Tuesday, June 11, 2013

1982 - Derci na Record

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 30/1/1982
Autora: Helena Silveira
DERCI NÃO QUER UM PROGRAMA SUBVERSIVO

Dia 7, o canal 7 estréia novo programa com Derci Gonçalves, "Derci Povão", que terá denúncias, entrevistas e esclarecimentos. "Nada de subversivo. É no sentido até de chamar a atenção do governo para sanar determinadas mazelas", diz a comediante.

A Record reuniu jornalistas em seu estúdio para um coquetel sob forte iluminação televisiva e para um papo com a artista. Seria parte do primeiro programa: de entrevistada, começaria por ser entrevistada.A nossa maior cômica está em grande forma, recém-saida de uma de suas múltiplas cirurgias plásticas. A Derci de 74 anos está muito mais bonita do que aquela que conheci há tanto tempo, quando me ofereceu uma ceia num seu apartamento da rua Avanhandava.

Contraditória, a combativa criatura está, no momento, ao que tudo indica, em paz com os poderes públicos. Acha até que a abertura não pode ser um "aberturão", pois que ai há o risco de virar buraco e muita gente cair dentro. Quanto à Censura que tanto a malhou, deu-lhe (esperemos! ) trégua. E isto ao ponto de os programas que gravou terem sido liberados para o horário das 18 horas para gáudio das crianças.

Hélio Ansaldo foi um mestre-sala, intermediário entre imprensa e Derci. Indaguei a Derci sobre o que pensava dos movimentos feministas no Brasil e no mundo. Resposta:

"Eu fiz meu movimento feminista sozinha quando, muito jovem, saí de Madalena. Meus pais não queriam: filha, artista é a mesma coisa que prostituta. Você vai virar prostituta! Eles achavam e era verdade.As moças que trabalhavam em revistas na praça Tiradentes eram fichadas na Policia, tinham que submeter-se a exames ginecológicos. Eu era tão criança que não entendia nem o que vinha a ser doença venérea. Pensava que era inflamação de garganta! Mas, em Madalena havia duas mulheres da vida.

As pessoas fechavam as janelas quando elas passavam. Eu abria e espiava e dizia: eu vou pro Rio cantar e não vou ser igual a elas. Espiava, para ser diferente.

E fui. Sim, fui feminista sem saber o que era isto, mal escrevendo meu nome. Mas nunca recebi dinheiro de homem. Às vezes dei dinheiro para homem. Valia a pena. Certos homens merecem."

Precursora do teatro de palavrão, estranha que estes - os palavrões - lhes sejam interditados enquanto para muita gente de teatro sejam permitidos. Então, na TV eu falo mas eles tiram o som e só fica a minha boca dizendo as silabas.

Ela acha que até hoje guarda intacta a criança que foi. Por isso é fácil seu relacionamento com o mundo infantil. É isso que conserva sua juventude. Nas rodadas finais, em vez de lhe fazer perguntas, declaro-lhe que ela está dentro do espirito cristão, posto que Cristo disse: ama o próximo como a ti mesmo, por amor de mim. Quem não se ama não tem a medida do amor ao próximo. Derci se comove. Caiu em algumas contradições durante a palestra. Os colegas rebateram quando, ao inicio, ela disse que governo também é povão. Ao final, declarou que decerto se enrolou nas palavras, não queria dizer isto...

Derci só agora foi descoberta por certa critica esnobativa que a combatia rudemente. Eu sempre a considerei uma verdadeira cascata bistriônica e uma criatura de raro valor humano. Sua caminhada de Madalena até os palcos brasileiros das grandes capitais foi feita com a cara e a coragem no peito e na raça. Feminista combativa na trincheira do "eu sozinha", despreparada, enfrentou todos os seus medos de mocinha interiorana, todos os preconceitos de uma sociedade cheia de hipocrisias. Intuitiva, construiu-se palmo a palmo como artista e como gente. "Derci Beaucoup", nome de um espetáculo seu, pode também servir de agradecimento de seu grande público.

1981 - Sílvio Luís e a Record

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 15/1/1981
Autor: Gabriel Priolli Netto
SÍLVIO LUÍS, A ''GERAL'' NA TV
Quando o jogo embola ali no meio campo e fica chato, melhor. Ao menos para os que acompanham as transmissões esportivas da TV Record. Sílvio Luis, o narrador, perde a paciência e desanca os jogadores. Aos "perna de pau", sugere que vão para casa. Nas faltas mais violentas ou nos erros do juiz, chama a policia. E, durante todo o jogo, sofre como em final de Copa do Mundo, mesmo que seja um simples amistoso. Quem está em casa, claro, se identifica, ri com suas tiradas e até esquece a má atuação dos dois times.

Sílvio Luis Perez Machado de Souza é hoje, possivelmente, o mais original dos narradores de futebol na TV. Seu estilo, que reproduz o mesmo clima e a linguagem dos torcedores da "geral", já deslocou a outrora equipe de esportes da Bandeirantes para d terceiro lugar de audiência e agora ameaça a hegemonia da Globo. Segundo os índices do Ibope, durante o Mundialito, a Record teve 30% de audiência, contra 40% da Globo e 7% da Bandeirantes. E pelo indica da Audi-TV, a narração de Sílvio deu 28% á Record contra 26% da Globo, na transmissão do jogo Brasil e Argentina.

"Hoje em dia, você não - pode mais andar de gravata e paletó", diz ele, explicando o sucesso de sua linguagem descontraída. "O povo está cansado disso. Quanto mais simples for a coisa, melhor. Tem que parar com esse negócio de elitismo, essas formalidades. Ainda mais no esporte."

Simplicidade, para Sílvio, quer dizer também espontaneidade. Suas expressões mais famosas ("Pelo amor dos meus filhinhos", "entrou matando jacaré a botinadas", etc) surgiram espontaneamente, no calor da narração dos lances. Ele garante que jamais anotou qualquer expressão popular, para usar durante um jogo. Fala o que lhe vem à cabeça, preocupado apenas com os lances que o monitor de TV vai mostrando, para não errar em uma avaliação.

"O torcedor quer saber a sua opinião sobre os lances. Ele não gosta daquela narração fria, que não diz se foi ou não foi pênalti. Você tem que criar um diálogo com os caras que estão te ouvindo. Por isso, se eu vejo o lance e acho que foi falta, digo logo. Se errar, digo que quebrei a cara e tudo bem. O "replay" existe para isso O que não precisa é o narrador ficar esperando a marcação do juiz para dizer se foi ou não falta."

Sílvio Luis é o narrador oficial da Record desde 1977, quando substituiu Geraldo José de Almeida, logo após sua morte. Mas não é nenhum novato em televisão. Ao contrário. Começou a carreira em 1952, como repórter de campo da TV Paulista, passou depois pela Record e Excelsior e andou pela Rádio Bandeirantes, até voltar à Record. A maior Parte desses quase trinta anos foi dedicada ao esporte, mas Sílvio foi também produtor, diretor de TV e chegou à direção de produção, na Excelsior. Isso lhe valeu uma experiência certamente única: em um jogo do Santos, anos atrás, fez ao mesmo tempo a narração e a direção de TV da partida, de dentro do caminhão de externa.

Mas há um lado desse paulistano de 46 anos, pai de três filhos e marido da cantora Márcia (que tem também uma escola de música, a "Play", no Ibirapuera), que os torcedores mais jovens ignoram. Sílvio Luis foi juiz de futebol durante doze anos, apitou jogos de todas as divisões e do campeonato nacional e ainda faz parte do quadro de árbitros da Federação Paulista.

"Sou muito melhor do que uma porção de juízes que está apor ai", ele afirma. "Nunca tive grandes problemas atuando, porque fui firme na disciplina. Tendo disciplina num jogo, você tem 60% do trabalho na mão. Apitar foi de muita valia para o trabalho de narração. Você percebe quando uma jogada é falta, quando o juiz vai marcar alguma coisa."

Sílvio diz que parou de apitar por pressão do presidente do Juventus e delegado regional da Sunab era São Paulo, José Ferreira Pinto Filho, com quem não se dá. Mas avisa Nabi Abi Chedid, presidente da Federação Paulista de Futebol, que tem sua despedida "programada" e aguarda o chamado. Outros planos, ele guarda para quando a Record tiver novos equipamentos e gerar a própria imagem dos campos de futebol (atualmente, apenas a narração de Sílvio é própria; a imagem é comprada de alguma outra emissora). São "uns negócios que eu tenho na cabeça" e que prefere não revelar. Mas seus fãs podem esperar câmaras em novos ângulos e imagens de locais do estádio que até agora ninguém viu na TV.

1980 - A Baixaria na TV Record

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 7/4/1980
Autor: Paulo Maia
O VELHO 'MUNDO-CÃO' NA MÁQUINA DO TEMPO
A TV Record - canal 7 - de São Paulo anuncia em todos os jornais que chegou ao segundo lugar de audiência, só sendo batida atualmente pela TV Globo. Não adiantam os esforços esporádicos e agônicos da Tupi, pouco importam também os investimentos da Bandeirantes nas caras telenovelas e numa programação própria, na área musical e no jornalismo. Ao se ler os anúncios da emissora de Paulo Machado de Carvalho e do grupo Sílvio Santos, se pode ter a ilusão de que ela está voltando aos velhos tempos dos festivais e dos shows humorísticos.

Não. Na realidade, não está. Mas a impressão que o telespectador tem, quando, munido de inesgotável paciência, gira o dial na direção de qualquer emissora da extinta Rede de Emissoras Independentes - REI - é a de que está entrando numa máquina do tempo. Quando a Record anuncia reedições de quem tem medo da verdade, uma velha expressão sua do "mundo-canismo" e se sabe que seu maior sucesso, além do programa de Sílvio Santos aos domingos, são as incursões do ex-Deputado Jacinto Figueira Júnior pelo submundo da periferia paulistana. O telespectador pode passar e esperar, para qualquer momento, o aparecimento da imagem do Sr Assis Chateaubriand quebrando uma câmara com uma garrafa de champanha na inauguração da primeira emissora de televisão no Brasil.

O caso de Jacinto Figueira é semelhante ao dos filmes empoeirados e de baixa qualidade, que o público crescente da Record engole como sendo uma programação alternativa à monopolista de audiência da Globo: é obsoleto, mas está funcionando. Só que é necessário se ter um estômago a prova de tudo, para se suportar a xaropada que invade o vídeo nos sábados à noite.

Se há alguma tradição de programa "mundo-cão" na televisão brasileira, ela pode se concentrar, sem favor algum, no velho show de mazelas sociais e de feridas comunitárias, expostas sem qualquer pudor pelo ex-Deputado estadual paulista. Já no começo dos anos 60, ainda sem contar com os recursos tecnológicos do video-tape, o Sr Jacinto Figueira apresentava seus shows mostrando aquilo que a televisão não tinha realmente coragem de mostrar: histórias inusitadas tiradas da realidade e atiradas ao rosto do telespectador sem qualquer eufemismo. No programa reinavam prostitutas, proxenetas e marginais com uma sem cerimônia que garantia um enorme sucesso de público, o que terminou levando o apresentador à Assembléia Legislativa do Estado.

