Tuesday, June 4, 2013

1979 - Decepções da TV de 79

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 30/12/1979
Autor: Paulo Maia
A FALÊNCIA DAS ALTERNATIVAS
O ano de 1979 foi o da falência dos projetos alternativos à maciça audiência da Rede Globo de Televisão. Em dezembro, pouco antes de se encerrar a década, Walter Avancini fez as malas e deixou o Sumaré com uma programação confiável do ponto-de-vista da qualidade em muitos de seus setores, mas sem qualquer resposta mais efetiva em termos quantitativos de audiência No mesmo dia, coincidentemente, Carlos Augusto de Oliveira, o Guga, irmão de Boni, se despedia de seus planos, deixando o Morumbi com algumas telenovelas e uma participação maior da produção nacional numa rede nascente.

De Avancini restou o grande espetáculo do ano na Tupi, que foi o Festival de Música Popular Brasileira, levado ao ar no fim do ano. Sua maior vantagem foi a de levar a música para o horário nobre, antes congestionado apenas de novelas. Sua desvantagem fundamental a que consagrou sua desimportância, foi a pouca representatividade do material apresentado ao telespectador. Quem viu as quatro noites sabe muito bem que ali não se apresentou os matérias mais representativo da produção da musica popular brasileira no último ano da década de 70, principalmente quando se sabe que 1979 foi um ano particularmente rico em termos de quantidade de lançamentos, embora não tenha sido o esperado momento revolucionário, capaz de virar a MPB de pernas para o ar.

De Guga restou, pelo menos, o melhor programa de televisão do ano. O Grupo Viramundo adaptou o poema Cobra Norato, de Raul Bopp, clássico da literatura modernista brasileira, para o teatro de marionetes. Sua versão, particularmente rica, foi filmada para a televisão, num trabalho incomparável do produtor Barros Freire Pode-se dizer que Cobra Norato representou, no fim da década para a televisão brasileira o que Macunaíma tal como adotado pelo Grupo Pau Brasil e pelo encenador Antunes Filho significou para o teatro. Além disso num momento de incertezas causadas principalmente pelos surpreendentes índices de audiência alcançados pelos filmes embolorados da TV Record, destaque negativo maior do ano que termina, Guga soube valorizar o profissional brasileiro investindo numa produção própria e criando uma imagem diferente para a Rede Bandeirantes, antes privilegiando apenas seu telecine. Resta saber se tais produções compensarão e frutificarão. Isso só o futuro dirá. E como dizia o ex-Ministro Armando Falcão, "o futuro a Deus pertence".

Ocioso é destacar mais um ano de predomínio da Rede Globo nas listagens do IBOPE. A telenovela das 22 horas foi substituída pelas minisséries nacionais e, se elas não corresponderam às perspectivas mais otimistas, não deixaram de alimentar argumentos ufanistas Aplauso morreu porque a média de suas apresentações não correspondeu à critica nem ao público, oscilando da qualidade de produções como A Rainha do Agreste. de Ferreira Gullar, ao baixo nível de encenações como a que pretendia homenagear o grande escritor João Guimarães Rosa. As outras fizeram por merecer isso.

A decepção do ano fica por conta da novela Os Gigantes, um retumbante elogio à chatice escrito por um bom autor e interpretado por um bom elenco. Não fosse este o ano do telejornal semanal Abertura, que reuniu o maçante grupo de comentaristas da televisão brasileira durante toda sua existência, Lauro Cesar Muniz e Dina Sfat não teriam concorrentes em sua discussão estéril sobre a eutanásia num país onde milhões de pessoas morrem de fome diariamente

Este foi o ano da abertura política e, por isso, rimos as bandeiras despregadas com a impagável Salomé de Chico City, e o imbatível Dr Sardinha, do Planeta dos Homens. No telejornalismo, a televisão brasileira demonstrou movimentação, espalhando correspondentes por todas as capitais importantes do mundo e pondo repórteres no lugar dos apresentadores no Jornal da Globo, no fim da noite. Mas não ganhou em dinamismo. Ao contrário, nem contratando comentaristas especializados - os grandes ausentes do telejornalismo brasileiro nos últimos anos e nas últimas décadas - esse jornal noturno evitou de ser o soporífero do ano. Por incrível que pareça também porque a Sinopse inteligente de Sebastião Nery saiu do ar, o melhor do telejornalismo brasileiro não foi transmitido pelas grandes redes A honre coube a pobre TV Borborema - canal 9 de Campina Grande na Paraíba uma das mais modestas filhas da família associada. Trata-se do programa semanal Confidencial do repórter Cinco Maira.

Agora, mais do que nunca. convém rediscutir o papel das emissoras educativas estatais e a mudança de direção da TV Educativa - Canal 2 - do Rio, causada pela morte do Professor Gilson Amado, por todos lamentada por ensejar a abertura a tal debate.

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