Friday, May 31, 2013

1985 - RARÍSSIMA entrevista com Silvio Santos

VEJA
Data de Publicação: 4/9/1985
Autor: Mário Sérgio Conti
GOLPE DE MESTRE
O dono do SBT conta como passou uma rasteira na Globo com Pássaros Feridos e quais seus planos para fustigar o concorrente

Seja vendendo canetas na rua, seja apresentando programas de rádio e TV, seja dirigindo um consórcio de 49 empresas e 15.000 funcionários, o empresário Sílvio Santos costuma agir com base na intuição.

Foi a intuição que o levou, há quinze dias, a conclamar o público de sua rede, o Sistema Brasileiro de Televisão, SBT, a assistir à novela Roque Santeiro, na rede Globo, e depois mudar para Pássaros Feridos, no SBT. A Globo atrasou a novela o quanto pôde, mas Sílvio Santos também retardou a entrada no ar da minissérie, de maneira que Pássaros Feridos sempre começasse 1 minuto depois do fim de Roque. O resultado não poderia ser melhor para o SBT, que venceu a Globo em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre no horário das 22 horas.

"Tivemos sorte", diz Sílvio Santos, que afirma ter 49 anos, "pois a Globo não tinha nada de muito bom para oferecer." Mesmo com a sorte e a intuição trabalhando a seu favor, Sílvio Santos programou Pássaros Feridos com um plano minucioso, com o objetivo de atrair um público mais qualificado para o SBT. Para conseguir esse objetivo, ele está se tornando cada vez mais um homem de negócios e cada vez menos um animador de auditório. Sílvio Santos faz questão, por exemplo, de influir nas áreas de produção, no departamento comercial e na administração e quer ver todos os programas que o SBT leva ao ar. Para dar palpites em tantas áreas, e ainda fazer um programa dominical de 9 horas, ele trabalha sete dias por semana, das 9 da manhã às 19 horas. Seu único lazer é correr 5 quilômetros todas as manhãs na pista de sua mansão no bairro paulistano do Morumbi e assistir a filmes no videocassete, à noite, na companhia de sua mulher, Iris, ou de uma de suas seis filhas. À noite, ao menos, ele não vê televisão. "Ver televisão é trabalho", explica. Na semana passada, Sílvio Santos recebeu VEJA em seu escritório no bairro do Ibirapuera para falar sobre televisão.

VEJA - Por que no seu programa de domingo você disse para o público assistir a Roque Santeiro, na Globo, e depois mudar para Pássaros Feridos, no Sistema Brasileiro de Televisão, a sua própria rede?

SANTOS - Eu achei que a Globo estava muito quieta, o que era estranho. Quando lancei Masada, no ano passado, a Globo veio com Shogun e Os Últimos Dias de Pompéia. Eu havia pago 240.000 dólares por Masada, e tive prejuízo. Agora, senti que ela ia jogar o Roque Santeiro em cima de mim, bem quietinha. Pensei: "Pode deixar", e fiz a propaganda do Roque e dos Pássaros. A Globo errou ao não colocar uma coisa melhor para concorrer com Pássaros Feridos.

VEJA - A sua rede vence a Globo nas tardes de domingo, aproxima-se do primeiro lugar no horário matutino tios dias de semana e conquistou o horário das 22 horas com Pássaros Feridos, em São Paulo. O SBT está ameaçando a Globo?

SANTOS - Não, não podemos dizer que o SBT está ameaçando a Globo agora. Pelo bom motivo de que o SBT é a única rede que tem ameaçado a Globo nos últimos quatro anos. O que ocorreu foi Pássaros Feridos ter tido uma audiência fora do comum. Mas já tivemos bons índices antes, como com a novela Os Ricos Também Choram, o Programa J. Silvestre e o Reapertura. Com essa programação bastante popular nós chegamos a um índice médio de audiência, de meio-dia a meia-noite, diariamente, de 15,6% em São Paulo. Isso não é uma ameaça aterrorizante, mas é um índice respeitável e faz parte de uma estratégia.

VEJA - Pássaros Feridos faz parte dessa estratégia?

