Thursday, June 6, 2013

1995 - Gugu versus Silvio Santos

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 3/9/1995
Autor: Armando Antenore
GUGU, O CONCORRENTE
Depois de acumular um patrimônio de US$ 18 milhões, o apresentador do SBT Gugu Liberato, 36, prepara o terreno para se livrar definitivamente do rótulo que o persegue desde o início da carreira, há 15 anos. "Não sou nem serei o sucessor de Sílvio Santos." Sabe-se agora por quê: será seu concorrente. Solteiro, sem namorada e viciado em trabalho, Gugu revela à Revista da Folha que pretende montar uma rede nacional de televisão. Já está até mexendo os pauzinhos em Brasília.

O sonho da TV própria nasceu no governo de José Sarney. A época, fim dos anos 80, Gugu entrou com os primeiros pedidos de concessão no Ministério das Comunicações. Não levou nada.

Na gestão de Fernando Collor, arriscou de novo, sem sucesso. No governo de Itamar Franco, preferiu se resguardar.

Deverá voltar à carga em breve, tão logo consiga uma audiência com o ministro tucano Sérgio Motta.

O apresentador reivindica 20 retransmissoras, todas na freqüência de UHF (a mesma em que operam MTV e Rede Mulher, por exemplo).

Entre as cidades que estão na mira de Gugu, há 11 capitais: Salvador, Maceió, Aracaju, João Pessoa, Recife, Natal, Belo Horizonte, Campo Grande, Brasília, Goiânia e Palmas.

Completam a lista os municípios de Anápolis (GO), São José do Rio Preto (SP), Taubaté (SP), Araraquara (SP), Franca (SP), Guarujá (SP), Gurupi (TO), Uberlândia (MG) e Feira de Santana (BA).

Vôo próprio - Se as concessões saírem, o apresentador planeja, inicialmente, pôr a rede para repetir o sinal do Sistema Brasileiro de Televisão, emissora que Sílvio Santos fundou há 14 anos.

Com o tempo, tentará vôos mais altos. Quer transformar uma das retransmissoras em geradora. Será o primeiro passo para a TV de Gugu se libertar do SBT. A geradora poderá exibir em rede programas próprios ou realizados por produtores independentes.

Não à toa, Gugu está construindo dois estúdios em um terreno de 5.000 metros quadrados em Alphaville, condomínio fechado de São Paulo. Vai usá-los, enquanto as concessões não chegam, para produzir videoclipes e comerciais. Depois, deverá colocá-los a serviço da rede -que, aliás, já tem nome: Sistema Liberato de Comunicação.

Louco - "Outro dia", conta Gugu, "conversava com Sílvio Santos sobre o desejo de construir uma televisão. Sabe o que ele me disse? Que sou louco. Falou assim: 'Você nem imagina os pepinos que vai arrumar quando se meter nisso. Veja o meu caso. Eu era muito mais feliz antes, no tempo em que atuava apenas como animador de auditório."'

As palavras do mestre e patrão não amedrontam o pupilo. "Só sei fazer televisão. É minha sina. Não existe nada que me empolgue tanto."

Na verdade, existe. Gugu gosta muito de rádio, meio em que trabalhou durante dez anos. "Tá certo. É outra coisa que me fascina."

Se o fascina, por que não tratar o assunto com mais seriedade? "Estou tratando. Já solicitei umas rádios lá no Ministério das Comunicações." Quantas? Nada menos que 23. As principais cidades: Belo Horizonte, Campo Grande, Uberlândia (MG), Campinas (SP), Ribeirão Preto (SP), Araraquara (SP) e Santos (SP).

Também pediu um canal de TV por assinatura para explorar no condomínio fechado de Aldeia da Serra, em São Paulo.

"Pedir, a gente pede. Ganhar as concessões é outra história. Você vai até Brasília, conversa com um, conversa com outro, todo mundo te trata bem, mas não acontece nada. Depende de politicagem, cartucho. Não basta provar que é do ramo, que sabe tocar o negócio. Nesta área, chora menos quem pode mais."

Carrapato de Figueiredo - Gugu realmente sabe do que está falando. Quando tinha seus 21, 22 anos, acompanhou de perto a liturgia necessária para se conseguir um canal de televisão no Brasil.

Trabalhava como produtor e redator do "Programa Sílvio Santos", que ocupava os domingos da TV Record.

O "homem do baú" sonhava, então, com uma emissora própria. Mas, para ganhá-la, precisava de cacife politico.

