Tuesday, June 4, 2013

1983 - Analisando a Manchete

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 7/6/1983
Autor: Hugo Gomes
UM SPIELBERG MENOR, PARA COMEÇAR. E ONDE ESTÁ O SINAL SONORO?
A TV Manchete precisa criar com urgência um sinal sonoro que prepare o telespectador para a entrada dos anúncios. E dosar melhor os intervalos entre os comerciais. O primeiro segmento de Contatos Imediatos de Terceiro Grau, o filme de estréia, durou apenas cinco minutos.

A nova emissora tem filmes que agradarão a todos os paladares e serão exibidos num horário acessível (21h30mín). Esta semana serão mostrados Júlia, que deu um Oscar a Vanessa Redgrave, e no sábado Shirley MacLaine e Arme Bancroft esbanjam talento em Momento de Decisão, com Mikhail Baryshnikov, Márcia Haydée, Fernando Bujones e outros.

Enquanto acabava de editar A Louca Escapada e começava a rodar Tubarão, Steve Spielberg dava os retoques no roteiro de Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Confessadamente influenciado por Walt Disney, que povoou a imaginação de sua infância, ele disse ter sentido muito medo ao ver pela primeira vez a seqüência de Uma Noite no Monte Calvo, em fantasia, o que diz bem de sua extrema sensibilidade.

Contatos Imediatos de Terceiro Grau - o estágio em que há um encontro entre seres terrestres e espaciais não fascina, não emociona, não empolga. Tem incongruências: um raio de luz, ou radiação, tão forte que queima o rosto (Dreyfuss) e até o colo (Dillon) não deveria afetar seriamente as retinas, de tecido muito mais delicado? E recursos baratos, desnecessários: geladeiras que se abrem, despejando seu conteúdo pelo chão, vitrolas que começam a tocar no meio da noite, caixas de correspondência e sinais de tráfico que começam a balançar loucamente.

A reação de Dreyfuss é risível. Até seu filho, que o chama de chorão, tem mais autocontrole emocional. Inexplicável por que Spielberg, após vê-lo trabalhar em La Nuit Américaine, achou que Truffaut era o único capaz de viver Lacombe. Sua presença logo se toma irritante, já que suas falas exigem constante tradução de um intérprete - por sinal ditas num francês macarrônico pelo dublador. Na verdade, o único a ter uma reação normal é o pequeno Cary Guffey, então com quatro anos, que vive o filho de Dreyfuss. Suas expressões são maravilhosas, revelando todo o encantamento das crianças ante o desconhecido fascinante.

A música de John Williams, que se poderia chamar de cantata espacial, embora utilize temas de vários compositores (até When You Wish Upon a Star) e a fotografia de cinco grandes cameramen (Vilmos Zsigmond, Douglas Slocombe, William A. Fraker, John Alorizo e Lazko Kovacs) são o que Close Encounters of the Third Kind tem de melhor. Douglas Trumbull, o mago de 2001 - Uma Odisséia no Espaço, procura reeditar com sua montanha sem mistério o monólito enigmático que tantas hipóteses suscitou no notável filme de Kubrick. E que dizer dos discos voadores? Dão a impressão de ser um gigantesco flipperama.

Isaac Asimov estava absolutamente certo. Encounters hão tem encanto nem poesia (Spielberg se redimiria, proporcionando os dois às mãos cheias no mágico E.T.) e menos ainda suspense. Na tela grande e com som Dolby, pode ter funcionado. Na tela pequena, simplesmente não houve contato.

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