SANTOS - Pássaros já faz parte de uma terceira etapa. A primeira foi de superar a barreira dos 15% de audiência, com qualquer público. A segunda foi de passar do popularesco ao popular. Para tanto, compramos filmes mais qualificados, nos quais as agências de propaganda sentem mais segurança para investir. Agora, na terceira etapa, estamos radicalizando na qualidade, sem deixar de lado a popularidade. Por isso compramos os filmes Super-Homem III, Um Lobisomem Americano em Londres, Halloween, Super-Moça e Papillon e as séries Esquadrão Classe A e O Homem Que Veio do Céu.

VEJA - A grande audiência de Pássaros Feridos não quer dizer que o público prefere os programas de qualidade?

SANTOS - Nem tanto. Comenta-se que a Globo teria espalhado, junto às agências de publicidade, que a boa audiência do SBT tinha pouco significado, já que ela não seria formada por um público qualificado de maior poder aquisitivo. Então o departamento comercial do SBT me convenceu a deixar um pouco de lado a minha programação popularesca para buscar um público um pouco mais sofisticado. Ou seja, a qualidade da programação pode não conquistar o telespectador, mas é uma exigência das agências de propaganda.

VEJA - Então quando você planeja a programação do SBT você pensa mais nas agências de propaganda, que querem uma audiência de maior poder aquisitivo, do que no público em geral?

SANTOS - Quando ganhei a concessão da rede, e comecei a pensar em programação, eu pensava exclusivamente no público. Isto porque, em anos de Programa Sílvio Santos, nunca me preocupei com propaganda. Meu objetivo inicial eram os 15% de audiência. Aí descobri que não adiantava apenas ter essa média, pois as agências não aceitavam a programação. A Rede Bandeirantes, por exemplo, com uma média de 6% de audiência, ou menos, em São Paulo e no Rio, tinha um faturamento maior que o do SBT.

VEJA - O público gosta do que então?

SANTOS - De maneira geral, o público brasileiro gosta de programas populares. Mas de programas populares bem-feitos, como o do Sílvio Santos, o do Flávio Cavalcanti e o do Gugu Liberato. A Globo também tem programas populares, como o Fantástico, que às vezes parece um programa médico, de tantas reportagens sobre doença que apresenta. Mas é diferente você fazer uma reportagem sobre doença deixando apenas o doente falar, ou mostrar gráficos e entrevistas com médicos. O público gosta das duas coisas, mas as agências de propaganda preferem o tratamento mais sofisticado.

VEJA - Você acha que o SBT tem condições de disputar a audiência com a Globo?

SANTOS - Como não quero simplesmente ganhar mais público, mas tornar a audiência do SBT mais qualificada, acredito que nosso objetivo pode ser atingido. Quero chegar perto do padrão Globo de qualidade, o que é difícil. Se eu me preocupar em disputar a audiência com a Globo, ao menos nos próximos dois anos, vou ter problemas.

VEJA - Problemas de que tipo?

SANTOS - Problemas administrativos e financeiros. Eu precisaria gastar quatro vezes mais do que estou gastando, o que me levaria à falência.

VEJA - E quanto você está gastando?

SANTOS - Para fazer a programação estamos gastando quase 18 bilhões de cruzeiros por mês. A Globo não faz milagres. É certo que ela tem talento, mas, se a Globo fatura 180 bilhões de cruzeiros, ela tem de gastar 150 bilhões. E o SBT não tem tanto para gastar. Se eu investir 80 bilhões de cruzeiros, e continuar tendo um faturamento de 20 bilhões de cruzeiros, vou à falência. A televisão não é um grande negócio, como se pensa.

VEJA - Se a televisão não é um grande negócio, por que você continua com o SBT?

SANTOS - Já não faço televisão por vaidade. Faço porque sou um empresário, dono de 49 empresas, com mais de 15.000 funcionários. Só na televisão temos 2.000 funcionários. Mas, decididamente, a televisão não é a empresa mais lucrativa do meu grupo.

VEJA Quais são as mais lucrativas?

SANTOS - A Tamakavy Móveis, a Aposentex, o Baú da Felicidade e a Liderança.

VEJA - Como você vai conciliar a busca de uma audiência mais sofisticada com certos aspectos popularescos e de baixo nível de sua programação?

SANTOS - Me dê algum exemplo de baixo nível.

VEJA - Você apresentou um cidadão, o "Homem Avestruz", que engolia relógios e bolas de bilhar. Depois houve o caso de um outro que colocava as mãos em água fervente. Isso sem falar nos travestis.

