Thursday, June 6, 2013

1989 - Gugu pornográfico

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 5/11/1989
Autor: Eugênio Bucci
GUGU LIBERATO EXPLORA PORNOGRAFIA INFANTILÓIDE
Não é mais jovem. Gugu Liberato é mais infantil do que Sílvio Santos. Agora, que o Santos espera que o auditório nacional eleitoral resolva se ele vai para o Planalto ou não vai - e troca suas dezenas de horas dominicais de programa pelo programa e os minutinhos diários de Armando Corrêa - Gugu Liberato ganha mais notoriedade. É mais popular entre as crianças do que entre os votantes. A elas, o animador oferece os bichos de pano que se sacodem como podem ao longo de horas sobre o palco, numa contida coreografia mecânica que retrata o estereótipo de um quarto de bebê gigante. A elas, dá a chance de um passeio no parque ao lado do risonho Sérgio Malandro, com direito a boné e mais quatro malandretes. A elas, finalmente, brinda com suas traquinagens sapecas, que reduzem todo humor ao disparate de um alinhado rapaz de jaquetão e cabelo penteado divertir-se com folias de molecote arteiro e sacaninha.

A infantilização de Gugu Liberato, porém, não chega às raias do "gugu dadá". Seu programa de auditório é linear, formatado segundo os moldes mais tradicionais possíveis, com quadros fixos que se repetem, joguinhos de regras que até (e necessariamente) uma criança em idade pré-escolar é capaz de entender. Não tem nada que ver com o dadaísmo dos anos 20 e nem se apóia nos sons sem sentido emitidos pelos seres humanos que ainda não aprenderam a falar. Ao contrário, é inteiramente perpassado pela malícia quase adolescente.

Todas as atrações, com maior ou menor intensidade, procuram simbolizar a realização de fantasias sexuais infantilóides. Seja a do garoto que passa um dia ao lado da cantora famosa, fazendo poses para o telespectador, rostinho colado no dela, seja a da senhora do auditório que pede para dançar lambada com outro cantor no palco. Gugu Liberato promete liberar desejos (e consumá-los, de mentirinha) a tantos quantos vão a ele. É o animador que mais avança, dentro da TV brasileira, na encenação da pornografia simbólica.

Nada é mais expressivo que o joguinho da bexiga, desses balões coloridos que se usam em aniversários de gente que comemora seus dois, três, quatro anos de vida. O jogo é elementar. O moço fica sentado, a moça vem, coloca o balão no colo dele e, de frente, senta-se sobre o balão. Todos gargalham, sempre. O balão quase sempre estoura. Com os meses, o brinquedo evoluiu, descobriu novas posições até. Atualmente, são três: de pé, sentado de frente e sentado de trás. Há também a modalidade do homem por cima. Tudo é cronometrado, e ganha quem estourar mais em menos tempo. A pornografia simbólica, pouco a pouco, vai se, tornando a pornografia relâmpago.

Peraltices picantes não faltam. Gugu Liberato é capaz de consumir minutos de programa para mostrar dois garotos cortando a corda de um balanço em que uma rapariga loira, de shortinho, acomoda-se sorridente. Embaixo dela, uma piscina de plástico, com água e espuma, junta-se ao Brasil na torcida que a mocinha despenque. E ela despenca. Ele é capaz de dar um banho de leite em saquinhos nos integrantes do grupo Dominó, e de esparramar o líquido para todo lado molhando o pessoal da platéia. Chacrinha jogava bacalhau em cima dessa gente. Gugu Liberato promove a meleca láctea para deleite do país que passa fome. Ele ainda não é candidato a presidente.

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