Tuesday, June 11, 2013

1980 - Rede Record perdendo espaço

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 10/1/1980
Autor: Paulo Maia
É BOM LEMBRAR OS VELHOS TEMPOS
A televisão vive no momento fugaz do efêmero, do átimo de segundo que se perde, do tempo que se esvai. Talvez ai esteja a explicação para o fato inquestionável de que televisão não tem boa memória seja da sociedade em que se insere (daí a má qualidade das retrospectivas do ano e da década recentemente levadas ao ar) seja de si própria.

Agora contudo, a televisão brasileira parece invadida de vez pela saúde. A TV Globo, em férias de programação resolveu contar seus 15 anos de existência numa edição de seus melhores momentos. A TV Record de São Paulo tem motivos ainda maiores para ter saudades: há muito tempo ela perdeu a condição de emissora mais vista do país e sua programação é tão insignificante que qualquer coisa pode funcionar diante de seu telespectador, desde que seja diferente.

Poucas pessoas devem ter visto essas rememorações que a TV Record está fazendo mensalmente, todos os dias 7, mas quem não viu certamente perdeu uma boa oportunidade. É sempre bom rever para se ter a percepção exata de quanto se andou e a saudade não é um sentimento assim tão negativo, não é mesmo?

A Família Trapo - O primeiro programa reprisado foi uma oportunidade de mostrar ao telespectador escravizado à edição do vídeo-tape como era o humor ao vivo da televisão brasileira nos anos 60. O mais interessante é que se pode ver aquelas antigas atuações, ao vivo em preto e branco e diante de um público de teatro e compará-las com outras, em cores, editadas, gravadas e com risadas obtidas por

meio de claques dos mesmos atores. Otelo Zeloni morreu, mas Renata Fronzi, Ronald Golias e Jô Soares estão aí vivos e atuantes nos melhores shows musicais justamente da emissora campeã de audiência do momento (A Globo) como naqueles meados de 60 eram os campeões do IBOPE, diretamente dos sempre incendiados teatros da Record paulista.

Já Não Se Fazem Mais Festivais Como Antigamente dá mais saudade ainda. O título é pretensioso, mas absolutamente verdadeiro. Quem viu, no último dia 7, alguns momentos dos festivais da Record de música popular brasileira de 1966 e 1967 só há de concordar que todo o poderio, todos os recursos e a inconteste liderança de audiência da Globo não serão capazes de repetir, nem em pequenas proporções, o que aconteceu naqueles anos agitados que antecederam o decênio da consolidação, os anos 70.

Naquele tempo, a televisão ainda não tinha a força avassaladora de hoje, mas começava a se firmar ante o público, justamente por trabalhos como aquele. E nascia uma geração de grandes nomes da MPB, como dificilmente surgirá outra em quantidade e em qualidade. É impressionante a qualidade média das músicas finalistas do festival de 1967, vencido por Ponteio, de Edu Lobo e Capinam. E hoje chega a ser difícil pensar que o júri chegou a uma conclusão sobre qual a melhor música entre concorrentes como Bom-Dia, de Gilberto Gil e Nana Caymmi, Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, Roda-Viva, de Chico Buarque, e Domingo no Parque, de Gilberto Gil.

A direção de imagem não tinha a movimentação nem a sofisticação de hoje. De qualquer maneira, surgem planos que são documentais da moda e do estilo de comportamento da época. Quem ouve Caetano Veloso cantando Alegria, Alegria, naqueles tempos, é que pode saber como ele evoluiu como cantor. E ainda se podem detectar momentos fugazes de grandes presenças, então apenas figurantes do show, como a de Rita Lee, acompanhando Gil, e Hermeto Paschoal, tocando flauta no acompanhamento da música vencedora do festival, Ponteio.

Vale a pena rever tudo aquilo. Serve como um curso ao vivo de televisão para as novas gerações, que estão sendo criadas ao embalo de seu som eletrônico, de seus "plim plim" automáticos e frios. Um pouco de saudosismo, às vezes, também faz bem. É uma pena que a Record, de tão acostumada que está de só exibir filmes, não saiba sequer editar os velhos programas guardados em seu arquivo. E chega até a ser surpreendente saber que aqueles velhos tapes ainda existem. Não seria o caso de se começar a pensar numa sistematização da memória nacional, tal como foi registrado o fato vivido pela televisão?

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