SANTOS - Veja bem: eu tenho 9 horas de programa no domingo, o que faz com que sua análise seja mim. Nessas 9 horas só entra um travesti. E assim mesmo é um travesti muito bem vestido, é um artista. Vamos analisar: se um cidadão se inscreve para imitar o Carlitos, ele coloca uma roupa de Carlitos e se comporta como ele. Agora, se alguém se inscreve para imitar a Liza Minelli, tem de se vestir como ela. Por que esse preconceito sobre o travesti que imita a Liza Minelli? Porque provavelmente esse artista que imita a Liza é gay? Por que não achar que aquele que imita o Carlitos também pode ser gay?

VEJA - E nos outros casos, como o do Homem Avestruz, não haveria sensacionalismo?

SANTOS - O povo acha sensacional. São coisas incríveis que acontecem. Nós não temos o direito de evitar que o sujeito coloque a mão na água fervente, ou engula chumbo derretido. E são alguns minutos num programa de 9 horas. Esse tipo de número incrível existe em várias televisões no mundo todo. Tanto que já comprei programas com números incríveis da Itália, do México e dos Estados Unidos, que vou lançar no próximo ano. Já investi 1 milhão de dólares para comprar esses incríveis.

VEJA - Como o Programa Sílvio Santos é muito visto por crianças, não haveria o perigo de elas tentarem imitar esses incríveis, colocando a mão em água quente, por exemplo?

SANTOS - Acho que não. Por que isso não acontece em outros países, na Itália, nos Estados Unidos? Podem até ser truques, que a criança não tem como imitar.

VEJA - Esses números incríveis são absolutamente necessários?

SANTOS - Se o meu programa é de variedades, ele tem de ter variedades. Num programa de 9 horas de duração é preciso mostrar crianças dançando, um engolidor de espadas, o casal fazendo fofocas, os Menudos. O programa tem de tudo.

VEJA - Se você quer ter uma programação da qualidade da Globo por que não investir no telejornalismo?

SANTOS - Acho que, muito provavelmente, a Globo perde dinheiro com o seu jornalismo. O carro-chefe da Globo são as novelas. O jornalismo é um item importante na Globo, mas não é tudo. Para mim, todo o lucro que tivermos será investido, primeiramente, no Programa Sílvio Santos, depois nos filmes e minisséries do horário das 21h20 às 23h20, que também tem programas como o do Flávio Cavalcanti e o do Gugu, e, depois, no Bozo nas manhãs. Quero aperfeiçoar os programas de maior faturamento. Mas também temos novelas, futebol e jornalismo, só que nenhum deles dá dinheiro. Televisão é um negócio como outro qualquer, e não é dos maiores.

VEJA - Então por que você entrou na disputa para conseguir mais concessões de canais?

SANTOS - Porque faz parte do engrandecimento do negócio ter mais concessões. Se eu consigo mais uma estação, a programação que faço vai chegar a mais pessoas, com o mesmo custo. O produto é o mesmo, mas atinge um público maior com novos postos de transmissão.

VEJA - Você está querendo vender sua parte na TV Record?

SANTOS - Eu gostaria de vender minha parte na Record. Mesmo porque não me acontece nada tendo essa parte.

VEJA - O motivo da venda não é a ilegalidade da situação, já que a lei proíbe que alguém seja dono de duas estações numa mesma região?

SANTOS - Mas a Record não é minha, ela pertence a um outro grupo.

VEJA - Mas ela pertence a parentes seus.

SANTOS - Mas legalmente não sou dono da Record.

VEJA - Quanto você está pedindo pela sua parte na Record e quem está interessado em comprá-la?

SANTOS - A minha parte está avaliada em 25 milhões de dólares por uma empresa de auditoria. Recebemos cartas do Jornal do Brasil e do grupo Paulo Machado de Carvalho, o dono da outra metade da Record, demonstrando interesse em comprar minha parte.

VEJA - Comenta-se que o grupo mexicano Televisa estaria associado com o Jornal do Brasil e que Paulo Machado de Carvalho também se associaria à Globo para comprar sua parte na Record. Legalmente, no entanto, um grupo estrangeiro não pode ser dono de uma estação de TV e a Globo também não pode ter dois canais numa região. Como fica a situação?

