Tuesday, June 4, 2013

1983 - Manchete com tudo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 8/6/1983
Autora: Maria Helena Dutra
COM A MELHOR IMAGEM, MAS SEM NENHUM ELENCO
Muito azul. Em apenas dois dias de vida a Rede Manchete, atual ocupante do pioneiro canal seis, já foi capaz de alguns indeléveis feitos históricos. Entre eles, iniciar sua vida por um comercial. Nunca antes tal tinha acontecido. Repetido, assim como a fala de seu dono, por defeito técnico no som. Mas também nenhuma estação antes fora capaz de estrear com tamanho volume publicitário e ostentar igualmente, depois de saneada a pequena atribulação, imagem de absoluta perfeição. Perto dela todas as outras, até mesmo a da ministeriável Rede Globo, ficaram entre pálidas e borradas.

No balanço avaliador, o saldo deste engatinhar foi positivo. Mas como televisão é rotina, tal como a imprensa e rádio, as perspectivas diárias são menos coloridas, pois a nova rede acena apenas com um grande telejornal entre importados para o resto destes seus primeiros dias. É melhor comportamento do que das duas últimas estreantes cariocas, TVS e Record, que de mão-de-obra nacional, em seus inícios, somente empregaram operadores de filmes. Mas é pouco para quem teve dois anos para planejar uma estação, pressupostamente, competitiva no Rio, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Pelo mínimo que oferece, e determinado por lei, já que o telejornalismo é compulsório, a Rede Manchete não altera a mesmice das opções da televisão carioca. E nem deve mudar consolidados hábitos dos espectadores em geral. Mas nascimento é sempre noticia e o parto normal teve lá seus momentos. O engasgo inicial foi um deles e muitos escutaram nele ecos dos fantasmas da antiga Tupi, primeira ocupante deste canal no Rio, ou mesmo praga de Assis Chateaubriand. Mas rapidinha e indolor. Mais sintomático e inesquecível foi o comercial inaugurador. A primeira imagem de um canal já foi no Brasil motivo de honra e por isto o Cristo do Corcovado, a música religiosa de Frei Mojica e até mesmo símbolos pátrios foram escolhidos para o batismo. A TV Manchete, porém, resolveu acabar com intermediários e atacou de óleo combustível. Fria e precisa. Depois do primeiro faturamento, precioso símbolo tratado de maneira perfeita. Simples, eficiente, bem colocado este trabalho que, dizem ser, de Dib Luft foi das melhores coisas da nova estação.

Logo depois, três horas de show. No todo, razoável. O maior destaque, em todos os números musicais nacionais, foi a iluminação. Tanto no estúdio, no teatro ou externa um dado técnico que nem a Globo é capaz de fazer sempre. Provam entre outros o quadro de Milton Nascimento, ao lado de Ney Matogrosso, os dois únicos ídolos capazes de encher estádios que participaram da festa, e mesmo o fraco balé do grupo da casa com pesados passos dando Adeus a Nonino, de Astor Piazzola. Destaque também para os trechos assinados por Nélson Pereira dos Santos e pela inserção única de tape estrangeiro. No contrabalanço, a dublagem em lugar do som direto e as câmaras bem pouco ágeis para as apresentações de numerosos artistas como aconteceu com Paulinho da Viola, Dona Yvone Lara e baianas da Portela e no grande final tipo Moulin Rouge, com Watusi. Nem os famosos adereços de Arlindo Rodrigues foram destacados. O mesmo aconteceu no balé com Fernando Bujones e Ana Maria Botafogo. Com a preocupação global de tudo gravar e temer o vivo a estação não forneceu uma informação sobre o que se passava no domingo extra-muros cariocas e nem sequer deu um flash da festa na sede que tinha até a presença do Governador do Estado. Abre a janela, Manchete.

Em seguida, filme. Tendo muito que faturar os Encontros Imediatos foram divididos em 15 partes e durou três horas e 20 minutos. Insuportável, por ser a toda hora picotado, inclusive, no meio de cenas supostamente indivisíveis. Nos intervalos dava para ver um break inteiro de programa ou filme dos outros canais.

Que no dia seguinte devem ter ficado mais descansados, porque a Manchete, tal e qual a pioneira Tupi de 50, preparou muita festa para a inauguração e esqueceu a segunda-feira. Iniciada por desenhos apresentados pela Xuxa. Com justiça uma versão mais simpática, e até bem descontraída, do Capitão Asa, Titio Hélio e outros antecessores. Uma provação a programação infantil, na qual Hanna e Barbera, hoje apenas marca registrada, demonstra decadência em traço e humor. Além disso, prêmio de originalidade, um importado, em que o bem é simbolizado pelo Conde Drácula e turma. Quem diria. E uma Goldie Gold que brinca com incas num futuro remoto. Pobre cabeça infantil.

Terminada esta estopada, o telejornal. de uma hora e 40 minutos. Bem dentro do estilo americano, mas frio como a temperatura ambiente, por ser quase tudo gravado. Por isso, nem previsão do tempo teve. Cinco apresentadores, entre eles Roberto Maia, o recentemente falecido César Brandão de Final Feliz, e Íris Letieri, a voz do Galeão. Justiça seja feita, em toda sua grande extensão realizado sem um erro e com muitos recursos, reportagens e belas imagens. O que a Bandeirantes deveria ter feito, como opção às novelas, há anos, chega no canal 6 com muita riqueza, entrevistas, pouca atualidade (desculpável ainda) e nenhum povo, como é típico da nova casa televisiva, mas antiga no estilo em suas publicações. De qualquer forma imito tempo em horário nobre para artes e espetáculos, inédito neste pais no qual cultura só vai para o Jornal Nacional quando um de seus representantes morre, e um bom desempenho do esporte.

Esta real opção foi seguida por simpático seriado sobre médicos, fazendo lembrar tempos antigos em nossa televisão quando não se importava apenas violência e disfarçada pornografia, e mais um filme. Bem menos picotado por comerciais do que o da inauguração. Enfim, uma estréia que não doeu, como aconteceu quando surgiram por aqui os canais 9 e 11, mas que também teve suas frustrações. Pois é uma estação que chega bem-equipada, de imagem perfeita, mas que lá no osso tem corpo técnico e alguns jornalistas de remuneração pouca e nenhum elenco. Síndrome do país?

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