Tuesday, June 4, 2013

1983 - Rede Manchete breve no ar

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 17/4/1983
REDE MANCHETE DE TELEVISÃO
A tecnologia do ano 2000 chega à TV brasileira

A Rede Manchete de Televisão, Canal 6, lança em maio a TV do Ano 2000. Com tecnologia das mais avançadas, na qual investiu 52 milhões de dólares (cerca de Cr$ 56 bilhões) entre equipamentos e instalações, chega para tentar desestabilizar o quase monopólio da Globo. Para isso, foram gastos outros 14 milhões de dólares na compra de um pacote de filmes inéditos na TV brasileira: Júlia, Kagemusha, Norma Rae, Cerimônia de Casamento, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Guerra nas Estrelas e Terremoto entre outros.

Numa atmosfera festiva e tensa, ninguém sabe ainda o dia exato do lançamento. O coordenador-geral da emissora, Rubem Furtado, acha melhor não marcar data para não gerar expectativas, quando pode ocorrer ainda um atraso nos trabalhos. Um dos maiores problemas da produção é a lenta adaptação dos técnicos brasileiros ao sofisticado equipamento. Embora estejam gravando há alguns meses para o departamento de jornalismo, eles sabem que a primeira transmissão que será o teste de fato.

Realmente, entre os técnicos, há muita excitação. Referem-se à mesa de edição AVC Ampex (toda digital e programável, com três possibilidade de mix diferentes que tem acoplados ADO Vídeo Effects (máquina de truca) e o Chyron (onde são inseridos discos com vários tipos de letra), como a maravilha do mundo moderno, "que faz tudo o que quisermos". Estão impressionados com as possibilidades e rapidez nos trabalhos, além de vaidosos por "colocar no ar a melhor imagem do Brasil".

- A nossa emissão será melhor porque um maluco inventou a transmissão através de antena de polarização circular, que emite ao mesmo tempo na horizontal e na vertical. Ganhamos ainda em tempo: antes, se editava de máquina a máquina; agora os computadores editam de seis máquinas para uma. E em espaço: toda a nossa emissora, com quatro núcleos completamente equipados, que funcionam independentemente, está montada em apenas um andar porque os equipamentos são todos miniaturizados - diz Rubem.

A TV Manchete estréia com apenas sete horas diárias, das 17h à meia-noite - operando com 500 funcionários. São duas horas de programação infantil (27 novos personagens da Hanna Barbera), outras duas de noticiário (entre os repórteres, Sandra Passarinho e Mário Cunha, e entre os cinegrafistas Sérgio Vertes, todos ex-TV Globo) e o restante do horário será ocupado com seriados, filmes de longa metragem e os grandes clássicos produzidos pela BBC de Londres (Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievsky, e Madame Bovary, de Gustave Flaubert, estão entre eles). Um investimento de 14 milhões de dólares, reunindo astros como Jane Fonda, Vanessa Redgrave, Mikhail Baryshnikoy, Mel Brooks, Mia Farrow, Charlton Heston, Al Pacin, dos diretores Steven Spielberg, Akira Kurosawa e Finco Zefirelli, para competir duramente com as demais emissoras, embora a opção da Manchete seja por um público "altamente seletivo".

- Minha televisão se propõe a ser diferente, na verdade uma alternativa. Se as outras fazem novela, eu farei show, teatro, jornalismo. Nós queremos uma faixa de público mais exigente, o intelectualizado.

Para ele, ainda não existe uma emissora: a Globo tende a uma programação eclética; a TVS se dirige às classes C e D, ficando a Bandeirantes no meio-termo.

Os projetos são ambiciosos: um show diário com grandes nomes da MPB e do cast internacional, uma peça de teatro por semana, como fazia TV Tupi nos anos 50 e 60, a produção de desenhos animados com personagens de Maurício de Souza e atenções especiais para o departamento de jornalismo da emissora. Segundo Rubem, tudo isso acontecerá quando a TV estiver operando normalmente, ou seja, dentro de um ano.

- Tenho projetos para um ano de programa ao Posso dizer apenas que seremos uma emissora profundamente jornalística e queremos dar uma contribuição real ao país, melhorando o nível cultural da população. Vemos a TV como um veículo de massa que acarreta responsabilidades e que não pode ser tratado apenas como um entretenimento, nem ser usado de maneira negativa. São essas as nossas - minha e da direção - preocupações básicas.

