Thursday, June 6, 2013

1990 - O império do Gugu

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 7/5/1990
Autora: Lia Carneiro
GUGU MONTA IMPÉRIO DE US$ 4 MILHÕES
SÃO PAULO - Depois de empresariar grupos musicais, locar equipamentos para shows, vender suco de banana para Portugal, França, Suíça, Alemanha e Bélgica e azeite para o Norte dos Estados Unidos, através de um escritório instalado em Miami, o apresentador de TV e empresário Antônio Augusto Moraes Liberato, o popular Gugu, já está novamente de microfone em punho com o inabalável sorriso do Viva a noite, que ele apresenta aos sábados pelo SBT, para anunciar suas novas empreitadas.

Dono de um pequeno império de quatro empresas, fora a sociedade em mais duas, que movimentaram US$ 4 milhões no ano passado, segundo suas contas modestas, e de um toque de Midas que explica a ausência de fracassos em seus negócios, Gugu pretende, ainda este ano, inaugurar uma fábrica de bolos confeitados em escala industrial em São Paulo, importar e vender para todo o país o azeite Trasmontana, marca própria especialmente desenvolvida na região de Traz-os-Montes, a mais nobre do gênero em Portugal, trazer para o Brasil uma novidade argentina, o Dobra Lápis, um lápis de plástico cujo grafite não quebra, e ainda gravar um programa mensal em Portugal, trocando seu trabalho pelo espaço comercial que utiliza para anunciar seus produtos na TV portuguesa.

A longo prazo, Gugu sonha com a produção local de um brinquedo terapêutico americano, um pequeno quadrado transparente onde se desenvolve uma colônia de formigas, e, daqui a dois anos, quando terminar seu contrato com o SBT, em ter seu próprio teatro, além de uma produtora independente. "Sempre quis ter dinheiro porque ficava chateado cada vez que queria ir num cinema e não podia", explica Gugu.

Ariano, 31 anos, enquanto alisa suas madeixas loiras - religiosamente aparadas uma vez por mês pelo cabeleireiro paulistano Jassa - Gugu recorda sua infância pobre, numa casa simples do bairro da Lapa. "Mas meu pai sempre me dizia que eu jamais passaria fome: bastava comprar um cacho de bananas e vender, pelo dobro do preço, em qualquer farol.''.

Banana - Gugu levou a sério a recomendação do pai, fazendo umas pequenas adaptações: trocou o cacho por containers com 16,5 toneladas de pasta de banana e o farol pelo mercado europeu. Em 1989, a Dominó Comércio Internacional, empresa que o apresentador divide com o tio e o primo portugueses Antônio e Joaquim Martins, que fabricam o azeite Vilaflor, vendeu 1,5 milhão de litros do suco de banana Banatropi e faturou US$ 2 milhões.

Enquanto a pasta de banana é importada de Santa Catarina, do Grupo Duas Rodas, é a distribuidora de Coca-Cola na Grécia, a Hellenic Bootling, quem processa e engarrafa o suco Banatropi. De carona, a Dominó ganhou o direito de distribuir nove variedades de sucos da marca Amita, também produzidos pela Hellenic, com exclusividade na Europa, Japão e Estados Unidos.

"Este ano pretendemos vender oito milhões de litros de Banatropi só em Portugal", adianta Gugu, que contabiliza vendas no valor de US$ 12 milhões. Mas antes de invadir o Mercado Comum Europeu, as embalagens já têm o selo que permitirá, a partir de 1992, que o produto circule por toda a Europa.

Gugu tem outros dois mercados alvos: o Japão, que já está estudando o produto, e os Estados Unidos - 40 supermercados de uma rede de Nova Iorque se interessaram pelo produto, mas exigiram que a embalagem fosse modificada porque na Europa a medida é mililitro e nos EUA os sucos são vendidos em galões.

Otimismo - Gugu já pensou em trazer o suco de banana para o Brasil, mas numa conversa com a Parmalat, desistiu. "O brasileiro gosta de fazer seu suco em casa. Na Europa, o suco vende graças à guerra do movimento ecológico contra os refrigerantes", analisa o empresário Gugu, um apaixonado por gibis, que não gosta de ler livros e de assistir à TV, nem mesmo durante sua briga diária com seus 89,5 quilos, quando pedala, entediado, uma bicicleta ergométrica por 15 minutos, para tentar compatibilizá-los com seu 1,74 m de altura.

Como empresário, Gugu está otimista. "A partir do segundo semestre, a economia se recupera e vamos vender muitos discos", aposta confiante, cometendo um pequeno deslize de desinformação ao garantir que a venda de discos aumenta a partir da liberação dos preços dos eletrodomésticos - os preços dos televisores e geladeiras ainda estão engessados.