O "Homem do Sapato Branco" pode entrar para a história política do Brasil como um dos raríssimos casos de parlamentares cassados pelo regime arbitrário do AI-5 por atentado à moral e aos bons costumes. Mas, nesses tempos de abertura e de recuperação da Record, ele volta, com carga total, anunciando aos quatro ventos que seu programa é visto por "1 milhão 100 mil pessoas".

Num teatro de periferia de São Paulo, Jacinto Figueira, sentado numa cadeira giratória, no meio do palco, calçando seus sapatos brancos, apresenta às câmaras o mesmo tipo de personagem de seu programa do início dos anos 60. A diferença é que, com um equipamento de vídeo-tape, sai às ruas para filmar perseguição a marginais e outras ações policiais. O esquema de televisão-verdade do Homem do Sapato Branco permite a reunião, no mesmo palco, de um vereador de São Paulo, o massagista Mário Américo, um velho jornalista policial, Orlando Criscuolo, e prostitutas, que se dizem massagistas, mascaradas, para a discussão do tema: "Casas de massagem são, na realidade, prostíbulos?".

O impacto com a realidade é constrangedor. Os tipos humanos levados ao ar pelo programa na Record são realmente indescritíveis. Podem ir da mulher que se casou com um homem, mas é sustentada por outro, sob o compromisso de passar, com ele, pelo menos uma noite por mês, até o rapaz acusado de assassínio de uma criança, sua filha adotiva, pelo próprio irmão.

É lamentável que a TV Record esteja atingindo boas audiências apenas acionando seu velho telecine. Mas mesmo os westerns-spaghetti e a seqüência de séries violentas de policiais norte-americanos não conseguem concorrer, em baixo nível, com o velho campeão do "mundo-canismo" no vídeo nacional. Jacinto Figueira ainda é primeiro e único.

1980 - Rede Record perdendo espaço

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 10/1/1980
Autor: Paulo Maia
É BOM LEMBRAR OS VELHOS TEMPOS
A televisão vive no momento fugaz do efêmero, do átimo de segundo que se perde, do tempo que se esvai. Talvez ai esteja a explicação para o fato inquestionável de que televisão não tem boa memória seja da sociedade em que se insere (daí a má qualidade das retrospectivas do ano e da década recentemente levadas ao ar) seja de si própria.

Agora contudo, a televisão brasileira parece invadida de vez pela saúde. A TV Globo, em férias de programação resolveu contar seus 15 anos de existência numa edição de seus melhores momentos. A TV Record de São Paulo tem motivos ainda maiores para ter saudades: há muito tempo ela perdeu a condição de emissora mais vista do país e sua programação é tão insignificante que qualquer coisa pode funcionar diante de seu telespectador, desde que seja diferente.

Poucas pessoas devem ter visto essas rememorações que a TV Record está fazendo mensalmente, todos os dias 7, mas quem não viu certamente perdeu uma boa oportunidade. É sempre bom rever para se ter a percepção exata de quanto se andou e a saudade não é um sentimento assim tão negativo, não é mesmo?

A Família Trapo - O primeiro programa reprisado foi uma oportunidade de mostrar ao telespectador escravizado à edição do vídeo-tape como era o humor ao vivo da televisão brasileira nos anos 60. O mais interessante é que se pode ver aquelas antigas atuações, ao vivo em preto e branco e diante de um público de teatro e compará-las com outras, em cores, editadas, gravadas e com risadas obtidas por

meio de claques dos mesmos atores. Otelo Zeloni morreu, mas Renata Fronzi, Ronald Golias e Jô Soares estão aí vivos e atuantes nos melhores shows musicais justamente da emissora campeã de audiência do momento (A Globo) como naqueles meados de 60 eram os campeões do IBOPE, diretamente dos sempre incendiados teatros da Record paulista.

Já Não Se Fazem Mais Festivais Como Antigamente dá mais saudade ainda. O título é pretensioso, mas absolutamente verdadeiro. Quem viu, no último dia 7, alguns momentos dos festivais da Record de música popular brasileira de 1966 e 1967 só há de concordar que todo o poderio, todos os recursos e a inconteste liderança de audiência da Globo não serão capazes de repetir, nem em pequenas proporções, o que aconteceu naqueles anos agitados que antecederam o decênio da consolidação, os anos 70.

Naquele tempo, a televisão ainda não tinha a força avassaladora de hoje, mas começava a se firmar ante o público, justamente por trabalhos como aquele. E nascia uma geração de grandes nomes da MPB, como dificilmente surgirá outra em quantidade e em qualidade. É impressionante a qualidade média das músicas finalistas do festival de 1967, vencido por Ponteio, de Edu Lobo e Capinam. E hoje chega a ser difícil pensar que o júri chegou a uma conclusão sobre qual a melhor música entre concorrentes como Bom-Dia, de Gilberto Gil e Nana Caymmi, Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, Roda-Viva, de Chico Buarque, e Domingo no Parque, de Gilberto Gil.

A direção de imagem não tinha a movimentação nem a sofisticação de hoje. De qualquer maneira, surgem planos que são documentais da moda e do estilo de comportamento da época. Quem ouve Caetano Veloso cantando Alegria, Alegria, naqueles tempos, é que pode saber como ele evoluiu como cantor. E ainda se podem detectar momentos fugazes de grandes presenças, então apenas figurantes do show, como a de Rita Lee, acompanhando Gil, e Hermeto Paschoal, tocando flauta no acompanhamento da música vencedora do festival, Ponteio.

Vale a pena rever tudo aquilo. Serve como um curso ao vivo de televisão para as novas gerações, que estão sendo criadas ao embalo de seu som eletrônico, de seus "plim plim" automáticos e frios. Um pouco de saudosismo, às vezes, também faz bem. É uma pena que a Record, de tão acostumada que está de só exibir filmes, não saiba sequer editar os velhos programas guardados em seu arquivo. E chega até a ser surpreendente saber que aqueles velhos tapes ainda existem. Não seria o caso de se começar a pensar numa sistematização da memória nacional, tal como foi registrado o fato vivido pela televisão?

Thursday, June 6, 2013

1995 - Gugu versus Silvio Santos

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 3/9/1995
Autor: Armando Antenore
GUGU, O CONCORRENTE
Depois de acumular um patrimônio de US$ 18 milhões, o apresentador do SBT Gugu Liberato, 36, prepara o terreno para se livrar definitivamente do rótulo que o persegue desde o início da carreira, há 15 anos. "Não sou nem serei o sucessor de Sílvio Santos." Sabe-se agora por quê: será seu concorrente. Solteiro, sem namorada e viciado em trabalho, Gugu revela à Revista da Folha que pretende montar uma rede nacional de televisão. Já está até mexendo os pauzinhos em Brasília.

O sonho da TV própria nasceu no governo de José Sarney. A época, fim dos anos 80, Gugu entrou com os primeiros pedidos de concessão no Ministério das Comunicações. Não levou nada.

Na gestão de Fernando Collor, arriscou de novo, sem sucesso. No governo de Itamar Franco, preferiu se resguardar.

Deverá voltar à carga em breve, tão logo consiga uma audiência com o ministro tucano Sérgio Motta.

O apresentador reivindica 20 retransmissoras, todas na freqüência de UHF (a mesma em que operam MTV e Rede Mulher, por exemplo).

Entre as cidades que estão na mira de Gugu, há 11 capitais: Salvador, Maceió, Aracaju, João Pessoa, Recife, Natal, Belo Horizonte, Campo Grande, Brasília, Goiânia e Palmas.

Completam a lista os municípios de Anápolis (GO), São José do Rio Preto (SP), Taubaté (SP), Araraquara (SP), Franca (SP), Guarujá (SP), Gurupi (TO), Uberlândia (MG) e Feira de Santana (BA).

Vôo próprio - Se as concessões saírem, o apresentador planeja, inicialmente, pôr a rede para repetir o sinal do Sistema Brasileiro de Televisão, emissora que Sílvio Santos fundou há 14 anos.

Com o tempo, tentará vôos mais altos. Quer transformar uma das retransmissoras em geradora. Será o primeiro passo para a TV de Gugu se libertar do SBT. A geradora poderá exibir em rede programas próprios ou realizados por produtores independentes.

Não à toa, Gugu está construindo dois estúdios em um terreno de 5.000 metros quadrados em Alphaville, condomínio fechado de São Paulo. Vai usá-los, enquanto as concessões não chegam, para produzir videoclipes e comerciais. Depois, deverá colocá-los a serviço da rede -que, aliás, já tem nome: Sistema Liberato de Comunicação.

Louco - "Outro dia", conta Gugu, "conversava com Sílvio Santos sobre o desejo de construir uma televisão. Sabe o que ele me disse? Que sou louco. Falou assim: 'Você nem imagina os pepinos que vai arrumar quando se meter nisso. Veja o meu caso. Eu era muito mais feliz antes, no tempo em que atuava apenas como animador de auditório."'

As palavras do mestre e patrão não amedrontam o pupilo. "Só sei fazer televisão. É minha sina. Não existe nada que me empolgue tanto."

Na verdade, existe. Gugu gosta muito de rádio, meio em que trabalhou durante dez anos. "Tá certo. É outra coisa que me fascina."

Se o fascina, por que não tratar o assunto com mais seriedade? "Estou tratando. Já solicitei umas rádios lá no Ministério das Comunicações." Quantas? Nada menos que 23. As principais cidades: Belo Horizonte, Campo Grande, Uberlândia (MG), Campinas (SP), Ribeirão Preto (SP), Araraquara (SP) e Santos (SP).

Também pediu um canal de TV por assinatura para explorar no condomínio fechado de Aldeia da Serra, em São Paulo.

"Pedir, a gente pede. Ganhar as concessões é outra história. Você vai até Brasília, conversa com um, conversa com outro, todo mundo te trata bem, mas não acontece nada. Depende de politicagem, cartucho. Não basta provar que é do ramo, que sabe tocar o negócio. Nesta área, chora menos quem pode mais."

Carrapato de Figueiredo - Gugu realmente sabe do que está falando. Quando tinha seus 21, 22 anos, acompanhou de perto a liturgia necessária para se conseguir um canal de televisão no Brasil.

Trabalhava como produtor e redator do "Programa Sílvio Santos", que ocupava os domingos da TV Record.

O "homem do baú" sonhava, então, com uma emissora própria. Mas, para ganhá-la, precisava de cacife politico.

Resolveu o problema criando o quadro "A Semana do Presidente", que passou a exibir durante o programa de domingo. Em tom ufanista, o esquete de 55 segundos -no ar até hoje- acompanha (e exalta) o dia-a-dia do "chefe da nação".

Mal bolou o quadro, Sílvio nomeou Gugu como carrapato oficial do presidente Figueiredo. Aonde o general ia, o jovem produtor ia atrás, fazendo às vezes de repórter.

A função caiu como uma luva para Gugu, que estudava jornalismo na Faculdade Cásper Libero, em São Paulo, e pretendia virar correspondente internacional.

