Friday, May 31, 2013

1980 - Cobertura da Visita do Papa ao Brasil

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 1/1/1980
Autora: Maria Helena Dutra
O GERAL É BOM, OS PARTICULARES NEM TANTO
Está cumprindo seu dever. Quem ficou em casa pôde acompanhar pela televisão todas as principais cerimônias e acontecimentos que marcaram o início da visita de João Paulo II ao Brasil. O veiculo fez por merecer seu nome, apresentando bom trabalho no pool, coordenado pela Secom, através do qual as emissoras se revezaram na geração de imagem única e de uma narração que poderia, ou não, ser também aproveitada. Um' trabalho que teve muitas qualidades e, no geral, foi bom.

Nos particulares, porém, alguns tropeços, já que o Papa não operou milagres e os defeitos de sempre estavam presentes no despreparo de narradores e diretores de imagens, na notícia atrasada e com horário fixo e na falta de análises mais aprofundadas do evento.

Começou na segunda-feira com as imagens oficiais de Brasília geradas pela Radiobrás. O locutor Hilton Gomes, veterano destes acontecimentos, mostrou desconhecer ministros e cardeais, não os identificando com presteza, embora todos os detalhes da cerimônia tivessem sido divulgados com muita antecedência. A mesma falta de informações ou de textos pesquisados foi evidente na prolongada espera dos discursos no Palácio do Planalto. Já era tempo de melhor se prepararem. Apenas a Globo, no Rio, colocou som próprio e recorreu a jornalista especializado e padre brasileiro da Rádio do Vaticano para tudo melhor explicar e ao bom narrador Fábio Perez. Ponto para ela. Mas foi já na Capital, corno era de se prever, que se iniciou a paralela e mesmo fascinante maratona musical desta visita que se tornou também elemento importante da sua parte televisiva. Apenas a solidão do Planalto deve explicar o hino de Afonso Celso e a dupla Dom e Ravel.

Também não foram melhores os cânticos da missa, no dia seguinte, em Belo Horizonte. Detalhe que chegou a atrapalhar a mais bonita e comovente cerimônia da visita até agora. No Estado mais católico do país, João Paulo II parecia mesmo estar em casa. Como o povo um pouco mais perto dele, foram captadas imagens históricas de perfeita comunhão entre a comunidade e seu Pastor. Que de improviso falou e cantou. Até o Está Chegando a Hora, sucesso do carnaval de 1942, não passa de uma versão de Henricão e Rubens Campos para a mexicana Cielito Lindo. Uma revanche da escolha de Amigo, de Roberto Carlos, naquele país. Não deu para entender foi o título de Valsa da Despedida que informavam ser o nome deste antigo sucesso de Carmem Costa.

Mas foi bonito - e a televisão mostrou bem - vê-lo cantar e receber o título de rei da multidão mineira. Já gostam de uma monarquia. Quando todos iam aderindo, o Papa chegou ao Rio e a cobertura de reportagens de televisão, que vinham sendo ótimas, baquearam. A poderosa Globo, única capaz - cujos responsáveis por seu jornalismo vivem apregoando recursos mirabolantes - levou 55 minutos para pôr no ar a imagem do Galeão. Enquanto as estações de rádio estavam a toda, a televisão mostrava desenho animado. Depois foi pior. A missa noturna do Aterro do Flamengo já era difícil de fornecer imagens de qualidade e, para piorar, a geradora, Globo, esqueceu de colocar um holofote para mostrar que tinha povo, mesmo há muita distância. Também não se lembrou de orientar os espectadores sobre o exato cenário da cerimônia nos momentos que a antecederam, tornando, por isso, confusas as suas dimensões. E o diretor de imagens acabou fixando-se muito mais no monumento do que no altar. A solene missa, mais adequada para local fechado do que para campal, teve o vibrante Queremos Deus para iniciar. Mas fez do Papa uma involuntária testemunha da queda de inspiração musical por nossas bandas. Escutou o maravilhoso hino do Congresso Eucarístico de 1955, obra-prima do maestro Hellman e Dom Marcos Barbosa, e a terrível peça de saudação para ele feita em 1980. A pior musiquinha de nosso hinário. Mas a Ordem dos Músicos deve estar orgulhosa. Em todas as cerimônias, o acompanhamento instrumental e vocal foi de muito boa qualidade.

