Tuesday, June 4, 2013

1983 - A voz do aeroporto na Manchete

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 24/7/1983
Autora: Sandra Peleias
ÍRIS LETTIERI

Ao longo de seus 24 anos de carreira, ela esteve presente na inauguração de três canais de TV: Continental, Globo e, mais recentemente, a Manchete. E sempre no mesmo estilo: a voz empostada. A locutor (no feminino a palavra a ofende) Íris Lettieri pode não agradar a gregos e troianos, mas uma coisa é certa: sua voz é realmente inconfundível. Depois de seis anos de afastamento da TV, Iris está de volta no telejornal da Manchete. Sua. voz - também conhecida por anunciar horários de vôos no aeroporto do Galeão - dá aos telespectadores do canal 6 as principais notícias de cada dia, das 19h às

Participar do lançamento da TV Manchete é um desafio que não pude recusar - diz Iris, explicando a sua volta. Desde que saiu da Tupi em 1977, antes do fechamento da emissora, ela vinha trabalhando apenas em publicidade. A decisão de deixar a TV havia sido tornada depois de uma grande crise.

Foi uma fase muito ruim. Eu estava vivendo um casamento falido, ao mesmo tempo em que descobria que nunca tinha feito outra coisa senão trabalhar, desde os 16 anos. De repente, comecei a questionar minha profissão, minha vida, tudo. Foi uma época muito confusa, agravada pelo excesso de trabalho - conta ela.

As economias, na época, permitiram que Íris parasse de trabalhar durante seis meses, quando descansou do mundo que não mais a atraía. Felizmente, a crise durou pouco. Logo Iris retomou a profissão com a disposição de sempre. Dessa vez, no entanto, não aceitaria mais trabalhar sob pressão. Comprou um bip e foi à luta como free-lancer.

Foi aí que comecei a ganhar dinheiro pela primeira vez na minha vida. Pude comprar um apartamento e um sítio e fazer meu pé-de-meia. Agora, no entanto, a crise econômica está feia, a publicidade em retração. Ter um emprego fixo, no momento, é uma tranqüilidade - conta a locutora, uma eterna apaixonada pelo jornalismo, "uma forma de fazer um trabalho digno e de conviver com a informação".

E hoje, Iris se orgulha de ter sido a primeira mulher brasileira a vencer o machismo na televisão.

Barbosa Lima Sobrinho foi quem me deu a chance de fazer telejornal, na Excelsior, quando eu já estava cansada de ser garota-propaganda. No Jornal de Vanguarda, em 63, ele inovou usando vazios apresentadores, ao invés de um só. Eu ficava entre o Luis Jatobá e Stanislaw Ponte Preta, dois mitos para mim.

Carioca do Flamengo, Íris conheceu a Rádio MEC porque a mãe - pianista, professora de canto, música, dicção e impostação - fazia concertos lá. Descobrindo o gravador, a menina testou sua voz. Waldir Finotti, da Continental (hoje Capital), teve oportunidade de ouvi-la e gostou tanto que acabou contratando a franzina garota, de olhos míopes, para locução.

Seis meses depois, em 1959, Rubens Berardo inaugura a TV Continental, contratando liais como garota-propaganda Uma boa oportunidade para ela, que àquela época queria mais do que abria geladeiras ou mostrar sofás. Um casamento aos 18 anos a levou para a TV Gaúcha. Mas aos 21, desquitada, voltava para sua cidade natal.

- Não quis nada do meu marido. Voltei para o Rio com duas malas apenas e comecei tudo de novo.

Fez em 1964, na TV Rio, um telejornal retrospectivo aos sábados, chamado Grande Resenha Esportiva, ao lado de João Saldanha, Nelson Rodrigues, José Maria Scassa, Oduvaido Cozzi e Luis Mendes, Em 1965, inaugurou a TV Globo, ao lado de Hilton Gomes e Aloísio Pimentel, no telejornal comandado por Mauro Sanes. Na TV Tupi, em 66, participou do primeiro jornal com transmissão direta para todo o Brasil.

Íris Lettieri ainda viaja muito pelo país a trabalho. De acordo com a clientela, sua voz pode ser suave, romântica, doce, incisiva, séria, trágica. Dominando todas as técnicas de dicção, ela diz que criou uma escola de locução no país.

- E não me chamem de locutora, isso me ofende. Sou um locutor, uma mulher que abriu as portas para todas as outras nessa profissão. Há os que gostam do meu estilo e outros que o criticam, mas sou tipo cinema nacional: falem mal, mas falem de mim - conclui, realista.

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