Resolveu o problema criando o quadro "A Semana do Presidente", que passou a exibir durante o programa de domingo. Em tom ufanista, o esquete de 55 segundos -no ar até hoje- acompanha (e exalta) o dia-a-dia do "chefe da nação".

Mal bolou o quadro, Sílvio nomeou Gugu como carrapato oficial do presidente Figueiredo. Aonde o general ia, o jovem produtor ia atrás, fazendo às vezes de repórter.

A função caiu como uma luva para Gugu, que estudava jornalismo na Faculdade Cásper Libero, em São Paulo, e pretendia virar correspondente internacional.

Não virou, mas conseguiu sair do país. Perambulou com a comitiva presidencial pela Europa. Visitou a França, Portugal e Alemanha.

"O Figueiredo estava sempre sério, não dava brecha para intimidades", recorda Gugu. "Eu era novato e achei melhor não tentar nada de arrojado. Fazia meu trabalho com discrição, de longe, sem perturbar o general. Deus me livre de arrumar encrenca naquele tempo."

Passarinho - Quando finalmente obteve a concessão do SBT, Sílvio Santos não se esqueceu do repórter aplicado. Convidou-o para implantar a nova rede.

Foi na emissora da Vila Guilherme, zona norte paulistana, que Gugu cresceu e se multiplicou. Em 1982, assumiu o comando do "Viva a Noite", que o projetou nacionalmente.

O programa semanal tinha como ponto alto a "Dança do Passarinho" -quadro em que o apresentador, engravatado, saracoteava ao som de versos infantis: "Passarinho quer dançar/O rabicho balançar/Porque acaba de nascer/Tchip, tchip, tchip, tchip."

Gugu escutou a melodia pela primeira vez num hotel "classe A" de Itaparica (BA). "A canção é de origem alemã, mas estavam tocando a versão francesa. Os hóspedes deliravam. Batiam palmas, ensaiavam uns passinhos, caíam na gargalhada. Foi, então, que pensei: se a música mexe com esta gente rica e elegante, imagine o que pode fazer com o povão."

Não pensou duas vezes. Encomendou a letra em português para o compositor Edgard Poças e lançou a canção. O sucesso estrondoso colocou o "Viva a Noite" entre os principais produtos do SBT.

Hoje, Gugu está à frente do "Sabadão Sertanejo" (23h30 à 0h30) e do "Domingo Legal" (12h às 16h). Em cena, lembra muito Sílvio Santos - se precisar, leva até torta na cara.

Cada programa costuma registrar audiências médias de 15 pontos (aproximadamente 1,5 milhão de telespectadores) em São Paulo. O índice é do DataIbope e, não raro, ameaça os da Globo.

Xuxa - O sucesso de público traduz-se, sobretudo, em dinheiro. Ninguém confirma, mas corre pelo SBT que Gugu recebe um salário mensal de US$ 70 mil (o suficiente para comprar um carro Audi Turbo, alemão).

Solteiro convicto, mora numa casa em Aldeia da Serra com área total de 5.000 metros quadrados, dois andares, 20 ambientes, pomar e duas piscinas (uma fria e outra quente, que avança até a sala de jantar).

Coleciona antiguidades e objetos de arte - "por gosto e para investir". Tem estatuetas venezianas do século 18, tapetes persas, tapeçarias de Flandres, vasos chineses, lustres de cristal Baccarat e móveis franceses em estilo Luís 16.

Duas indústrias de brinquedos - a Estrela e a Grow - comercializam produtos com o nome do apresentador. A fábrica de chocolates Garoto também está interessada em explorar a marca.

O patrimônio de US$ 18 milhões que Gugu diz ter acumulado na última década quase o iguala a Xuxa. Pelo menos à Xuxa de quatro anos atrás. Na ocasião, a revista norte-americana "Forbes" publicou a lista dos 40 artistas que mais faturaram no mundo entre 1989 e 1991. A "rainha dos baixinhos" aparecia em 37º lugar com US$ 19 milhões.

Insubstituível - Já está claro que Gugu adora se esquivar de comparações com o patrão. "Sílvio Santos é insubstituível. Ponto final", costuma repetir com persistência canina, esforçando-se para que o interlocutor acredite no desajeitado exercício de modéstia.

