Tuesday, June 11, 2013

1981 - Sílvio Luís e a Record

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 15/1/1981
Autor: Gabriel Priolli Netto
SÍLVIO LUÍS, A ''GERAL'' NA TV
Quando o jogo embola ali no meio campo e fica chato, melhor. Ao menos para os que acompanham as transmissões esportivas da TV Record. Sílvio Luis, o narrador, perde a paciência e desanca os jogadores. Aos "perna de pau", sugere que vão para casa. Nas faltas mais violentas ou nos erros do juiz, chama a policia. E, durante todo o jogo, sofre como em final de Copa do Mundo, mesmo que seja um simples amistoso. Quem está em casa, claro, se identifica, ri com suas tiradas e até esquece a má atuação dos dois times.

Sílvio Luis Perez Machado de Souza é hoje, possivelmente, o mais original dos narradores de futebol na TV. Seu estilo, que reproduz o mesmo clima e a linguagem dos torcedores da "geral", já deslocou a outrora equipe de esportes da Bandeirantes para d terceiro lugar de audiência e agora ameaça a hegemonia da Globo. Segundo os índices do Ibope, durante o Mundialito, a Record teve 30% de audiência, contra 40% da Globo e 7% da Bandeirantes. E pelo indica da Audi-TV, a narração de Sílvio deu 28% á Record contra 26% da Globo, na transmissão do jogo Brasil e Argentina.

"Hoje em dia, você não - pode mais andar de gravata e paletó", diz ele, explicando o sucesso de sua linguagem descontraída. "O povo está cansado disso. Quanto mais simples for a coisa, melhor. Tem que parar com esse negócio de elitismo, essas formalidades. Ainda mais no esporte."

Simplicidade, para Sílvio, quer dizer também espontaneidade. Suas expressões mais famosas ("Pelo amor dos meus filhinhos", "entrou matando jacaré a botinadas", etc) surgiram espontaneamente, no calor da narração dos lances. Ele garante que jamais anotou qualquer expressão popular, para usar durante um jogo. Fala o que lhe vem à cabeça, preocupado apenas com os lances que o monitor de TV vai mostrando, para não errar em uma avaliação.

"O torcedor quer saber a sua opinião sobre os lances. Ele não gosta daquela narração fria, que não diz se foi ou não foi pênalti. Você tem que criar um diálogo com os caras que estão te ouvindo. Por isso, se eu vejo o lance e acho que foi falta, digo logo. Se errar, digo que quebrei a cara e tudo bem. O "replay" existe para isso O que não precisa é o narrador ficar esperando a marcação do juiz para dizer se foi ou não falta."

Sílvio Luis é o narrador oficial da Record desde 1977, quando substituiu Geraldo José de Almeida, logo após sua morte. Mas não é nenhum novato em televisão. Ao contrário. Começou a carreira em 1952, como repórter de campo da TV Paulista, passou depois pela Record e Excelsior e andou pela Rádio Bandeirantes, até voltar à Record. A maior Parte desses quase trinta anos foi dedicada ao esporte, mas Sílvio foi também produtor, diretor de TV e chegou à direção de produção, na Excelsior. Isso lhe valeu uma experiência certamente única: em um jogo do Santos, anos atrás, fez ao mesmo tempo a narração e a direção de TV da partida, de dentro do caminhão de externa.

Mas há um lado desse paulistano de 46 anos, pai de três filhos e marido da cantora Márcia (que tem também uma escola de música, a "Play", no Ibirapuera), que os torcedores mais jovens ignoram. Sílvio Luis foi juiz de futebol durante doze anos, apitou jogos de todas as divisões e do campeonato nacional e ainda faz parte do quadro de árbitros da Federação Paulista.

"Sou muito melhor do que uma porção de juízes que está apor ai", ele afirma. "Nunca tive grandes problemas atuando, porque fui firme na disciplina. Tendo disciplina num jogo, você tem 60% do trabalho na mão. Apitar foi de muita valia para o trabalho de narração. Você percebe quando uma jogada é falta, quando o juiz vai marcar alguma coisa."

Sílvio diz que parou de apitar por pressão do presidente do Juventus e delegado regional da Sunab era São Paulo, José Ferreira Pinto Filho, com quem não se dá. Mas avisa Nabi Abi Chedid, presidente da Federação Paulista de Futebol, que tem sua despedida "programada" e aguarda o chamado. Outros planos, ele guarda para quando a Record tiver novos equipamentos e gerar a própria imagem dos campos de futebol (atualmente, apenas a narração de Sílvio é própria; a imagem é comprada de alguma outra emissora). São "uns negócios que eu tenho na cabeça" e que prefere não revelar. Mas seus fãs podem esperar câmaras em novos ângulos e imagens de locais do estádio que até agora ninguém viu na TV.

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