Monday, May 27, 2013

1988 - Roberto Civita quer a Record

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 17/5/1988
Autor: Ricardo A. Setti
ABRIL OFERECE US$ 14 MILHÕES A PRAZO PELA TV RECORD
SÃO PAULO - A família Machado de Carvalho, que divide com o grupo Sílvio Santos o controle da Rede Record de Televisão, tem desde sexta-feira nas mãos a minuta de um contrato pela qual o diretor-superintendente da Editora Abril, Roberto Civita, propõe a compra desta metade da emissora por 14 milhões de dólares, pagáveis em três anos.

É a primeira vez nos últimos anos que a família Machado de Carvalho parece caminhar para um acerto interno - "incluindo o patriarca Paulo Machado de Carvalho e os filhos Paulo, Alfredo e Antônio Augusto, o "Tuia" - que poderá redundar em sua saída de vez de uma atividade em que reinou, soberana, durante a maior parte da década de 60. A diferença entre a proposta de 14 milhões e a cifra inicialmente vista como palatável pelos Machado de Carvalho - 16 milhões - pode ser considerada pequena para as proporções do negócio, que até ontem tinha grande chance de ser fechado.

Um dos irmãos Machado de Carvalho, Antônio Augusto, controlador da rádio Jovem Pan, obteve este ano uma concessão para a exploração de um canal de televisão em UHF em São Paulo e sua parte na venda da Record significaria considerável aporte de capital para a nova emissora, que tem como sócio o empresário da área da educação João Carlos Di Genio, proprietário do Grupo Objetivo. Os dois outros irmãos, que em épocas diferentes opuseram dificuldades à venda de suas ações, inclinam-se, desta vez, a fazê-lo.

Programação muda - Se concretizado, o negócio certamente redundará, entre outras conseqüências, em fundas mudanças na programação da Record. Por acordo de acionistas, os Machado de Carvalho são responsáveis pelas áreas artística e técnica, cabendo ao grupo Sílvio Santos a direção das áreas comercial e administrativo-financeira. Na Record, os interesses do grupo Sílvio Santos - um colosso empresarial que faturou 250 milhões de dólares no ano passado - são capitaneados pelo vice-presidente do Sistema Brasileiro de Televisão, Guilherme Stoliat, sobrinho do apresentador e empresário Sílvio Santos.

A Record tem, no momento, um passivo total equivalente a 9,5 milhões de dólares, para um ativo de 20 milhões. Esse total, porém, é basicamente representado pelo ativo imobilizado, enquanto que o passivo tem exigíveis, a curto prazo, de cerca de 3 milhões de dólares e, a médio prazo de outros 3 milhões. As dívidas restantes são consideradas de longo prazo. A emissora, que possui uma central geradora em São Paulo e duas geradoras em São José do Rio Preto e Franca, no interior do estado, atinge em rede, por meio de 300 repetidoras, apenas o território paulista - que é o maior mercado consumidor do país - e fatura atualmente cerca de um milhão de dólares por mês, embora, segundo uma fonte próxima das negociações em curso, "pudesse faturar. o triplo sem muito esforço". Seu lucro operacional tem se situado entre 20% e 25% - taxa considerada boa, embora, no caso, o resultado seja comprometido pelos encargos financeiros da dívida. "Com três milhões de dólares a Abril saneia a empresa", admite um.executivo bem situado.

Concessão - O fato de Roberto Civita, titular da maior empresa do ramo editorial da América Latina, já ter materializado uma proposta para os Machado de Carvalho, significa que muito provavelmente a operação já tem a aprovação prévia do governo. A concessão para o funcionamento da rede está em nome de uma pessoa jurídica - Rádio Record S.A. - e, como não haverá mudança no controle da rede, já que cada um dos sócios dispõe exatamente metade das ações, não é necessária a autorização presidencial para a operação, bastando o "de acordo" do ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães.

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