Não virou, mas conseguiu sair do país. Perambulou com a comitiva presidencial pela Europa. Visitou a França, Portugal e Alemanha.

"O Figueiredo estava sempre sério, não dava brecha para intimidades", recorda Gugu. "Eu era novato e achei melhor não tentar nada de arrojado. Fazia meu trabalho com discrição, de longe, sem perturbar o general. Deus me livre de arrumar encrenca naquele tempo."

Passarinho - Quando finalmente obteve a concessão do SBT, Sílvio Santos não se esqueceu do repórter aplicado. Convidou-o para implantar a nova rede.

Foi na emissora da Vila Guilherme, zona norte paulistana, que Gugu cresceu e se multiplicou. Em 1982, assumiu o comando do "Viva a Noite", que o projetou nacionalmente.

O programa semanal tinha como ponto alto a "Dança do Passarinho" -quadro em que o apresentador, engravatado, saracoteava ao som de versos infantis: "Passarinho quer dançar/O rabicho balançar/Porque acaba de nascer/Tchip, tchip, tchip, tchip."

Gugu escutou a melodia pela primeira vez num hotel "classe A" de Itaparica (BA). "A canção é de origem alemã, mas estavam tocando a versão francesa. Os hóspedes deliravam. Batiam palmas, ensaiavam uns passinhos, caíam na gargalhada. Foi, então, que pensei: se a música mexe com esta gente rica e elegante, imagine o que pode fazer com o povão."

Não pensou duas vezes. Encomendou a letra em português para o compositor Edgard Poças e lançou a canção. O sucesso estrondoso colocou o "Viva a Noite" entre os principais produtos do SBT.

Hoje, Gugu está à frente do "Sabadão Sertanejo" (23h30 à 0h30) e do "Domingo Legal" (12h às 16h). Em cena, lembra muito Sílvio Santos - se precisar, leva até torta na cara.

Cada programa costuma registrar audiências médias de 15 pontos (aproximadamente 1,5 milhão de telespectadores) em São Paulo. O índice é do DataIbope e, não raro, ameaça os da Globo.

Xuxa - O sucesso de público traduz-se, sobretudo, em dinheiro. Ninguém confirma, mas corre pelo SBT que Gugu recebe um salário mensal de US$ 70 mil (o suficiente para comprar um carro Audi Turbo, alemão).

Solteiro convicto, mora numa casa em Aldeia da Serra com área total de 5.000 metros quadrados, dois andares, 20 ambientes, pomar e duas piscinas (uma fria e outra quente, que avança até a sala de jantar).

Coleciona antiguidades e objetos de arte - "por gosto e para investir". Tem estatuetas venezianas do século 18, tapetes persas, tapeçarias de Flandres, vasos chineses, lustres de cristal Baccarat e móveis franceses em estilo Luís 16.

Duas indústrias de brinquedos - a Estrela e a Grow - comercializam produtos com o nome do apresentador. A fábrica de chocolates Garoto também está interessada em explorar a marca.

O patrimônio de US$ 18 milhões que Gugu diz ter acumulado na última década quase o iguala a Xuxa. Pelo menos à Xuxa de quatro anos atrás. Na ocasião, a revista norte-americana "Forbes" publicou a lista dos 40 artistas que mais faturaram no mundo entre 1989 e 1991. A "rainha dos baixinhos" aparecia em 37º lugar com US$ 19 milhões.

Insubstituível - Já está claro que Gugu adora se esquivar de comparações com o patrão. "Sílvio Santos é insubstituível. Ponto final", costuma repetir com persistência canina, esforçando-se para que o interlocutor acredite no desajeitado exercício de modéstia.

Retórica à parte, o fato é que criador e criatura exibem mesmo muitos pontos em comum. Confira:

Ambos têm origem humilde. Sílvio Santos começou como camelô. Gugu Liberato foi office boy de uma imobiliária paulistana na adolescência. Filho de imigrantes portugueses, o pai caminhoneiro, a mãe dona-de-casa, também vendeu gibis de segunda mão e perfumes.

"Nunca passei fome", afirma. "Mas, quando criança, não bebia leite A. Era leite C e olhe lá. As maçãs, comprávamos de baciada no fim da feira. Saíam mais em conta, só que vinham todas amassadas."

Gugu usa o mesmo camarim de Sílvio Santos no teatro do SBT. Nenhum outro artista da casa desfruta de tal privilégio.

Sílvio Santos costuma ver fitas de vídeo enquanto se exercita na esteira rolante. Gugu idem - aprendeu o truque com o patrão. "É ótimo", receita. "Você faz ginástica e nem percebe, porque está concentrado na televisão."

Os dois apresentadores trabalham compulsivamente. "Não desligo nunca", lamenta Gugu. "Em casa, eu conservo um aparelhinho que me permite acompanhar a audiência de todas as redes brasileiras, minuto a minuto."

Tanto um quanto o outro cultivam a nostalgia da vida que não conseguem ter mais.

"O Sílvio já me falou que gostaria de empurrar um carrinho no supermercado sem causar tumulto, de comer cachorro-quente na barraquinha, de provar pastel na feira. Pode acreditar: eu entendo muito bem o que ele diz."

SONHOS SÃO FONTE DE IDÉIAS - Quando não sabe como resolver um problema ou precisa de brincadeiras novas para o "Domingo Legal" e o "Sabadão Sertanejo'', Gugu dorme. "As boas idéias sempre me vêm em sonho."

O apresentador mantém um bloquinho de notas perto da cama. Assim que acorda, passa todas as "iluminações noturnas" para o papel.

Depende do sono, mas nunca se aprofundou no assunto. Não conhece, por exemplo, Carl Jung, psicólogo suíço que estudou o simbolismo dos sonhos.

"Jung? Infelizmente, não sei de quem se trata. Só sei que sonho e pronto. Não me preocupo com teorias, explicações psicológicas. Vou pelo instinto. É o que basta."

CLIP

- NOME: Antônio Augusto Liberato

- APELIDO: Gugu

- DATA DE NASCIMENTO: 10.4.59

- LOCAL: São Paulo

- PAI E MÃE: Augusto Claudino Liberato e Maria do Céu Moraes Liberato

- IRMÃOS: Amandio Augusto e Aparecida de Fátima

- SIGNO: Áries

- ALTURA E PESO: 1,74 m e 86 kg

- FORMAÇÃO: "Jornalismo, na Cásper Libero"

- PAI ESPIRITUAL: "Chico Xavier"

- RELIGIÃO: "Cristã"

- NÚMERO DO SAPATO: 40

- IDIOMAS QUE FALA: espanhol

- COISA NO CORPO QUE O INCOMODA: "Gordura"

- PALAVRA PREFERIDA: "Vitória"

- FAZ ANÁLISE? "Não me dei bem com isso"

- MANIA: "Calço antes a meia no pé direito"

- COLECIONA ALGO? "Fitas de vídeo com programas do mundo todo"

- FAZ DIETA? "Sempre, sempre"

- MELHOR LIVRO: "Chatô"

- MELHOR FILME: "Psicose"

- FAZ AS UNHAS? "Sim"

- SÍMBOLO SEXUAL: "Lady Diana"

- PALAVRA QUE MAIS USA: "Obrigado"

- CIDADE PARA TRABALHAR: "São Paulo"

- CIDADE PARA SE DIVERTIR: "Cancun"

- HOMEM QUE ADMIRA: "Sílvio Santos"

- O QUE É ELEGANTE? "Unhas limpas"

- O QUE É DE MAU GOSTO? "Fofoca"

- FEZ PLÁSTICA? "No nariz, corrigi o septo"

- OBJETO DO DESEJO: "Um iate"

- UM MEDO: "De altura"

- SAIA JUSTA: "Pedir aumento de salário"

- ORGULHO: "Não dever nada a ninguém"

- TOTAL DE EMPREGADOS: "Nunca contei"

- O QUE É CHATO? "Tirar fotografia"

- PIOR TEMPO DE SUA VIDA: "Quando morram meus avós"

- UMA FRAQUEZA: "Assaltar a geladeira"

1994 - Entrevista com Gugu

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 26/11/1994
ENTREVISTA COM GUGU LIBERATO
Nem ele sabia que sua porção ator estava tão à flor da pele. "Foi uma surpresa pra mim", diz Gugu Liberato que, desde julho, vive pelo menos dois personagens diferentes a cada domingo no Táxi do Gugu, uma daquelas brincadeiras que o SBT adora fazer, pregando peças em incautos pelo meio da rua. A idéia surgiu quando Gugu ia de Nice para Cannes, na França, um táxi dirigido por um motorista que, tão engraçado, parecia personagem. Pensei: e se eu me transformasse e as pessoas desabafassem seus problemas comigo?" De banco sentimental, a idéia acabou virando cenário para as mais diferentes brincadeiras (às vezes de gosto duvidoso) com o espectador. Tem gente que se aborrece. Outros adoram. Um deles é Gugu, que mandou até mudar a cor do táxi. ''Esta já ficou muito manjada".

- Como surgiu a idéia do Táxi?

- Hoje todo mundo tem tanto medo que o único lugar onde a gente fala com um estranho é no táxi. No início, pensei em fazer um quadro mais comportamental. Mas na primeira experiência as gravações foram tão fraquinhas que nem foram ao ar. Aí percebemos que só comportamento não dava e criamos as situações.

- E a audiência do programa?

- Somos líderes no horário. Tanto que a Globo já mudou a programação duas vezes. E continua perdendo. Domingo passado, segundo o Ibope, tivemos em São Paulo 20 pontos, contra 16 da Globo na primeira exibição. Na reprise, ficamos com 21 e eles, 17.

- Como descobriu sua porção ator?

- Nem eu sabia dela. Fiz três filmes com Os Trapalhões, mas eu era o Gugu mesmo. Agora estou me surpreendendo.

- E como você compõe os personagens?

- Tenho uma equipe muito boa de maquiador e cabeleireiro, as partes mais complicadas da caracterização. Mas para fazer laboratório uso o espelho da minha casa.

- Este tipo de brincadeira não é constrangedora para o espectador?,

- Olha, nós damos cachê para quem participa, sempre pegamos autorização e quando as pessoas descobrem o que é, gostam. Mas tem gente que não autoriza.

- Já passou por algum apuro?

- Uma vez, um rapaz ficou tão apavorado que tive medo que saltasse do carro em movimento. A partir daí, as portas só destravam se eu acionar.

- É você quem cria as situações?

- É tudo feito em equipe. Por mais que pareça, não é fácil bolar as brincadeiras.

- Por que você acha que fazem sucesso quadros em que o espectador paga mico?

- A gente não dá risada de alguém quando cai ou tropeça? Então. Acho que é essa coisa meio pastelão que agrada.

- É verdade que vocês quando não conseguem alguém que caia na piada, contratam?

