Vamos fazer uma experiência e mudar de canal? Todos juntos, girando o botão - isso! - uma, duas, três casas para a direita, ótimo!, assim mesmo, consertem a antena - estão vendo agora? Bom. Esse canal é a Bandeirantes, e é aí que vocês devem aportar todas as noites, às 23h30rnin, se estiverem a fim de se divertir e de fazer a cabeça.

Esqueçam as notícias enlatadas do Jornal da Globo e arrisquem as opiniões do Jornal de Vanguarda: vale a pena. Apesar do nome no mínimo paradoxal (como é que um jornal pode ser de vanguarda se é o clone de outro, lançado com o mesmo nome há vinte e tantos anos?), a idéia é boa, está bem executada e, de um modo geral, não só a turma tem o que dizer como diz bem. De cara, vocês vão encontrar a presença surpreendente de Dóris Giesse - lindíssima, absolutamente segura e muito simpática, com tudo para se tornar em pouco tempo a melhor das apresentadoras da telinha. Um espanto, e uma bela dor de cabeça para o pessoal do 7: já já a Globo está aliciando a moça.

Outro espanto é descobrir, de repente, que coisa mais antiga é ser "moderno". Explico: o Jornal de Vanguarda é dividido em quadros, onde cada um faz mais ou menos o que quer (e o que sabe). Chico Caruso desenha, Marcos Terena dá o recado indígena, Fernando Moraes conta histórias de gente, Glória Alvares vem com novidades estranhissimas. Dóris Giesse faz a ligação entre esses quadros todos, ou complementando a informação, ou apresentando o personagem. E aqui é que se chega à tal da "modernidade", assim mesmo, entre aspas: cada vez que Dóris apresenta um gênio, a gente pode se preparar para o pior. Wally Salomão, tão contemporâneo, tão avançado, está um desastre; Fernando Gabeira, "um jornalista que já nasceu genial" (sic), resumiu sua apresentação a um playback dos Titãs e ao feito extraordinário de descascar e comer uma banana frente às câmaras, coisa que o Tião, chimpanzé ali do zoológico, faz todo dia sem qualquer badalação - e por um cachê muito menor.

Bom mesmo é jornalista competente, categoria que o Jornal de Vanguarda, felizmente, tem de sobra: Washington Novaes, José Augusto Ribeiro, Joyce Pascowitch, Newton Carlos. Augusto Nunes, que entrou logo depois de Gabeira, acentuou o contraste entre as espécies falando direto da redação do Estadão, de gravata e tudo. Não comeu nem uma uva pour épater les bourgeois, mas deu um recado simples e direto. Fausto Wolff, sem qualquer oba-oba (aliás, sem qualquer crédito gravado na imagem -a gente só sabe que era ele porque era ele) fez um comentário claro, objetivo e inteligente sobre a vitória de Mitterrand. É. Profissional é outra coisa!

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