Monday, May 27, 2013

1977 - TVE ruindo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 2/9/1977
Autora: Maria Helena Dutra
TIRANDO ÁGUA DA PEDRA
A liberdade crítica tem como uma de suas garantias básicas o acatamento a respostas. Principalmente quando estas são endereçadas diretamente a quem cumpriu seu dever profissional e redigidas em termos educados e publicáveis. Além disso, evidentemente, a confrontação de dois tipos de raciocínio só pode contribuir para o julgamento final do público, o único que realmente interessa e conta. Este dado de contestação é agora fornecido por Fernando Barbosa Lima, um nome de prestígio na televisão carioca, entre outras coisas por ter sido responsável pelo melhor telejornal que já. tivemos, o famoso Jornal de Vanguarda, que nasceu há muitos anos atrás na TV Excelsior, comentando restrições aqui feitas ao excesso de repetições de atrações que, no momento, acontece na Televisão Educativa, canal 2, da qual ele é superintendente de Produção e Programação.

Escreve Fernando: "Li a sua coluna de sexta-feira (19-8) e estou aqui para conversas. Em primeiro lugar, a sua coluna está certa: as repetições na TVE são terríveis. Pior ainda, se a saída é pela porta, o difícil está sendo encontrar esta porta. Como a TVE não pode nem deve viver de enlatados, toda a nossa programação tem de ser produzida em nossos estúdios, com a nossa gente e com o nosso equipamento. Uma televisão comercial tem mais de 70% de sua programação com base nos enlatados - geralmente filmes de qualidade duvidosa e que chegam aqui no Brasil a pretos muito baixos. E a TVE? Nossa produção diária de programas já está numa média de seis horas e meia. Só para se ter uma idéia do nosso esforço: é a mesma média diária - de segunda a sexta - da Rede Globo.

Multiplique seis horas e meia por 30 dias. A nossa verba de produção, por mês, é de Cr$ 300 mil. Só o custo de uma única emissão de 50 minutos do programa Levanta a Poeira daria para fazer quase oito meses de TVE. Agora vem a pergunta: e os filmes nacionais, os filmes das embaixadas e os programas de outras televisões educativas? Um longa metragem nacional, de qualidade regular, nem o pior, nem o melhor, custa perto de 150 mil cruzeiros - metade de toda a nossa verba mensal para apenas uma hora e meia. Das embaixadas, a gente raspa até o osso. Das outras televisões tem o Teatro de Cultura e nada mais.

Daí a repetição e as entrevistas. Estamos tirando água de pedra. Vale? Acho que já se concorda que a TVE já é uma realidade. Representa qualidade e credibilidade. Representa mercado de trabalho, novas oportunidades.

Sua audiência vem crescendo, dia a dia, programa a programa. Hoje ela tem uma grande equipe de profissionais atuando na técnica e na produção. Jogar filmes no ar é fácil - é só apertar um botão e disparar o projetor. Mas será que esse é o caminho da TVE? A nossa saída, sabendo que o espectador fique vendo a TVE por mais de quatro horas seguidas, é repetir programas. A repetição é planejada em forma de módulos que se repetem três vezes por dia".

Seguindo esta opção possível e defendida com vigor mas sem entusiasmo, a TV Educativa vem, desde o dia 15 de agosto, usando os tais módulos. Na segunda-feira é Canal Livre, apresentação dos melhores programas produzidos por todas as emissoras de televisão brasileira, que é transmitida às 18h, 21h30m e 1h da manhã. Na terça é a vez de Os Mágicos, programa de responsabilidade de Araken Távora, geralmente com entrevistas de artistas, que faz o mesmo trajeto. Na quarta-feira é a vez de É Preciso Cantar, de música popular, apresentado por Fernando Lobo e Heloísa Raso, com reportagens de Margarida Autran. Na quinta-feira os três horários são preenchidos por programas especiais. Desde a reformulação, dois deles já foram transmitidos: o primeiro com o bale Catuli Carmina, e o segundo sobre Fernando Lobo. Na sexta, a tríplice coroa é ganha por Agua Viva, também sobre música popular brasileira, realizado por Hermínio Belo de Carvalho. No sábado e domingo não há módulos, mas são repetidos quase todos os programas que a estação apresentou durante a semana, inclusive aqueles já citados acima, que então conhecem a glória da quarta reprise.

Esperamos que a TV Educativa em mais esta tentativa consiga audiência e solução para seus inúmeros problemas. O ceticismo é, porém, bem grande porque esta reformulação não mexe nas suas falhas básicas: falta de dinheiro, excessiva burocratização e ausência e de um plano geral ou mesmo um sentido integrado em sua programação. Desafios que quando começarem mesmo a ser encarados poderão finalmente dar à Televisão Educativa uma razão de ser.

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