- No nosso caso, não. Mas já soube que existem pegadinhas por aí que fazem isso..- Quem faz isto? Não sei. Não me comprometa,

1992 - Gugu tomando espaço de Silvio Santos

O Globo
Data de Publicação: 18/10/1992
Autora: Simone Magalhães
SUBSTITUIÇÃO LENTA E GRADUAL SE ACELERA
Gugu Liberato ganha mais tempo aos domingos

O sucessor de Sílvio Santos está ganhando terreno: tem mais Gugu Liberato nas tardes de domingo, no SBT. Estréia hoje, às 14h30m, o "Programa de vídeos", dedicado aos jovens. Com isso, o apresentador passa a atingir todas as faixas etárias. O "Sabadão sertanejo" é preferido por adultos e idosos. "Passa ou repassa" e "Nações unidas" se dirigem ao público infantil. Só faltava, mesmo, entreter os adolescentes:

- Fizemos uma pesquisa e verificamos que os jovens estão disponíveis no domingo, à tarde. Como o "Nações unidas" termina no dia 3 de janeiro, com entrega de prêmios, preferimos tirar do ar o "TV animal".

Com o contrato renovado até 1998, Gugu garante que tão cedo não será o dono do domingo no SBT. "A idéia é de que isso aconteça a médio ou longo prazo", observa. Ele assegura que Sílvio Santos não pensa em deixar a TV, mesmo que se candidate a um cargo político:

- Acho que ele não devia se envolver com política: vai arranjar sarna para se coçar. O Sílvio está superbem como empresário e apresentador. Mas tem uma coisa que admiro: ele já disse que, se eleito, vai tirar o dia de folga para gravar o programa.

Assim, não haverá um "Programa Sílvio Santos" dentro de um "Programa Gugu Liberato" como pode-se supor. "Os dois coexistirão. O Sílvio é que nem o Chacrinha: vai morrer no palco".

Como assinou com. o SBT para atuar por seis horas semanais, Gugu lembra que, descontado o tempo dos comerciais, ainda tem duas horas de débito com a emissora. "Eles poderão usar esse tempo tanto no fim-de-semana quanto de segunda a sexta".

Embora acredite que o boom sertanejo não seja um modismo, o apresentador cogita a volta do "Viva a noite" caso a música interiorana perca prestígio. Ele observa que seu "Sabadão sertanejo" foi precursor, em julho de 1991, dos programas do gênero e atiça a polêmica lançada por Lulu Santos.

A música sertaneja é de qualidade, sim. Cansei de convidar o Lulu para o 'Viva a noite' e ele sempre esnobou. Reclamando agora da mídia, me atingiu, de certa forma. Acho que o Lulu está passando por alguma crise pessoal.

Aos 33 anos, Gugu Liberato conta que tudo acontece naturalmente em sua vida. Formado em jornalismo, ele chegou aos estúdios de TV meio por acaso e afirma que, até hoje, só recebeu conselhos do padrinho Sílvio Santos. "Ele nunca impôs nada. Tenho uma posição de total independência", afirma.

Além da empatia com o público, o apresentador tem um acentuado tino comercial. Tanto que vem fazendo fortuna com a exportação de suco de banana para a Europa:

- Mandamos a pasta da fruta para a Grécia, onde é processado o suco. Desde o final de 1989, já produzimos cinco milhões de litros, vendidos para Portugal, Suíça, Bélgica e França.

O empresário Augusto Liberato afirma que está confiante no Governo Itamar, só teme que ele não possa fazer muito em tão pouco tempo:

- O Brasil é uma grande mansão bagunçada. O que o Presidente Itamar precisa é de bons faxineiros.

1992 - Mais um programa do Gugu

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 29/3/1992
GUGU LANÇA TERCEIRO PROGRAMA MAS AMEAÇA DEIXAR O SBT O ANO QUE VEM
O elevador que liga dois dos quatro pavimentos da casa do animador e empresário paulistano Gugu Liberato, erguida no exclusivo condomínio de Alphaville, na Grande São Paulo, não foi instalado só como amparo à sua preguiça de subir escadas. Por uma distorção do pensamento, Gugu visualizou a velhice. "Eu me vi lá na garagem, velhinho, sem forças para subir até o meu quarto, olha que loucura", admira-se. Se Gugu usa da imaginação para fazer algumas previsões lúgubres, esta mesma efervescência de idéias o colocou num patamar privilegiado.

Além de estar à frente de quatro empresas, o animador tem novas cartadas em mente enquanto comanda dois programas semanais no SBT: o bem sucedido Sabadão sertanejo, às 22h30 de sábado, e o recém estreado Super paradão, domingo, ao meio dia. No próximo dia 12, ainda sem horário definido, ele lança um novo petardo em busca da audiência. Baseado no programa Sem.fronteiras - sucesso nos países europeus de sotaque latino -, Gugu coloca no ar o similar Nações unidas. ''Será um programa de competições'', adianta. ''Na Europa elas são feitas entre países, mas como aqui é muito grande faremos as gincanas com as diversas colônias de estrangeiros."

Os planos não se esgotam. Gugu recebeu de uma emissora de televisão de Porto Rico a proposta tentadora de animar um programa de competições diário. ''Eles me ofereceram casa e um salário mensal de US$ 20 mil, mas eu não quero me mudar para lá", afirma. ''Só que não descarto a hipótese de fazer um programa semanal". A estrela loura de Gugu pode lhe reservar outras surpresas. Ele está em entendimentos com televisões da Argentina, Venezuela e de Miami - que tem uma estação dirigida à colônia latina - e, para se fazer entender em todos esses locais, três vezes por semana Gugu agenda duas horas de aulas particulares de espanhol com um professor colombiano. ''O sotaque colombiano faz uma intermediação entre o espanhol e o argentino", explica.

O contrato de Gugu com o SBT termina em fevereiro de 1993 e, pelo que se comenta nos bastidores, aquele que foi apontado por Sílvio Santos como o seu sucessor já não desfruta da mesma proteção. A direção do SBT quer reestruturar a programação e mexer no playground televisivo de Gugu. ''Eu não concordo'', fulmina ele. ''Se houver um consenso, eu fico, caso contrário saio".

LUCRO COM BANANAS E DUPLAS SERTANEJAS

A agitação de Gugu não se restringe à televisão, veículo que massageia sua vaidade. Aos 33 anos, o cidadão Antônio Augusto Liberato acumula responsabilidades de empresário. Só no ano passado contabilizou quase uma centena de horas de vôo para o exterior, onde foi tratar de negócios. E dele a Dominó Comércio Internacional, exportadora de suco de banana, tremoços e ameixa seca. A empresa, que concentra as atividades em Portugal, em breve vai se fundir com a Farm, uma holding de capital belga e português que já exporta para o Brasil. "Com a incorporação passo a ter 20% da holding'', exulta.

Pode parecer estranho quem se formou em jornalismo ter faro preciso para os lucros. Gugu confessa seus antecedentes: os avós portugueses eram donos de um armazém chamado Secos e Molhados São Luiz. "O comércio está no sangue''. No Brasil, aquele de quem o presidente Collor é admirador - ele foi recentemente recebido na Casa da Dinda - mantém mais três empresas e outra em formação. A mais conhecida é a Promoart, agência de eventos que mantém sob sua tutela dez artistas, como o grupo Polegar e várias duplas sertanejas, atuais galinhas de ovos de ouro, principalmente nas mãos de Gugu. Com a estrutura da Promoart ele engrena a Consult Vídeo, uma prestadora de serviços de mídia televisiva que divulga artistas dele e de outras companhias.

Num contato próximo e de frente, não raro Gugu esboça um olhar carente, quase adolescente. Esta talvez tenha sido uma de suas armas para construir seu pequeno império. Graças a um esperto contrato com Sílvio Santos, por exemplo, ele comercializa o espaço de seus produtos no SBT através da GPM (Gugu Produções e Merchandising), em associação com o empresário de show-business Beto Carrero. ''Tenho necessidade de movimentar coisas novas'', diz. Com esta ânsia, muito em breve Gugu promete uma tacada de peso. Comprou uma área de 7.500 metros quadrados, entre Alphaville e Tamboré, onde pretende montar uma produtora de vídeo com auditório e palco. ''Eu me baseei numa solução da televisão alemã, e o auditório é variável de acordo com a necessidade'', explica.

VICIADO EM TRABALHO ESQUECE A PISCINA

Gugu espraia também suas atividades pelas áreas fonográfica e de editoração. Já foi transformado em personagem de história em quadrinhos da Editora Abril, hoje publicada na revista Sabadão sertanejo, da Editora Azul, na qual tem polpuda participação. Numa associação com a Warner e a Continental, lançou duas coletâneas sertanejas de sucesso: Sabadão sertanejo, que vendeu 200 mil cópias, e Bailão do Gugu, que chega perto das 60 mil cópias. Mesmo aumentando os dígitos de sua conta bancária, Gugu esnoba alguns prazeres do dinheiro. Até hoje ele só mergulhou duas vezes na cinematográfica piscina da sua casa de Alphaville, ro ea a por um deslumbrante jardim estilo oriental, com uma cachoeira que despenca por um véu de pedras num pequeno lago habitado por pequenas carpas. ''Fiz uma churrasqueira e um forno a carvão que até hoje não usei'', lamenta.

Alheio a badalações, Gugu deu uma única festa em sua nova casa. Todo mundo se divertiu. "No Final eu não sabia como conter o sono", relembra. Aparentemente tão comportado como a imagem de eterno garoto que faz questão de conservar, o animador-empresário diz beber pouco, mas confessa um pecado irreversível: a gula. ''Como de tudo, adoro torresmo, leitão a pururuca". Quando está de folga, se planta em frente à televisão e devora quilos de chocolate e pedaços de bolo. Com tamanha compulsividade, Gugu arredondou a silhueta e mais uma vez trava uma batalha com a balança. No momento toma comprimidos para queimar calorias e fica vesgo só em pensar nas guloseimas que não pode engolir.

''Eu preciso me manter ocupado, sou viciado em trabalho'', define-se. Para não virar um workaliolic incorrigível, Gugu estabeleceu momentos sagrados de lazer, desfrutados somente quando vai para o Guarujá, no litoral paulista. Ele mantém uma casa com piscina na praia da Enseada, que logo será substituída por uma mais hollywoodiana na encosta de outra praia, também no Guarujá. ''A felicidade para mim é um desejo'', assina. ''É um desafio que move o ser humano, se não for assim tudo fica muito monótono''.

1990 - As grifes do Gugu

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 14/7/1990
Autor: Apoenan Rodrigues
MAIS QUE 'YUPPIE'
SÃO PAULO - Dono de um complexo de comunicação e produtos, que vão da exportação de pasta e suco de banana a bolos industrializados, o apresentador e empresário paulista Augusto Liberato, o Gugu, aos 31 anos, movimenta um capital de US$ 4 milhões. É uma quantia três vezes maior do que a-norma yuppie americana, que estabelece aos agitadores financeiros de 30 anos, o patamar de um milhão de dólares para o início de,uma polpuda fortuna. Bem-sucedido na área econômica, Gugu acaba de receber o reconhecimento internacional também na área artística. Dois de seus quatro programas Corrida maluca e Passa & repassa - transmitidos pelo SBT acabam de receber o Grande prêmio mundial da televisão, oferecido pela Nippon Television Network (NTV). "Concorremos com 15 emissoras de todo o mundo", orgulha-se o apresentador que calcou sua fama em cima da insólita dança do passarinho. Como consumidor, ele está mais para a avidez das novidades de Miami do que para os prosaicos produtos nacionais

Loja - "Só faço roupas com o alfaiate Hélio Auricchio, de São Paulo, aquele dos publicitários."

