Sunday, June 2, 2013

1969 - A TV brasileira é a pior do mundo

Tribuna da Imprensa
Data de Publicação: 18/12/1969
Autor: Luís Vergniaud
O PROBLEMA DA TELEVISÃO
Na Inglaterra, cuja televisão é unanimemente considerada como a de nível mais elevado do Mundo, o governo tem o direito de exercer controle sobre a programação das emissoras de TV, sempre que as autoridades julgarem conveniente o exercício desse referido controle. Mas até hoje, nunca foi preciso, porque as emissoras não abusam da liberdade consentida, mantendo sua programação num nível de dignidade e de bom gosto altamente elogiáveis.

Nos Estados Unidos, o governo não exerce nenhum controle sobre a programação, e as emissoras de TV procuram sempre superar-se, pois aquela que não se renovar constantemente, que não apresentar bons filmes, shows de gabarito, diversos programas culturais etc., acabará ostracizada, o que, em outras palavras, significará um ponto final no faturamento publicitário, a fonte de vida de todas as emissoras particulares de televisão .

E no Brasil? Aqui a esmagadora maioria dos filmes projetados na TV são a escória que se consegue importar a preços mais ou menos razoáveis. Quase todos os filmes são velhíssimos, com mais de 30 anos de existência, e geralmente de péssima qualidade. A programação ao vivo é decepcionante, quase sempre. E nem poderia deixar de sê-lo, pois, com exceção de uma meia-dúzia de profissionais, cujos salários foram inflacionados (tudo aqui é 8 ou 80), a maior parte dos que trabalham em programas ao vivo recebe salários miseráveis, geralmente atrasados. Assim, são raras as boas telenovelas, raríssimos os shows de qualidade elogiável, quase inexistentes os programas cultura. A TV brasileira é uma das piores do mundo, inferior a de qualquer país europeu. O objetivo básico (sei que não é o único, mas é o básico) da TV, que é informar, é simplesmente negligenciado pela maioria das estações. Qualquer TV americana, ou da Europa Ocidental apresenta pelo menos seis noticiários por dia, sempre ilustrados, com filmes feitos no mesmo dia, ou nas 24 horas anteriores. No Brasil, os bons informativos são raros e a maior parte deles só serve para vedetizar seus apresentadores, que raramente recorrem a filmes, preferindo impor suas caras à nossa vista, anos e anos a fio. Há, é claro, algumas exceções honrosas, mas a verdade é que esses são raríssimos. Resumindo: TV, no Brasil, com as exceções de praxe, é sinônimo de ineficiência e subdesenvolvimento, desprezo pelo público, desinteresse em procurar elevar o bom gosto das massas. E de quem é a culpa?

INFLAÇÃO DE TV - Os culpados foram os governos que permitiram que houvesse uma inflação de emissoras de televisão, sabendo que quase todas elas não dispunham de patrimônio financeiro capaz de assegurar uma programação de boa qualidade, que só é viável se a emissora tiver suficiente verba e recursos pára remunerar dignamente seus produtores, redatores, artistas, técnicos etc. Todos sabemos que, no Rio, o mercado publicitário só permite a ida de umas duas emissoras de TV (em São Paulo o mercado pode agüentar três, no máximo). No entanto, há cinco emissoras no Rio e delas, três não só pagam salários miseráveis como atrasam seus pagamentos até seis meses, ou mesmo mais. Creio que o primeiro passo a ser dado para sanear a área seria simplesmente este: não se permitir que empresas pobres, sem patrimônio, possam ingressar numa área de atividades que requer a mobilização de recursos colossais. Enquanto qualquer um puder montar uma TV, contando com a sorte e a duvidosa capacidade de trabalho de mal remunerados corretores de publicidade, a Brasil continuará cheio de canais fracos, raquíticos, que nos invadem o lar com uma enxurrada de programas sem valor, filmes feitos há 30 anos o coisas parecidas.

NOITE INTELECTUAL - A editora "Expressão Cultural", responsável por uma boa parcela de muitos dos melhores livros que têm recentemente opulentado o patrimônio literário brasileiro lança hoje, quinta-feira, outro admirável romance histórico de João Felício dos Santos, o autor de "Ganga-Zumba", talvez a melhor obra no seu gênero já editada no Brasil nestes últimos anos. A nova obra é "Ataíde, Azul e Vermelho", e narra a história de Manuel da Costa Ataíde, o artista que "nacionalizou" nossa barroco. O livro será lançado hoje, em noite de autógrafos, na Livraria Entrelivros, à Av. Copacabana, esquina com Rua Júlio de Castilhos. E, é claro, o eficiente RP da "Expressão e Cultura", Emanuel Nery terá prazer em receber todos os que desejarem ser apresentados ao autor de "Cristo de Lama".

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