Friday, May 24, 2013

1980 - Carta sobre a TV brasileira

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 13/7/1980
 [carta]
TV BRASILEIRA
(...) Como Diretor que fui da TV Tupi do Rio, da TV Globo do Rio e de São Paulo, da TV Continental e tendo presenciado os estertores da TV Rio, a realidade que vivi de muito difere da má ficção que está sendo veiculada. Pelo que observo, a interpretação geral se encaminha para a afirmação que a Rede Globo, solidamente apoiada por know-how e capital estrangeiro, levou à destruição a TV Paulista, TV Rio, TV Excelsior (Rio e São Paulo), TV Continental e agora a Rede Tupi, com isso conquistando uma hegemonia que tende ao monopólio. (...)

A TV Globo entrou no ar em 1965. Quando, em 1962, elaborava o Plano de Reorganização da TV Tupi (Rio), que executaria como Diretor de Produção, observei estarrecido que a torre de transmissão estava penhorada para cobrir débito trabalhista. Ou seja, executado o débito, a torre da estação, portadora do seu sistema irradiante, passaria ao poder de terceiros, que poderiam retirar a TV do ar, ou cobrar o que bem pretendessem para não o fazer. Sintomaticamente, tal situação não era considerada critica. Por outro lado, a Rede Associada era disassociada, uma vez que as estações de Rio e de São Paulo se degladiavam por uma hegemonia interna, boicotando cada uma a produção da outra. Assim foi que o Rio achou péssima urna novela produzida em São Paulo e negou-se a transmití-la. A novela foi parar na TV Rio. Chamava-se simplesmente O Direito de Nascer. TV Rio e Walter Clark capitalizaram um fantástico sucesso alimentado pela TV Tupi de São Paulo. (...) Tal não aconteceu com a TV Globo. Tendo eu elaborado o seu Planejamento Administrativo e Executivo em 1961, quando convidado para executá-lo, a partir de 63, encontrei terreno fértil à aceitação de métodos profissionais. Chegamos então ao aparecimento da figura de Time Life através de um acordo de assistência técnica. Vale a pena ressaltar que idêntico acordo foi tentado pela Rede Associada junto à CBS e NBC. Os resultados foram negativos pela falta de solidez e credibilidade que a forma operacional Associada transmitiu aos interessados. Pelo visto, o irregular e imoral é o que não se obtém. Caso obtido, o imoral torna-se valido e moral. (...)

Segundo as Idéias, que de tão repetidas, tornam-se mais próximas da realidade do que os próprios fatos, o que terá ocorrido na TV Globo terá sido então uma invasão de um magote de sensacionais técnicos americanos esbanjando um fabuloso know-how tudo alimentado por catadupas de dólares que jorravam generosamente de cornucópias inesgotáveis (...).

Técnicos estrangeiros não existiram. Nenhum. A estação foi montada pelo excelente Lauro Medeiros, com sua equipe de técnicos brasileiros. O pretenso gigantismo inicial da TV Globo também não existiu. Com quatro estúdios, ela possuía apenas mais 1/3 da área útil da TV Tupi. A vantagem é que era uma área útil funcional. Os dólares não jorraram; os cruzeiros eram medidos escrupulosamente: a estação foi ao ar apenas com dois dos quatros estúdios funcionando e sem nenhuma unidade móvel disponível. Uma grua teve que ser alugada dos estúdios Herbert Richers. Àquela altura o complexo gráfico da Rio Gráfica e O Globo era bem superior em espaço e valor ao da TV (...).

Ela foi ao ar em 1965, com 12 horas de programação diária, 60% nacional. Ao final de 6 meses atingia o 2º lugar de audiência e liderava as faixas não nobres. O custo mensal de produção era de CrS 400.000,00, inferior ao custo das TV Excelsior, Rio e Tupi. As vendas, já no primeiro mês, atingiam idêntico nível, iniciando-se assim a operação com seu custos cobertos pelo faturamento.

É lastimável que todo este trabalho executado por uma equipe 100% brasileira seja creditado à técnica e capacidade empresarial estrangeira. Time-Life possuía cinco pequenas estações como a de Indianápolis, Denver, Grand Rapids, como constatei. Essas estações eram constituídas de dois pequenos estúdios para entrevistas e pequenos números musicais locais (área proporcional equivalente a 1/5 da TV Globo de então). Alguns anos apôs o seu Board of Directors decidiu abandonar toda a atividade de broadcasting e essas estações, junto com as de rádio, foram vendidas. Isso indica de como eram bem sucedidos nessa área e qual o real know-how que tinham a oferecer.

E qual a relação de causa e efeito entre o aparecimento da TV Globo e o desaparecimento de outras estações? (...) Tendo entrado no ar em 65, ela não poderá ter influenciado na situação pré-falimentar em que se encontrava em 64 a TV Paulista, Canal 5 de São Paulo. (...) A TV Continental não desapareceu devido a TV Globo. Bem o sei porque fui eu quem me decidi a comprá-la. A sua situação era pré-falimentar desde 1960. (...) Anos depois, o interesse de um grupo em adquirir a TV Rio me levou a uma auditoria que presenciaria os seus derradeiros momentos. Não se pode levar a serio uma empresa de TV que decide se localizar nos píncaros de uma pedra, tendo como única via de acesso um conjunto de complicados elevadores. (...) A auditoria levou-me a constatar mais de uma dezena de anos de recolhimentos jamais feitos ao INPS. (...) Concluindo, indo ao cerne da questão, o monopólio não existe na liderança da audiência da Rede Globo. A preferência popular é uma variante que pode ser modificada. O monopólio de fato existe nas 22 estações que pertencem à Rede Associada, contra as 5 que, de acordo com a lei, pertencem à Rede Globo. Este é o fato. As atuais coligadas da Rede Globo se associarão a qualquer outro grupo, no exato momento em que lhes seja ofertada programação de apelo popular superior à atual. O dito monopólio da TV Globo desaparecera quando perder a preferência popular. Acaciano.

Tal acontece nos Estados Unidos, onde, em números redondos, 600 estações são anualmente remanejadas, deixando de ser coligadas à ABC, para se ligar à CBS ou CBN, ou vice-versa, tudo em função de novas linhas de programação que lheslhes são ofertadas.(...)

Existe lugar para Redes, se dimensionadas para tal. Existe lugar para televisões independentes, igualmente. Uma estação não necessita de 60% de audiência para sobreviver. Se ela tiver sido projetada para obter 5% de audiência e isto alcançar, ela será viável, sólida e próspera, ao mesmo tempo em que estará fornecendo um serviço público àquela parcela de audiência.

Não se pense em monopólio estatal visando encobrir os próprios erros. Não se atribua ao sucesso baseado no planejamento as razões do fracasso do empirismo. Não se considere como inabalável uma hegemonia que se baseia no gosto popular. Não se atribua exclusivamente a um grupo o privilégio de executar corretamente o que pode ser feito por inúmeros.(...) [ass.] Abdon Torres — Rio de Janeiro.

No comments:

Post a Comment

Followers