Tuesday, June 4, 2013

1983 - Rede Manchete - Bloch no ar

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 5/6/1983
Autor: José Nêumanne Pinto
A NOVA PAIXÃO DO VISIONÁRIO ADOLPHO BLOCH
Em 1952, a revista O Cruzeiro estava no auge. Foi na época da publicação daquela reportagem famosa de David Nasser e Jean Manzon, em que o Deputado Barreto Pinto aparecia de fraque e de cueca. Em Nova Iorque, Assis Chateaubriand me perguntou: por que eu havia resolvido fazer Manchete, se já havia O Cruzeiro? "Ultimamente não tenho visto muito O Cruzeiro, Assis", respondi-lhe.

Assim, com esta fábula bem-humorada, Adolpho Bloch explica por que, aos 75 anos de idade, o peito aberto duas vezes para recondicionamento do coração, está à mesa para jogar mais uma cartada decisiva em sua vida, desta vez contra a mais poderosa empresa da comunicação eletrônica do país, a Rede Globo de Televisão. Os olhos azuis brilham de malícia quando ele conta a fábula, que serve de resposta à pergunta: "por que investir 52 milhões de dólares numa emissora de televisão, se a Globo já manda no mercado de forma tão absoluta?"

O Cruzeiro vendia uma assombrosa tiragem de 700 mil exemplares quando o gráfico Adolpho Bloch resolveu aventurar-se no mundo editorial, lançando Manchete. O exemplo é lembrado por todos os ocupantes do prédio envidraçado e luxuoso da Praia do Russel, toda vez que o fantasma do Jardim Botânico passeia por seus corredores, agora ocupados por uma gente estranha aos olhos de Bloch, gente que ainda não foi convidada para a feijoada dos sábados em sua casa.

No restaurante do último andar, frente à linda paisagem da Baía da Guanabara, Adolpho Bloch jura que tem paciência suficiente para dar suporte à programação de sua emissora de televisão, até que ela consiga saltar do segundo lugar, que ele prevê logo para hoje, até o topo. Homero Icasa Sanchez disse, em entrevista, que seriam necessários quatro anos para que qualquer emissora de televisão conseguisse bater a Globo. Bloch discorda:

- É muito tempo. mas paciência eu tenho. Afinal, esperei meio século para fazer a revista que sempre queria ver. Pode-se fazer muito quando se sabe o que fazer. E eu sei. Passei meses vendo televisão, preocupado em saber o que é que o telespectador quer. Tenho agora uma noção exata do que é bom para o grande público. Com um ano de produção, vamos mostrar que viemos para ficar. Ninguém pode concorrer com a Globo em produção de novelas. Não vamos fazer novelas. Eu não estou preocupado com o que a Globo faz e sim com o que posso fazer, com meu próprio caminho.

O ponto de partida desse caminho é a Ucrânia, onde o judeu Joseph Bloch era gráfico quando explodiu a Revolução Soviética, em 1917. Seu irmão, Leon, já estava na Bahia, no Brasil distante, quando os pogrons do Czar acabaram e começou a socialização da economia. Adolpho, os irmãos (Bóris e Arnaldo) e irmãs zarparam da Zitomir natal para a América do Sul, depois de uma passagem pela Itália. Os três irmãos vendiam nas ruas do Rio de Janeiro os cadernos cujas pautas eram impressas pela primeira máquina que Joseph comprou nos anos 20.

- Sabe por que acho que hoje é melhor do que ontem? Em 1922, eu passava de bonde e gritava para os que passavam de automóvel: "um dia esta sopa vai acabar". Hoje não posso gritar mais. São todos companheiros meus. O dia de hoje é sempre melhor do que o de ontem e nossa obrigação é fazer com que amanhã seja sempre melhor do que hoje.

A Adolpho Bloch atribui-se o dom dos visionários. Dizem amigos ou desafetos que atrás de suas pupilas claras ele consegue sempre vislumbrar o futuro. Este seria o segredo do sucesso de sua gráfica e, depois, do vertiginoso crescimento de sua editora. Considera seu novo passo - o ingresso na era da eletrônica - algo semelhante ao que fez em 1952, ao abandonar a segurança da gráfica pelo incerto mundo da edição de revistas.

