Thursday, June 6, 2013

1979 - Gugu é notícia

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 23/12/1979
Autora: Maria Helena Dutra
IMAGENS ROTINEIRAS, AGITADOS BASTIDORES
O fim de ano complicou. Enquanto o paciente espectador assiste a seus programas de rotina, os bastidores das principais redes de televisão do país se agitaram muito no encerramento dos anos 70. Demissões, substituições e muitos boatos impedem garantidas previsões sobre o panorama que o público encontrará no início de 80. Tomara que não seja constituído por filmes importados, a mais antiga das soluções para todas as crises e mudanças que os donos dos canais encontram para seus problemas nacionais.

Temendo esta tradicional desgraça, pintada como grande atração, vamos arriscar pelo presente e futuro muito próximo dos canais pelo Rio existentes. A Educativa mudou de diretor-geral, mas não se fala em mudanças. Ótimo porque sua atual programação tem muitos pontos defensáveis, como a parte dedicada a crianças e aos adolescentes e as atrações que vêm depois das nove da noite. O que precisa ser por lá reformulado é a sua freqüente, antiga e epidêmica crise financeira. Para que a gente não encontre mais uma de suas produtoras em pleno horário de trabalho passeando por Ipanema. E que, revoltada, responde, quando o fato é estranhado, estar refrescando a cabeça, já que foi impedida de preparar seu programa por falta de câmaras, técnicos, microfones e qualquer dinheiro para pagar artistas e filmes. Vai mal. Assim vai ser muito difícil levar qualquer coisa para o povo, até mesmo Heidegger.

Este tipo de ocorrência está tão longe da Globo como um civil da Presidência da República. Mas também lá falam de economias de guerra e sua "Central de Boatos" insiste em confirmar profundas desavenças entre o Boni, superintendente de programação, e a direção geral da emissora. Esta teria pedido o definitivo afastamento de Daniel Filho, por ter reclamado da censura interna, e um corte substancial nos custos dos seriados, novelas e elenco artístico. Uma atitude de contenção que obrigará o espectador a um verdadeiro festival de reprises nos primeiros quatro meses de 1980, ano que vem enfaixado no pretexto da comemoração do 15º aniversário da casa. Toda a noite vão lembrar um campeãozinho de audiência qualquer. Também o Planeta dos Homens, o Sítio do Picapau Amarelo e talvez outras produções também exibirão memórias. Só as novelas noturnas escaparão de matar saudades pelo medo da queda de audiência. Escrava Isaura foi a única exceção e Geraldo Vietri, mais um veterano que ela foi pescar na Tupi, Carlos Eduardo Novaes em dupla com Walter Negrão e Gilberto Braga correm com seus originais para não perderem horário para filmes.

O engraçado é, apesar do papo de economia, o esforço e co-patrocínio da estação para o apogeu do supérfluo do ano, que é a temporada de Frank Sinatra em nossos ricos hotéis e grandes estádios. Depois querem que se leve a sério as ameaças de choros e ranger de dentes. Mais grave é a perspectiva de quase total falta de imaginação e criatividade de sua programação para o ano que vem. Avaliação feita a partir da inclusão entre as séries nacionais de uma exumação do Bem Amado. Novela duas vezes exibida e com conflitos de todo previsíveis e surrados. Custa a crer que os talentos de Dias Gomes, Paulo Gracindo, Lima Duarte e Regis Cardoso tenham de ficar eternamente circunscritos à já árida Sucupira.

Local, porém, que ainda deve ser mais exuberante que a Tupi. Na sua famosa padaria, ao lado da sede paulista do Sumaré, o assunto é a demissão de Walter Avancini, na verdade a constatação de mais um fracasso da Taba. Outro diretor de programação que apenas fez novelas ruins, um festival de música popular totalmente indefensável e fugazes produções que nenhuma marca deixaram. Resta saber se os especiais anunciados serão mesmo apresentados. Já mudaram tanto de datas que esgotaram páginas de minha agenda. E seu primeiro exemplar, ópera do Malandro, foi o antiespetáculo por excelência. Caso realmente os outros sejam transmitidos, espero melhoras e não apenas disco ilustrados ou quadros vivos. A outra promessa era uma novela com Rubem de Falco fazendo o Conde Drácula às sete da noite. Pelo horário, o arquétipo do mal será no mínimo transformado em insone senhor romântico, com amor impossível e caninos de ouro. Temo o merchandising do sangue.

Outros e mais sérios medos são causados pela Bandeirantes. Por lá não é mais boato, Guga Oliveira, seu diretor de programação, pediu demissão na terça-feira passada. Já vinha a tempos brigando com a direção devido aos custos dos inúmeros programas nacionais que por lá implantou. E a crise final acabou acontecendo por não ter o programa de Hebe Camargo conseguido, nas suas duas edições iniciais, sucesso de IBOPE no Rio, e principalmente, São Paulo. A imediatista cobrança interna acabou com a paciência de Guga, que foi embora. Espera-se que com ele não saia também a fase nacional atual da emissora e ela retome a seu estágio, anterior de mera exibidora de filmes enlatados. Que os contratos atuais sejam seguidos fielmente, para não tumultuar ainda mais este terrível mercado de trabalho. E que se ache um substituto brilhante para o lugar vago de Guga, Com defeitos e qualidades, este seguiu uma linha que motivou, pelo menos, empregos. E, completando avaliação já publicada três semanas atrás, teve na Bandeirantes uma atuação controversa mas nunca fracassada.

Preocupações de avaliação, crítica construtiva e oposição confiável, que desaparecem ao se chegar ao canal 11. Uma tentação irresistível em favor da luta armada. Uma sublevação, que, porém, jamais por ali acontecerá, já que o artista estrangeiro, e quase sempre morto, não faz reivindicação nem provoca crise nesta estação retransmissora apenas de filmes e enlatados. Que tem como única novidade, para 80, o fato do programa dominical do dono ser também exibido pela TV Record de São Paulo. E consta que também está assegurada, pelas madrugadas, a continuação da fala de Jânio Quadros. Um símbolo vivo, e muito requisitado, de nossa renovação política e televisiva. Santa e Vila Maria!

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