- Será, também, como explica Rubem, uma comprometida com a política de não-violência, hoje uma reivindicação de pais e educadores de todo o mundo.

- Temos apenas dois seriados policiais (Radio Detetive e Corpo de Delito), cujos detetives, Quiney e Shoestring, são, na verdade, os antipoliciais. Filmes de muita ação e suspense, mas onde inexiste a violência, hoje tão comum na televisão.

Apesar dos boatos sobre contratações para um suposto núcleo de novelas, Rubem Furtado descarta essa possibilidade. Enfatizando, que não se trata de atitude preconceituosa, mas, sim, da falta de possibilidades de operação a curto ou médio prazo.

- Nunca digo jamais em televisão. Mas não temos condições, no momento, de realizar todas as especulações que giram em torno da TV Manchete. Não há planos para séries brasileiras, nem para exibição de filmes nacionais por enquanto, pois 90 por cento são proibidos para menores e 10 por cento já foram mostrados, não sendo mais inédito. Quero exibir filmes nacionais, só não sei quando isso vai acontecer.

Sobre a programação de estréia, sabe-se muito pouco ou quase nada. O mistério é a alma do negócio. São 261 longa-metragens, 23 seriados e 110 horas de clássicos a escolher. E mais 30 nomes nacionais e internacionais no primeiro show da emissora.

Não conto nem para minha mãe a nossa programação. Estamos lidando com estruturas montadas e, se a gente abrir o jogo, acabam saindo na frente. Posso adiantar somente uma coisa: a direção do primeiro show, que vai ter de tudo, é do Nélson Pereira dos Santos. Acredito que televisão é misturar equipamento com talento - conclui.

WELTMAN DIRIGIRÁ A PROGRAMAÇÃO

Autor/Repórter: Lília Coelho

Após seis anos dirigindo a TVS, do grupo Sílvio Santos, no Rio de Janeiro, Moisés Weltman muda-se para a Rede Manchete de Televisão, com estréia prevista para a segunda quinzena de maio.

- Apesar de toda a amizade que tenho pelo Sílvio Santos, a idéia de trabalhar na Rede Manchete me fascina. Sou obcecado pelo desafio, pelo novo. E, além disso, estou de volta a uma casa onde trabalhei durante 10 anos e só deixei grandes amigos. A TVS já existe, não é mais uma novidade. Nesses seis anos implantei a TV Record, a TV Friburgo e a sede administrativa da TVS no Rio de Janeiro; esse é o meu legado ao Sílvio.

Sempre que precisar ele poderá contar comigo - diz Weltman, que na Editora Bloch foi diretor da Amiga e de várias outras revistas.

Como diretor de programação da TV Manchete, ele não esconde a empolgação com o novo trabalho.

- A Rede Manchete tem um equipamento moderno que oferece todas as opções para programação, incluindo novelas, shows musicais, teatro, enfim tudo o que é possível realizar numa emissora de televisão. Está equipada com os meios técnicos dos mais avançados e uma equipe do melhor gabarito. Por enquanto, são apenas planos, mas certamente é a tevê do ano 2000 - diz.

Embora mantenha sob sigilo a programação de estréia da Rede Manchete, Weltman adianta que existe possibilidade de realização de novelas na programação.

- Com a parte técnica já pronta e funcionando normalmente, estamos agora na fase de contratação de redatores, diretores e grandes atores. Existe muita possibilidade de virmos a realizar novelas também, além de toda uma gania de programas de qualidade, à altura das tradições da casa - conta Weltman.

Apesar de todo o pacote de filmes estrangeiros adquirido pela Rede Manchete, Moisés Weltman adianta que já na programação de estréia a emissora mostrará programas produzidos aqui.

- A partir da estréia, já teremos programas de produção inteiramente nossa. O restante, não falo e não posso. Mesmo porque estamos. entrando no mercado para competir - afirma, misterioso.

Nos corredores da TVS várias pessoas comentavam a saída de Weltman para a Rede Manchete como decorrente de cansaço e falta de estímulo, já que no Rio de Janeiro o único programa da emissora é O Povo na Tevê. Mas Weltman desconhece esse tipo de comentário.

- Meu relacionamento com Sílvio Santos é perfeito e minha saída foi o que chamamos de "divórcio amigável". Ainda gravei duas participações no Festival Carioca de Cinema e mantenho minha amizade com o Sílvio e com muitos grandes amigos que fiz por lá, especialmente um grande colaborador, nesses seis anos de trabalho, que foi o Luciano Callegari.

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