Guloso de nascença, o empresário não leva tão a sério assim a guerra contra as coisas artificiais, principalmente quando se trata de doces, que ele jura estar comendo menos. Em sociedade com a fábrica francesa Anne de Bejau, e mais dois sócios, um português e um francês, a Dominó está vendendo bolos em embalagens plásticas transparentes em Portugal, país onde já está investindo US$ 400 mil na construção de uma fábrica.

Bolos - "Nos próximos meses deveremos acertar uma joint venture com os franceses para construir uma fábrica desses bolos aqui no Brasil. Vai ser uma revolução interna: esse bolo é tão gostoso quanto os das melhores doçarias e custa 10 vezes menos", propagandeia Gugu. Outra meta para este ano é importar azeite já enlatado da Cooperativa Portuguesa de Produção de Azeite de Oliva. "E só fazer uma campanha séria que o pessoal trocará o óleo pelo azeite."

Como se fosse o segredo dos sucessos dos negócios, Gugu se recusa a adiantar os números de seus próximos investimentos também não revela o valor de sua fortuna. "Não gosto de lidar com números, em burocracia. O meu negócio é criar, inventar, articular os projetos e fazer TV", explica o apresentador, enquanto se diverte ao explicar como funciona o lápis cujo grafite não quebra, o Dobra Lápis, que pretende trazer logo para o Brasil.1

''Eu sei que estão previstos US$ 150 mil em investimentos em publicidade na televisão portuguesa. Mas se tudo der certo, vamos vender um programa mensal, gravado em Portugal, que também passaria aqui no Brasil, em troca desse espaço comercial", diz ele

PRIMEIRO NEGÓCIO FOI COMO COROINHA

SÃO PAULO - Gugu não imaginava que o office-boy de uma imobiliária chegaria onde está hoje. "E nem imaginava que tudo tinha começado com a criação da minha agência de coroinhas", lembra o empresário, citando seu primeiro empreendimento realizado aos 12 anos, quando era coroinha da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro do Itaim-Bibí. Solicitado a providenciar seis coroinhas para um casamento, Gugu não teve dúvidas: cobrou pelo serviço, pediu as roupas que seriam confeccionadas para o evento e pregou uma foto do seu arranjo no mural da igreja, com seu nome e endereço.

A carreira de Gugu na televisão começa pelas mãos do superpadrinho Sílvio Santos. Em 1974, Gugu resolveu entregar pessoalmente quatro idéias para o programa de Sílvio, na TV Tupi. Voltou na semana seguinte e perguntou ao apresentador o que tinha achado. "Ele me pagou Cr$ 50 por cada idéia e ganhei num único dia mais do que o meu salário, que era Cr$ 156", garante Gugu, que apesar de dizer que não gosta e nem guarda números, não vacila ao rememorar seus primeiros tostões. "No final, eu já estava ganhando, só com sugestões, Cr$ 1.000 por mês. Aí o Sílvio me contratou por Cr$ 450". Até 1977, Gugu passou de auxiliar de escritório para assistente de produção, mas resolveu abandonar tudo em nome da Faculdade de Odontologia, em Marília, São Paulo.

Dentista - Três meses foram o suficiente para Gugu confirmar a previsão que Sílvio havia feito: "Você não vai gostar de ficar olhando as bocas das pessoas". Gugu arranja um emprego na Rádio Progresso, em Itatiba, e começa a fazer jornalismo na Casper Libero (depois de freqüentar um ano da Faculdade de Pedagogia). Consegue um emprego de repórter no programa Caravela da Saudade, ganhando Cr$ 6 mil na TV Record. Assim que Sílvio sabe de sua volta, o contrata por Cr$ 18 mil para ser produtor e repórter especial. Famoso aos 24 anos, Gugu começa a fazer shows em circos pelo país e rapidamente nasce sua primeira empresa, a Promoart, que fatura US$ 60 mil por mês, basicamente para agenciar sua vida artística. O primeiro sucesso da empresa é trazer o grupo dos garotos portorriquenhos Menudo.

O faro de Gugu para os negócios percebe o sucesso da fórmula e assim nascem os grupos Dominó e Polegar. "No dia 10 de maio, lançaremos o disco mix do Banana Split", anuncia Gugu, apostando no talento` de três ex-misses e uma modelo, na sua sorte com bananas e no êxito da lambada. Como uma coisa puxa a outra, a Promoart ganhou uma filial, a Promoart Assessoria, que faz assessoria de imprensa para os artistas promovidos por Gugu e para outros. Depois veio a Gugu Produções e Merchandising (GPM), onde Gugu divide a sociedade e o faturamento mensal de US$ 80 mil com o empresário Sérgio Murad, mais conhecido como Beto Carrero, agência que cuida do espaço publicitário do programa do apresentador no SBT (50% do salário de Cr$ 1,5 milhão vem via comerciais) e vende a marca Gugu para os produtos da Farmaervas, Casas Bahia e para Revista do Gugu, da Editora Abril.

