Friday, May 31, 2013

2000 - O Reveillon na TV

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 1/1/2000
Autor: Fernando de Barros e Silva
ALÉM DE COPACABANA

A TV deu a volta ao mundo para aterrissar à meia-noite na praia de Copacabana, coração simbólico do réveillon brasileiro. Era inevitável. Mas imagens, muitas imagens exibidas ao longo do dia de várias partes do globo serviram para relativizar a idéia tola, a ridícula mania de grandeza segundo a qual o Brasil, além do futebol e do Carnaval, teria também o melhor réveillon do mundo.

A Rússia está desmilinguindo, sabemos, mas o Kremlin em Moscou estava lindo coberto de fogos; Londres, sensacional; e Paris... bem, Paris é uma festa.

Record e Bandeirantes, que investiram numa cobertura extensiva, viajando de país em país desde o início do dia para competir com a Globo, acabaram nos retirando do centro do planeta, sem nenhum demérito para o foguetório de Copacabana, também superbacana, obviamente.

Galvão Bueno, o mestre de cerimônias do "Show da Virada" da Globo, estava contido, quase discreto, mais sentimental do que efusivo, como nos acostumamos a vê-lo em seus rompantes ufanistas quando o assunto é futebol. Vestido de smoking branco, estilo brega-chique, mudou de personagem. É incrível, mas estava melhor, descontados os clichês sobre paz, amor, esperança e blablablá.

Durante a queima de fogos em Copacabana, na virada do ano, Galvão Bueno ficou praticamente calado. Estava ótimo.

Um toque retrô tomou então conta da transmissão, acompanhada por um fundo musical instrumental, tipo bailinho bem-comportado da família brasileira.

Veio a seguir a indefectível canção-slogan da casa, "Hoje é um novo dia, de um novo tempo" etc. etc., cantada por Sandy & Júnior. Foi a confirmação da auto-imagem do país sentimental, afetivo, feliz, apesar de tudo. Imagem que a Globo reforça diariamente.

Como era previsto, a Globo aproveitou o réveillon para fazer um extenso lobby de si mesma. Mobilizou todo o elenco, que gravou mensagens de praxe, preparou quadros de programas com astros da casa e alternou flashes ao vivo do país com reportagens lacrimejantes sobre "nossos heróis" anônimos em 99. Fez lembrar do slogan dos tempos de Sarney -"tudo pelo social".

Antonio Fagundes aparece na tela pouco depois da meia-noite declamando um texto de Jorge Amado, mensagem de esperança que exalta "a capacidade que o brasileiro tem de sobreviver com alegria". Jorge Amado é o ideólogo do país mestiço, sensual, afetuoso e cheio de ginga.

É a imagem invertida que justifica e avaliza uma das sociedades mais iníquas do planeta. Tudo bem, réveillon é festa e 1º de janeiro, dia de trégua e reconciliação, mas cinismo tem limite -mesmo em se tratando da Globo.

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