- No futuro, as revistas serão impressas em papel transparente e com uma tinta especial que dará a impressão de leitura em três dimensões. Na televisão, o céu é o limite. A eletrônica é uma nova era e todos caminhamos para ela. Entro na aventura até porque acho que televisão está mais próxima de revista do que de jornal - assim se explica.

Muitos inimigos e um rico folclore Adolpho Bloch construiu com seu temperamento irascível e apaixonado. Amigos (como o ex-Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira) também deveram-se a essa paixão desenfreada pela inteligência e pela realização. Mas o traço fundamental de seu caráter, na opinião dos amigos, é a angústia da perfeição.

Os amigos de Bloch são feitos no interior do monumento envidraçado que Oscar Niemeyer planejou na Praia do Russel. A televisão trouxe-lhe a ansiedade por não conhecer toda aquela gente inquieta que agora corre pelos corredores, atropelando-se uns aos outros. Agora, na medida do possível, o perfeccionista que exige absoluta qualidade no registro de cor do papel impresso em suas impressoras e o mármore bem colocado em cada banheiro do edifício em que trabalha faz o possível para controlar essa ansiedade. Já conhece o diretor executivo da TV, Rubens Furtado - seu companheiro no almoço - e fala bem dele sempre que pode. Da mesma forma que se orgulha de Desfile, "400 páginas de moda brasileira e bem-feita".

- Quando andei pela televisão, senti falta das pilhas de papel. Fiquei pensando comigo mesmo: como se pode faturar alguma coisa sem papel? Agora, meu computador já se está adaptando para a nova realidade. Em vez de "saia" eu falo em "ilha". Em vez de "montar", "editar". É verdade que não conheço televisão como gráfica. Mas sei quando uma coisa é bem produzida e sei que essa gente que faz a televisão é muito boa - conta.

Adolpho Bloch acha que comprou seus equipamentos a bom preço, mas espera poder trocá-los a cada cinco anos, pois quer sempre ter a última geração de máquinas eletrônicas para televisão. Por isso, cunhou o slogan. "A televisão do ano 2.000"

O horizonte não tem limites. Sou um homem que gosta de trabalhar. Não quero ganhar dinheiro. Não sou um comerciante. Quero é cumprir meu compromisso de trabalhar. E trabalhar mais. Jamais vou aposentar-me

Os aposentados param de trabalhar e ficam pensando só no passado. Só me interessa pensar no futuro.

Para Adolpho Bloch, o futuro é um anfiteatro na Barra da Tijuca com 3 mil 600 lugares, a ser inaugurado em dois anos com a apresentação da Aida, de Verdi, dirigida por "meu amigo" Franco Zefirelli.

- Jaquito (o sobrinho Pedro Jack Kapeller), Oscar (Bloch Siegelman) e eu sabíamos que precisaríamos de um sócio para tocar um empreendimento tão grande como é uma televisão. Mas achamos que não temos educação suficiente para que um sócio nos suporte. Consegui os elefantes para a montagem de Aida. Você acha que um sócio entenderia um esforço para se conseguir um elefante? Não dá para explicar. Por isso, fizemos a televisão sem sócios, sozinhos, enfrentando a tudo e a todos.

Sem sócios, Adolpho Bloch sente-se à vontade para passear, "feito uma prostituta", pelos corredores da televisão, como faz em sua revista. "Não consigo conceber meu trabalho sem esse trottoir", explica.

O TELESPECTADOR BRASILEIRO GANHA HOJE À NOITE MAIS UM CANAL DE TV

Autor/Repórter: J. N. Pinto

Um jornal de uma hora e meia, um filme de longa metragem, um programa infantil de duas horas e um seriado compõem a programação diária básica da TV Manchete, Canal 6, que será inaugurada hoje, às 19h, com um show de três horas de duração, dirigido por Nélson Pereira dos Santos, e o filme americano Contatos Imediatos do Terceiro Grau.