Retórica à parte, o fato é que criador e criatura exibem mesmo muitos pontos em comum. Confira:

Ambos têm origem humilde. Sílvio Santos começou como camelô. Gugu Liberato foi office boy de uma imobiliária paulistana na adolescência. Filho de imigrantes portugueses, o pai caminhoneiro, a mãe dona-de-casa, também vendeu gibis de segunda mão e perfumes.

"Nunca passei fome", afirma. "Mas, quando criança, não bebia leite A. Era leite C e olhe lá. As maçãs, comprávamos de baciada no fim da feira. Saíam mais em conta, só que vinham todas amassadas."

Gugu usa o mesmo camarim de Sílvio Santos no teatro do SBT. Nenhum outro artista da casa desfruta de tal privilégio.

Sílvio Santos costuma ver fitas de vídeo enquanto se exercita na esteira rolante. Gugu idem - aprendeu o truque com o patrão. "É ótimo", receita. "Você faz ginástica e nem percebe, porque está concentrado na televisão."

Os dois apresentadores trabalham compulsivamente. "Não desligo nunca", lamenta Gugu. "Em casa, eu conservo um aparelhinho que me permite acompanhar a audiência de todas as redes brasileiras, minuto a minuto."

Tanto um quanto o outro cultivam a nostalgia da vida que não conseguem ter mais.

"O Sílvio já me falou que gostaria de empurrar um carrinho no supermercado sem causar tumulto, de comer cachorro-quente na barraquinha, de provar pastel na feira. Pode acreditar: eu entendo muito bem o que ele diz."

SONHOS SÃO FONTE DE IDÉIAS - Quando não sabe como resolver um problema ou precisa de brincadeiras novas para o "Domingo Legal" e o "Sabadão Sertanejo'', Gugu dorme. "As boas idéias sempre me vêm em sonho."

O apresentador mantém um bloquinho de notas perto da cama. Assim que acorda, passa todas as "iluminações noturnas" para o papel.

Depende do sono, mas nunca se aprofundou no assunto. Não conhece, por exemplo, Carl Jung, psicólogo suíço que estudou o simbolismo dos sonhos.

"Jung? Infelizmente, não sei de quem se trata. Só sei que sonho e pronto. Não me preocupo com teorias, explicações psicológicas. Vou pelo instinto. É o que basta."

CLIP

- NOME: Antônio Augusto Liberato

- APELIDO: Gugu

- DATA DE NASCIMENTO: 10.4.59

- LOCAL: São Paulo

- PAI E MÃE: Augusto Claudino Liberato e Maria do Céu Moraes Liberato

- IRMÃOS: Amandio Augusto e Aparecida de Fátima

- SIGNO: Áries

- ALTURA E PESO: 1,74 m e 86 kg

- FORMAÇÃO: "Jornalismo, na Cásper Libero"

- PAI ESPIRITUAL: "Chico Xavier"

- RELIGIÃO: "Cristã"

- NÚMERO DO SAPATO: 40

- IDIOMAS QUE FALA: espanhol

- COISA NO CORPO QUE O INCOMODA: "Gordura"

- PALAVRA PREFERIDA: "Vitória"

- FAZ ANÁLISE? "Não me dei bem com isso"

- MANIA: "Calço antes a meia no pé direito"

- COLECIONA ALGO? "Fitas de vídeo com programas do mundo todo"

- FAZ DIETA? "Sempre, sempre"

- MELHOR LIVRO: "Chatô"

- MELHOR FILME: "Psicose"

- FAZ AS UNHAS? "Sim"

- SÍMBOLO SEXUAL: "Lady Diana"

- PALAVRA QUE MAIS USA: "Obrigado"

- CIDADE PARA TRABALHAR: "São Paulo"

- CIDADE PARA SE DIVERTIR: "Cancun"

- HOMEM QUE ADMIRA: "Sílvio Santos"

- O QUE É ELEGANTE? "Unhas limpas"

- O QUE É DE MAU GOSTO? "Fofoca"

- FEZ PLÁSTICA? "No nariz, corrigi o septo"

- OBJETO DO DESEJO: "Um iate"

- UM MEDO: "De altura"

- SAIA JUSTA: "Pedir aumento de salário"

- ORGULHO: "Não dever nada a ninguém"

- TOTAL DE EMPREGADOS: "Nunca contei"

- O QUE É CHATO? "Tirar fotografia"

- PIOR TEMPO DE SUA VIDA: "Quando morram meus avós"

- UMA FRAQUEZA: "Assaltar a geladeira"

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