SANTOS - Não sei se essas histórias são verdadeiras. Quando e se o negócio for fechado, irei ao governo e direi que tal cidadão está interessado em comprar minha parte na Record. Não cabe a mim averiguar quem está por trás do cidadão. Aliás, já fui ao ministro Antônio Carlos Magalhães, das Comunicações, para dizer que o Jornal do Brasil está interessado em comprar a Record.

VEJA - É mais provável que o Jornal do Brasil ou o Paulo Machado de Carvalho compre a sua parte?

SANTOS - Não sei. Acho que no fim ninguém compra.

VEJA - Se a sua parte na Record for vendida, você vai aplicar esses dólares no quê?

SANTOS - Vou aplicar na expansão do SBT, principalmente no interior de São Paulo. Afinal, ganhei concessões no interior paulista e Brasília.

VEJA - Mas essas concessões estão sendo reavaliadas, e não é certo que você fique com os canais.

SANTOS - Elas estão pendentes, mas tenho de investir no -parque industrial, na expansão da rede.

VEJA - Você sempre teve boas relações co os governos da Velha República. Mudou alguma coisa com a Nova República?

SANTOS - Não é bem assim. Costumo dizer que, entre os empresários de televisão, eu sou o mais sacrificado. Veja bem: o Roberto Marinho passou dos 80 anos, o Adolfo Bloch, da Manchete, tem mais de 70 anos, o João Saad, da Bandeirantes, passou dos 60 e os Machado de Carvalho estão nessa média. Então, eles passam o tempo jantando e almoçando com uma porção de gente. Eu não tenho tempo para isso, pois faço meus programas e cuido pessoalmente de minhas empresas, até por uma questão de idade. É verdade que fiz uma boa amizade com o ex-presidente João Figueiredo, mas isso no último ano do governo dele.

VEJA - Por que não há críticas ao governo, qualquer que seja ele, no SBT?

SANTOS - É o meu modo de pensar. Se um governante pode ser elogiado, elogiamos. Não gosto de críticas, pois acho que elas não levam a nada. O público que julgue os governantes. A função da televisão é apresentar os fatos, cabendo ao público julgá-los.

VEJA - A televisão brasileira está melhorando?

SANTOS - Sem dúvida. Ela só perde para a televisão americana. As européias são fracas. A japonesa é boa, mas também perde para a brasileira.

VEJA - O que você acha bom na televisão brasileira?

SANTOS - Para o gosto do público brasileiro, as novelas certamente são ótimas. Só não faço novelas como as da Globo porque são muito caras. O Programa Sílvio Santos também é bom. O jornalismo, principalmente o da Globo, mas também o da Manchete, é bom. Os programas humorísticos estão em decadência.

VEJA - Qual o futuro da televisão brasileira?

SANTOS - Os filmes, incluindo aí as minisséries, são o futuro da televisão no Brasil. Isto porque, nos Estados Unidos, as pessoas pagam a televisão por cabo para assistir a filmes. No Brasil, aumenta cada vez mais a procura de videocassetes e fitas de vídeo. As empresas de cinema estão demonstrando, em seus últimos balanços, que têm mais lucro com a venda de fitas de vídeo e vendas para a televisão que com os. - filmes propriamente ditos.

VEJA - Mas no Brasil a situação não é diferente? Não há as novelas liderando as pesquisas de audiência?

SANTOS - Essa situação pode mudar quando a Censura permitir que os melhores filmes sejam apresentados no horário nobre, isto é, a partir das 19 horas. Aí, as novelas da Globo vão ter concorrência. Por exemplo, eu poderia ter jogado Pássaros Feridos em cima do Roque Santeiro e conseguir uma bela audiência. Mas a Censura só permitiu o Pássaros após 21 horas.

VEJA - Se o futuro for esse, não haverá espaço para o Programa Sílvio Santos no horário noturno?

SANTOS - Não, não haverá. Vai acontecer como nos outros países, em que as novelas e os programas de auditório passaram para o horário da tarde. À noite só vão ficar os filmes, minisséries e programas jornalísticos.

VEJA - Numa situação como essa, há lugar para um camelô subir na vida, tendo primeiro um programa e depois uma rede de televisão?

SANTOS - O Brasil é um país que ainda oferece muitas oportunidades. E um país novo em que um camelô, com sorte e talento, pode subir muito. Ainda vamos ver muitos self-made men por aqui.

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