Tuesday, June 4, 2013

1983 - Rede Manchete: Bar Academia

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 14/8/1983
Autora: Maria Helena Dutra
PELA SEGUNDA VEZ A MESMA APOSTA
Que dê mais sorte. Em 1977 a TV Guanabara, agora Bandeirantes, estreava no Rio de Janeiro com inesquecível programa musical intitulado Meus Caros Amigos, com a presença e arte de Chico Buarque de Holanda. O mesmo compositor agora escolhido para iniciar a primeira série nacional e constante - vai ser quinzenal - de TV Manchete intitulada Bar Academia. Uma bonita e cuidada produção que será exibida amanhã a partir das 21h30min, com a duração de 66 minutos. Na telinha vai demorar bem mais, pois os intervalos comerciais não estão incluídos nesta contagem de tempo.

Mesmo longo, vale a pena .ver. Sei que o leitor nada tem com isso, mas acho pouco ético não explicar como foi possível fazer esta avaliação antes da estréia. Ela foi realizada em exibição especial para imprensa e convidados na luxuosa sede da empresa no Rio de Janeiro. Entre telinhas e telões, uma festa opípara sem recessão na oferta de comes e bebes. Muita gentileza e simpatia, mas bastante dificuldade em melhor analisar a grande atração que era o Bar Academia. Ao contrário do cinema - um filme permanece igual em cabina especial ou na ala comercial - a televisão muda completamente nestas projeções antecipadas. Pois elas não têm comerciais, o que altera profundamente o ritmo de qualquer programa. Sem intervalo fica difícil descobrir se a produção tem força necessária para prender a atenção do espectador e se sua unidade resiste na transmissão normal.

Mesmo assim, dá para sacar a boa qualidade do programa. experiência de Maurício Sherman, um dos mais longevos da televisão, pois começou na Tupi em 51 e já está na dos anos 2000, faz com que a produção não tenha um singular erro ou deslize técnico. Nesta mostra, o som estava com problemas que deverão ser sanados para a exibição de amanhã. Apenas dois quadros musicais não foram resolvidos a contento. O das Frenéticas, por ser demais xerocado do filme Cabaré, e Beatriz, interpretada por Edu Lobo com o corpo de baile da estação, porque o barroquismo visual criado por Arlindo Rodrigues é transmitido por imagens e enquadramentos muito certinhos, quase mesmo caretas. Mas o resto é primoroso. Maria Bethânia, Ney Matogrosso, lindo de smoking, Vanusa, com maior segurança cantando Folhetim, Marieta Severo e Tânia Alves, com o tratamento que merecem. Através de imagens limpas, criativas, dignas.

Também é primorosa a edição, que torna fluentes e muito bem encadeadas palavras e música. Igualmente elogiável. é a apresentação de Walmor Chagas - a Globo permitiu que ele continuasse nesta série mesmo sendo seu contratado para a novela das dez - e o texto de Renato Sérgio. No mesmo nível, a cenografia de Arlindo Rodrigues e a brilhante direção musical de Eduardo Souto Neto. O astro do programa, Chico Buarque, está realmente, como afirma a publicidade da casa muito à vontade nos números musicais, poderia cantar um pouco mais, e na entrevista. Esta porém é mais controversa. De acordo com Geraldo Carneiro, da equipe de criação e perguntador ao lado de Sérgio Cabral, ela durou mais de cinco horas. Na redução, um critério muito discutível de seleção. Pois um artista de tal maneira engajado na política partidária não diz uma palavra sobre o assunto. Nem sobre a situação da América Central que todos sabemos ser uma efetiva preocupação, sua na atualidade. Também ao falar de música ele não se refere à influência, reconhecida em todas as outras entrevistas, de Ismael Silva sobre os artistas de sua família. Em lugar disto ou do desconhecido daquilo, informa que já viu disco voador.

Juro que é verdade. Também em nenhuma de suas respostas há qualquer referência a público e povo. Duas entidades completamente ausentes num programa que por este motivo deixa penosa impressão de total elitismo. A boa música brasileira, que Chico diz ser uma das melhores do mundo, parece ao final deste primeiro Bar Academia uma obra feita por e para aristocratas. Esta nova redoma esfria muito o programa, que acaba tendo como maior emoção um velho tape de 66 da Record quando o vencedor Chico canta A Banda para o auditório. Uma presença que imediatamente tudo esquenta. Pena que única.

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