Tuesday, June 11, 2013

1982 - Derci na Record

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 30/1/1982
Autora: Helena Silveira
DERCI NÃO QUER UM PROGRAMA SUBVERSIVO

Dia 7, o canal 7 estréia novo programa com Derci Gonçalves, "Derci Povão", que terá denúncias, entrevistas e esclarecimentos. "Nada de subversivo. É no sentido até de chamar a atenção do governo para sanar determinadas mazelas", diz a comediante.

A Record reuniu jornalistas em seu estúdio para um coquetel sob forte iluminação televisiva e para um papo com a artista. Seria parte do primeiro programa: de entrevistada, começaria por ser entrevistada.A nossa maior cômica está em grande forma, recém-saida de uma de suas múltiplas cirurgias plásticas. A Derci de 74 anos está muito mais bonita do que aquela que conheci há tanto tempo, quando me ofereceu uma ceia num seu apartamento da rua Avanhandava.

Contraditória, a combativa criatura está, no momento, ao que tudo indica, em paz com os poderes públicos. Acha até que a abertura não pode ser um "aberturão", pois que ai há o risco de virar buraco e muita gente cair dentro. Quanto à Censura que tanto a malhou, deu-lhe (esperemos! ) trégua. E isto ao ponto de os programas que gravou terem sido liberados para o horário das 18 horas para gáudio das crianças.

Hélio Ansaldo foi um mestre-sala, intermediário entre imprensa e Derci. Indaguei a Derci sobre o que pensava dos movimentos feministas no Brasil e no mundo. Resposta:

"Eu fiz meu movimento feminista sozinha quando, muito jovem, saí de Madalena. Meus pais não queriam: filha, artista é a mesma coisa que prostituta. Você vai virar prostituta! Eles achavam e era verdade.As moças que trabalhavam em revistas na praça Tiradentes eram fichadas na Policia, tinham que submeter-se a exames ginecológicos. Eu era tão criança que não entendia nem o que vinha a ser doença venérea. Pensava que era inflamação de garganta! Mas, em Madalena havia duas mulheres da vida.

As pessoas fechavam as janelas quando elas passavam. Eu abria e espiava e dizia: eu vou pro Rio cantar e não vou ser igual a elas. Espiava, para ser diferente.

E fui. Sim, fui feminista sem saber o que era isto, mal escrevendo meu nome. Mas nunca recebi dinheiro de homem. Às vezes dei dinheiro para homem. Valia a pena. Certos homens merecem."

Precursora do teatro de palavrão, estranha que estes - os palavrões - lhes sejam interditados enquanto para muita gente de teatro sejam permitidos. Então, na TV eu falo mas eles tiram o som e só fica a minha boca dizendo as silabas.

Ela acha que até hoje guarda intacta a criança que foi. Por isso é fácil seu relacionamento com o mundo infantil. É isso que conserva sua juventude. Nas rodadas finais, em vez de lhe fazer perguntas, declaro-lhe que ela está dentro do espirito cristão, posto que Cristo disse: ama o próximo como a ti mesmo, por amor de mim. Quem não se ama não tem a medida do amor ao próximo. Derci se comove. Caiu em algumas contradições durante a palestra. Os colegas rebateram quando, ao inicio, ela disse que governo também é povão. Ao final, declarou que decerto se enrolou nas palavras, não queria dizer isto...

Derci só agora foi descoberta por certa critica esnobativa que a combatia rudemente. Eu sempre a considerei uma verdadeira cascata bistriônica e uma criatura de raro valor humano. Sua caminhada de Madalena até os palcos brasileiros das grandes capitais foi feita com a cara e a coragem no peito e na raça. Feminista combativa na trincheira do "eu sozinha", despreparada, enfrentou todos os seus medos de mocinha interiorana, todos os preconceitos de uma sociedade cheia de hipocrisias. Intuitiva, construiu-se palmo a palmo como artista e como gente. "Derci Beaucoup", nome de um espetáculo seu, pode também servir de agradecimento de seu grande público.

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