Thursday, June 6, 2013

1987 - Gugu na Globo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 6/12/1987
UM CERTO AR DE BONECO DE BOLO DE NOIVA
Gugu Liberato está empolgado com a virada para a Globo e não quer nem conversa com Sílvio Santos

Com o seu bem comportado sorriso edulcorado e o expansivo jeito de bom moço, o animador de televisão Augusto (Gugu) Liberato chegou lá. Depois de 13 anos de convívio com a TVS de Sílvio Santos, cinco deles apresentando o bem-sucedido programa Viva a Noite, Gugu mudou - e como! - de auditório. Em março, ele estréia na Rede Globo, com um novo programa vespertino, aos domingos, com duas horas de duração e ainda sem nome. Não é a única estréia de Gugu. Em dezembro, ele também estará nas telas dos cinemas, com o filme Os Fantasmas Trapalhões, onde faz o detetive Augusto ao lado da troupe de Renato Aragão. Sem dúvida, uma guinada na carreira de quem, aos 28 anos, estava destinado a ser herdeiro de Sílvio Santos.

''Estou ansioso para ver o que vai acontecer'', diz Gugu Liberato. "Confio muito nessa etapa de minha carreira, porque acho que vou poder realizar um grande sonho, de fazer um programa rico, com uma boa verba, ótimos cenários e um elenco de primeira." Gugu vai fazer um programa de auditório, destinado ao público infanto-juvenil, no horário das 17h às 19h, atualmente preenchido com enlatados.

"Vai ser uma mistura de variedades com game show, apresentações musicais e muitos concursos e brincadeiras com prêmios'', revela o animador. A idéia é de aproveitar bastante o elenco das novelas da Rede Globo, com os atores mostrando o seu lado artístico desconhecido. "Essa será uma mina de ouro que terei para explorar", exulta Gugu, que trouxe da TVS o diretor do programa, Detto Costa, além de um redator e de um produtor. "A própria Globo achou importante eu trabalhar com uma equipe com que já estava acostumado", comenta.

Até março, Gugu continua gravando o Viva a Noite transmitido aos sábados por 43 emissoras do SBT, com uma média de 23 pontos do IBOPE em São Paulo, onde fica a sede da Rede. O trauma de sair da TVS, onde foi uma espécie de protegido de Sílvio Santos e visto como o seu sucessor no auditório, já foi superado. "Não conversamos há mais de um ano, apesar de ele dizer na televisão toda semana que fala comigo", revela Gugu. "Houve uma época, quando eu produzia o programa dele, que estávamos sempre juntos, mas depois nos distanciamos, e nos últimos três anos trocamos apenas cartões de Natal."

Gugu entrou com 14 anos na TVS. Ele trabalhava como office-boy numa imobiliária e costumava mandar cartas para Sílvio Santos, com idéias e sugestões para o seu programa. "Sempre gostei muito de televisão, um dia fiz uma análise do seu programa e o Sílvio mandou me chamar", conta Gugu. "Foi uma sorte, porque essas cartas não costumam ser lidas." Ele começou como auxiliar de produção, quando o Programa Sílvio Santos ainda era na Globo, foi assistente de produção e tornou-se finalmente produtor,

A grande chance surgiu em 1981, quando Sílvio Santos ganhou a concessão da TVS em São Paulo. "Comecei a apresentar o programa Sessão Premiada, que entrava nos intervalos dos filmes, dando prêmios para quem estava assistindo, e descobri que tinha jeito para a coisa", diz Gugu. No ano seguinte, ele foi escolhido para animar o Viva a Noite e conseguiu se manter com sucesso durante cinco anos no ar. "Obtive muita coisa por ser novato. Mas acho que já tenho uma carreira como animador, que é o que eu sei fazer", afirma Gugu, que já cravou 38 pontos no IBOPE, conquistando o maior índice de audiência do SBT.

