Wednesday, May 29, 2013

1982 - Telejornalismo velho e batido

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 25/7/1982
Autora: Maria Helena Dutra
COMO O TEMPO CUSTA A PASSAR
Bem bolado. Pode não ser verdade, mas dá até para acreditar que no dia 15 ou 17 de setembro de 1950, enfim, 24 horas antes ou depois da inauguração da televisão no Brasil, um responsável pela pioneira Tupi tenha dado uma entrevista afirmando que "o futuro do veículo no Brasil está no telejornalismo". Como o tempo custa a passar. Pois se a afirmação não foi realizada nesta época, ela foi inegavelmente repetida por todos os donos, diretores, superintendentes e acho mesmo que até pelos assessores de coisa nenhuma de TV nestes últimos 32 anos, sem que a profecia jamais tenha sido cumprida. E, muito pior, sequer tentada.

Apesar das pitonisas, a rotina deste enorme espaço de tempo foi ocupada por programas de auditório, musicais e, finalmente, novelas. Afinal, dizem, é isso que povo vê. Tudo bem; então seria bom esquecer as teorias sobre o inexistente. Pois jornalismo sempre foi um dever realizado por obediência à lei e nunca um projeto de vida de qualquer concessionário. Começaram regionais, muito pobres, mas com repórteres entusiasmados e cinegrafistas heróicos. O equipamento pesava no mínimo toneladas e o trabalho era repleto de riscos e de muitos acidentes. O igualmente regional Repórter Esso foi o primeiro sucesso do ramo - alguns descrentes explicavam isso, pelos seus anúncios de bonequinhos dançantes - e apenas o Jornal de Vanguarda, muitos anos depois, na Excelsior, trouxe algo de novo ao gênero, ao lhe acrescentar comentaristas e mesmo humoristas.

O terceiro estágio foi ocupar todo o território brasileiro - no início apenas alguns Estados, só depois foi se expandindo - através do Jornal Nacional, pela Rede Globo. E nestes últimos 13 anos, justiça seja feita, foi esta estação que melhor equipou e organizou seu telejornalismo. Durante anos censurado e por isso não merecendo as duras críticas que recebia. Mas, com a abertura, revelou-se frágil. Muito bom em técnica, mas por demais amarrado às verdades governamentais que jamais questionava. E com aqueles impecáveis locutores de otimistas sorrisos para os comerciais. No momento, com suas edições diárias, os jornais de TV cobrem bem a cidade e o mundo, dando muitos furos, e empregam repórteres experientes que sabem fazer jornalismo enxuto. Mas ainda não se livraram de pecados maiores, como torcer em lugar de cobrir a Copa do Mundo, ou noticiar fantásticos bombardeios dos argentinos, para manter a equidistância, mesmo não acreditando nas fontes. Pena que seus programas especiais, Globo Repórter ou Sem Censura, sumiram, pois neles a análise que sempre faltou ao seu noticiário factual poderia, enfim, abrir caminho no estilo acrílico. Vamos ver se o anunciado (para agosto) Jornal da Globo tenha apenas as melhores qualidades da casa. Só que elas, como sempre acontece na estação, se existirem, só poderão ser avaliadas depois da meia-noite, horário para o qual a nova produção foi exilada.

Mas se a Globo é assim, ela é um oásis de jornalismo frente às suas concorrentes. O Canal 2 se esforça, mas é oficial demais. E teme-se que, nestes tempos de eleições, possa se transformar na TV Cultura paulista dos tempos de Maluf: propaganda em vez de notícias. A Bandeirantes luta contra a melhor forma de concorrer com a Globo. Jamais deu às suas estações um mínimo de equipamento necessário a um jornal decente. Tem bons comentaristas - até o melhor de todos da televisão, Joelmir Betting - mas nenhum filme, tape, trabalho exclusivo ou equipes ágeis para fornecer a matéria-prima. Seu melhor trabalho no ramo, Canal Livre, está, apesar de muitos méritos, cada vez se tornando um programa mais de relações públicas, do que de entrevistas. Só tem amigos docemente perguntando ao convidado o que menos lhe incomoda na vida. Até no esporte lutam contra notícia. Em Bola na Mesa, domingo passado, receberam de volta os jornalistas Sandro Moreira e Sérgio Cabral, que viram a Copa do Mundo de perto. Falaram sobre tudo, Madureira, Volta Redonda, até Flamengo, menos sobre um assunto que ainda era notícia e que na estação ainda não tinha sido falado.

Na TVS e Record existem Noites Cariocas e Ferreira Neto que fazem entrevistas. Mas os jornais diários são tão pobres como os pioneiros das Tupis carioca e paulista. Uma regressão que mostra que o tempo nem mais está custando a passar: em certos casos e estações, imóvel está, mesmo.

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