Shopping - Os de Miami e o Iguatemi, em São Paulo.

Jeans - "Qualquer um americano.

Acessórios - Traz dos Estados Unidos.

Sapato - Sutoris.

Jóia ou bijuteria - Jóia.

Cueca - Hang Ten, americana.

Roupa de dormir - pijama.

Companhia aérea - Lufthansa.

Remédio - ''Todos. Se acordo de madrugada e não tem um remédio para azia, por exemplo, fico louco.''

Mania - "Nunca calçar meias de pés trocados."

Telenovela - Roque Santeiro.

Cabeleireiro - Jassa (o mesmo de Sílvio Santos, em São Paulo).

Wella ou L'Oréal - Jura que não tinge o cabelo, só usa um produto de nome Sun in. "É para dar brilho quando bate o sol."

Sabonete - Phebo.

Xampu - ''Troco muito. Prefiro os americanos baratos porque tiram melhor a gordura."

Perfume - Boss.

Desodorante - "Qualquer um antiperspirante jato seco."

Sunga de praia - Não usa.

Camiseta - Bem larga, sem marca especial.

Camisinha - Jontex. "Comprei uma no Paraguai que o vendedor dizia ser musical. Quando abri não tocou música nenhuma.

Passarinho ou gavião - Passarinho.

Motel - Não freqüenta.

Carro - Santana

Álcool ou gasolina - Álcool.

Aparelho de som - Gradiente.

Vídeo - Mitsubishi.

Televisor - Mitsubishi.

Geladeira - Brastemp.

Emissora de televisão - SBT.

Instrumento musical - Piano. "Mas não toco.''

Cantor - Fagner.

Cantora - Simone e Joanna.

Música - Muito estranho, do Dalto.

Ritmo - "MPB."

Sonho maluco - Dar a volta ao mundo.

Coleção - Moedas.

Gibi - Todos.

Livro - Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva. "Me mareou muito."

Revista - Veja.

Heroína - "Minha mãe."

Cor - Azul.

Flor - Do Campo.

Bebida - Vinho espumante.

Prato predileto - Sukyaki.

Prato que detesta - Bacalhoada.

Sanduíche - Cachorro-quente.

Doce - Qualquer mousse

Fruta - Romã.

Carne - Frango

Suco de banana ou de laranja? - "Banana, claro."

Dieta - "Já fiz várias. Atualmente estou numa de consumir muito leite por causa da minha gastrite."

Restaurante - Suntory (sofisticado restaurante japonês nos Jardins em São Paulo).

Restaurante que detesta - "Os sujos.''

Bar - Não freqüenta.

Cigarro - Não fuma.

Esporte - Jet ski. "Sou um ás."

Filme - Karen me deixa louca. ''É um filme bárbaro com a Barbarra Streisand.''

Peça de teatro - "Faz tempo que não vou.''

Extravagância - "Ir a Las Vegas com dinheiro. Às vezes arrisco nos cassinos, mas perco."

Hobby - Ler gibi.

Religião - Católica.

Ideologia - "Você não pode mudar o mundo, mas pode melhorá-lo."

Pecado - Tentação.

Defeito - "Sou muito irrequieto.''

Virtude - "Saber ouvir."

Admiração - Sílvio Santos.

Ator - José Wilker.

Atriz - Cristiana Oliveira.

Apresentador de TV - Sílvio Santos.

Mito - Charles Chaplin.

Símbolo sexual - Cristiana Oliveira.

Pessoa irresistível - "Não tem. A gente resiste a tudo."

Mulher bonita - Nani Venâncio.

Homem bonito - Tom Cruise.

Mulher elegante - Hebe Camargo.

Homem elegante - Fernando Collor de Mello.

Quem levaria para uma ilha deserta? - "Minha cachorra poodle Lilica."

Quem deixaria numa ilha deserta? - "Os invejosos."

Signo - Áries.

Influência - Sílvio Santos.

Cidade - São Paulo.

País - Brasil.

Partido político - "Não tenho."

Político estrangeiro - Mikhail Gorbachov.

Candidato a governador - "Não tenho."

Motivo de orgulho - "Ter recebido o prêmio da televisão japonesa.''

Motivo de arrependimento, "A gente nunca deve se arrepender de nada."

Tara - Por perfume.

Psicanalista - "Nunca fiz análise, mas gostaria de fazer."

Artifício de sedução - "Um bom papo.''

Um luxo - "Ficar hospedado num hotel das ilhas do Hawaí."

Um lixo - "A fome."

Programa de sábado à noite "Assistir ao Viva a noite."

Coisa que mais o aborrece - "Fazer contas e balanços."

Tatuagem - "Não tenho."

Investimento - Imóveis e empresas.

Relógio - H. Stern.

Frase - "Não me inveje, trabalhe."

1990 - O império do Gugu

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 7/5/1990
Autora: Lia Carneiro
GUGU MONTA IMPÉRIO DE US$ 4 MILHÕES
SÃO PAULO - Depois de empresariar grupos musicais, locar equipamentos para shows, vender suco de banana para Portugal, França, Suíça, Alemanha e Bélgica e azeite para o Norte dos Estados Unidos, através de um escritório instalado em Miami, o apresentador de TV e empresário Antônio Augusto Moraes Liberato, o popular Gugu, já está novamente de microfone em punho com o inabalável sorriso do Viva a noite, que ele apresenta aos sábados pelo SBT, para anunciar suas novas empreitadas.

Dono de um pequeno império de quatro empresas, fora a sociedade em mais duas, que movimentaram US$ 4 milhões no ano passado, segundo suas contas modestas, e de um toque de Midas que explica a ausência de fracassos em seus negócios, Gugu pretende, ainda este ano, inaugurar uma fábrica de bolos confeitados em escala industrial em São Paulo, importar e vender para todo o país o azeite Trasmontana, marca própria especialmente desenvolvida na região de Traz-os-Montes, a mais nobre do gênero em Portugal, trazer para o Brasil uma novidade argentina, o Dobra Lápis, um lápis de plástico cujo grafite não quebra, e ainda gravar um programa mensal em Portugal, trocando seu trabalho pelo espaço comercial que utiliza para anunciar seus produtos na TV portuguesa.

A longo prazo, Gugu sonha com a produção local de um brinquedo terapêutico americano, um pequeno quadrado transparente onde se desenvolve uma colônia de formigas, e, daqui a dois anos, quando terminar seu contrato com o SBT, em ter seu próprio teatro, além de uma produtora independente. "Sempre quis ter dinheiro porque ficava chateado cada vez que queria ir num cinema e não podia", explica Gugu.

Ariano, 31 anos, enquanto alisa suas madeixas loiras - religiosamente aparadas uma vez por mês pelo cabeleireiro paulistano Jassa - Gugu recorda sua infância pobre, numa casa simples do bairro da Lapa. "Mas meu pai sempre me dizia que eu jamais passaria fome: bastava comprar um cacho de bananas e vender, pelo dobro do preço, em qualquer farol.''.

Banana - Gugu levou a sério a recomendação do pai, fazendo umas pequenas adaptações: trocou o cacho por containers com 16,5 toneladas de pasta de banana e o farol pelo mercado europeu. Em 1989, a Dominó Comércio Internacional, empresa que o apresentador divide com o tio e o primo portugueses Antônio e Joaquim Martins, que fabricam o azeite Vilaflor, vendeu 1,5 milhão de litros do suco de banana Banatropi e faturou US$ 2 milhões.

Enquanto a pasta de banana é importada de Santa Catarina, do Grupo Duas Rodas, é a distribuidora de Coca-Cola na Grécia, a Hellenic Bootling, quem processa e engarrafa o suco Banatropi. De carona, a Dominó ganhou o direito de distribuir nove variedades de sucos da marca Amita, também produzidos pela Hellenic, com exclusividade na Europa, Japão e Estados Unidos.

"Este ano pretendemos vender oito milhões de litros de Banatropi só em Portugal", adianta Gugu, que contabiliza vendas no valor de US$ 12 milhões. Mas antes de invadir o Mercado Comum Europeu, as embalagens já têm o selo que permitirá, a partir de 1992, que o produto circule por toda a Europa.

Gugu tem outros dois mercados alvos: o Japão, que já está estudando o produto, e os Estados Unidos - 40 supermercados de uma rede de Nova Iorque se interessaram pelo produto, mas exigiram que a embalagem fosse modificada porque na Europa a medida é mililitro e nos EUA os sucos são vendidos em galões.

Otimismo - Gugu já pensou em trazer o suco de banana para o Brasil, mas numa conversa com a Parmalat, desistiu. "O brasileiro gosta de fazer seu suco em casa. Na Europa, o suco vende graças à guerra do movimento ecológico contra os refrigerantes", analisa o empresário Gugu, um apaixonado por gibis, que não gosta de ler livros e de assistir à TV, nem mesmo durante sua briga diária com seus 89,5 quilos, quando pedala, entediado, uma bicicleta ergométrica por 15 minutos, para tentar compatibilizá-los com seu 1,74 m de altura.

Como empresário, Gugu está otimista. "A partir do segundo semestre, a economia se recupera e vamos vender muitos discos", aposta confiante, cometendo um pequeno deslize de desinformação ao garantir que a venda de discos aumenta a partir da liberação dos preços dos eletrodomésticos - os preços dos televisores e geladeiras ainda estão engessados.

Guloso de nascença, o empresário não leva tão a sério assim a guerra contra as coisas artificiais, principalmente quando se trata de doces, que ele jura estar comendo menos. Em sociedade com a fábrica francesa Anne de Bejau, e mais dois sócios, um português e um francês, a Dominó está vendendo bolos em embalagens plásticas transparentes em Portugal, país onde já está investindo US$ 400 mil na construção de uma fábrica.

Bolos - "Nos próximos meses deveremos acertar uma joint venture com os franceses para construir uma fábrica desses bolos aqui no Brasil. Vai ser uma revolução interna: esse bolo é tão gostoso quanto os das melhores doçarias e custa 10 vezes menos", propagandeia Gugu. Outra meta para este ano é importar azeite já enlatado da Cooperativa Portuguesa de Produção de Azeite de Oliva. "E só fazer uma campanha séria que o pessoal trocará o óleo pelo azeite."

