Tuesday, June 4, 2013

1983 - Manchete promete incomodar Globo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 10/4/1983
Autora: Maria Helena Dutra
GUERRILHAS À VISTA NA TELEVISÃO CARIOCA
Até agora, Itararé. Nenhuma batalha ainda aconteceu de verdade entre as estações de televisão do Rio de Janeiro, mas indícios existem de que ela poderá até suceder em breve, mudando um panorama que é tranqüilo para a Rede Globo há cerca de 13 anos. O mais engraçado é que os sinais de insegurança, nervosismo e confusão sobre ameaças que poucos prestavam atenção existir vêm da própria estação-mamute, que todos também pensavam ser inabalável. Ela mesma muda sua programação atabalhoadamente, anuncia filme em pleno Jornal Nacional e chega a pedir com rara humildade no Jornal da Noite, parecendo suas desconsoladas concorrentes - como a TVS que implora não vá embora que tal atração volta já para que fiquem conosco que temos muito ainda a apresentar.

Divertido porque os números estatísticos provam que a turma toda continua mesmo com eles. Mas, de acordo com estudiosa especialista em audiência, estes mesmos dados mostram que a tendência de permanecer imóvel já não é tão grande. Nem as diferenças tão esmagadoras como antes sucediam, principalmente no domingo, quando conseguiram vencer o programa Sílvio Santos, mas no mo, Mento ele já está ameaçando outra vez liderar. Outro sinal foram os 20 pontos de IBOPE perdidos na reprise mal-ajambrada e confusa dó Casarão no tal do horário nobre. Nenhuma outra estação ficou com eles, mas a Globo perdeu e muitos aparelhos foram desligados. Lembrando uma outra história antiga da televisão brasileira. Segundo outros estudiosos do ramo, a Tupi, não perdeu sua liderança devido a acordos globais com a Time-Life nem pela genialidade da dupla Boni e Clark. Mas pelos seus próprios erros. Foi deslocando programas de públicos certos, continuando a fazer jornal local na era do satélite e nunca atualizando seu padrão, totalmente alienada da realidade nacional, que a estação foi para o brejo e não mais voltou.

Esta ameaça é inexistente para a Rede Globo devido à sua estrutura profissional moderna e tamanho de empresa que atingiu. Mas está brincando muito. Ou demonstrando sinais de insegurança bem inusitados. De acordo com algumas versões, este nervosismo começou ainda em 78, quando Sílvio Santos de lá saiu e mostrou que poderia derrotá-la em audiência, façanha naquela atualidade inédita. Para outros o pigarro desandou mesmo com o Show das Eleições, no qual arriscou com a credibilidade, e hoje até o público mais desavisado assiste a suas noticias com desconfiança e se pergunta a quem elas servem.

É inegável que isto anda acontecendo. Para agravar a má fase, teve três novelas tuins em seguida, no famoso horário das oito, e a morte do ator Jardel Filho precipitou crise malresolvida. Em lugar de acabar logo com Sol de Verão, fez de seu final um dos momentos mais debochados da televisão, com a epidemia de gravidez das personagens, e resolveu compactar em reprise a entediante Casarão. Que era para ter 30 capítulos, acabou ficando com 18 é lançou a confusão no seu melhor horário, com Louco Amor sendo feita com precipitação e desconfortável pressa. Além disso, comprou todos os jogos de futebol do Brasil e só exibe, no Rio, os do Flamengo. Com enorme insatisfação do fiel público de esporte para o qual nem resultados oferece nos seus jornais noturnos. Para completar, seus programas mais ousados andam se encontrando com uma censura burra e internacionalista que tudo admite nos seriados estrangeiros e proíbe até histórias célebres e antigas interpretadas por artistas brasileiros.

A única coisa estranha no nervosismo global é que eles temem concorrentes que jamais mostraram muita competência. Fora deste esquema está, obviamente, a TV Manchete, que em 15 de maio, se adiada não for outra vez, estará no ar. A título experimental, apenas para Rio e São Paulo, com filmes e jornalismo. Depois é que vão entrar as inevitáveis novelas e outras atrações ainda nem programadas. Isto porque a estação foi planejada para atingir público classe A-B, mas esta intenção já foi cancelada e tudo em cima da hora mudado. Esta alteração de rumo será comandada por Moíses Weltmann, veteraníssimo responsável por linha popularesca em vários canais e que recentemente era o responsável pela filial carioca de TVS. Outro problema da sexta estação do Rio de Janeiro a ser colocada no ar, todos já sabem, é a retração do mercado publicitário devido à crise, que está causando dificuldades em emissoras nacionais e muito mais ainda para aquelas que são apenas regionais.

Problemas também existem para as outras quatro que no ar estão. A dobradinha Studios-Record mostrou fôlego para conseguir logo o segundo e terceiro lugares de audiência, mas parou por aí. Diante da Globo, elas realmente fornecem opção, pois fazem programação em nada sofisticada. Mas as novelas mexicanas do canal 11, seu humorismo pobre até de idéias, a maratona do dono da casa preenchem as exigências de um certo tipo de público, mas não têm maiores possibilidades de ampliação. Como acontece com O Povo na TV, que tem cativos mas não cresce. E agora a estação ainda enfrenta a saída de J. Silvestre (foi para a Bandeirantes); que em seus dois programas conseguia poucos mas constantes pontinhos de Ibope. A Record promete para seu primeiro aniversário outras atrações que não filmes. Até a volta de Nélson Motta e Scarlet Moon. Vamos ver então se conseguem aumentar público como apenas atingiram efetivamente com Luciano do Vale, outra bobeada da Globo que o dispensou, no seu bom investimento com o esporte amador.

Já o caso da Bandeirantes é mais complicado. No momento esbanja dinheiro em novas contratações, principalmente, em novelas e programas de auditório. Mas até agora não resolveu o problema básico que é o de construção de platéia cativa. Muita gente vê seus programas mas ninguém fica todo tempo com ela. Talvez porque imita por demais o estilo da Globo - e até o mais bobo prefere sempre o original - e nunca mantém qualquer linha por muito tempo. Tem boas atrações jornalísticas, mas o arroz-com-feijão do ramo, seus noticiosos, continuam gelados por gravar seus comentários com antecedência e faltar maior número de repórteres e equipamentos para melhor cobertura dos atropelantes fatos. Agora inovaram e estão fazendo novelas como a Globo, mas programas de auditório como a TVS. Fica portanto difícil encontrar público com estas duas cabeças. Insistem na linha esportiva só com competições rastaqüeras e permanecem sem a menor preocupação cultural. Pode dar certo, mas é muito ainda confuso.

A Educativa, sempre de menor audiência, não compete, mas de quando em vez dá botes. No momento faz duas coisas felizes: invade o interior do Estado do Rio e lá pode crescer, e ganha finalmente o direito exclusivo de receber verbas para a Teleducação. Antes a Globo, com o dinheiro da gente, é que mandava nos cursos. Agora parece que deram mesmo um basta nos intermediários. Para ficar melhor, e até mesmo ser finalmente lembrada pelo público, só falta ela também, como o Governo federal, se desmilitarizar.

Mas, apesar da artilharia pouca de todas as estações diante dos mísseis globais, é agora evidente que há espaço para guerrilha. Principalmente porque a grande potência está positivamente com medo. Coloquemos, portanto, nossos binóculos ao alcance da mão porque pode ser que sobre até boas coisas para nós. Milagres, nunca esquecer, às vezes até acontecem.

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