Tuesday, June 4, 2013

1986 - Rede Manchete em ritmo global

 Jornal do Brasil
Data de Publicação: 18/12/1986
Autora: Márcia Cezimbra
MANCHETE EM RITMO GLOBAL
Espírito de Roque Santeiro baixa no Russell com planos do outro mundo

O espírito de Roque Santeiro baixou na rede Manchete. O ator José Wilker, até fevereiro deste ano na pele do personagem global, não só assumiu direção de teledramaturgia da emissora, como tem na cabeça a idéia de levar para lá um pouco do realismo que deu prestígio e recordes de audiência à novela da Globo. Até o ritmo de Wilker está mais para Roque do que para o demissionário Herval Rossano: autor, diretor e produtor de peças e vídeos, ele não dispensará suas sessões de analise à tarde, três vezes por semana, nem compromissos teatrais como a montagem de Calígula, no segundo semestre, ou seus vídeos infantis. Herval encarava a dramaturgia da Manchete diariamente, da manhã à madrugada, sem intervalos.

É assim que a Manchete enfrentará outro fantasma de Roque Santeiro em março, quando o escritor Aguinaldo Silva (autor de 111 capítulos da novela) estréia sem parcerias em O Outro, às 20h, na Globo.

Nessa época, a Manchete atacará com Corpo Santo, novela de José Louzeiro que Wilker aprovou de cara, "por se aprofundar na crônica policial apenas tocada pela Globo em Pecado Capital e na minissérie Bandidos da falange''. Ele gostou também da superprodução de US$ 6 milhões (Cz$ 180 milhões) Cananga do Japão, novela prevista para o segundo semestre de 1987, e anuncia uma versão em folhetim de Helena, de Machado de Assis.

As diferenças entre Wilker e Herval Rossano vão além do estilo. Ele critica o lançamento ao mesmo tempo de duas novelas numa só emissora, e diz não ter capacidade. Para dirigir simultaneamente um departamento e suas novelas. Uma exigência de Herval, que acumulava estas funções, foi a estréia em agosto de Mania de querer e Tudo ou nada. Essa decisão, malsucedida, foi depois apontada como um dos motivos de sua carta de demissão. Na Manchete, apura-se facilmente outra diferença: enquanto Herval brigou com Gracindo Júnior, Mila Moreira, Nicole Puzzi e Sônia Clara (esta, mulher do diretor Zevi Ghivelder, mais uma razão para sua saída), Wilker, em dois dias no cargo foi sorridente e bem-humorado.

E não será preciso tratar de bodes, arrocho salarial e violência, segundo José Wilker, para pensar a nova realidade brasileira, "acreditemos ou não na Nova República". Foi esse caminho, de avaliação do novo Brasil, através dos mecanismos que a televisão dispõe como indústria de lazer, que o afastou este ano da Profissão de ator para um mergulho na totalidade da produção artística. Talvez por ter saldo de uma sessão de análise, no início da noite de segunda-feira, seu discurso rejeitava tarefas Impossíveis ou qualquer tipo de onipotência:

- Sou lento, pertinaz e teimoso, mas só quero perseguir coisas realizáveis. Podemos ser mais verticais sem abrir mão do divertimento. Não vou fazer novela séria, mas a televisão tem de Incorporar o que vem sendo conquistado pelo país inteiro. E essa avaliação não foi feita ainda.

Foi no analista que Wilker diz ter descoberto que não gostava de receber da Globo sem trabalhar. Também na análise percebeu que os lugares que desejava na Globo - de seus amigos Paulo Ubiratan, diretor de um núcleo de novela, e Daniel Filho, diretor da Central Globo de Produções - estavam ocupados por profissionais que funcionavam muito bem. Daí a decisão, há um mês, de rescindir o contrato com a Globo. Seu tom oscila entre a ironia e o bom humor. Os convites da Manchete vieram por etapas, feitos, segundo ele, por Adolpho Bloch, o primo Oscar Bloch, Zevi Ghivelder, Pedro Jack Capeller (o Jaquito) e Carlos Heitor Cony - o primeiro escalão da emissora.

- Primeiro me chamaram para ser ator. Não quis. Depois, para dirigir uma novela. Na semana passada, para dirigir a dramaturgia. Me senti mais à vontade nesta função e, sinceramente, não sei ainda por que o Herval saiu.

Sua chegada traz ainda boas promessas de emprego para muita gente. Já tem nomes na cabeça, mas diz que só fala depois de consultar seus convidados. Sabe-se na Manchete que Denise Saraceni. (ex-assistente de Walter Avancini na Globo e diretora de Novo Amor) está garantida na direção da futura, Helena, e o ex-global Waltinho Campos com certeza permanece no departamento. O pique de José Wilker chega ao ponto de propor, ''a favor de tudo e de todos", um congresso gigante de artistas que pensem abordagens importantes para futuros espetáculos. Uma idéia que está a quilômetros da arte engajada do ex-militante do Centro Popular de Cultura (CPC), desativado pelo golpe de 1964:

- O trabalho cultural merece uma avaliação diferente. Não se sabe o que está acontecendo, o que a gente é, o que devemos discutir e apresentar. Não é rigorosamente, arte engajada. Até porque duvido. muito do engajamento político na produção artística. Não deu certo, aqui e podemos ver também o caso da Rússia.

Tanto gás não poderia deixar ser bem recebido pela rede Manchete. Boa parte do mulherio parece satisfeita em esbarrar com o ex-galã pelos gabinetes da Rua do Russel. Ele já freqüentava as ilhas de edição da emissora para montar Cinderela, o primeiro dos 12 da série Mundo Encantado, de sua produtora independente, que vai ao ar dia 21, na Manchete. Ninguém sabe, porém, quanto tempo vai durar tanto bom humor. Até suas sessões de análise parecem piadas para o esquema de trabalho da empresa, que ele recebe com naturalidade.

- Ora, se não vou à análise, não trabalho direito. Uma coisa depende da outra.

No comments:

Post a Comment

Followers