Friday, May 31, 2013

1985 - O Fenômeno Pássaros Feridos

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 23/8/1985
Autora: Míriam Lage
TVS NA GUERRILHA DO IBOPE
O sorriso de bom-moço de Sílvio Santos, à frente de uma hábil estratégia promocional, valeu à sua rede de televisão o que todo mundo supunha impossível: piques ou mesmo lideranças de audiência, em pleno horário nobre, com a série Pássaros Feridos.

Que ninguém duvide da esperteza do empresário-comunicador Senor Abravanel, mais conhecido pelo nome artístico de Sílvio Santos. Os dados de audiência estão aí, à disposição de quem quiser saber o resultado de sua mais recente ousadia: o seriado americano Pássaros Feridos é um sucesso, abalou o tranqüilo reinado da Globo. A TVS nunca teve tanto público durante a semana como nos últimos três dias.

A série, na verdade, não chega a ser uma obra-prima, mas foi vendida ao espectador da forma mais acertada. No último domingo, no horário de pique de audiência de seu programa, Sílvio Santos anunciou a estréia de Pássaros Feridos, brindando o público com cenas escolhidas a dedo. Mas a cartada decisiva foi avisar que, mesmo programada para entrar no ar às 21h20min, a série só começaria depois de Roque Santeiro. Com aquele sorriso que lhe garante o jeito de bom-moço, Sílvio Santos até elogiou a atração da Globo e assegurou que, se Roque Santeiro atrasasse, a TVS retardaria o início da exibição da série.

A estratégia foi perfeita. Na segunda-feira, assim que a novela deixou a tela da Globo, boa parte do público mudou de canal. Durante Roque Santeiro, a emissora ficou com 72% do público carioca. Na atração seguinte, Viva o Gordo, baixou para 47%. De olho nas aventuras do padre Ralph de Bricassart (Richard Chamberlain) estavam 27% dos cariocas. Em São Paulo a coisa ficou pior para a Globo: a TVS liderou com 47% do público, cabendo à Globo 27%. Essa reviravolta no perfil de audiência foi um fenômeno detectado em outras praças além de São Paulo. Em Porto Alegre, por exemplo, a TVS conseguiu segurar 47.5% do público no horário de Pássaros Feridos, deixando para a Globo 21.5%. Em Curitiba a diferença foi ainda maior: 46.7% para a TVS e 19% para a Globo.

Dados do IBOPE mostram que quem viu a série gostou. As médias da audiência de segunda e terça-feira, em São Paulo, garantem o primeiro lugar à TVS, com 31.3% do público, seguida pela Globo com 21.9%. No Rio a emissora de Sílvio Santos não destronou a Globo que ficou com 46.5% do público.

À TVS coube 21,1%. O importante, nesse caso, é lembrar que antes de Pássaros Feridos sua média no horário balançava entre 5%, 6%. Nada mais.

A Globo sentiu o golpe.Oficialmente se fez de desentendida, mas passou recibo no ar. Já a partir de terça-feira começou a espichar o Jornal Nacional e Roque Santeiro, a antiga estratégia de segurar o público até que a concorrência queime, sem audiência, os primeiros minutos de sua atração. A TVS, respeitando o compromisso firmado por Sílvio Santos com o público, esperou pacientemente, exibindo desenhos animados da Pantera Cor-de-Rosa. A tática da Globo repetiu-se na quarta-feira: o Jornal Nacional passou dos 30 minutos habituais para cerca de 45 minutos. Roque Santeiro foi ao ar com 55 minutos - fora comerciais - 13 minutos mais longo do que seu formato costumeiro. Mais uma vez a TVS manteve a palavra: só começou a passar o seriado quando terminou a novela. A batalha continuou na quinta-feira e, se depender do alto comando da TVS, não acaba até o final da exibição do seriado.

