Sunday, June 2, 2013

1984 - Um ano de Rede Manchete

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 10/4/1984
Autora: Míriam Lage
O SALTO MAIS ALTO NOS PLANOS DA TV MANCHETE
Dez meses depois da estréia, a 5 de junho do ano passado, a TV Manchete faz um balanço e não tem o que reclamar dos resultados. Maurício Sherman, diretor artístico da rede, assegura que todas as dúvidas iniciais desapareceram: "está bem claro para nós, para o público e anunciantes que a TV Manchete formou uma rede para ficar no ar por muito tempo, disputando, com garra, o mercado da televisão brasileira".

A direção da emissora costuma dizer que, aos estruturar sua linha de programação, apostou no bom gosto e na inteligência do público. "Toda programação segmentada corre risco. Se a disputa é por uma fatia menor de mercado - o alvo são as classes A e B - é evidente que a audiência será equivalente. Mas mesmo com números menores de IBOPE, estamos lidando com o que realmente importa aos anunciantes: 90% do poder de consumo do país", diz Sherman.

Não foi fácil, no início, convencer as agências de publicidade que a emissora entraria na casa deste público tão disputado. Os institutos de pesquisa trabalhavam contra a emissora. E exatamente nessas faixas que os pesquisadores encontram dificuldades, barrados por eficientes sistemas de segurança dos prédios. Por isso, em seus primeiros meses no ar, a TV Manchete teve dificuldades em atrair as verbas que lhe folgariam o orçamento. Hoje, segundo Sherman, a situação é outra. "Não há um só projeto novo que entre no ar sem patrocinador. Vencemos essas dificuldades iniciais provando que estamos fazendo um trabalho sério. A performance da emissora assegurou um bom fluxo do verbas publicitárias, que nos permitem pensar em saltos mais altos", diz Sherman.

Mas como qualquer profissional tarimbado de televisão - completa 30 anos no ramo no próximo ano - Sherman não esconde que sua maior ambição é aumentar a audiência, não se contentar, jamais, com as conquistas consolidadas. Assim, a emissora imaginou uma maneira de casar o padrão de qualidade a que se impôs às preferências do público brasileiro. "O êxito das novelas prova que o espectador gosta da forma dramatúrgica. Vamos começar a atuar nesse espaço com o nosso projeto Grandes Romances. São as minisséries que estão sendo cuidadas com extremo carinho pela emissora e devem entrar em fase de produção esta semana. Pretendemos, com isso, penetrar numa faixa de público mais ampla. O fundamental, no entanto, é que não vamos nos afastar desse crédito de lucidez e inteligência que demos ao espectador", explica ele.

A primeira minissérie da TV Manchete deverá estar no ar dentro de 90 dias, com a história da Marquesa de Santos, adaptada por Carlos Heitor Cony. Para o papel principal foi escolhida a atriz Maitê Proença. Mas é apenas um dos grandes nomes do senado. Já' foram acertadas as participações de Sérgio Brito, Maria Padilha, Marcos Nanini e iniciadas conversas com a atriz Bibi Ferreira. A segunda minissérie é Viver A Vida, entregue a Manuel Carlos. A história se baseia num romance de Theodore Dreiser. O painel paulista é o tema da terceira história, escrita por Geraldo Vietri a partir de uma trilogia de Abílio Pereira de Almeida. Essa incursão no mundo paulistano não é de graça: no balanço desses dez meses no ar, a emissora detectou que o ponto de maior fragilidade da rede é São Paulo, onde ainda não conseguiu a audiência desejada.

Ao mesmo tempo em que se preocupa com o alargamento de seus índices de audiência no horário nobre, a TV Manchete pretende ampliar a programaçãoinfantil. Atualmente a emissora oferece quatro horas diárias à garotada, com Carequinha e Xuxa no comando de programas no início da tarde. Agora, o alvo da TV Manchete é a conquista da criança que assiste a televisão aos domingos. A partir do próximo dia 22, às 17 horas, estréia Essas Crianças Maravilhosas. Pepita Rodrigues foi a escolhida para animar o programa: "Pensamos num projeto instigante para a criança e divertido para o adulto. Serão organizados jogos e brincadeiras com a participação da criançada que é premiada com brinquedos. Pensamos numa espécie de divertimento instrutivo", explica Sherman.

Essa concentração de esforços no horário infantil faz parte de uma estratégia a longo prazo: criar uma programação atraente para um público que muda de canal com freqüência. "A criança é muito mais inquieta do que o adulto. Ela mexe no seletor de canais a todo instante, parando a imagem onde encontra melhor atração. Elas estão parando na TV Manchete à tarde. Precisamos segurá-las aos domingos", diz Sherman.

Além das crianças, a TV Manchete está de olho na faixa jovem. Já conseguiu bons índices de audiência para o FMTV durante a semana e vai incluí-lo na programação de domingo. "A partir do dia 13 de maio prepararemos uma especial de uma hora de duração para o final da tarde", adianta Sherman. Também na área de jornalismo algumas novidades estão em gestação. Até meados de maio a emissora pretende colocar no ar uma revista jornalística, ainda sem nome escolhido. Sherman pensa numa espécie de "ômnibus", um pouco de tudo para um público mais variado. Nos primeiros estudos de reformulação da programação, a TV Manchete pensa em colocá-la no início da noite de domingo. "No fundo o que estamos fazendo é disputar a audiência de domingo. É claro que, para uma emissora, o importante não é ter piques de audiência, mas chegar a um patamar sólido em toda a programação", diz ele.

Dentro dessa estratégia a emissora está reformulando o Manchete Shopping Show - de segunda a sexta-feira, das 15 horas às 17 horas redirecionando o programa para o gosto do público feminino. De acordo com pesquisas realizadas nos últimos meses, ficou provado que o público feminino desta faixa de horário prefere um programa que lhe preste serviços. Assim, foi abolido o quadro Debate e o Shopping Show mergulha, já a partir desta semana, em assuntos como economia doméstica, orientação pedagógica, psicologia e toda espécie de serviço para as donas-de-casa.

Com todos esses acertos de rota a TV Manchete pretende manter - e justificar - seu slogan: a televisão do futuro. "A televisão brasileira atravessa uma fase muito curiosa. Basta girar o dial que sua própria história está no ar. Os primórdios estão com a TV Record: só passa filmes velhos, da época em que nasceu a televisão no Brasil. Logo depois vem a TVS, representante da década de 60. Ela relembra os programas de auditório, com o formato antigo e todas as improvisações que isso exige. A TV Bandeirantes representa a transição entre os programas de auditório e os gravados, lá pelos meados da década de 60. A programação melhorada, enriquecida pelos programas gravados já do início dos anos 80, é nem exemplificada pela TV Globo. A TV Manchete é a televisão do futuro. Mas como somos ansiosos, queremos ocupar espaço desde agora. Por isso estamos sempre alertas, acompanhando de perto o resultado de nosso trabalho e corrigindo as mínimas falhas", conclui Sherman.

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