Circos - A Consult Video, que faz a locação de equipamentos para shows, com um faturamento mensal estimado em US$ 700, veio em terceiro lugar. O próximo passo foi a Dominó Comércio Internacional, sociedade com os parentes portugueses para fabricar o suco de banana, que faturou US$ 2,2 milhões em 1989 e já tem um escritório em Miami. A última empreitada de Gugu chama-se Dominó Comércio Exportação e Importação, empresa criada para importar o azeite Trasmontana, futuro lançamento do Grupo Gugu, hoje com quase uma centena de funcionários diretos. ''Temos que investir em produção, não em aplicação", ensina o empresário que, depois do Plano Collor, acabou retomando seus shows em circos para fazer cruzeiros - livre de impostos, o cachê é de US$ 2 mil.

UM BRINCALHÃO QUE NÃO PERDE OPORTUNIDADES

SÃO PAULO - Ele nunca fez o gênero de garoto levado. Rechonchudo, loirinho, espirituoso e sorridente, o caçulinha da dona Maria do Céu Moraes Liberato foi uma criança pobre tradicional. Nunca tirou boas notas de Matemática, mas sempre foi bom de lábia. Escrevia bem. E como todo moleque esperto e preguiçoso, jamais pensou duas vezes para trocar um livro por um gibi, dispensava peladas pelo nhoque da mamãe e desde cedo sucumbiu aos encantos do que o dinheiro podia comprar na era do high tec.

Aos 31 anos, Antônio Augusto Moraes Liberato não precisa de muita concentração para encarnar o apresentador Gugu e sair batendo as asas e canta a música do passarinho na frente das câmaras do SBT. O jeitinho brincalhão e o dom de não vacilar e apostar em, toda e qualquer oportunidade, principalmente nas que saem de sua imaginação, são marcas que o filho do caminhoneiro Gustavo carrega desde os tempos em que lavava chão de igreja e sonhava com uma vida melhor, ou sacolejando no trem que o levava, então como auxiliar de escritório da TV Tupi, para completar o ginasial noturno no bairro da Lapa. Marcas que Gugu tem hoje transformadas em dólares de sobra, para não abandonar.

Dono de duas máquinas de fliperama Taito e de um potente microcomputador, onde perde a noção das horas jogando videogame com seus dez cartuchos de Nintendo em uma tela de 40 polegadas, Gugu deita e rola com seus cinco sobrinhos, filhos dos irmãos Amândio - que largou 16 anos de processamento de dados na Petrobrás, para assumir a Gugu Produções e Merchandising - e Aparecida que, assim que Gugu nasceu, adotou o irmãozinho como a boneca predileta. Graças ao estilo topa-tudo, Gugu esperava calmamente pelo socorro que o livraria das papinhas da irmã. "Só não gostava de herdar as roupas do meu irmão'', lembra Gugu, que hoje usa ternos apenas nos seus programas e nas reuniões administrativas, que abomina. "Não gosto de badalação, nem de burocracia. Meu negócio é criar e ficar em casa de bermudas."

Imóveis - Assustado com a onda de seqüestros, Gugu não revela os valores de seu pequeno império (subestima mesmo os poucos números que fala). Seu investimento predileto são os imóveis. Ele tem três mansões e três terrenos em Alphaville, valorizado bairro da classe média ascendente paulistana, uma casa e alguns terrenos no Guarujá. "A cada dois anos, construo uma casa'', conta o apresentador, que apesar de sempre ter fugido das ciências exatas, nunca conseguiu se livrar da paixão pela construção. "Reparo em cada detalhe e anoto tudo para fazer depois''. A última descoberta de Gugu é um espelho de banheiro que, graças a um circuito, não embaça com o chuveiro ligado.

Quando não está cumprindo sua jornada de gravação aos sábados e domingos e escapa das reuniões de seus negócios, Gugu pode ser encontrado pescando em sua lancha Cabrasmar, pilotando seu carro esporte (a marca e o modelo ficam em sigilo por motivos de segurança), ouvindo as baladas de fossa das cantoras Joana e Simone ou namorando alguma novidade numa farmácia.

Hipocondríaco não assumido, Gugu gosta de comprar os remédios, mas garante que não se automedica. Perfumes também só enfeitam as prateleiras da casa do apresentador, que prefere os desodorantes anti-transpirantes. ''Não sou vaidoso. Sou limpo'', analisa Gugu, sem conseguir disfarçar, no entanto, que é um fiel adepto do modo eu me

amo de ser.

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