Tuesday, June 4, 2013

1983 - TV Manchete - qualidade no ar

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 29/5/1983
Autor: Benevenuto Netto
TV MANCHETE, UM CANAL PARA UMA SÓ CLASSE
Mais uma rede de televisão busca espaço no mercado brasileiro. É a TV Manchete, futuro canal 6 do Rio, com data de inauguração prevista para domingo próximo, dia 5 de junho. É pois hora de saber se há realmente espaço para o novo canal no difícil cenário carioca, onde uma emissora praticamente detém a liderança e as outras quatro lutam emboladas por uma maior participação.

Vovó gostava de dizer que espaço não se ganha. Conquista-se. Para ela, havia sempre e para todos um lugarzinho a ser ocupado. Bastava garra, confiança, coragem, alguma inteligência, pouquinho de Sorte.

Com a Manchete será assim? Arriscar desde logo tal resposta é querer virar profeta. Na verdade, espaço há. Você vê a faixa que cada emissora ocupa no Grande Rio, de meio-dia à meia-noite, segundo o relatório do IBOPE de março de 83. Vê também que há, em média, 47,7% de desligados. Ou seja, em média 47,7% das residências com aparelhos de TV no Grande Rio (total de 2 milhões 929 mil residências) estão com seus receptores desligados. Mas isso não quer dizer que tais aparelhos fiquem assim desligados este tempo todo. Nada disso. Há horários em que há mais desligados que a média e outros em que há menos. Caso, por exemplo, do chamado horário nobre, das seis às oito da noite ou das oito às dez da noite, quando o total de desligados é de apenas 13,6%, o que nos dá base para dizer que mesmo na faixa mais forte da programação televisiva há aparelhos a serem mobilizados pela nova rede.

Fora estes, soube ainda que a Manchete pretende atingir basicamente as classes A e B. E digo basicamente porque sendo transmissão pública ela será vista por qualquer pessoa que tenha um aparelho. Mas dirigirá o conteúdo de sua programação de acordo com os anseios e necessidades das faixas mais altas do mercado, as de maior grau de informação e também de maior poder aquisitivo, faixas, aliás, que formam cerca de 35% do total da população carioca que mora em residências com aparelhos de TV.

Quer dizer, para começar, a TV Manchete não quer todo mundo, como sua irmã-concorrente que apregoava, ao início do ano, aquele tão pretensioso quanto onipotente slogan: "todo mundo o tempo todo ligado na Globo".

Não. A Manchete segmenta seu público alvo e deixa de lado 39% da classe C e mais 25% da D que formam, ao lado dos 35% da A e B, a população televisiva do Grande Rio e adota assim mais ou menos a mesma posição que a TV Bandeirantes escolheu quando estreou entre os cariocas em 1977.

Confesso que tenho um certo medo de tal posicionamento. Estas duas faixas do mercado - A e B - não são determinantes da audiência. Ao contrário, a A, mais rica, pouco consome e quase nunca vê televisão no país. Caberá, pois, à classe B a tarefa de responder sim à nova rede e compor seus pontinhos de audiência. Um canal para uma só classe. Dará certo isso?

No comments:

Post a Comment

Followers