No fundo, Sílvio Santos sabe que não tem munição para uma guerra frontal com a Globo. E demonstrou sua convicção no domingo: em vez de peitar Roque Santeiro, preferiu a guerrilha, atacando o adversário pela retaguarda. É a tática de entrar nas brechas abertas no campo inimigo. A mesma usada no início de ano nas noites de domingo. O Programa Sílvio Santos, que há anos começava às 11h, foi retardado para as 13h. Com isso, passou a terminar às 22h, roubando público de todas as emissoras. Até mesmo do Fantástico, uma das grandes audiências da Globo. Nas três últimas semanas de agosto, o Fantástico teve, no Rio, uma média audiência de 45,3%. A TVS ficou com 22%. Não é a líder mas, antes dessas mudanças, nunca passava de minguados 7%. Em São Paulo, os números lhe são mais favoráveis: o Fantástico obteve a média de 42% enquanto que a TVS abiscoitou 26%.

Luciano Callegari, superintendente operacional do Sistema Brasileiro de Televisão, diz que a performance da rede com esses botes tem deixado Sílvio Santos muito satisfeito. Mas, pelo menos por lá, ninguém está surpreso. "Estamos acompanhando a programação das outras emissoras com a maior atenção para descobrir onde atacar. Atacar a Globo de frente seria uma brincadeira com a realidade. Decidimos, então, tirar o melhor proveito do que está a nosso favor", diz ele.

A seu favor, segundo os cálculos da cúpula da TVS, estavam as noites de domingo. Disparado o petardo, confirmou-se que não havia erro nessa avaliação. Agora, a TVS sentiu certa fragilidade na linha de shows da Globo. "São muito bem produzidos mas não chegam a seduzir o público, especialmente o de renda mais baixa. Imaginamos que, com uma boa atração, poderíamos dividir a audiência. O Viva o Gordo é um programa inteligente, mas não agrada à classe C. Chico Anysio não está num ano brilhante, Globo Repórter e a programação de sexta-feira têm altos e baixos. Na verdade, mais baixos que altos. E por aí que tínhamos que cutucar o adversário".

Há mais de dois meses a TVS bate a Globo no horário das 8h às 14h30min em São Paulo, cativando o público com o Bozo. No Rio a liderança é de outra atração infantil, o Balão Mágico, da Globo. A TVS tem planos de buscar esse mercado mas, por enquanto, está mais preocupada com os resultados no horário nobre. Callegari costuma dizer que o público da noite é bem mais importante do ponto de vista comercial. E o que a direção do SBT deseja é aumentar o faturamento sem precisar esvaziar o bolso. A estratégia da rede é usar a esperteza, dar o pulo do gato, poupando, tanto quanto possível, gastar mais dinheiro. Prefere aplicar seu capital em equipamentos.

Chegar perto da Globo é a meta de Sílvio Santos. Quanto mais perto, melhor. No caso de Pássaros Feridos, a TVS gastou 120 mil dólares na compra dos direitos de exibição e cerca de Cr$ 300 milhões nas campanhas de publicidade. Não chega a ser seu maior investimento em série estrangeira. O recorde está com Massada, que custou 250 mil dólares e quase não teve repercussão. O que provavelmente teria acontecido com Pássaros Feridos se a TVS tivesse imaginado que a série era capaz de enfrentar Roque Santeiro. "Teria sido bobagem, não adianta disfarçar a realidade. Cerca de 80% do público brasileiro acompanham a novela, só nos restariam migalhas", avalia Callegari.

Na Globo, é bem capaz de ter gente batendo a cabeça na parede. O seriado foi oferecido a ela, que achou a história meio chatinha e preferiu não comprar. Mesmo sem ser obra-prima, Pássaros Feridos é uma série atraente, com uma produção de bom nível e temperos bem ao gosto do público que aplaudiu Shogum, estrelado pelo mesmo Richard Chamberlain. Intrigas, ambições, amores e traições, oferecidos numa bela embalagem. Ingredientes que deram ao seriado cinco Emmy, o maior prêmio da televisão americana. Nos Estados Unidos bateu recordes de audiência, de costa a costa. Aqui, se não mantém a liderança em todas as praças, serviu de estopim para uma guerra animadíssima. A mais quente dos últimos tempos na televisão brasileira.

No comments:

Post a Comment

Followers