Tuesday, June 4, 2013

1973 - Globo Shell: a mulher brasileira

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 1/2/1973
Autor: Valério Andrade
MULHER
O primeira documentário especial da série (73) Globo-Shell - A Mulher Brasileira - não é pior nem melhor do que a média dos filmes produzidos no ano passado.

Com roteiro e direção de Carlos Augusto de Oliveira, cuja tarimba profissional parece ter sido forjada em agência de publicidade, A Mulher Brasileira foi fotografado em cores e teve o seu texto narrado (e bem) pela atriz Dina Sfat.

O grande problema (e perigo) dos filmes desse tipo reside no próprio tema. A Sociologia revelou-se matéria nociva na tese cinematográfica levada ao vídeo em outros filmes da série. Existe uma professora ultrapretensiosa, figura obrigatória nos documentários de cunho sociológico, que, em termos de comunicação popular, é um convite ao tédio. Esse tipo de depoimento, via de regra, funciona mais como autopromoção do entrevistado do que como veiculo informativo.

O problema do depoimento de rua ao vivo, uma herança do chamado cinema verdade e, que ia série Globo-Shell levou às últimas conseqüências, depende muito do desembaraço verbal do entrevistado e do que ele diz. Com raríssimas exceções, tais participações tendem a amarrar o filme, pela repetição e a monotonia, ou pela inexpressividade cênica.

Sob esse aspecto, vale ressaltar, como exemplo funcional e de igual efeito cinematográfico, a participação de uma dançarina de espetáculo para homens. Intercalando cenas do striptease durante o depoimento, a direção conseguiu valorizar a parte verbal através da imagem, coroando a seqüência com a justificativa pessoal: "Depois, a gente acostuma."

A seleção musical através de letras que situam o papel da mulher é outro elemento que dá um toque pitoresco ao tema focalizado. E, às vezes, como na melancólica imagem da mulher-retirante, a cantiga escolhida ilustra o quadro, complementa a face da miséria. "Maria das Graças passa sem fazer graça."

No meio das conquistas da última década, da presença da mulher em vários setores da sociedade, é incrível que a libertação individual, através do divórcio, ainda seja proibida. Com autoridade e objetividade, o Senador Nélson Carneiro colocou bem o problema e, numa frase, estabeleceu a diferença, além da órbita jurídica: "O desquite é o divórcio sem esperança".

Do rosto mágico de Greta Garbo, mulher mistério, à figura de Elke Maravilha, mulher exótica, a câmara faz da mulher a sua matéria-prima. Na exaltação, sempre louvável, nunca excessiva, resta a interrogação final: e não seria Deus uma mulher?".

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