Como se fosse o segredo dos sucessos dos negócios, Gugu se recusa a adiantar os números de seus próximos investimentos também não revela o valor de sua fortuna. "Não gosto de lidar com números, em burocracia. O meu negócio é criar, inventar, articular os projetos e fazer TV", explica o apresentador, enquanto se diverte ao explicar como funciona o lápis cujo grafite não quebra, o Dobra Lápis, que pretende trazer logo para o Brasil.1

''Eu sei que estão previstos US$ 150 mil em investimentos em publicidade na televisão portuguesa. Mas se tudo der certo, vamos vender um programa mensal, gravado em Portugal, que também passaria aqui no Brasil, em troca desse espaço comercial", diz ele

PRIMEIRO NEGÓCIO FOI COMO COROINHA

SÃO PAULO - Gugu não imaginava que o office-boy de uma imobiliária chegaria onde está hoje. "E nem imaginava que tudo tinha começado com a criação da minha agência de coroinhas", lembra o empresário, citando seu primeiro empreendimento realizado aos 12 anos, quando era coroinha da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro do Itaim-Bibí. Solicitado a providenciar seis coroinhas para um casamento, Gugu não teve dúvidas: cobrou pelo serviço, pediu as roupas que seriam confeccionadas para o evento e pregou uma foto do seu arranjo no mural da igreja, com seu nome e endereço.

A carreira de Gugu na televisão começa pelas mãos do superpadrinho Sílvio Santos. Em 1974, Gugu resolveu entregar pessoalmente quatro idéias para o programa de Sílvio, na TV Tupi. Voltou na semana seguinte e perguntou ao apresentador o que tinha achado. "Ele me pagou Cr$ 50 por cada idéia e ganhei num único dia mais do que o meu salário, que era Cr$ 156", garante Gugu, que apesar de dizer que não gosta e nem guarda números, não vacila ao rememorar seus primeiros tostões. "No final, eu já estava ganhando, só com sugestões, Cr$ 1.000 por mês. Aí o Sílvio me contratou por Cr$ 450". Até 1977, Gugu passou de auxiliar de escritório para assistente de produção, mas resolveu abandonar tudo em nome da Faculdade de Odontologia, em Marília, São Paulo.

Dentista - Três meses foram o suficiente para Gugu confirmar a previsão que Sílvio havia feito: "Você não vai gostar de ficar olhando as bocas das pessoas". Gugu arranja um emprego na Rádio Progresso, em Itatiba, e começa a fazer jornalismo na Casper Libero (depois de freqüentar um ano da Faculdade de Pedagogia). Consegue um emprego de repórter no programa Caravela da Saudade, ganhando Cr$ 6 mil na TV Record. Assim que Sílvio sabe de sua volta, o contrata por Cr$ 18 mil para ser produtor e repórter especial. Famoso aos 24 anos, Gugu começa a fazer shows em circos pelo país e rapidamente nasce sua primeira empresa, a Promoart, que fatura US$ 60 mil por mês, basicamente para agenciar sua vida artística. O primeiro sucesso da empresa é trazer o grupo dos garotos portorriquenhos Menudo.

O faro de Gugu para os negócios percebe o sucesso da fórmula e assim nascem os grupos Dominó e Polegar. "No dia 10 de maio, lançaremos o disco mix do Banana Split", anuncia Gugu, apostando no talento` de três ex-misses e uma modelo, na sua sorte com bananas e no êxito da lambada. Como uma coisa puxa a outra, a Promoart ganhou uma filial, a Promoart Assessoria, que faz assessoria de imprensa para os artistas promovidos por Gugu e para outros. Depois veio a Gugu Produções e Merchandising (GPM), onde Gugu divide a sociedade e o faturamento mensal de US$ 80 mil com o empresário Sérgio Murad, mais conhecido como Beto Carrero, agência que cuida do espaço publicitário do programa do apresentador no SBT (50% do salário de Cr$ 1,5 milhão vem via comerciais) e vende a marca Gugu para os produtos da Farmaervas, Casas Bahia e para Revista do Gugu, da Editora Abril.

Circos - A Consult Video, que faz a locação de equipamentos para shows, com um faturamento mensal estimado em US$ 700, veio em terceiro lugar. O próximo passo foi a Dominó Comércio Internacional, sociedade com os parentes portugueses para fabricar o suco de banana, que faturou US$ 2,2 milhões em 1989 e já tem um escritório em Miami. A última empreitada de Gugu chama-se Dominó Comércio Exportação e Importação, empresa criada para importar o azeite Trasmontana, futuro lançamento do Grupo Gugu, hoje com quase uma centena de funcionários diretos. ''Temos que investir em produção, não em aplicação", ensina o empresário que, depois do Plano Collor, acabou retomando seus shows em circos para fazer cruzeiros - livre de impostos, o cachê é de US$ 2 mil.

UM BRINCALHÃO QUE NÃO PERDE OPORTUNIDADES

SÃO PAULO - Ele nunca fez o gênero de garoto levado. Rechonchudo, loirinho, espirituoso e sorridente, o caçulinha da dona Maria do Céu Moraes Liberato foi uma criança pobre tradicional. Nunca tirou boas notas de Matemática, mas sempre foi bom de lábia. Escrevia bem. E como todo moleque esperto e preguiçoso, jamais pensou duas vezes para trocar um livro por um gibi, dispensava peladas pelo nhoque da mamãe e desde cedo sucumbiu aos encantos do que o dinheiro podia comprar na era do high tec.

Aos 31 anos, Antônio Augusto Moraes Liberato não precisa de muita concentração para encarnar o apresentador Gugu e sair batendo as asas e canta a música do passarinho na frente das câmaras do SBT. O jeitinho brincalhão e o dom de não vacilar e apostar em, toda e qualquer oportunidade, principalmente nas que saem de sua imaginação, são marcas que o filho do caminhoneiro Gustavo carrega desde os tempos em que lavava chão de igreja e sonhava com uma vida melhor, ou sacolejando no trem que o levava, então como auxiliar de escritório da TV Tupi, para completar o ginasial noturno no bairro da Lapa. Marcas que Gugu tem hoje transformadas em dólares de sobra, para não abandonar.

Dono de duas máquinas de fliperama Taito e de um potente microcomputador, onde perde a noção das horas jogando videogame com seus dez cartuchos de Nintendo em uma tela de 40 polegadas, Gugu deita e rola com seus cinco sobrinhos, filhos dos irmãos Amândio - que largou 16 anos de processamento de dados na Petrobrás, para assumir a Gugu Produções e Merchandising - e Aparecida que, assim que Gugu nasceu, adotou o irmãozinho como a boneca predileta. Graças ao estilo topa-tudo, Gugu esperava calmamente pelo socorro que o livraria das papinhas da irmã. "Só não gostava de herdar as roupas do meu irmão'', lembra Gugu, que hoje usa ternos apenas nos seus programas e nas reuniões administrativas, que abomina. "Não gosto de badalação, nem de burocracia. Meu negócio é criar e ficar em casa de bermudas."

Imóveis - Assustado com a onda de seqüestros, Gugu não revela os valores de seu pequeno império (subestima mesmo os poucos números que fala). Seu investimento predileto são os imóveis. Ele tem três mansões e três terrenos em Alphaville, valorizado bairro da classe média ascendente paulistana, uma casa e alguns terrenos no Guarujá. "A cada dois anos, construo uma casa'', conta o apresentador, que apesar de sempre ter fugido das ciências exatas, nunca conseguiu se livrar da paixão pela construção. "Reparo em cada detalhe e anoto tudo para fazer depois''. A última descoberta de Gugu é um espelho de banheiro que, graças a um circuito, não embaça com o chuveiro ligado.

Quando não está cumprindo sua jornada de gravação aos sábados e domingos e escapa das reuniões de seus negócios, Gugu pode ser encontrado pescando em sua lancha Cabrasmar, pilotando seu carro esporte (a marca e o modelo ficam em sigilo por motivos de segurança), ouvindo as baladas de fossa das cantoras Joana e Simone ou namorando alguma novidade numa farmácia.

Hipocondríaco não assumido, Gugu gosta de comprar os remédios, mas garante que não se automedica. Perfumes também só enfeitam as prateleiras da casa do apresentador, que prefere os desodorantes anti-transpirantes. ''Não sou vaidoso. Sou limpo'', analisa Gugu, sem conseguir disfarçar, no entanto, que é um fiel adepto do modo eu me

amo de ser.

1989 - Gugu pornográfico

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 5/11/1989
Autor: Eugênio Bucci
GUGU LIBERATO EXPLORA PORNOGRAFIA INFANTILÓIDE
Não é mais jovem. Gugu Liberato é mais infantil do que Sílvio Santos. Agora, que o Santos espera que o auditório nacional eleitoral resolva se ele vai para o Planalto ou não vai - e troca suas dezenas de horas dominicais de programa pelo programa e os minutinhos diários de Armando Corrêa - Gugu Liberato ganha mais notoriedade. É mais popular entre as crianças do que entre os votantes. A elas, o animador oferece os bichos de pano que se sacodem como podem ao longo de horas sobre o palco, numa contida coreografia mecânica que retrata o estereótipo de um quarto de bebê gigante. A elas, dá a chance de um passeio no parque ao lado do risonho Sérgio Malandro, com direito a boné e mais quatro malandretes. A elas, finalmente, brinda com suas traquinagens sapecas, que reduzem todo humor ao disparate de um alinhado rapaz de jaquetão e cabelo penteado divertir-se com folias de molecote arteiro e sacaninha.

A infantilização de Gugu Liberato, porém, não chega às raias do "gugu dadá". Seu programa de auditório é linear, formatado segundo os moldes mais tradicionais possíveis, com quadros fixos que se repetem, joguinhos de regras que até (e necessariamente) uma criança em idade pré-escolar é capaz de entender. Não tem nada que ver com o dadaísmo dos anos 20 e nem se apóia nos sons sem sentido emitidos pelos seres humanos que ainda não aprenderam a falar. Ao contrário, é inteiramente perpassado pela malícia quase adolescente.

Todas as atrações, com maior ou menor intensidade, procuram simbolizar a realização de fantasias sexuais infantilóides. Seja a do garoto que passa um dia ao lado da cantora famosa, fazendo poses para o telespectador, rostinho colado no dela, seja a da senhora do auditório que pede para dançar lambada com outro cantor no palco. Gugu Liberato promete liberar desejos (e consumá-los, de mentirinha) a tantos quantos vão a ele. É o animador que mais avança, dentro da TV brasileira, na encenação da pornografia simbólica.

Nada é mais expressivo que o joguinho da bexiga, desses balões coloridos que se usam em aniversários de gente que comemora seus dois, três, quatro anos de vida. O jogo é elementar. O moço fica sentado, a moça vem, coloca o balão no colo dele e, de frente, senta-se sobre o balão. Todos gargalham, sempre. O balão quase sempre estoura. Com os meses, o brinquedo evoluiu, descobriu novas posições até. Atualmente, são três: de pé, sentado de frente e sentado de trás. Há também a modalidade do homem por cima. Tudo é cronometrado, e ganha quem estourar mais em menos tempo. A pornografia simbólica, pouco a pouco, vai se, tornando a pornografia relâmpago.

Peraltices picantes não faltam. Gugu Liberato é capaz de consumir minutos de programa para mostrar dois garotos cortando a corda de um balanço em que uma rapariga loira, de shortinho, acomoda-se sorridente. Embaixo dela, uma piscina de plástico, com água e espuma, junta-se ao Brasil na torcida que a mocinha despenque. E ela despenca. Ele é capaz de dar um banho de leite em saquinhos nos integrantes do grupo Dominó, e de esparramar o líquido para todo lado molhando o pessoal da platéia. Chacrinha jogava bacalhau em cima dessa gente. Gugu Liberato promove a meleca láctea para deleite do país que passa fome. Ele ainda não é candidato a presidente.