Nem tanto estiveram as reportagens. A Globo optou pelas produzidas, caminho defensável, mas que, agora não deram certo. Em termos de entrevistas andou melhor e mostrou seus jovens profissionais com muita vontade, incansáveis feito o visitante. Principalmente Ricardo Pereira presente em todas as etapas do acontecimento e capaz de boas frases sobre ele.

Também seus cinegrafistas merecem elogios. Na Tupi e Bandeirantes foi só rotina. A TVS, lógico, tudo ignorou completamente. Apenas enfrentou a Globo, com bem menores recursos, mas produzindo esforçado trabalho foi o pessoal da Educativa. Única estação a mostrar histórico sobre o papado e João Paulo II e por isso fazendo jus ao nome. Foi ela que gerou as imagens do Corcovado e ficou a dúvida se mostrou a cidade intencionalmente durante a benção, não exibindo o gesto do Papa, ou se foi um erro do diretor de imagens. Profissionais que nunca também parecem saber com antecedência o desenrolar das cerimônias. O que somos testemunhas de não ser verdade, pois elas foram planejadas com muita antecipação e com acesso do pessoal de televisão a seus pormenores. Discutidos com este grupo pelas comissões coordenadoras. Todas, pelo menos no Rio, dirigidas por mulheres. Mas figuras ausentes nas comitivas e recepções. A única que ousou se aproximar e orientar o Papa no Corcovado foi Vera Peixoto, auxiliar de Cristina Sá na organização da visita ao Rio. Nossa única representante visível em todo o desenrolar das múltiplas cerimônias.

E estas não receberam, por parte da televisão,. as análises necessárias por sua importância e simbologia. A Globo, no Jornal das 23 horas, foi a única a tentar, mas ficou por demais prudente nos convidados e opiniões. E estas sempre sobre atitudes ou palavras do Papa e sem a menor referência a reações do povo, autoridades ou excesso de segurança e privilégios nas cerimônias. Lacuna, me parece, típica de quem se acostumou a fazer jornalismo consentido. Pior, incompetência mesmo, foram a maioria das narrações que não identificavam comungantes, mesmo sendo poucos. Ou capazes, no Estádio do Morumbi, de informar que estava "entrando no gramado a equipe de Jesus."

As etapas subseqüentes foram mais fáceis de televisar como o encontro com o Ceiam e a ordenação no Maracanã. Em São 'Paulo tudo se repetiu, Como agravante de problemas de som local fora do controle das emissoras de televisão. Embora com chuva, o único lapso da Folhinha Mariana, a mais bonita cerimônia foi o encontro do Papa e trabalhadores com a palavra emocionada do operário Waidemar Rossi, os aplausos a Dom Cláudio Humes, o refrão mudando para "João Paulo é nosso irmão" e o canto de Caminhando, de Geraldo Vandré. Pena que o belíssimo samba do Vidigal, de Marcos, Marcão e Moacir, com breque iniciado por Sua Santidade, não foi muito divulgado. Apenas hinos religiosos, mas pouco populares, foram escutados na Missa de Aparecida da qual a TV Cultura paulista não conseguiu captar em boas imagens. Que apenas focalizavam o Papa, jamais o povo e muito menos outros participantes da missa.

Problemas que esperamos sejam resolvidos até o final desta visita. De um Chefe de Estado e' da Igreja Católica que alterou profundamente as regras que nossos comunicadores de massa por aqui consideram sagradas. Em poucos dias o veículo, que há 16 anos nega o valor da palavra e foge das mensagens explicitas, teve que transmitir discursos, homilias e sermões de durações extremamente longas. Um ensinamento de quase dois mil anos de experiência para aqueles que só agora estão começando e pensam já saber tudo.

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