Antes de ser animador, Gugu quis ser jornalista. Chegou a se formar e acompanhar o presidente João Figueiredo em suas viagens pelo exterior, que eram transmitidas no quadro A Semana do Presidente do Programa Sílvio Santos. Ele pensou também em ser dentista. Saiu da TVS para cursar a Faculdade de Odontologia, mas desistiu logo. Sua verdadeira vocação ele logo viu, estava nos programas de auditório. E com o seu sorridente jeito clean criou um estilo para o público infanto-juvenil. "Sempre fui muito espontâneo. No início me baseava um pouco no Sílvio Santos, mas depois deixei de lado essa linha séria e fui me encontrando."

Como animador, Gugu descobriu uma mina de ouro. Na esteira do sucesso do IBOPE, há quatro anos ele tem um programa diário na Rádio América de São Paulo, onde atua como disc-jockey. E três empresas: a Promoart, que promove shows de artistas pelo país e tem a exclusividade do grupo juvenil Dominó e do cantor Conrado; a Consubvideo, que publica uma guia anual de videolocadoras; e a recente Gugu Produções Independentes, com o publicitário Sérgio Murad, o "Beto Carreiro", que cuida do seu programa para a Rede Globo.

Gugu também é muito requisitado para fazer shows pelo país. Com a agenda lotada, ele anima convenções e festas, apresenta concursos de misses e chega até a cantar. Muito antes da Xuxa trinar, Gugu gravou, em Oie, um compacto com a música O baile dos passarinhos, a versão de uma canção alemã, que vendeu 100 mil cópias. Animado, lançou mais três compactos e um LP, Viva a música, para o público infantil. Mas é sincero e confessa: "Não me acho um bom cantor."

Na Globo, onde tem um contrato de dois anos, Gugu diz que vai ganhar o mesmo salário que recebia na TVS, CZ$ 350 mil mensais, fora os cachês com merchandising, que podem representar o dobro desse salário, ou mais, numa vitrine de extraordinário poder de exposição como a Rede Globo. Ele mora com os pais, portugueses de Trás dos Montes, no exclusivo e luxuoso bairro de Alphavill perto de São Paulo, onde tem, entre outros vizinhos ilustres, a atriz Regina Duarte e o cantor Fábio Júnior. Solteiro aos 28 anos, ele acha "cedo" para se casar.

Vivendo agora na ponte aérea Rio-São Paulo, o profissional de televisão Gugu por ironia quase não assiste televisão e há muito tempo não vai ao cinema. Ele lê pelo menos dois jornais diários, mas admite que gosta mesmo é de gibis, que devora com a gula de um leitor fanático. "Leio todos os coloridos, só não gosto dos preto e branco. Não tenho tempo para ler livros e prefiro os gibis por que a história começa e termina logo", justifica.

Mas atrás de novidades para o seu programa, Gugu viaja sempre para a Europa e os Estados Unidos. Na semana passada, ele voltou de Londres e Frankfurt, onde foi negociar um material de uma emissora de TV. Esta semana foi para Nova Iorque, buscar a autorização para usar urna idéia de um programa americano.

"O Gugu é o Sílvio Santos dos anos 80. Ele tem cara de filho único, desses bonecos de bolo de noiva, e atinge em cheio o público infanto-juvenil", diz o irreverente apresentador Fausto Silva, de Perdidos Na Noite e Safadinhos e Safenados, transmitidos pela Rede Bandeirantes. "Desde o Sílvio Santos não aparece um animador a nível popular como o Gugu que faz muito bem o marketing de filho caçula, boa gente, o que ele é mesmo", elogia Fausto.

Gugu não se considera um animador tradicional. "Meu estilo é o de uma linha popular", reconhece, "mas calcado no bom gosto" afirma."Apesar de usar paletó e gravata, sempre fico muito à vontade no palco." Gugu. lembra que um animador tem que ser muito rápido no raciocínio e ter medida para cortar no momento certo uma atração chata e desinteressante. Mas para ele, o segredo do sucesso é a autenticidade. "Não se pode fingir que está achando uma coisa engraçada, quando de fato ela não é", diz. E tem muita gente que acha o Gugu engraçado.

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