1989 - Gugu bate de frente com Faustão

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 13/5/1989
Autor: Eduardo Duó
SÍLVIO SANTOS REAGE AO 'FAUSTÃO' E MUDA 'VIVA A NOITE' PARA DOMINGO À TARDE
Sílvio Santos acredita ter descoberto a arma de calibre certo para fazer frente à Globo nas tardes de domingo. O programa "Viva a Noite'', de Gugu Liberato, 30, deixou as noites de sábado do SBT e passou a ser apresentado, desde domingo passado, das 15h às 17h. Os números do Ibope não apresentam grandes alterações -"Domingão do Faustão" (TV Globo, das 15h30 às 19h) continua à frente em audiência -, mas mesmo assim o SBT decidiu apostar no poder vespertino do "Viva a Noite".

A transferência do "Viva a Noite" para a tarde de domingo foi mais um acidente de percurso do que uma estratégia do SBT. Devido à greve dos radialistas, que paralisou a emissora semana retrasada, não foi possível gravar "Cidade X Cidade", que Gugu apresentava dentro do "Programa Sílvio Santos'' do 15h

às 17h. Para cobrir o buraco na programação, Sílvio decidiu colocar ''Viva a Noite'', que já estava gravado, no domingo à tarde. Segundo Gugu, "a experiência deu certo" e "Cidade X Cidade" foi para o sábado à noite e "Viva a Noite" para o domingo à tarde. Mas esse troca-troca não é o único plano do SBT para contra-atacar a Globo. A emissora vem elaborando dois projetos - -o Alfa 1 e Alfa 2 -, que também terão à frente Gugu. Liberato tentando nocautear o "Domingão do Faustão". Gugu faz mistério e não adianta nada sobre os programas. Diz apenas que ''eles demandam um cenário muito trabalhoso" e que estarão prontos só daqui há 60 dias.

Apesar de mudar de dia e horário, "Viva a Noite" não vai virar "Viva a Tarde" ou ''Domingo na TV''. Gugu não quer mudar porque esta é a sua "marca". De novo mesmo na tela do "Viva a Noite" vai pintar a dupla de humoristas "Tatá" Alexandre e Carlos Roberto Escova. Os dois trabalharam com Fausto Silva no antológico "Perdidos na Noite'', nas TVs Record e Bandeirantes, que projetou Fausto no cenário nacional.

Se hoje Gugu tenta roubar audiência da Globo, no começo de 1988 ele chegou a assinar um contrato com a emissora rival, para apresentar "Domingugu", que teria a missão de bombardear o "Programa Sílvio Santos". Mas Gugu acabou ficando. Sílvio Santos foi falar pessoalmente com o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, vice-presidente de Operações de Globo) e com o Roberto Marinho (presidente das Organizações Globo) para rescindir o contrato do Gugu. Depois desse episódio as portas do SBT se abriram definitivamente para Gugu Liberato, que passou a dividir com Sílvio, desde abril do ano passado, o "Programa Sílvio Santos". Gugu também apresenta "Passe e Repasse" e "Mundo Animal''.

Gugu começou a trabalhar com Sílvio aos 14 anos e foi preparado pelo chefe como herdeiro do SBT, o que ele nega. O apresentador de "Viva a Noite", que começou imitando Sílvio Santos, não acha que esteja superando seu criador na TV. Ele diz que está ganhando mais espaço porque essa lá era uma estratégia do Sílvio", que pretende deixar a TV daqui a dois anos, quando completar 60.

Assim como Fausto Silva, Gugu Liberato tem grande audiência entre as crianças. Atento ao gosto infantil o apresentador já emprestou seu nome à uma revista em quadrinhos e em breve, também estampará uma linha de sopas. O sonho de Gugu é fazer um programa infantil.

1988 - Domingo Legal com Gugu

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 7/3/1988
Autor: Roberto Comodo
GUGU LIBERATO
SÃO PAULO - De office-boy a golden boy. Essa é a fulminante trajetória do animador de televisão Augusto (Gugu) Liberato, que aos 28 anos é o mais novo milionário do vídeo. Com a disputa pelo seu passe entre a Rede Globo e o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), as duas maiores redes do país, Gugu viu seu salário disparar. Aceitou a tentadora proposta do SBT, uma garantia mensal de 50 mil dólares (cerca de CZ$ 5 milhões) ao câmbio atual durante cinco anos, o que o torna o apresentador mais bem pago da TV brasileira.

Junto dessa apreciável quantia, Gugu recebeu um adiantamento de CZ$ 30 milhões na assinatura de seu contrato com a SBT. E mais: terá direito a comercializar 12 entradas de merchandising de 60 segundos cada, no "Programa Sílvio Santos", o que pela tabela em vigor no SBT significa uma bolada de CZ$ 37 milhões mensais. O que o milionário Gugu fará com todo esse dinheiro?

"Sempre deixei meu dinheiro no overnight, porque é um tipo de aplicação que eu posso movimentar a qualquer hora", diz Gugu. "Geralmente, preciso ter dinheiro disponível para um negócio repentino que surja na área de shows ou de equipamentos", justifica o apresentador que é também empresário. Além de aplicar o dinheiro no overnight, Gugu vai investir no mercado de imóveis de luxo. Ele pretende construir casas "classe A'' em Alphaville, um condomínio horizontal em Barueri, no quilômetro 24 da rodovia Castelo Branco.

"No começo do ano passado comecei a comprar terrenos em Alphaville. Comprei a casa onde moro, de 800 metros quadrados de área construída e um terreno de 1.100 metros quadrados. Hoje ela vale CZ$ 60 milhões. Há três anos, o apresentador comprou pronta a casa dos pais, de 350 metros quadrados, também em Alphaville, avaliada em $ 30 milhões.

Em suas aplicações financeiras, Gugu Liberato recebe a assessoria de um cunhado economista. Ele não costuma aplicar o dinheiro na Bolsa de Valores ''porque o risco é muito grande". E, como um empresário prevenido, procura reinvestir seus lucros nas três empresas. O apresentador é dono da Promoarte, que promove shows de pelo país, entre eles, o grupo juvenil Dominó e o cantor Conrado; da Gugu Promoções que trata de seus próprios espetáculos e de merchandising e da Consulvideo, uma editora de álbuns de figurinhas com premiações.

Os outros investimentos imediatos do jovem milionário são na área de lazer. Apaixonado pelo mar, ele vai trocar a sua modesta lancha Deamar de 23 pés, no valor de CZ$ 4 milhões, por uma reluzente Cabrasmar de 32 Pés, com um custo ''por volta de CZ$ 18 milhões", especifica. Ele pretende também comprar uma casa no Guarujá, mas só para descanso.

Vaidoso, Gugu diz que gasta o necessário com roupas, todas sob medida. "Faço meus ternos no Hélio, o alfaiate de nove entre dez executivos paulistas", anuncia. Agora, com um fabuloso salário, paradoxalmente ele vai gastar menos, e até ganhar, para se vestir.

Gugu fez um contrato de. merchandising com a confecção Bavardagem, que será responsável por suas roupas. Economizará para gastar na mesa. ''Gosto muito de comer bem e comprar iguarias'', diz o apresentador, assíduo freqüentador de bons restaurantes.

Gugu Liberato não está muito impressionado com os CZ$ 5 milhões mínimos mensais que receberá do SBT. "Não dá para fazer nem um décimo do que pretendo", lamenta. Leigo no mercado de investimento, além da assessoria do cunhado economista, Gugu ouve todas as manhãs, na rádio Jovem PAN, as análises econômicas do comentarista Alberto Tamer. "É o único que escuto sempre".

Tamer recomenda que Gugu distribua a sua renda numa carteira de ações a longo prazo, em aplicações em ouro e dólar e uma pequena parcela, para liquidez imediata, no overnight. "Desse modo, movimentando o dinheiro no mercado, com uma carteira de investimentos arrojada, bem dirigida, em curto prazo ele pode ter uma renda maior do que sua receita e obter uma independência financeira", a valia Tamer. - "Decididamente, ele precisa de uma assessoria profissional, recomenda. '' Esse volume de dinheiro não é para curiosos, mas para ser aplicado por quem entenda do mercado financeiro''.

1988 - O contrato milionário do Gugu

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 12/2/1988
Autora: Cida Taiar
O NOVO MILIONÁRIO DA TV
Sílvio Santos ganhou a parada. Gugu Liberato fica no SBT com um salário de cinco milhões mensais

São Paulo - Terminou a novela de maior ibope na televisão nos últimos tempos: o animador Gugu Liberato fica mesmo na TVS, atendendo à proposta sedutora de seu patrão, Sílvio Santos. A partir de agora, o jovem Augusto Liberato, 28 anos, paulista da Mooca, é de fato o novo milionário do vídeo. Além da promessa de suceder o próprio Sílvio Santos no programa do domingo, daqui a três anos. Gugu assina um contrato que deixa Xuxa e Jô Soares no chinelo. Os números são astronômicos: 60 mil dólares (cerca de cinco milhões de cruzados) mensais por cinco anos de contrato, com renovação garantida.

Gugu e seu sócio, Sérgio Murad, o Beto Carrero, que faz shows, produz discos e vende roupas, terão direito ainda a usar 12 minutos por dia de merchandising no SBT, total que hoje equivale a 26 milhões de cruzados pela tabela oficial da rede, mas com preço aberto para a dupla. O animador que participa freqüentemente de shows e espetáculos for de São Paulo, poderá dispor também de 90 textos por mês para divulgação de 30 segundos cada, atingindo mais de 40 emissoras do SBT em todo o território nacional.

A conta bancária de Gugu Liberato, é evidente, será fartamente recheada por outras fontes - já durante o carnaval, por exemplo, ele receberá três milhões de cruzados par animar bailes promovidos pelo Projeto Leste 1, uma grande casa de espetáculos na Mooca, em companhia de seu inseparável conjunto musical Dominó. Ainda mais: dez por cento do total da renda dos bailes virão também para o seu bolso. Nem tudo é trabalho, porém. Na segunda-feira de carnaval, ele desfilará no Rio com a escola de samba Unidos do Cabuçu, que este ano homenageia Os Trapalhões.

"Ele precisa se distrair um pouco'', justifica Sevilha Nogueira, 34 anos, há quase quatro anos a gerente artística do animador. A preocupação de Sevilha é compreensível: com um salário mensal de CZ$ 200 mil, ela espera que sore alguns trocados no fim do mês para valorizar seu contracheque. "Nos últimos dias'', ela conta, ''Gugu viveu momentos de extrema tensão''.