Na verdade, não é uma emissora: são cinco, na explicação de seu diretor executivo Rubens Furtado, 34 anos de experiência no veículo, dois anos e meio de trabalho no luxuoso edifício da Editora Bloch, na Praia do Russel. As cinco são interligadas por um complexo de fios conectados a sofisticados computadores da última geração.

Uma dessas estações é dedicada ao telejornalismo, sob a responsabilidade de Moisés Weltman. Essa estação é encarregada de produzir o maior noticiário no horário nobre da televisão brasileira, o Jornal da Manchete, com uma hora e meia de duração e apresentação de Iris Letieri, Carlos Blanchini, Cláudia Rodrigues e mais três locutores.

- Espremido entre duas novelas, o telejornal da Globo é obrigatoriamente preocupado com sua audiência feminina. O nosso procurará ser mais masculino. Portanto, dará ênfase à política e aos esportes - explica Rubens Furtado.

A ênfase a esse noticiário é uma das provas apresentadas pelo diretor Zevi Ghivelder, 25 anos de empresa, de que a Manchete será uma emissora que apostará na segmentação da audiência, voltada para as classes A e B, assim como Sílvio Santos aposta nas classes C e D e a Globo prefere atingir todo o espectro do público. Com Weltman, Mauro Costa e Michel Laurence chefiam a equipe do Rio, Heitor Augusto e Júlio Bartolo a de São Paulo, Alexandre Garcia é responsável pelo jornalismo gerado em Brasília.

Os pilotos já estão sendo gravados há dois meses na mesa de aço escovado que lembra uma nave espacial e serve de cenário ao jornal com o noticiário internacional apoiado nas matérias recebidas por satélites da CBS norte-americana (notícias e direito ao uso do arquivo de imagens mais completo do mundo), da BBC inglesa e da Visnews. O ângulo brasileiro da cobertura européia será dado por Sandra Passarinho e Sérgio Wertz, de Londres. Rubens Furtado está tentando contratar Reinaldo Dias Leme, ex-Rádio Nacional, para apresentar o noticiário enviado de Nova Iorque.

Antes do telejornal, o horário mais difícil da TV comercial no Brasil (nada deu sucesso, até agora, a não ser as velhas novelas de Ivani Ribeiro na extinta Tupi), a Manchete planeja colocar um programa infantil de duas horas apoiado em personagens de Maurício de Souza e num palhaço chamado Pac, um rapaz do interior. Até se cumprir qualquer um dos projetos, a emissora, comprou os 27 novos personagens de Hanna Barbera, que começam a ir ao ar amanhã.

Depois do telejornal, seguindo a tendência de evitar violência, que Zevi Ghivelder detectou em suas recentes viagens aos Estados Unidos, a TV Manchete apresentará seriados como o Fame, sobre musicais da Broadway, ou Acredite se Quiser, com Jack Palance apresentando as coisas mais incríveis que a produção da CBS encontrou pelo mundo. Trapper John MD é uma história engraçada de hospitais, e Caçador de Aventuras uma espécie de Jim das Selvas e Tarzan, inspirado no filme Caçadores da Arca Perdida.

Da BBC, a nova emissora comprou uma série de clássicos da literatura como Jane Eyre, Filhos e Amantes, Crime e Castigo, Madame Bovary, Robin Hood, O Morro dos Ventos Vivantes e Ana Karenina, entre tantos outros. Haverá um show musical por semana, mas Rubens Furtado espera aumentar para três em seis meses, quando a emissora deverá entrar no ar ao meio-dia, já contando na rede com as emissoras de Recife e Fortaleza, além da de São Paulo, que vai ao ar hoje.

O encerramento da programação será com um dos 261 filmes de longa metragem inéditos, como Contatos Imediatos do Terceiro Grau, que será exibido hoje, depois do show de inauguração, 20 números musicais dirigidos por Nélson Pereira dos Santos.

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