A maratona, de fato, foi estafante. Assediado por Sílvio Santos no início da semana com a promessa da sucessão, Gugu tentou por todos os meios convencer o empresário Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, a aceitar a rescisão de seu contrato - pela qual o próprio Sílvio estaria disposto a pagar CZ$ 9 milhões de multa. Após um longuíssimo jantar na casa do Cosme Velho, onde mora Roberto Marinho, na noite de terça-feira, Gugu enfrentou outra prova de resistência - um almoço no Jardim Botânico, na quarta, com José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, big-boss da Globo. Ainda teria uma tensa noite pela frente. Já em São Paulo, e com uma nova proposta da Globo nas mãos - 100 mil dólares mensais (cerca de CZ$ 10 milhões) - conversou durante quase 10 horas com Sílvio Santos, que prometeu entregar-lhe aos domingos, numa primeira etapa, um espaço de quatro horas - das 15h às 19h - para montar o Programa do Gugu, a partir de 3 de abril, além da garantia da permanência no ar do Viva a Noite, aos sábados. A garantia da sucessão, porém, foi o fiel da balança. Logo cedo, aliviado, Gugu desfrutou seu primeiro momento de tranqüilidade em quase uma semana. Tomou café da manhã coma mãe, Dona Maria, na casa onde mora a família, no condomínio fechado de Alphaville, em Burueri, na grande São Paulo. Sem culpas.

1988 - Gugu não quer mais a Globo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 10/2/1988
Autor: Roberto Comodo
GUGU NÃO QUER MAIS A GLOBO
SÃO PAULO - Até o final da tarde de ontem, o animador Augusto (Gugu) Liberato estava decidindo se continua na TVS e rescinde o seu contrato com a Rede Globo, onde estrearia um novo programa em março. No último fim de semana, Gugu recebeu uma proposta milionária do apresentador Sílvio Santos, o "capo" da SBT. Ele ganharia cinco vezes mais do que o estipulado no seu contrato com a Globo e passaria a dividir a programação de domingo com Sílvio Santos, realizando o antigo sonho de ter o seu próprio programa vespertino.

Considerado o herdeiro natural de Sílvio Santos no trono dominical da TVS, Gugu resolveu mudar de canal, depois de 13 anos na emissora, onde apresentava com sucesso o Viva a noite, assinando em maio do ano passado um contrato com a Rede Globo, para fazer um programa de variedades aos domingos, no horário que antecede os Trapalhões. O novo programa de Gugu, na Globo, previsto para estrear na segunda quinzena de março, já estava com a produção em andamento e vários "pilotos" gravados.

Com tudo acertado, na última segunda-feira, Guru Liberato mudou de opinião. Acompanhado por Sílvio Santos, Gugu teve uma reunião com José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, na sede da Rede Globo no Rio, e pediu a sua liberação. No fim da tarde, Sílvio Santos foi recebido por Roberto Marinho. Em troca de Gugu, o apresentador se comprometeu a pagar a multa pela rescisão de contrato e cobrir todas as despesas da Globo com o cancelamento do novo programa. A resposta de Roberto Marinho foi taxativa: "A Globo não vai liberar Augusto Liberato. O contrato está assinado e tem que ser cumprido".

Liberado ou não, Gugu continua discutindo com os seus advogados as vantagens de permanecer na TVS e esquecer a sua estréia na Rede Globo. A proposta de Sílvio Santos é tentadora. O SBT claramente percebeu que Gugu faria falta, ao constatar a queda vertiginosa da sua audiência dominical, de 27 para 12 pontos no Ibope, desde que o Programa Sílvio Santos saiu do ar há três semanas, para o apresentador descansar a voz por recomendação médica. E para substituir um Sílvio Santos, ao que tudo indica nada melhor do que um Gugu Liberato.

1987 - Gugu na Globo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 6/12/1987
UM CERTO AR DE BONECO DE BOLO DE NOIVA
Gugu Liberato está empolgado com a virada para a Globo e não quer nem conversa com Sílvio Santos

Com o seu bem comportado sorriso edulcorado e o expansivo jeito de bom moço, o animador de televisão Augusto (Gugu) Liberato chegou lá. Depois de 13 anos de convívio com a TVS de Sílvio Santos, cinco deles apresentando o bem-sucedido programa Viva a Noite, Gugu mudou - e como! - de auditório. Em março, ele estréia na Rede Globo, com um novo programa vespertino, aos domingos, com duas horas de duração e ainda sem nome. Não é a única estréia de Gugu. Em dezembro, ele também estará nas telas dos cinemas, com o filme Os Fantasmas Trapalhões, onde faz o detetive Augusto ao lado da troupe de Renato Aragão. Sem dúvida, uma guinada na carreira de quem, aos 28 anos, estava destinado a ser herdeiro de Sílvio Santos.

''Estou ansioso para ver o que vai acontecer'', diz Gugu Liberato. "Confio muito nessa etapa de minha carreira, porque acho que vou poder realizar um grande sonho, de fazer um programa rico, com uma boa verba, ótimos cenários e um elenco de primeira." Gugu vai fazer um programa de auditório, destinado ao público infanto-juvenil, no horário das 17h às 19h, atualmente preenchido com enlatados.

"Vai ser uma mistura de variedades com game show, apresentações musicais e muitos concursos e brincadeiras com prêmios'', revela o animador. A idéia é de aproveitar bastante o elenco das novelas da Rede Globo, com os atores mostrando o seu lado artístico desconhecido. "Essa será uma mina de ouro que terei para explorar", exulta Gugu, que trouxe da TVS o diretor do programa, Detto Costa, além de um redator e de um produtor. "A própria Globo achou importante eu trabalhar com uma equipe com que já estava acostumado", comenta.

Até março, Gugu continua gravando o Viva a Noite transmitido aos sábados por 43 emissoras do SBT, com uma média de 23 pontos do IBOPE em São Paulo, onde fica a sede da Rede. O trauma de sair da TVS, onde foi uma espécie de protegido de Sílvio Santos e visto como o seu sucessor no auditório, já foi superado. "Não conversamos há mais de um ano, apesar de ele dizer na televisão toda semana que fala comigo", revela Gugu. "Houve uma época, quando eu produzia o programa dele, que estávamos sempre juntos, mas depois nos distanciamos, e nos últimos três anos trocamos apenas cartões de Natal."

Gugu entrou com 14 anos na TVS. Ele trabalhava como office-boy numa imobiliária e costumava mandar cartas para Sílvio Santos, com idéias e sugestões para o seu programa. "Sempre gostei muito de televisão, um dia fiz uma análise do seu programa e o Sílvio mandou me chamar", conta Gugu. "Foi uma sorte, porque essas cartas não costumam ser lidas." Ele começou como auxiliar de produção, quando o Programa Sílvio Santos ainda era na Globo, foi assistente de produção e tornou-se finalmente produtor,

A grande chance surgiu em 1981, quando Sílvio Santos ganhou a concessão da TVS em São Paulo. "Comecei a apresentar o programa Sessão Premiada, que entrava nos intervalos dos filmes, dando prêmios para quem estava assistindo, e descobri que tinha jeito para a coisa", diz Gugu. No ano seguinte, ele foi escolhido para animar o Viva a Noite e conseguiu se manter com sucesso durante cinco anos no ar. "Obtive muita coisa por ser novato. Mas acho que já tenho uma carreira como animador, que é o que eu sei fazer", afirma Gugu, que já cravou 38 pontos no IBOPE, conquistando o maior índice de audiência do SBT.

Antes de ser animador, Gugu quis ser jornalista. Chegou a se formar e acompanhar o presidente João Figueiredo em suas viagens pelo exterior, que eram transmitidas no quadro A Semana do Presidente do Programa Sílvio Santos. Ele pensou também em ser dentista. Saiu da TVS para cursar a Faculdade de Odontologia, mas desistiu logo. Sua verdadeira vocação ele logo viu, estava nos programas de auditório. E com o seu sorridente jeito clean criou um estilo para o público infanto-juvenil. "Sempre fui muito espontâneo. No início me baseava um pouco no Sílvio Santos, mas depois deixei de lado essa linha séria e fui me encontrando."

Como animador, Gugu descobriu uma mina de ouro. Na esteira do sucesso do IBOPE, há quatro anos ele tem um programa diário na Rádio América de São Paulo, onde atua como disc-jockey. E três empresas: a Promoart, que promove shows de artistas pelo país e tem a exclusividade do grupo juvenil Dominó e do cantor Conrado; a Consubvideo, que publica uma guia anual de videolocadoras; e a recente Gugu Produções Independentes, com o publicitário Sérgio Murad, o "Beto Carreiro", que cuida do seu programa para a Rede Globo.

Gugu também é muito requisitado para fazer shows pelo país. Com a agenda lotada, ele anima convenções e festas, apresenta concursos de misses e chega até a cantar. Muito antes da Xuxa trinar, Gugu gravou, em Oie, um compacto com a música O baile dos passarinhos, a versão de uma canção alemã, que vendeu 100 mil cópias. Animado, lançou mais três compactos e um LP, Viva a música, para o público infantil. Mas é sincero e confessa: "Não me acho um bom cantor."

Na Globo, onde tem um contrato de dois anos, Gugu diz que vai ganhar o mesmo salário que recebia na TVS, CZ$ 350 mil mensais, fora os cachês com merchandising, que podem representar o dobro desse salário, ou mais, numa vitrine de extraordinário poder de exposição como a Rede Globo. Ele mora com os pais, portugueses de Trás dos Montes, no exclusivo e luxuoso bairro de Alphavill perto de São Paulo, onde tem, entre outros vizinhos ilustres, a atriz Regina Duarte e o cantor Fábio Júnior. Solteiro aos 28 anos, ele acha "cedo" para se casar.

Vivendo agora na ponte aérea Rio-São Paulo, o profissional de televisão Gugu por ironia quase não assiste televisão e há muito tempo não vai ao cinema. Ele lê pelo menos dois jornais diários, mas admite que gosta mesmo é de gibis, que devora com a gula de um leitor fanático. "Leio todos os coloridos, só não gosto dos preto e branco. Não tenho tempo para ler livros e prefiro os gibis por que a história começa e termina logo", justifica.

Mas atrás de novidades para o seu programa, Gugu viaja sempre para a Europa e os Estados Unidos. Na semana passada, ele voltou de Londres e Frankfurt, onde foi negociar um material de uma emissora de TV. Esta semana foi para Nova Iorque, buscar a autorização para usar urna idéia de um programa americano.

"O Gugu é o Sílvio Santos dos anos 80. Ele tem cara de filho único, desses bonecos de bolo de noiva, e atinge em cheio o público infanto-juvenil", diz o irreverente apresentador Fausto Silva, de Perdidos Na Noite e Safadinhos e Safenados, transmitidos pela Rede Bandeirantes. "Desde o Sílvio Santos não aparece um animador a nível popular como o Gugu que faz muito bem o marketing de filho caçula, boa gente, o que ele é mesmo", elogia Fausto.

Gugu não se considera um animador tradicional. "Meu estilo é o de uma linha popular", reconhece, "mas calcado no bom gosto" afirma."Apesar de usar paletó e gravata, sempre fico muito à vontade no palco." Gugu. lembra que um animador tem que ser muito rápido no raciocínio e ter medida para cortar no momento certo uma atração chata e desinteressante. Mas para ele, o segredo do sucesso é a autenticidade. "Não se pode fingir que está achando uma coisa engraçada, quando de fato ela não é", diz. E tem muita gente que acha o Gugu engraçado.

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